Carinho ou Descarinho?

Jamil Moreira Castro, é cardosense, jornalista em Salvador-BA, sócio da Como Comunicação, empresa da área de cultura prestando serviço em assessoria de comunicação e relações públicas.Atende à artistas, (como Bell Marques e Margareth Menezes),hotéis (Whish Hotel da Bahia e Costa do Sauipe), grandes eventos (shows, carnaval, Blocos, camarotes, festivais e congressos), lojas, restaurantes e exposições. No artigo abaixo faz um relato sobre o comportamento de alguns conterrâneos da sua Cardoso Moreira-RJ, onde nasceu e cresceu:                                                                   UMA CIDADE PRECONCEITUOSA QUE SE DISFARÇA NO SLOGAN “CARINHO.                                                             Artigo de Jamil Moreira Castro
 
“Lata da d´água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria”. Cresci ouvindo este clássico da MPB na voz de Elza Soares e vendo as mulheres que carregavam na cabeça a lata com água do Muriaé. O rio também era fonte para arear as panelas e lavar roupas. A cena era de pura pobreza, mas a imagem permanece linda na minha memória! Este é um dos exemplos da cidade que nasci e que cada vez mais não a reconheço. Será que não existem mais essas mulheres? Será agora que o rio Muriaé abastece as torneiras de toda a cidade?
No mundo do Facebook, parece que todos gozam em viver em uma cidade com excelentes salários, empregos sobrando, saneamento em todas as ruas, saúde maravilhosa e educação exemplar? Pera, educação acredito que não pelas postagens xenófobas de cardosenses.
“Mulheres nordestinas têm que continuar carregando lata d´água na cabeça”.
Pois é, fiquei com vergonha de ver esta e outras agressões aos Nordestinos, comentários de que as mulheres dessa região tinham mais que carregar lata d´água na cabeça. Você, meu conterrâneo, não tem vergonha disso? Você que aos domingos desfila pelas ruas de roupa bonita para ir à igreja, não tem vergonha disso?  Você que é professora, não tem vergonha disso? Você que trabalha com cultura, embora ela não viva em você, não tem vergonha disso? Você que se diverte com uma cervejinha na praça contando os dias para chegar à festa da cidade, não tem vergonha disso?
Eu sinto nojo e vergonha!
Mesmo se você não goste do Nordeste, não tem direito de agredir o seu povo. Não tem direito de balançar a bunda com o axé de Claudia Leitte, o forró de Elba, o frevo de Alceu e o samba-reggae do Olodum. Nem pense em tirar férias em nossas praias mornas e cristalinas, pois elas não vão limpar o seu preconceito. Não pense em vir provar da culinária baiana e nordestina, porque ela vai ficar amarga em sua boca. O Nordeste é para quem tem cultura!!!
O Nordeste é lindo! Se você tiver um pouquinho de cultura, pois ela expulsa a burrice das pessoas, vai entender isso! Sou de uma geração de cardosenses que cresceu sem internet e nem todos tinham acesso à faculdade. Mas uma geração que acessava o Nordeste pelas literaturas de seus escritores e poetas, ouvia MPB de qualidade de seus cantores e compositores e assistia belos filmes de seus cineastas. Isso sem falar nos atores que aplaudíamos pela tevê e muitos não saberem que eram nordestinos, pois não tínhamos acesso ao teatro.
Aliás, não morram de inveja, porque a maioria das cidades desta região, principalmente a Bahia, onde moro, tem Centros Culturais e teatro, com grupos atuando, e trabalham muito para preservar a cultura da cidade. E o que temos para preservar em Cardoso?  Será que o povo da cultura pode responder?
A falta de cultura surge em várias tentativas de discursos inteligentes, principalmente sobre política. E o pior são aqueles papagaios e vaquinhas de presépios (aquelas que balançam a cabeça), que repetem o discurso de alguém que acredita saber tudo. A palavra ladrão é a preferida! Será que meus conterrâneos estão cuidando do seu quintal, pois o ladrão pode estar aí do seu lado, enriquecendo e distribuindo laranjas.  Será que não é estranho os opositores da cidade trocarem de lado? Será que o único ladrão, que já foi inocentado, é o único que quer chegar a Brasília? Será que você tem informações de roubos estratosféricos da direita antes do PT assumir?  Será que os governadores do seu estado estão indo para cadeia apenas para tirar férias? Só a cultura expulsa a burrice das pessoas, repito.
Morei na linda ilha de Florianópolis, de onde fugi porque naquela época não havia cultura para consumir. Acredito que não evolui muito. Recebi mensagem de lá sobre várias postagens xenofóbicas pesadas, xingando os Nordestinos. Talvez isso explique por que quando alguém me pergunta sobre a cidade, eu cito que é uma obra de Nelson Rodrigues: “Bonitinha, mas ordinárias”. Aliás, alguém sabe quem é Nelson Rodrigues? Deve ter assistido algum filme ou minissérie na TV, mas não sabe que foram baseados em sua vasta obra. Certamente, aquela menina Cardosense, que tem foto linda com a família, certamente não tem QI suficiente para saber disso. Mas sabe agredir um povo que tem um discurso superior ao seu.
Amo minha cidade, minhas raízes estão fincadas lá! Cardoso sempre teve preconceitos contra negros (o meu pai era e posso afirmar isso), homofobia (também sei disso, embora haja muitos que disfarçam e vivem no armário) e a misoginia (homens que agrediam as mulheres e todos sabiam). Eram velados, mas existiam. Que bom, que com essa onda de moralismo e conservadorismo da direita, isso agora aflora. As pessoas realmente mostram suas caras.  
Hoje, me sinto mais baiano por amar demais esse melhor estado para se viver no país. No domingo à noite, após o resultado das eleições, fique tão orgulhoso que postei esse recado nas mídias sociais:
“Agradeço todos os dias ter escolhido Salvador para viver! Não me vejo de outro lugar!”
Beijos para Sergio Henrique Alemand Motta, Lucia Privatti, Sandra Brito, Vera Marques, Nilo Dias, Sônia Brito, Sandre Antunes, Lucineia Neves, Lucenilda Neves, Eliane Nunes, Luzimar Costa, Elisabeth Nogueira, e toda, quero dizer toda, a minha família por pensar juntos!

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    Nino Bellieny

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