Um curso feminino de armas de fogo acontece neste final de semana. Cinquenta mulheres de Campos realizam baterias de disparos acompanhadas por instrutores profissionais no Clube de Tiro de Cardoso Moreira, e muitas delas o fazem pela primeira vez. O objetivo, de acordo com os organizadores do curso, é capacitar essas mulheres para o emprego de armas em situações de defesa pessoal e também nas competições que ocorrem na região. Em resumo, nas palavras do instrutor Zeca Russiano: “Empoderá-las”. Contudo, as armas de fogo deflagram uma polêmica na opinião pública, e a realidade do aumento de aquisições por parte dos homens e das mulheres no Brasil e em Campos é vista por óticas diferentes.
Um dos principais defensores do maior controle e restrições das armas é o policial federal e pesquisador Roberto Uchôa. Articulista da Folha da Manhã e com um livro publicado sobre o assunto, ele fala que não vê empoderamento nenhum das mulheres que convivem com arma de fogo. Na verdade, enxerga uma realidade oposta: “A equação armas de fogo e violência doméstica tende a fragilizar ainda mais a situação da mulher”, afirma.
Uchôa considera que “adicionar o componente arma de fogo dentro dessa equação tende a agravar ainda mais a situação das mulheres que estão em um relacionamento abusivo”. Ele aponta que pesquisas, como as do Instituto Datafolha, mostram que 75% das mulheres são contra a posse de armas e 78% delas rejeitam as mudanças promovidas pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, durante o seu mandato.
Por fim, Roberto Uchôa defende que existe uma mistura de discursos entre o tiro desportivo e a posse e/ou o porte de armas, agravada pela explosão de registros dos Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs). “As mulheres que participam de cursos como esse geralmente têm relação com homens que já frequentam o ambiente”, destaca.
Do outro lado, o advogado e praticante de tiro prático Felipe Drummond vê com bons olhos cursos como o que acontece hoje e amanhã, que visa inserir cada vez mais as mulheres no esporte e garantir a elas o direito à legitima defesa. Felipe defende a posição do instrutor Zeca:
— Cursos como esse que acontecem na região rebatem os argumentos de que a arma é uma coisa de homem. Se vivemos em uma sociedade em que se procura ter empoderamento feminino, devemos dar à mulher o direito de se defender demaneira apropriada — enfatiza ele.
Segundo Felipe Drummond, as mulheres cada vez mais ocupam seus espaços na polícia, nas Forças Armadas e também no tiro desportivo: “Existem mulheres que estão tendo resultados brilhantes no tiro aqui no Brasil, estão ganhando de homens. Isso mostra a importância de que a realidade da presença feminina no esporte cresça aqui na região e seja cada vez mais incentivada”.
A comerciante, advogada e professora de xadrez Fernanda Fernandes, que participa do curso, diz que se sente, sim, mais empoderada com uma arma. “Nós, mulheres, já somos menos fortes do que os homens biologicamente. Se não tivermos uma ferramenta para equalizar essa força, vamos ser para sempre subservientes em caso de qualquer agressão. Isso tudo sem levar em consideração a diversão e confraternização proporcionadas pelo tiro esportivo”, ressalta Fernanda.
Armas: um remédio contra a violência doméstica?
A mulher ocidental tem mais poder e liberdade do que já experimentou ao longo de toda a história humana. Ela escolhe o emprego que quiser, fica com quem quer ficar e tem todos os direitos legais dos homens. Mas, infelizmente, problemas como feminicídio e violência contra à mulher ainda são recorrentes nas páginas policiais de Campos e todo o país. De acordo com os números do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2021, republicados por Roberto Uchôa, 26,1% dos feminicídios no país foram praticados com armas de fogo, enquanto as facas — vendidas em qualquer supermercado — corresponderam a 55,1% dos casos.
Por isso, na visão do advogado Felipe Drummond, a instrumentalização da defesa feminina, seja de uma agressão interna ou externa, através da arma de fogo, é algo a ser incentivado.
— É uma ideia horrorosa se imaginar uma mulher com uma arma de fogo podendo se defender do seu marido, mas é uma ideia muito pior imaginar que esse marido possa agredi-la com uma arma de fogo, com as mãos ou qualquer outro instrumento — afirma Felipe.
Entretanto, ele enfatiza: “Para que essa defesa seja realizada com sucesso, a mulher precisa ter acesso aos cursos”. Só assim pode se munir “com o conhecimento, com o treinamento e com noção de manuseio de uma arma de fogo, caso tenha no lar”.
A triste realidade de violência contra a mulher, na visão do advogado criminalista, reforça a necessidade de mais cursos como o que é executado por Zeca Russiano neste final de semana.