Campos dos Goytacazes é uma cidade histórica. Já podia ser considerada uma cidade em meados do século XVII. As construções sociais nesses quase 370 anos produziram campistas ilustres que orgulham o município; em todas as expressões. Na arte, Mercedes Baptista é uma das maiores referências. Se viva estivesse, teria 100 anos completos em maio deste ano (veja aqui). Durante os meses de novembro e dezembro o Sesc Copacabana, através do projeto “Ocupação Mercedes Baptista”, trata de manter sua memória e legado presentes.
De origem humilde, Mercedes Baptista nasceu em Campos no dia 20 de maio de 1921. A menina que “sonhava em ser bailarina” foi ainda jovem para o Rio. Lá, começou a ter contato com as artes, entre elas a dança. Em 1948, Mercedes torna-se a primeira bailarina negra a compor o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Nessa mesma década, contribui como colaboradora, bailarina e, depois, coreógrafa do Teatro Experimental do Negro (TEN), buscando a valorização de artistas negros.
A bailarina e coreógrafa campista estudou balé com os renomados Eros Volúsia e Yuco Lindberg, já na Escola de Dança do Theatro Municipal. Fez história por integrar o corpo de baile até então ocupado apenas por bailarinas brancas. Mas não se contentou com o feito. No ano de 1956, Baptista inaugura no Brasil uma companhia de dança com seu nome e consegue projeção nacional e internacional. Com apresentações na América Latina e Europa, o grupo intitulado Ballet Folclórico Mercedes Baptista configurou novos espaços para a cultura negra, através da criação de um estilo que propunha a junção entre as técnicas clássicas do balé, da dança moderna, de danças populares brasileiras e de danças de matrizes africanas.
Mercedes Baptista ocupa o Sesc Copacabana
Falando ao Blog, Paulo Melgaço, professor e pesquisador da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, revelou que haviam “assuntos proibidos” com Mercedes Baptista. “Ela não falava muito do pai, ou de seu filho (Mercedes teve um filho em 1966, morto após contrair tétano neonatal), ela era entregue a sua arte”.
Melgaço é o curador da exposição “Mercedes Baptista: a dama negra da dança”, que fica em cartaz no Sesc Copacabana até o final do mês de dezembro. Em 2007, ele lançou a biografia da bailarina intitulada “Mercedes Baptista: a criação da identidade negra na dança”; mas sentiu que o centenário de nascimento da biografada precisaria de um novo registro. Com previsão de lançamento no próximo dia 3, a obra foi atualizada e receberá o mesmo nome da exposição do Sesc.
— Minha história com Mercedes começou em 2002, aqui no Municipal. No aniversário da escola (de Dança Maria Olenewa, fundada em 1927, a mais antiga instituição brasileira dedicada ao ensino da dança e à formação de bailarinos clássicos) precisávamos escolher alguém para homenagear. Logo me veio o nome de Mercedes Baptista, que cria a dança afro-brasileira, o passo marcado, divulga a dança no exterior e tem uma história muito significativa.
A “Ocupação Mercedes Baptista” foi aberta com a reestreia do espetáculo teatral “Mercedes”, que estreou no Sesc Copacabana em 2016, e depois circulou pelos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. “Criada pelo Grupo EMÚ, a peça faz uma viagem pela vida da artista em uma narrativa que gira em torno da construção da identidade negra na dança brasileira, contada a partir de fatos reais e fictícios da vida da personagem-título”, informou a assessoria de imprensa do Sesc.
Fechado há quase 1 ano e oito meses por conta da pandemia, o espaço foi reaberto no último dia 5 de novembro com o projeto 'Ocupação'. A exposição fotográfica “Mercedes Baptista: a dama negra da dança”, inaugurada no mesmo dia, traz imagens da artista em diferentes épocas da vida.
A vida de Mercedes em Campos
A primeira bailarina negra a compor o corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro nasceu na Campos da década de 1920, filha de João Baptista Ribeiro e da costureira Maria Ignácia da Silva. Foi casada por mais de cinquenta anos com Paulo Krieger, falecido em 2002. Segundo Melgaço, o pai de Mercedes era criador de cavalos, mas sua figura era um daqueles “assuntos proibidos”. Curiosamente, a bailarina usa o sobrenome do pai como identificação artística.
O biógrafo conta que as melhores lembranças de Mercedes em terras goytacá eram relacionadas à “liberdade” que a cidade trazia. “Ela adorava subir em árvores, contava que tinha muita liberdade em Campos”. Melgaço afirmou que ela saiu do município mais velha do que a própria alegava; “por volta de 18, 19 anos”.
O fato é que Campos não oferecia o futuro que Mercedes queria. Ciente que a arte não tem fronteiras, “a menina que sonhava em ser bailarina” ganhou o mundo. Mas o caminho para o sucesso foi difícil. Campos e o Brasil impuseram muitos obstáculos à Mercedes, como o racismo e a desigualdade social, principalmente.
— Relembrarmos a história de Mercedes Baptista é muito importante em um momento de luta antirracista — diz Melgaço — E campos, como seu local de nascimento, deve voltar seu olhar para ela, uma menina negra e pobre que recebeu muitos “nãos” na vida e foi se reinventando. Quantas meninas negas e pobres podem se inspirar na sua história.
Ocupação Mercedes Baptista
Quem visitar o Sesc Copacabana ainda poderá conferir a Videoinstalação ljo, oba assinada pelo diretor e videoartista Thiago Sacramento onde bailarinos se movimentam e criam, através de efeitos visuais, uma imagem luminosa e espectral. Além do projeto artístico “Cartas para Mercedessssssss”, composto por três obras: uma dançada, uma plástica e uma sonora, a partir do dia 12 de novembro, e o Grupo Dembaia, formado por mulheres negras do Rio de Janeiro e se dedica a pesquisas práticas e teóricas, oficinas e apresentações artísticas referentes à cultura tradicional e moderna de países da África do Oeste, como Guiné, Mali e Senegal, no palco dia 23.