Quem imbecilizou o país não foram os filhos dos porteiros; foram os filhos da ditadura
01/05/2021 | 21h44
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“O porteiro do meu prédio, uma vez, virou para mim e falou assim: ‘Seu Paulo, estou muito preocupado. Meu filho passou na universidade privada’. Ué, está triste por quê? ‘Ele tirou zero na prova. Tirou zero em todas as provas e eu recebi um negócio dizendo: parabéns, seu filho tirou...’ Aí tinha um espaço para preencher, colocava ‘zero’. Seu filho tirou zero. E acaba de se endereçar a nossa escola, estamos muito felizes”. Foi assim que o ministro da Economia, Paulo Guedes, introduziu suas críticas ao Fies, programa do governo federal de concessão de financiamento a estudantes de cursos superiores. No caso específico do ministro, é difícil saber se a fala é inconsciente — refletida de uma sociedade de bases escravistas fortes e ainda presentes —, ou tem total consciência do ódio de classes que destila. Ódio evidenciado pela reincidência de frases públicas infelizes. Em fevereiro de 2020, em meio à alta do dólar, Guedes disse, justificando, que até “empregada doméstica estava indo para Disney, uma festa danada”. Preconceito e elitismo enraizados em um país que interrompeu sua história por uma ditadura sangrenta e estúpida.
Após a Segunda Guerra, o mundo vivia uma abertura democrática, e apesar de ainda polarizado em duas grandes potências, EUA e URSS, a primeira conseguiu ampliar sua área de influência econômica, política e ideológica, penetrando não apenas em países latino-americanos como o Brasil, mas também na Europa. A prosperidade econômica norte-americana no pós-guerra trazia um espírito de otimismo e de esperança, o “american way of life”, alicerçado em bens manufaturados e consumismo desenfreado, envolvia as nações ao redor do mundo.
Leia aqui ótimo artigo do Blog Opiniões, de Aluysio Abreu Barbosa: "Entre Getúlio e Juscelino, travestis e generais, Covid do Brasil a Campos"
Nos anos 1950, o Brasil sentia esse otimismo e se abria também. Mudanças no consumo e no comportamento da população que habitava os grandes centros urbanos eram sentidas. A paisagem urbana se modernizava, sustentada por uma política desenvolvimentista. O entusiasmo pela possibilidade de construir algo novo impulsionou vários movimentos no campo artístico. Eram novas formas de pensar e fazer o cinema, o teatro, a música, a literatura. Glauber Rocha e o Cinema Novo eram vanguardas, o rock n’roll de Elvis Presley e Chuck Berry influenciavam, surgiam as radionovelas e a Bossa Nova de João Gilberto, Tom e Vinicius era tocada e cantada no mundo inteiro.
Juscelino Kubitschek, com o Clube da Esquina. Com seu perfil desenvolvimentista fez importantes obras e mudanças. Foi o chamado
Juscelino Kubitschek, com o Clube da Esquina. Com seu perfil desenvolvimentista fez importantes obras e mudanças. Foi o chamado "50 anos em 5". / Reprodução
 
Na política, o Brasil era governado por Juscelino Kubitschek, que com seu perfil desenvolvimentista fez importantes obras e mudanças. Foi o chamado “50 anos em 5”. JK abriu o país às multinacionais, facilitou a entrada de capital estrangeiro, fortaleceu a Petrobras e a indústria viveu um grande crescimento. O país parecia seguir uma direção, os avanços eram evidentes, arte e cultura eram valorizadas e a educação pública começava a se democratizar.
Os filhos de porteiros e de empregadas domésticas poderiam sonhar com empregos decentes e garantia de direitos básicos e poderiam viver em um país que não os matassem por serem “pobres de tão pretos e pretos de tão pobres”, citando Gilberto Gil. E dificilmente seres iletrados e distantes da realidade como Paulo Guedes e Bolsonaro estariam em cargos tão importantes. O problema é que a história não aceita a conjunção subordinativa condicional “se”. E em 1964 ela se impôs, implacável como de costume, e um golpe levou o país ao obscurantismo criminoso do regime militar. E os anos 50 e 60 se tornaram apenas lembranças, sem possibilidade de produzir frutos, mortos por censura e tortura. Ah, se pudessem.
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Hobbit, Hooligan ou Vulcano. Quem é você na democracia?
28/04/2021 | 23h07
A convicção de que, nas democracias, o povo — presente na etimologia da democracia, ou governo do povo (demo + kratia) — tem pouco ou nenhum poder em termos de tomada de decisões. A ideia contida no ato de votar, que é essencialmente democrática, não pode ser a única forma de exercermos a democracia
A democracia é intocável. Como modelo político e social é o que confere mais liberdade, justiça e representatividade entre os regimes tentados. O que nos remete ao estadista inglês Winston Churchill, que imortaliza na Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947, a frase: “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”. Apesar de sua importância, ela vem sendo atacada frontalmente — em todo século passado e, igualmente evidente, no atual. E questionada com argumento. Como faz o cientista político americano Jason Brennan, autor do livro “Contra a Democracia”, lançado em 2016.
Brennan traz uma reflexão necessária quando nos deparamos com governantes que mantém apoios expressivos e obstinados a despeito de se mostrarem totalitários, corruptos, negacionistas, incompetentes e ignorantes. A convicção de que, nas democracias, o povo — presente na etimologia do governo do povo (demo + kratia) — tem pouco ou nenhum poder em termos de tomada de decisões que afetam a coletividade.
A ideia essencialmente democrática contida no ato de votar, não pode ser a única forma de exercermos a democracia. Ela se enfraquece quando a participação se limita a uma escolha simples (em tese) a cada dois anos. “O que dizer da sobrevalorizada participação política quando ela tende a corromper em vez de edificar?” É um dos questionamentos trazidos por Brennan. Talvez a democracia tenha permitido ataques e se enfraquecido por incentivar que os votantes permaneçam ignorantes e irracionais.
Ainda questionando a democracia, o pensador estadunidense nos traz  representações analógicas de três espécies de cidadãos — arquétipos conceituais, baseados em cultura pop: hobbits (remetendo para o universo de J. R. R. Tolkien, escritor do Senhor dos Anéis), hooligans (torcedores fanáticos, trazendo para o mundo desportivo) e vulcanos (espécie humanóide do universo fictício do seriado Star Trek). Os hobbits seriam os “apáticos e ignorantes" sobre política, que se limitam a possuir um conhecimento raso sobre o que é relevante no mundo ou na história. Os hooligans seriam os fanáticos. Espécie muito comum no Brasil de hoje, que se pretende ainda mais polarizado. São autocentrados nas suas posições e ávidos consumidores de informação tendenciosa para confirmar suas ideias ou desprezar quem as discorde. E por fim os vulcanos, que se interessam por política de forma genuína, em bases científicas e com racionalidade. Procuram a imparcialidade com espírito de abertura.
A democracia exige que tenham direito ao voto as três espécies. Hobbits, hooligans e vulcanos compartilham do direito de escolha, garantido, e com mesmo peso. Uma epistocracia (ou governo dos mais sábios <epistême + kratia>) poderia determinar que apenas os vuncanos escolham os representantes de todos. Seria um caminho melhor? Mais justo? Fora das realidades paralelas criadas pelo cinema, as experiências na história de sociedades com essas bases, dividias em castas, estratificadas formalmente, e com rigidez, resultaram em exploração, genocídio e revolta. Talvez Churchill ainda esteja certo. É o pior dos regimes, mas é o que temos. Outro? Pode ser um exceção perigosa.
 
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Crônica de domingo: Vocês precisam ser tolerantes
25/04/2021 | 18h36
Todos os dias quando acordo, uma lembrança teimosa me vem à cabeça. De quando eu acordava lá na fazenda. Levantava cedo, por volta de quatro e meia; cinco horas já estava na cozinha. Era uma mesa de madeira, meio antiga, mas muito bonita. Minha mãe usava um avental cor de camurça, uma saia abaixo do joelho e cabelos presos por um lenço. O cheiro do café ocupava o lugar da conversa; ela estava concentrada nos seus afazeres. Eu sentava na cabeceira, cotovelos na mesa, e admiração pela destreza e dedicação amorosa recebida. Esperava o sinal. Minha mãe apertava os dedos no pano de prato, e levava à mesa uma xícara quente e dois pães com manteiga. Às vezes com queijo, feito por ela mesma. Dava-me um beijo na testa quando estava menos aflita. Sempre me perguntava se as coisas estavam prontas para a escola. Dizia que sim, estavam, mas sempre faltava algum detalhe que ia ajeitar depois, sem que ela precisasse se preocupar. Saía por volta de seis da manhã, meu pai já estava na lida com os animais e pouco o via pela manhã. A casa foi ficando com a gente depois que o dono das terras morreu.
A São Paulo que me veio, ainda adolescente, era feia, cinzenta, uma garoa romantizada que nunca senti. Claro era o oposto da fazenda, mas não era apenas isso. Eu estava diferente ali. A gente saiu achando que seria melhor, que oportunidades apareceriam — não foi bem assim. Eles não resistiram. Meu pai foi o primeiro a querer voltar, estava deprimido e não se adaptava, de jeito algum. Minha mãe ainda insistia. Não sei se era teimosia, resistência ou negação. Mas, logo voltaram. Eu fiquei. Tinha conseguido um emprego no supermercado àquela altura, e estava quase deixando o almoxarifado para ir para o caixa.
Com a pandemia, o supermercado teve que demitir. Quase 15 pessoas foram dispensadas. Outras três pediram as contas. Eu pude permanecer, mas minha promoção sonhada ficou para depois. A ameaça de contrair o vírus era uma constante no almoxarifado. Recebíamos e despachávamos produtos a todo instante. Sabe-se lá de onde vinham e como eram manipulados. Todo mundo usava máscara, mesmo que alguns a usavam no queixo.
— Acho que já peguei esse troço — falava comigo mesmo. O maior risco nem era ali no trabalho, e sim até chegar lá. Os ônibus em Heliópolis continuavam lotados, e eram dois até o serviço. Quando tinha a sorte de ir sentado, fechava meus olhos. Inevitavelmente lembrava aquele tempo. Ah, que saudade! Um dia eu volto, quem sabe? Dia desses, sentado na janela — sorte dupla, vi um outdoor ao abrir os olhos. Nele tinha um rapaz negro, de óculos de haste amadeirada, terno bem cortado, um sorriso artificialmente branco e uma frase ao lado. “Seja um empreendedor”. A noção de empreendedorismo e de meritocracia é muito difundida em São Paulo. Deve ser porque alguns progrediram, venceram na vida. Embora sejam 12 milhões de pessoas vivendo aqui na capital. Não sei se tem espaço para todo mundo entrar nessa de empreendedor. Talvez não seja possível e acho que a ideia seja essa mesmo.
Hoje é domingo, amanhã, ônibus de novo e máscaras no queixo. Ainda sonho com a mãe e aquela fumaça com cheiro de grão queimado. Não tenho conseguido juntar um dinheiro para voltar lá na fazenda. Para colocar crédito no celular está difícil. Mas tenho que agradecer, até emprego ainda tenho e não passo fome. Tem um hospital do SUS aqui perto, para quando eu pegar o vírus. Com essa falta de leito que não sei. Mas, preciso lembrar da tolerância. Preciso ser tolerante. Ouvi isso esses dias quando fui fazer uma entrega na Vila Mariana e meu colega reclamou que a vida andava difícil. “Vocês precisam ser tolerantes”. Naquele dia, antes de entrar na Fiorino, já com a mão na porta, olhei para a casa do senhor que pediu para a gente ser mais compreensivo. "Vocês" que ele disse. Mas não parecia alguém que passasse dificuldades. Deve ter seus méritos. Disseram que ela era empreendedor.


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A CPI do Genocídio
20/04/2021 | 13h40
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“Temos uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga pelo mundo todo". Essa foi a posição do presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, no ano passado, quando o mundo já estava em alerta total e tomando as providências para se precaver da pandemia que nos assola. O Brasil, no seu 4º ministro da Saúde, permitiu 375 mil mortes (números de hoje, 20), muitas delas evitáveis, muitas delas sob tortura — asfixiadas ou amarradas em uma cama de hospital, sem analgésico ou sedativo.
Enquanto os países procuravam vacinas para comprar, cientes de ser a única forma de proteção efetiva contra o Covid-19, o Brasil rejeitava 70 milhões de doses de vacina, não assinando contrato com a farmacêutica Pfizer, em agosto de 2020, segundo apuração da Folha de S.Paulo. A alegação do governo foi que os termos do contrato isentavam a fabricante do imunizante dos possíveis efeitos colaterais. O ministro da Saúde à época, o General da ativa Pazuello, disse que acompanhou a “primeira reunião” com a Pfizer, e foi “deixando (de lado)” por serem colocações “muito duras”. Foi quando Bolsonaro disse que as pessoas poderiam se transformar em um “jacaré” ao se vacinarem.
Meses depois, foi firmado pelo Governo Federal um contrato com a Oxford/AstraZeneca, nos mesmos termos, sem qualquer questionamento. Termos de contrato podem ser questionados, a indústria farmacêutica tem seus interesses, o que não pode ser aceito é que imunizantes sejam ignorados em uma pandemia tão grave.
Se as vacinas não interessavam o governo, remédios sem comprovação científica enchiam seus olhos — e o bolso de produtores de cloroquina. O dinheiro para financiar a produção saiu da Medida Provisória 940, editada em abril do ano passado pelo presidente. A MP abriu crédito extra de 9,4 bilhões de reais, onde, ainda segundo a Folha de S.Paulo, R$ 457 milhões foram para a Fiocruz e R$ 70 milhões para a produção do Tamiflu e da cloroquina. O Ministério da Saúde nega, alegando que os medicamentos foram usados para o combate à malária. Bolsonaro disse na ocasião que “a cloroquina pode e deve ser usada desde o início”, e segue a fala, reconhecendo sua ineficácia: “apesar de saberem que não tem uma confirmação científica da sua eficácia”.
Esses e outros pontos devem ser esclarecidos na chamada “CPI da Covid”, Comissão aceita pelo Senado Federal depois da decisão do Supremo Tribunal Federal, na semana passada, que obrigou a Câmara Alta brasileira cumprir a Constituição e iniciar os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito.
É preciso responsabilizar governantes que — por omissão ou ação — colocaram o Brasil como o pior exemplo do mundo no combate à pandemia. Principalmente quando falta o básico, como oxigênio, analgésicos e sedativos, fazendo com que pessoas morram sob as piores condições possíveis. Presidente, governadores, prefeitos e ministros devem responder com a rigidez máxima, implacavelmente e punidos exemplarmente. Assim como deve responder o Exército Brasileiro, que permitiu que um de seus generais da ativa fosse um dos principais partícipes do caos genocida instalado. Quando finalmente saiu do governo, Pazuello acusou personagens ocultos e deixou a entender que (mais) crimes ocorreram: “a liderança política que nós temos hoje que nos mandou uma relação para a gente atender, e nós não atendemos” “A operação de grana com fins políticos acontece aqui”.
A CPI da Covid deveria se chamar CPI do Genocídio. Não há outro nome para o que acontece.





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Bolsonaro não é a causa, é a consequência - profundezas de um Brasil profundo
15/04/2021 | 12h59
As desigualdades e perversidades brasileiras, essencialmente relacionadas com a escravidão e com o extermínio humano-cultural indígena, mas também com acontecimentos da história recente. Brasília, 19-01-2018. Foto: Sergio Lima/Poder 360.
As desigualdades e perversidades brasileiras, essencialmente relacionadas com a escravidão e com o extermínio humano-cultural indígena, mas também com acontecimentos da história recente. Brasília, 19-01-2018. Foto: Sergio Lima/Poder 360.
 
Não podemos atribuir ao Bolsonaro todas as mazelas visíveis do país — quem dirá as invisíveis. Bolsonaro não é a causa de um país que faz manifestação contra vacina. É a consequência. É preciso lembrar que as eleições de 2018 levaram milhões de pessoas a votar em um candidato que nunca escondeu o que era. Bolsonaro é — e nunca deixou de ser — alguém incapaz de viver ao abrigo de regras civilizatórias.
Se disserem que o voto em Bolsonaro foi por desconhecimento, a poucos convencem. Quando o então deputado disse que não estupraria uma mulher, apenas por ela não merecer (2003) foi dado ampla divulgação. Quando lamentou que a ditadura tivesse apenas torturado muitas pessoas, sem provocar a morte (2016), foi exposto. Ao comparar um “afrodescendente” com bovinos e suínos (2017), dizendo que os pesava em arrobas, todos os jornais noticiaram. Quando disse que seria incapaz de amar o próprio filho caso fosse gay (2011), ou que teria dado uma “fraquejada” ao ter uma filha mulher (2017), foi publicado. E todos tiveram conhecimento quando o agora presidente enalteceu a memória de um torturador de mulheres e crianças, no Congresso Nacional (2016). Não foi por desconhecimento. Sabia-se quem se estava conduzindo à presidência.
As senhoras de classe média alta que levantaram placas dizendo “não é pandemia, é comunismo”, em Copacabana no último domingo (11), são o reflexo não-invertido em um espelho social de baixíssimo exercício democrático e falência educacional e cultural. O Brasil é um país construído através de golpes. O grito “independência ou morte!” às margens do Rio Ipiranga (que jamais ocorreu, na verdade), em 1822, foi resultado de um movimento sem participação popular, para o Brasil continuasse dependente e escravista — 1920, a revolução de 30, o Estado Novo em 37 e Vargas em 45 são todos golpes e autogolpes concebidos no seio da elite financeira e das forças armadas. Assim como 64, que impôs ao país um regime ditatorial por mais de 21 anos. Apesar de vivermos o mais longo período democrático de nossa República, a sociedade brasileira ainda é estruturada em bases preconceituosas, violentas e autoritárias.
  • "Marcha da Família Cristã", na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em 2021.

  •  Manifestações em Copacabana - anticomunismo anacrônico, relacionando com a pandemia do coronavírus. Delírio coletivo.

    Manifestações em Copacabana - anticomunismo anacrônico, relacionando com a pandemia do coronavírus. Delírio coletivo.

  • "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" foi o nome dado a uma série de manifestações públicas ocorridas em 1964 no Brasil, em resposta ao que foi considerado, por militares e setores conservadores da sociedade, uma ameaça comunista.

  • "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" foi o nome dado a uma série de manifestações públicas ocorridas em 1964 no Brasil, em resposta ao que foi considerado, por militares e setores conservadores da sociedade, uma ameaça comunista.

Embora estejam expostas nos nossos tecidos sociais as desigualdades e perversidades, sendo essencialmente relacionadas com a escravidão e com o extermínio humano-cultural indígena, a proposta aqui é fazer um recorte, temático e temporal, que tem início na Era Vargas. O Brasil atravessava nos anos 1930 um período que marcaria sua história e as futuras relações de poder. Os “senhores do café” declinavam e ascendia uma burguesia industrial. Crescia também o proletariado urbano. Diante do aumento das complexidades e da vida urbana, o Estado tenta se firmar e definir sua atuação.
E eis o ponto que se mostra determinante para entender o momento atual do país: a ameaça comunista. Duas potencias antagônicas venceram a Segunda Guerra. Estados Unidos e União Soviética, após derrotar o nazismo em 1945, passaram de aliados situacionais a inimigos mortais. Mais que apenas dois países, duas ideologias estavam em jogo. Anos mais tarde, a queda do Muro de Berlim marcava o fim do comunismo e o triunfo do capitalismo. Embora existam alguns países considerados comunistas, a ideologia arrefeceu consideravelmente. No Brasil, o comunismo teve sua expressão máxima na Aliança Libertadora Nacional (ALN), liderada por Luís Carlos Prestes. A ALN inicia-se como um grupo político de orientação comunista, convertendo-se em um movimento que buscava tomar o poder pela via revolucionária. Do outro lado, se posicionava o grupo de Plínio Salgado, a Ação Integralista Brasileira (AIB), de extrema-direita, com inspiração no fascismo italiano, expressando valores nacionalistas e preconceituosos.
Em ‘Terras Brasilis’, o comunismo nunca teve força, muito menos institucionalidade. Na contemporaneidade, são praticamente nulas as manifestações comunistas. Porém, Bolsonaro, como todo líder populista, principalmente os em declínio, se apresenta como o responsável por cumprir as vontades do povo na luta contra um inimigo em comum da sociedade, e usa o comunismo na sua retórica como esse “mal a ser combatido”. O problema é que além de anacrônico, mesmo que inexistam grupos político de expressão no Brasil que sejam comunistas — mesmo os autodeclarados pouco o são, de fato. Por que, então, a narrativa consegue manter-se de pé entre os que apoiam o presidente?
É preciso entender a gênese do bolsonarismo.
Considerada um das escolas mais rigorosas de formação militar, a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende, formou não apenas o presidente e seu vice, como alguns de seus ministros, como Tarcísio Gomes, da Infraestrutura e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional. Apesar de Bolsonaro estar distante da caserna há mais de 30 anos, sua atuação sempre foi intimamente ligada à defesa de classe das Forças Armadas. A insistência bolsonarista ao impor sua narrativa combatendo um inimigo que não existe, demonstra que há arcaísmo na formação militar, onde generais de pijamas, de óbvia influencia na ativa, ainda estão com a cabeça enfiada no mundo bipolar da Guerra Fria, fabricando uma oficialidade que procura comunistas debaixo da cama.
Esse histórico traz parte da compreensão de como funciona a estrutura da cúpula política do governo Bolsonaro, e de como o militarismo confunde-se com o plano de poder em curso. Mas, ainda ficam lacunas a preencher quando se pretende compreender um anticomunismo presente também entre os civis que seguem o “mito”. É possível se pensar em como o péssimo histórico das experiências comunistas no mundo deixam marcas no imaginário popular. As democracias liberais produziram desigualdade e miséria, mas não se comparam aos regimes ditatoriais produzidos pelo comunismo — assim como pela extrema-direita, que os nazistas personificaram. Porém, teriam os bolsonaristas — de maioria iletrada e ponto focal de notícias sobre medicamentos sem comprovação científica e presença de nanochips nos líquidos das vacinas —, conhecimento histórico suficiente? Uma negativa parece ser a resposta mais factível. O mais razoável é pensar que a ameaça comunista é uma fábula em embala adultos, emocionalmente imaturos e intelectualmente limitados, que acreditam no “homem do saco”.
A justificativa mais provável está no ‘Brasil profundo’. A história pessoal do presidente se confunde com boa parte de seus apoiadores. Bolsonaro nasceu no interior paulista, família de imigrantes italianos, alijada da classe média, que não prosperou social, econômica tampouco culturalmente. Sentiam-se acima de grupos historicamente relegados à exclusão. Negros, índios, homossexuais e pessoas em vulnerabilidade extrema. O que explica a necessidade de humilhar, torturar e até matar. Indivíduos frustrados que sempre se sentiram diminuídos. É possível perceber que as Polícias e as Forças Armadas se tornaram caminhos naturais para extravasar essas necessidades, mas as frustrações são exercidas cotidianamente, evidenciadas nas críticas atuais à ciência, cultura, serviço público e universidades.
Os governos do PT — que merecem inúmeras críticas — produziram inegáveis inclusões sociais históricas (pouco trouxeram da real cidadania e pouco promoveram de reais mobilidades na estratificação social, mas esta é uma outra discussão). E isso causou ódio. Perfeitamente compreensível em um país com origens tão preconceituosas e violentas. Brasileiros ‘pretos de tão pobres e pobres de tão pretos’, para citar Gilberto Gil, incomodaram quando ocuparam espaços. Empregadas domésticas em aeroportos irritaram mais do que pudemos supor. Por óbvio, índices menores de desigualdades não são conquistas petistas, apenas. O plano real, capitaneado pelo PSDB, também produziu condições mais justas. Foi resultado de uma construção histórica, que sempre carregam fatores que não cabem em uma narrativa apenas. Assim como acontece nas vivências que nos trouxeram a esse atual estado de coisas.
  • O nazismo recebeu forte apoio popular na Alemanha. Com um discursos nacionalista e exaltando as injustiças que o país sofreu, Hitler recebeu carta branca para cometer atrocidades.

    O nazismo recebeu forte apoio popular na Alemanha. Com um discursos nacionalista e exaltando as injustiças que o país sofreu, Hitler recebeu carta branca para cometer atrocidades.

  • "Marcha da Família Cristã", na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em 2021.

  • O nazismo recebeu forte apoio popular na Alemanha. Com um discursos nacionalista e exaltando as injustiças que o país sofreu, Hitler recebeu carta branca para cometer atrocidades.

    O nazismo recebeu forte apoio popular na Alemanha. Com um discursos nacionalista e exaltando as injustiças que o país sofreu, Hitler recebeu carta branca para cometer atrocidades.

Caso não caiamos em um regime totalitário, como nos exemplos “comunistas” da Rússia e da China, a alternância do poder acontecerá, cedo ou tarde, e Bolsonaro fará parte do passado, respondendo por seus crimes. Mas, passarão as concessões morais feitas por milhões de brasileiros para apoiá-lo e segui-lo cegamente, uma vez que não se pode alegar desconhecimento das atrocidades de antes e depois das eleições? Busquemos como exemplo a Alemanha nazista, que deixou feridas abertas até a atualidade, para o mundo e para os alemães. Embora Bolsonaro, personificando mais uma vez seu personagem de vida, tenha ficado na dúvida se seria Hitler de direita ou de esquerda (2019), o Führer alemão está caracterizado pela história como sendo de extrema-direita. Stálin, líder soviético, também é assinalado como extremista, mas do “outro lado”, preparou as bases para enterrar de vez o comunismo. A questão não é posicionamento ideológico, o que deve ser combatido é qualquer extremo, seja qual coloração vista.
A democracia venceu na Segunda Guerra. Vencerá a guerra de narrativas no Brasil? Talvez, quem ainda tenha respostas a dar sobre o Brasil do passado e do futuro, vista uniforme verde-oliva. Quando vamos nos livrar dessa dependência funesta, de sucessivos golpes, do delírio anticomunista e quando as Forças Armadas deixarão definitivamente a política, como determinam as democracias modernas? Difícil prever, mas quando o sonho do oprimido deixar de ser tornar-se o opressor, e a educação, enfim, cumpra seu papel libertador, teremos melhores perspectivas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Os 100 primeiros dias da nova gestão cultural de Campos - Quais são as reais prioridades?
10/04/2021 | 23h52
Interior do Palácio da Cultura
Interior do Palácio da Cultura / PMCG
Campos tem pouco o que comemorar nos 100 primeiros dias do governo Wladimir Garotinho (PSD), completos hoje (10). Atravessamos a “pior crise sanitária de nossa época”, como definiu, com propriedade, a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que obriga direcionar os esforços de todos — governo e sociedade civil — para salvar vidas. Porém, há caminhos e espaços para manter serviços funcionando. A cultura foi uma das áreas mais afetadas pela pandemia, o que provocou a elevação da criatividade e dedicação de quem sempre enfrentou desafios para fazer o grande público entender a sua importância. Em Campos, ela continua restrita às bolhas, e em últimos planos.
Uma análise justa, a qualquer governo, deve levar em consideração o seu momento histórico. O competente corpo técnico escolhido por Wladimir vem contornando (ou tentando contornar) os problemas (arrastados há tempos) na saúde pública campista, sob o comando do vice-prefeito, Frederico Paes, reconhecido (merecidamente) pela eficiência em gestão hospitalar. O prefeito tem tomado decisões responsáveis no enfrentamento a pandemia, apesar da pressão em contrário, de gente que coloca os lucros acima dos riscos sanitários. Até o momento, se mostra como uma gestão corajosa nesse quesito. Existem gargalos graves, principalmente ligados ao funcionalismo e a infraestrutura (confira matéria da Folha sobre o assunto aqui). Mas, a cidade continua extremamente mal cuidada, esburacada e sem atrativos, o que pode esperar mais um pouco, já que os campistas sacolejam nesses caminhos tortuosos, passivamente, por anos.
A justificativa de quem é cobrado ou cobrada por ineficiência na área cultural é a mesma, invariavelmente: “não temos dinheiro”. Porém, ela não se mantém de pé quando se observa as boas práticas e a quantidade de recursos disponíveis, através de leis de incentivo à cultura. Como a Lei Aldir Blanc (confira matéria da Folha aqui), criada no ano passado para ajudar profissionais do setor cultural durante a pandemia da Covid-19, que tem previsão de distribuir R$ 3 bilhões em ações emergenciais.
Cultura em Campos em último plano - há tempo
Campos iniciou ainda na gestão passada, o cadastramento de beneficiários da Lei Aldir Blanc, ainda que com diversas dificuldades, inclusive equipamentos culturais sem energia elétrica por falta de pagamento pela prefeitura (confira aqui). A gestão da cultura no município é feita pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), presidida hoje pela ex-vereadora Auxiliadora Freitas, historicamente ligada ao grupo garotista. Como um dos primeiros atos de sua gestão, nomeia a professora Kátia Macabu, fundadora do Grupo Nós do Teatro e presidente do Fórum Regional de Cultura. A ida de Kátia para a Fundação promove o principal ganho nesses 100 primeiros dias: a aproximação da sociedade civil e a abertura de diálogo, evidenciado em diversos encontros virtuais capitaneados pela FCJOL, e na última Conferência Municipal de Cultura, onde foram eleitos novos conselheiros e o presidente Marcelo Sampaio — conhecido agente e agitador cultural da cidade —, passa o bastão do Conselho à Auxiliadora, como manda o regimento (confira reportagem da Prefeitura aqui).
É preciso dizer que o enorme desafio na cultura em Campos exige mais, e deveriam ser visíveis as atitudes e os movimentos que trariam caminhos mais efetivos e mais arrojados. Perdeu-se tempo precioso na demora em nomear diretorias em equipamentos importantes. A estrutura funcional foi alterada e foram criadas instabilidades desnecessárias. Apesar da decisão justa e acertada em manter as gestoras do Museu Histórico e Arquivo Público, Graziela Escocard e Rafaela Machado, respectivamente — ambas prestigiadas em suas posições, que sempre colocam o interesse público e histórico de suas instituições acima de questões pessoais —, outros integrantes da FCJOL apresentaram pouco de projetos e ações à população campista.
Auxiliadora assume a Fundação com um grave problema já em andamento. O Museu Olavo Cardoso — importante equipamento cultural que custodiava acervos essenciais para a história de Campos — foi arrombado e teve itens subtraídos (confira aqui). Apesar da promessa de solução e de levantamento do acervo (antes e depois do roubo), da então recém-empossada presidente da Fundação, nada de concreto foi apresentado e o museu continua em situação precária.
Para além da zeladoria iniciada no Teatro Trianon, pouco das prioridades reais da atual gestão puderam ser percebidas nesses 100 primeiros dias. Embora se reconheça que houveram grandes esforços em visitar a totalidade dos equipamentos e de levantar as dificuldades encontradas, e das articulações com a Secretaria de Obras, para futuras intervenções (confira aqui), as emergências continuam com as luzes vermelhas giratórias e permanecem soando alarmes estridentes sobre os olhos e ouvidos de todos que se importam com a história e cultura em Campos.
O Solar dos Airizes agoniza, o Museu Olavo Cardoso apodrece, o centro histórico padece — demonstrado na situação absurda do belíssimo prédio que abriga a quase bicentenária Lyra de Apollo —, o Solar da Baronesa é esquecido — apesar de sua enorme importância para Campos, desde o século XIX, também com acervo e elementos constantemente subtraídos —, a Biblioteca Nilo Peçanha segue abandonada, e tantos outros crimes que nos fazem entender como deixamos um Teatro Trianon (o antigo e esplêndido) ser destruído para se transformar em uma agência bancária.
A cultura e o patrimônio não podem esperar
Existem urgências e elas estão sendo tratadas sem a devida definição do que é prioridade para a cultura em Campos. Equipes estão sendo ao menos treinadas para construir alternativas de captação de recursos estaduais e federais para salvar nossos patrimônios materiais? Estão sendo criadas alternativas de sobrevivência das manifestações culturais regionais? Estão sendo pensados arranjos produtivos locais para sustento de quem se dedica a manter vivas nossas tradições? A baixada campista é objeto de projetos para regates históricos necessários? Está sendo pensada alguma parceria com a Câmara de Vereadores para aprovação de itens orçamentários fundamentais à cultura e para uso daquele espaço, futuramente, como palco de ações e para receber alunos da rede municipal? Estão sendo pensados usos futuros de espaços públicos como Jardim do Liceu e Jardim São Benedito, para realização de eventos culturais como forma de reerguer agentes e fazedores de cultura? Algum conjunto escultórico, respeitoso das tradições e que envolva o Rio Paraíba, está sendo pensado para substituir o falecido “índio do trevo” (saiba onde está a estátua, como saiu e por quê, aqui)?
Perguntas que devem ser respondidas nos próximos 1260 dias, mas que indicativos poderiam ser visíveis nesses 100 primeiros. O índio caído, possivelmente já enterrado e que pouco representava as tribos originárias de nossa região, deixa o trevo da entrada da cidade órfão. No último dia 28 de março, data que marca o “aniversário da cidade”, foi inaugurada por lá uma placa dizendo “Eu amo Campos”. De gosto estético duvidoso, teria a passado a decisão de sua instalação pela Fundação Cultural?
Sem políticas públicas culturais de qualidade, continuaremos amando Campos apenas em dizeres de placas cafonas. Última pergunta: quando nasceu Campos dos Goytacazes?
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Deus acima de todos, lucro acima de tudo - o jantar de Bolsonaro e a Lista de Schindler
09/04/2021 | 13h24
 FOTO: ISAC NÓBREGA/PR
FOTO: ISAC NÓBREGA/PR
“Se a gente conseguir isso (aumentar a vacinação), vamos resolver o problema, meu interesse é único e exclusivo vacinar o último brasileiro o mais rápido possível; sabe por quê? O cara fica doente, não vai trabalhar, você precisa contratar outro, o que estamos perdendo com isso é incrível”.
Essa frase foi dita por Washington Cinel, empresário bilionário fundador da Gocil, uma das maiores companhias de segurança privada do Brasil. Cinel foi o anfitrião de um jantar com o presidente Bolsonaro e 25 empresários em São Paulo, na última quarta-feira. No seu discurso, antes do rega-bofe, Bolsonaro, que não usava máscara, falou pouco de vacinas, focando nas críticas ao lockdown e aos governadores. Os empresários aplaudiram o presidente por duas vezes no jantar.
É preciso repetir aqui o que disse o anfitrião, Washington Cinel: “você precisa contratar outro (trabalhador que morre de covid-19), o que estamos perdendo com isso é incrível”.
Mesmo sendo uma fala isolada, reflete muito da ideia do empresariado brasileiro. A preocupação não é com vidas humanas — nunca foi. O pavor é sobre a possível diminuição de lucros. No final do mês passado, cerca de 200 economistas, banqueiros, empresários e ex-autoridades do setor público assinaram uma carta aberta com críticas à atuação do governo Bolsonaro na pandemia. Cobraram mais vacinas, máscaras gratuitas e medidas de distanciamento social. A inciativa é excelente, se fosse empreendida (para usar um termo do setor) antes de atingirmos a marca fúnebre de 300 mil mortes. O anacronismo é conivente.
Deus acima de todos, lucros acima de tudo
"A lista de Schindler", filme de 1993 foi inspirado em fatos reais. Na trama, o personagem Oskar Schindler tinha uma fábrica que produzia panelas exclusivamente para o Exército alemão. Schindler contratava judeus porque a mão de obra era mais barata. Visando aumentar seus lucros e usando seu prestígio no partido nazista, ele escravizava pessoas que depois seriam assassinadas em câmaras de gás. Inclusive mulheres e crianças. O diretor Steven Spielberg relatou as filmagens nas câmaras como “o dia mais traumático” da sua vida. As atrizes, algumas delas judias polonesas que "não estavam atuando", mas "experimentaram" o horror, sofreram crise de ansiedade e ficaram dias sem filmar.
A obra considerada por muitos como a melhor e mais importante de todos os tempos, escancara uma realidade nefasta da Segunda Guerra mundial: muitos lucraram com o extermínio em massa de pessoas. O holocausto, a “solução final” do nazismo, assassinou mais de seis milhões de pessoas, que foram fuziladas, morriam de fome, pelo trabalho escravo ou asfixiadas por gás venenoso. Os cofres de muitas empresas eram engordados enquanto crianças seguiam em fila indiana para a morte.
Em 2021, a pandemia do coronavírus já matou 2,9 milhões de pessoas no mundo. Segundo a Forbes, “apesar da pandemia, foi um ano recorde para os mais ricos do mundo, com um aumento de US$ 5 trilhões (ou 28 trilhões de reais) em riqueza e um número sem precedentes de novos bilionários”. O número de brasileiros bilionários cresceu de 45, em 2020, para 65 agora.
O mundo pós-segunda guerra decidiu por mais humanidade. Países estabeleceram regras universais de direitos humanos, arte e cultura foram valorizadas, acordos globais de defesa do meio ambiente e de diminuição de desigualdade foram estabelecidos. O mundo evoluiu enormemente em tempo recorde. Na ficção baseada em fatos reais, Oskar Schindler tomou consciência do absurdo e usou toda sua fortuna para salvar 1.100 judeus da morte. Estariam dispostos novos bilionários brasileiros como Washington Cinel a algo parecido? A resposta óbvia questiona nossa evolução.
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Manda quem pode, obedece quem não tem o mínimo de juízo
06/04/2021 | 23h04
Fellipe Sampaio/SCO/STF
Neste sábado (3), o ministro do STF que Bolsonaro escolheu (o presidente da República tem o poder de indicar ministros do Supremo Tribunal Federal, segundo a Constituição) já mostrou o que foi fazer lá. Em uma canetada individual, Kassio Nunes Marques concede uma liminar que permite a realização de cultos e missas presenciais em todo o país, durante a pandemia. A decisão atende pedido da Associação Nacional dos Juristas Evangélicos (Anajure).
O ditador romano Júlio César divorciou-se de sua segunda esposa, Pompéia, no ano de 63 a.C., fato que deu origem a um famoso provérbio: "A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta". Se a decisão de Nunes Marques não foi unicamente para agradar uma das principais bases políticas de Bolsonaro — os evangélicos —, ela pareceu assim. Bastante. E esse não foi seu único problema.
Colocando a toga a serviço dos absurdos negacionistas, o novato do Supremo reconhece, na própria decisão, que a Anajure não tem legitimidade para propor a ação. “(...) Em 17/02/2021, este Tribunal considerou que a ora autora não seria parte legítima”. Depois de justificar isso com teses insustentáveis, reconhece ainda que o pleno do STF já decidiu sobre a mesma questão, de forma contrária a que ele agora, monocraticamente, concorda. Como se não bastasse, Nunes Marques se supera mais adiante. Cita julgado americano colocando ainda mais em dúvida sua capacidade jurídica — e de discernimento. Diz a liminar: “a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou legítima a restrição de público em cultos religiosos”. Pouco se viu de mais subserviente e estapafúrdio no Supremo.
Ultrapassamos hoje no Brasil a nefasta marca de 4.000 mortes em um dia pelo Covid-19. Decisões de flexibilizar aglomerações, neste momento, devem ser encaradas com realmente são: genocidas. Como controlar todos os templos religiosos no Brasil, para que cumpram medidas sanitárias e respeitem os limites máximos de lotação? O real motivo para impor que fiéis exerçam sua fé participando de cultos e missas, presencialmente, tem motivos nobres e religiosos ou tem relação com lucros de venda de produtos religiosos e com o recebimento de doações?
Nunes Marques começou pecando em seu ofício. Embora a religião, qualquer que ela seja, se mostre essencial e cumpra um papel fundamental para que possamos superar a pior crise sanitária de nossa época, ela não é exclusivamente vivida em templos. Todas as religiões pregam a defesa da vida. Não o contrário. Estaria o ministro a serviço de falsos messias e mercadores da fé, ou estaria atendendo a interesses políticos de quem o escolheu para estar onde está? Se estiver cumprindo ordens, não tem juízo algum.
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A vaidade do PT pode criar um segundo turno democrático em 2022?
01/04/2021 | 23h19
Na noite desta quinta-feira, o ex-presidente Lula concedeu uma entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo, e começou dizendo não existir “pergunta proibida” ali. Reinaldo foi um crítico ferrenho dos governos do PT e mudou o tom quando reconheceu que não havia provas na condenação que levou o líder petista à prisão e o retirou da disputa em 2018. Nisso, está coberto de razão, assim como está nas críticas embasadas que faz a operação Lava Jato — hoje reconhecidamente parcial. Lula, demonstrando certo nervosismo inabitual, e menos charme e carisma que de costume, se colocou na posição que parece querer jogar até 2022: única opção para derrotar Bolsonaro.
A história do PT tanto confirma essa tese, quanto a nega. É o partido de viés progressista mais importante do país, tem serviços prestados para apresentar e inegavelmente defende os pilares da democracia. Mas enfrenta um antipetismo forte, evidenciado no resultado das últimas eleições, carregado desde os escândalos de corrupção e do desastre econômico dos governos Dilma. As pesquisas demonstram que, hoje, Lula venceria Bolsonaro no segundo turno — mas também demonstram ampla rejeição.
Lula segue dando entrevistas de pé, para demonstrar que está pronto para o jogo, ainda mais carismático com a idade (pouco demonstrada na entrevista de hoje), com uma oratória medida e retórica usual —repetindo “adevogados” (sic) para ganhar simpatia, fazendo analogias com relacionamentos pessoais e insistindo na ideia visual e emotiva que o pobre voltará a comprar picanha para o churrasco, com ele no poder —, e segue apostando na hegemonia petista na esquerda. Na última quarta, políticos de diferentes correntes ideológicas assinaram um “manifesto pela consciência democrática”. Lula ficou de fora, alegando que não teria sido convidado. Porém, na entrevista de hoje deixa um recado: “se for preciso chegar ao centro, nós vamos”.
Capacidade de convencimento e de negociação são características visíveis no ex-presidente Lula. Mas ele teima em colocar candidatos e partidos de esquerda (e de centro) em uma posição de subalternidade. Disse na mesma entrevista, dando um sorriso orgulhoso, que o real motivo do impeachment de Dilma teria sido o “risco do PT governar o país durante vinte e quatro anos”. Reconhece alguns “equívocos”, mas se apega na (evidente) injustiça que sofreu para impor sua narrativa e deixar o PT como líder inatingível de todo campo progressista. 
Como bom jornalista que é, Reinaldo Azevedo certamente não fez todas as perguntas “proibidas” que gostaria de fazer, guardando-as para um momento mais oportuno e com mais tempo. Caso o PT decida enfim pela caminhada hegemônica, pode criar um cenário ideal para as próximas eleições presidenciais: duas opções democráticas no segundo turno.
Pode não ser a ideal para o PT, que aposta na polarização, mas certamente, com a união dos que assinam um manifesto pela democracia, com signatários como Ciro Gomes, Mandetta, Luciano Huck e João Doria, construa uma terceira via democrática e viável, afastando definitivamente o risco de reeleição de um presidente que dá motivos reais de ser chamado de genocida e de amante da ditadura. Que a vaidade petista traga bons frutos e esperanças renovadas.
Confira a entrevista completa aqui
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Há exatos 97 anos morria o "mulato de Morro do Coco", que queria "paz e amor"
31/03/2021 | 18h14
Arquivo Nacional
Lá nos idos de 1867 nascia no Morro do Coco, em Campos, alguém que se tornaria presidente do Brasil. Nilo Procópio Peçanha, filho de um padeiro, acreditou que os estudos permitiriam que ele realizasse seus sonhos. E com essa certeza rumou ao Rio de Janeiro, depois São Paulo, onde cursou Direito. Transferiu-se para a Faculdade de Direito do Recife, onde se formou bacharel em 1887. Atuando principalmente na advocacia e no jornalismo, Nilo era um abolicionista e republicano ferrenho. Foi deputado constituinte e assumiu a vice-presidência da República em 1906, para tornar-se o primeiro (e único!) presidente negro da história brasileira, três anos depois. Mesmo assim, Nilo Peçanha é um ilustre desconhecido em sua cidade natal.
Ainda mais desconhecida, a bela — e corajosa — história de amor que viveu com sua esposa, Anna de Castro Belisário, ou simplesmente Anita Peçanha, é um elemento essencial em sua história. Anita era neta de Visconde e bisneta de Barão. De família tradicional, em Campos. Não é preciso ser um grande observador para perceber a importância que a sociedade campista dá ao sobrenome e ao “status social”, ainda hoje. Imagine, caro leitor, o impacto que Anita causou ao decidir casar-se com um “mulato” do Morro do Coco, em pleno século XIX. Foi um desastre para o seu pai, que dizem ter morrido de desgosto (erramos aqui, informação retificada abaixo), e provocara o total distanciamento de sua mãe. Mas, o amor do casal foi mais forte que o preconceito, fazendo com que permanecem unidos até a morte de Nilo Peçanha, em 31 de março de 1924.
Errata (01/04/2021): Alertado pelo presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Campos, Genilson Soares, retifico a informação sobre a família de Anita Peçanha. Segundo Segundo Brigido Tinoco, biógrafo oficial de Nilo Peçanha, que colheu depoimentos de Anita Peçanha para publicar em 1962, "A vida de Nilo Peçanha", o sogro de Nilo, o advogado João Belizário Soares de Sousa, tinha grande admiração por ele e aprovava o casamento. Infelizmente ele faleceu em 1895, alguns meses antes da data do casamento e não pode conduzir a filha até o altar. Consta da página 56 do livro do Brígido: "Foi um autêntico "coup de foudre" como se dizia então. Namoro à vista, dando muito na vista dos pais da menina. O Dr. João Belisário até que simpatizava com o rapaz declarando-se mesmo seu eleitor. Mas D. Ana Rachel, com aquela pitança da nobreza do melado, foi contrária a qualquer aproximação, não querendo nem pensar em algum tipo de relacionamento, ainda que meramente amistoso."
A sua presidência durou apenas 17 meses. O bastante para o intrépido (Campos sempre foi terra de gente digna desse adjetivo, estando presente na letra do hino, inclusive) Nilo Peçanha deixar seu nome na história. Criou o Ministério da Agricultura, o Serviço de Proteção aos Índios, percursor da FUNAI, e as Escolas de Aprendizes e Artífices, que deram origem aos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet), atuais IFFs.
Os nilistas — termo que se popularizou para identificar os seus apoiadores — precisavam esconder o real tom de pele de Nilo Peçanha. Charges preconceituosas evidenciavam o fato de ele ser um mulato. Há relatos de vários episódios onde foi necessário embranquecer as suas fotos oficiais. Mesmo sofrendo todo tipo de preconceito e governar um país com muitos conflitos sociais e econômicos, Nilo toma posse dizendo que faria um governo “baseado na paz e no amor”.
Embora tenha tido sucesso em promover alguma pacificação no país, Nilo Peçanha, de forma incoerente com sua própria história, rompe com o Partido Republicano Fluminense, criado por ele mesmo e se alia ao Partido Conservador. Na disputa presidencial de 1910, apoia Hermes da Fonseca, ex-ministro da Guerra, contra ninguém menos que um dos maiores intelectuais que o Brasil já produziu: Rui Barbosa. No duelo da pena contra a espada, a espada vence e Hermes da Fonseca passa a ser o oitavo presidente do Brasil.
O “mulato de Morro do Coco” deve ser motivo de orgulho para os campistas, que precisam ser apresentados a sua história. As incoerências de sua trajetória devem ser entendidas por seu contexto histórico, não devendo diminuir sua importância. Sua amada Anita falecera nos anos 1960, quando o movimento hippie surge na cidade de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos, com o lema “paz e amor”. Ao vir busca-la, Nilo Peçanha deve ter ficado orgulhoso.
Podcast no aniversário de morte de Nilo Peçanha
A historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho produziu e divulgou hoje (31), nas suas redes sociais, um Podcast muito interessante sobre Nilo Peçanha. Vale conferir:

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