Entrevista com Auxiliadora Freitas: "o Palácio de Cultura nos causou arrepios"
16/01/2021 | 20h50
Antiga praça do Santíssimo Salvador, patrimônio perdido (Foto: Arquivo)
Antiga praça do Santíssimo Salvador, patrimônio perdido (Foto: Arquivo)
 
Não é possível culpar uma pessoa pela situação a que chegaram a cultura e o patrimônio histórico, em Campos. Sequer um grupo, apenas. A responsabilidade é coletiva, de governos e da sociedade, inclusive de quem respira a cultura do município, onde me incluo. O estado de coisas na cultura campista é muito grave, o que foi feito e deixou de ser feito até aqui é ruinoso. E reitero a coletividade do dolo cultural. Vários exemplos históricos evidenciam isso: os prédios do antigo Trianon, da Santa Casa de Misericórdia e antiga Igreja Mães dos Homens, que eram localizados no centro da cidade. O Cine Teatro Trianon, belíssimo e extremamente representativo, ruiu para dar lugar a uma agência bancária. A Santa Casa, grandiosa e altamente representativa, veio ao chão para dar lugar a um estacionamento. Exemplo mais recente, a Praça do Santíssimo Salvador, majestosa e muito representativa, transformada em um forno de mármore. Em exemplo futuro, em um previsível cenário de tragédia anunciada, o Solar dos Airizes, incrível e nacionalmente representativo, virá ao chão. 
Antiga Igreja Mãe dos Homens e ao lado o Hospital Santa Casa de Misericórdia, em frente a Praça das Quatro Jornadas, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho - Arca Photovideo
Antiga Igreja Mãe dos Homens e ao lado o Hospital Santa Casa de Misericórdia, em frente a Praça das Quatro Jornadas, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho - Arca Photovideo
Em publicação ontem (15), este espaço (confira aqui) repercutiu a entrevista da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Auxiliadora Freitas, concedida à rádio Folha FM 98,3. Professora e ex-vereadora, e com uma vivência empírica a frente do Teatro Trianon, no governo Rosinha (2010), Auxiliadora assume a cultura de Campos em um momento crítico. Depois de gerir com competência e empenho um aparelho cultural importante como o Trianon, deparou-se com uma Fundação com todos seus aparelhos em situação crítica, apesar do trabalho de excelência desenvolvido em grande parte deles. Inclusive, com vários locais culturais sofrendo furtos e arrombamentos (confira aqui). A falta de recursos para manter em funcionamento essas estruturas pode ser facilmente comprovada olhando os números orçamentários passados. E também mostra a ineficiência – e falta de união – do setor em dar a relevância que o tema merece, em Campos. Mas é preciso olhar para o futuro com esperança, do verbo esperançar.
Interior do Cine Teatro Trianon, demolido para dar lugar a uma agência bancária (reprodução).
Interior do Cine Teatro Trianon, demolido para dar lugar a uma agência bancária (reprodução).
A cultura é um organismo vivo. De difícil definição, pois engloba muitas expressões humanas. Porém, cuidar para que ela tenha condições de sobrevivência digna, produz identidade e auto (re)conhecimento, em uma sociedade. E isso é essencial. A delapidação de nosso patrimônio histórico, que vem há muitos anos, impede que nossa história seja contada como ela deve ser, inclusive, em um necessário resgate da exploração de negros e povos originários. 
Na entrevista da Folha FM, algumas perguntas que Auxiliadora respondeu foram feitas incialmente por mim, para serem publicadas neste espaço. O jornalista Aluysio Abreu Barbosa as leu no ar, aderindo ao princípio coletivista do (bom) jornalismo, e por ter conhecimento de que não houve resposta por parte da presidente da FCJOL anteriormente. Após a referida entrevista, este blog recebeu todas as respostas de Auxiliadora, que são transmitidas aqui, nesta publicação, algumas linhas abaixo.
Assim como não é possível culpar apenas um grupo pelo descaso com a cultura campista, não é aceitável que se imponha qualquer exigência de resultado sobre uma gestão que se iniciou há menos de duas semanas. Porém, o apoio sincero é sempre crítico. O papel da imprensa é exercido em sua plenitude quando permite o contraditório e dá luz aos fatos, sejam eles quais forem. E o fato é que Auxiliadora Freitas exerceu ativamente sua função desde sua posse, em um curto espaço de tempo. Visitou praticamente todos os aparelhos culturais da cidade e já fez uma prestação de contas do que viu à sociedade, na rádio do Grupo Folha. Pelo bem das gerações passadas e futuras de Campos, o desejo é de uma gestão de excelência, que para tal, nunca deverá ser unânime, ouvindo os apoios críticos e construindo coletivamente. Pelo enorme desafio, cabe propor união do setor, pois o objetivo final são políticas públicas de qualidade para a área cultural, para que saiamos da culpa coletiva para ganhos coletivos.
Segue a entrevista completa com Auxiliadora Freitas, presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima:
Edmundo Siqueira - No final do mês passado (12/2020), o Museu Olavo Cardoso (MOC) teria sido vítima de um furto que levaria grande parte de seu acervo, inclusive mobiliário. Segundo relatos, os bens históricos e culturais, de grande importância para o município, que o Museu abrigava, foram subtraídos por uma abertura feita no muro. O que de fato aconteceu no MOC? Como está o andamento das investigações? Ter acesso ao inventário feito antes do furto é fundamental para o entendimento do que havia e do que poderia ser feito para protegê-lo. Já foi dado acesso a esse inventário?
 
 
Auxiliadora Freitas - Já realizamos duas visitas à Casa de Cultura Olavo Cardoso. Uma no segundo dia após minha nomeação para a presidência da Fundação Cultural Olavo Cardoso, outra nesta segunda-feira, com a presença da Defesa Civil. Tivemos que realizar um novo boletim de ocorrência, visto que o que fora feito não teria sido validado e agora, estamos no aguardo do inventário daquele equipamento cultural para darmos andamento à checagem do que fora furtado ali, assim como das condições do acervo artístico-cultural e dos mobiliários que ali estão. Independente disso, já solicitei à minha equipe a elaboração de um projeto de reforma com o apoio de historiadores, arquitetos e membros do COPPAM, assim como da Secretaria Municipal de Obras para que possamos conseguir recurso por meio de emenda parlamentar com a Deputada Federal Clarissa Garotinho, com quem já conversei a respeito e se mostrou bastante interessada em encampar esse projeto de tamanha relevância para a cultura de Campos dos Goytacazes. Pensamos em apresentar esse projeto aos nossos colegiados – COMCULTURA e COPPAM – para que possam avaliar e também referendar nosso projeto que poderá voltar a ser o Museu Olavo Cardoso voltado para a temática da cana-de açúcar, contanto nossa história não somente sob o ponto de vista da aristocracia rural, mas também sob a ótica da população que deu seu suor e continua a fazê-lo nos canaviais e usinas de cana-de-açúcar.
 
 
Edmundo Siqueira - Segundo página oficial da Prefeitura de Campos, o Palácio da Cultura, equipamento cultural muito conhecido e que é objeto de memória afetiva em Campos, está com “infiltrações, trechos de iluminação expostos, modificações irregulares e setores sem condições de uso”. Segundo mesma reportagem da Comunicação da Prefeitura, a senhora afirma que o prédio passou por uma “maquiagem”. Qual o planejamento para o uso do prédio e também da Biblioteca Nilo Peçanha? Existem condições de implantar o que foi pensado no Plano de Governo, apresentado nas últimas eleições? Existe previsão de cessão ou parceria para uso cultural ao setor privado?
 
 
Auxiliadora Freitas - Admito que visitamos, com muita expectativa, o Palácio da Cultura, aguardávamos encontrar o local devidamente reformado para que pudéssemos entregar à população e aos artistas e fazedores de cultura desse município o seu local afetivo da cultura, tão defendido por todos os agentes culturais do município. Desejávamos, o quanto antes, reinstalar a Biblioteca Municipal Nilo Peçanha e acomodar a Fundação Cultural Oswaldo Lima naquele equipamento. Contudo, infelizmente, eu e minha equipe pudemos presenciar um local com imperfeições na pintura, nos acabamentos, com infiltrações em diversos locais, poças d’água dentro do prédio, portas de banheiros recém-construídos com cupim e uma alteração do piso na parte da frente do prédio para porcelanato, diferente do piso original que permaneceu no resto do prédio. Também observamos a mudança das paredes que embutiram e esconderam aquelas belíssimas colunas tão majestosas do prédio, alterando a planta original. Lembrando que essa reforma do prédio precisava ter sido devidamente vistoriada pelo COPPAM, visto ser tombado por esse órgão. Em linhas gerais, foi isso que encontramos lá do que teria sido chamado de “reforma” do Palácio de Cultura. Mas nos causou arrepios termos visto os demais espaços que não estavam inclusos na “reforma” em total abandono, como o porão com cheiro forte de animal morto, um local escuro e insalubre; o auditório, que estava em ótimo estado quando o Palácio foi fechado para reformas, e agora está com sua mobília danificada, pois não foi feito o resguardo desse mobiliário durante a “reforma” para sua conservação. Também o Pantheon, inacessível a nós até o momento, que somente pudemos visualizar do lado de fora, o que já nos deu a impressão de um local úmido e que há muito tempo não teve a visita de ninguém para cuidar daquele espaço que guarda os restos mortais do grande campista José do Patrocínio.
Quanto a projetos para o Palácio da Cultura, iremos ter nosso olhar de gestor focado no plano de governo do Prefeito Wladimir Garotinho e no que está sendo apresentado pelo Plano Municipal de Cultura, que estará em análise na Câmara de Vereadores em breve.
 
 
Edmundo Siqueira - Campos possui equipamentos culturais de grande qualidade e que entregam serviços e produtos relevantes. Dois destes equipamentos atuam diretamente no resgate e valorização da história do município, Arquivo Público e Museu Histórico. Qual o planejamento para esses equipamentos? Qual previsão de reabertura, visto que tiveram suas equipes esvaziadas e encontram-se em situação de vulnerabilidade?
 
 
Auxiliadora Freitas - Ambos equipamentos já foram vistoriados por mim pessoalmente, além de pessoas da nossa equipe, que estão fazendo levantamento de todas as necessidades de cada um desses ícones de nossa cultura no que tange a nossa memória e identidade cultural. Em breve estaremos buscamos soluções de curto, médio e longo prazo, com planejamento e parcerias.  Quanto à reabertura do Museu Histórico e do Arquivo Público, estaremos atentos às indicações do comitê de crise do Covid-19 para podermos reabri-los com total segurança para funcionários, população, visitantes e pesquisadores. Mas já vislumbramos alguma possibilidade de realizarmos atividades virtuais. Estamos em conversa com as duas coordenadoras desses equipamentos, Graziela Escocard e Rafaela Machado, que permanecerão nestes cargos em nossa gestão.
 
 
Edmundo Siqueira - Nesses casos específicos, existe a demanda premente de pessoal capacitado, por abrigar um acervo que precisa de manutenção, armazenamento correto e restauro constantes. Embora haja necessidade de realização de concurso público, para que haja continuidade e estabilidade, especificamente para museólogo e arquivista, a curto prazo se mostra pouco provável. Existe previsão de retorno das equipes, que já receberam treinamento custeado pela municipalidade e possuem experiência nas especificidades que as instituições Arquivo e Museu exigem?
 
 
Auxiliadora Freitas - Conforme todos já sabem, estamos em uma crise sanitária e financeira em nosso país, e em Campos dos Goytacazes não é diferente, no entanto, reconhecendo essas especificidades, estamos envidando todos os esforços necessários para retornarmos com todo o corpo técnico em nossos equipamentos, incluindo também os teatros que necessitam de pessoal especializado para a manutenção de seus fazeres artísticos.
 
 
Edmundo Siqueira - Outro ponto preocupante para o setor cultural de Campos é o patrimônio material. Prédios históricos encontram-se em péssimas condições e apresentam risco eminente de ruína. Uma dessas construções é o Solar dos Airizes, localizado na BR-356, prédio de alto valor cultural para a região Norte Fluminense e já apresenta diversas evidências de desmonte da estrutura. Em apuração jornalística recente, este mesmo espaço (confira aqui) confirmou haver processo judicial transitado em julgado que determina a cessão do prédio ao município, inclusive com previsão de busca de recursos em órgãos federais, como Iphan e multa por descumprimento. Qual o planejamento de uso dos Solares e outros prédios históricos em Campos, visto que o uso é consenso que é a única forma de efetivamente preservá-los? No caso específico do Airizes, a FCJOL tem conhecimento do processo que o envolve?
 
 
Auxiliadora Freitas - Estamos verificando toda a documentação que estamos tendo acesso e poderemos com um pouco mais de tempo lhe dar retorno dessas questões. Lembro que estou nomeada há apenas uma semana e não houve transição de governo. Agora é que estamos realizando a transição, gestão e planejamento. Nem todos os dados estão sendo acessíveis ainda. Mas estaremos atentos a toda e qualquer demanda da cultura de nosso município, pode ter certeza disso. Faremos isso com escuta, de modo colaborativo e com parcerias.
 
 
Edmundo Siqueira - A cultura imaterial de Campos é vasta. Manifestações e instituições como Cavalhada, Jongo, Lyra de Apollo e festividades distritais relatam resistência em permitir apoio direto da Prefeitura, alegando quebra de promessas, inclusive em governos do grupo garotista. Existe previsão de inclusão no calendário oficial de festejos locais, as manifestações que ainda não integradas? Qual o planejamento para manter viva a cultura imaterial de Campos, sem interferir nas tradições?
 
 
Auxiliadora Freitas - Estaremos seguindo o calendário artístico-cultural-religioso de nosso Plano Municipal de Cultura dentro das possibilidades financeiras e do protocolo da pandemia. Nesse ano, por exemplo, não haverá a cavalhada, então também estamos sujeitos a essa questão que tanto aflige o mundo inteiro. Preservar nosso patrimônio imaterial, assim como o material, é nossa obrigação e está previsto na Lei Orgânica do Município, da qual tive a honra de ser presidente da comissão de educação, cultura e esporte, quando estive vereadora.
 
 
Edmundo Siqueira - A cultura é um setor que conta com recursos disponíveis em fundos estaduais, federais e até internacionais. Mas para acessá-los é preciso projeto. Existe a previsão de criação de uma equipe dentro da estrutura da FCJOL para elaboração de projetos e captação desses recursos, que traria o “dinheiro novo” tão falado pelo governo?
 
 
Auxiliadora Freitas - Criamos em nosso organograma a coordenadoria de produção executiva que elaborará os projetos dentro da competência desse órgão municipal de cultura de Campos dos Goytacazes. Nossa equipe, como um todo, está sendo montada com pessoas de perfil técnico a partir das demandas apontadas pelo COMCULTURA por meio do Plano Municipal de Cultura. Também temos a inclusão de gerências de formação em arte e cultura, do Sistema Municipal de Cultura e do Sistema Municipal de Cultura.
 
 
Edmundo Siqueira - A Câmara de Vereadores pode funcionar como um centro de cultura, visto suas instalações, em prédio histórico, suas próprias funções institucionais e pela existência da EMUGLE. Existem previsões de parcerias com a Câmara para desenvolver projetos culturais?
 
 
Auxiliadora Freitas - A Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima funcionará em parceria com todos os órgãos da Prefeitura e da Câmara.
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Presidente da FCJOL, Auxiliadora Freitas, finalmente responde
15/01/2021 | 22h29
Pantheon dos Heróis Campistas - estado de abandono. Descaso com a cultura em Campos não é recente.
Pantheon dos Heróis Campistas - estado de abandono. Descaso com a cultura em Campos não é recente. / Secom Prefeitura de Campos
 
Desde seu início, em março de 2019 (veja aqui), a Folha FM 98,3 deu voz a cultura de Campos. Foram ao programa artistas, em suas mais diversas expressões, intelectuais, escritores e também representantes do poder público local, responsáveis pela cultura. Campos não possui uma secretaria municipal da Cultura. As políticas públicas da área são executadas pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), subordinada à Secretaria de Educação, Cultura e Esporte. Como entrevistada, o programa Folha no Ar de hoje (15), recebeu Auxiliadora Freitas, professora e ex-vereadora, atualmente presidente da FCJOL (veja aqui).
No dia de Santo Amaro — que será marcado para sempre como sendo a primeira vez que o padroeiro da Baixada Campista, em mais de 300 anos, não terá a sua tradicional Cavalhada, por conta da pandemia da Covid-19 —, Auxiliadora fala sobre os planos futuros e os problemas arrastados pela cultura de governos passados, inclusive advindos de governantes do mesmo grupo que ela é ligada e que governa Campos, mais uma vez, com a eleição do herdeiro direto, Wladimir Garotinho.
Entrevista solicitada e não atendida - Este espaço pediu numa entrevista com Auxiliadora desde a comunicação de sua posse. Diretamente e por intermédio de pessoas próximas a ela. Uma dessas pessoas foi Kátia Macabu, que assume uma das diretoria da FCJOL, sendo uma das primeiras nomeações da Fundação. A diretora recebeu as perguntas e as encaminhou à presidente e responsável pela cultura campista. Até o momento desta publicação, não foi recebido qualquer resposta ou sinalização de envio, apesar da afirmativa da própria Auxiliadora, no Folha no Ar de hoje, que teriam sido enviadas a este blog.
Assim como a rádio do Grupo Folha — e todos os seus veículos — a cultura tem sido acompanhada com muito zelo, jornalístico e pessoal, por este espaço e se orgulha muito disso. Assim como se orgulha dos reconhecimentos, muitos deles publicamente, recebidos por diretores de equipamentos culturais e outros tantos representantes da cultura. Por “acompanhar de perto”, este espaço recebe e apura informações constantes da cultura, inclusive revelando fatos sobre patrimônios materiais de grande importância, como o Solar dos Airizes (veja aqui).
O jornalista e fundador da Folha da Manhã, Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012), tinha como princípio: “jornalismo é trabalho coletivo, ou nada” (veja aqui). Seu filho, Aluysio Abreu Barbosa, traz consigo este conceito de maneira muito marcante, o levando a fazer algumas das perguntas que foram enviadas à Auxiliadora anteriormente. Transcrevo a você leitor, as respostas a elas no Folha no Ar de hoje, dia de Santo Amaro.
A atual presidente da FCJOL, Auxiliadora Freitas, visita as instalações do Arquivo Público Waldir Pinto de Carvalho e constata o trabalho de excelência da equipe, refirmado nesta  sexta na Folha FM.
A atual presidente da FCJOL, Auxiliadora Freitas, visita as instalações do Arquivo Público Waldir Pinto de Carvalho e constata o trabalho de excelência da equipe, refirmado nesta sexta na Folha FM. / Secom Prefeitura de Campos
 
No final do mês passado (12/2020), o Museu Olavo Cardoso (MOC) teria sido vítima de um furto que levara grande parte de seu acervo, inclusive mobiliário. Segundo relatos, os bens históricos e culturais, de grande importância para o município, que o Museu abrigava, foram subtraídos por uma abertura feita no muro. O que de fato aconteceu no MOC? Como está o andamento das investigações? Ter acesso ao inventário feito antes do furto é fundamental para o entendimento do que havia e do que poderia ser feito para protegê-lo. Já foi dado acesso a esse inventário?
— Esse inventário foi dado acesso esta semana. Se não me engano na quarta. Mas, é um inventário que você não tem certeza se o que está ali era o que realmente tinha no museu, em sua totalidade. Mas a partir dele, é que estamos trabalhando. A partir da segunda visita que nós fizemos lá, com nossa equipe, e com a guarda, segurança, etecetera, nós estamos fazendo essa comparação, do que tinha inventariado e do que não foi encontrado ali. Isso está sendo colocado em um relatório e estamos fazendo um dossiê, vamos dar entrada na procuradoria e também equipar a delegacia com informações. Nós abrimos um segundo boletim de ocorrência, porque o que disseram que havia sido feito online, quando fomos à delegacia, ele já não existia mais. E a partir do levantamento e desse novo B.O. a gente vai poder chegar a uma solução e agora é buscar fazer a segurança do que resta lá, inclusive com a retirada para um local mais seguro.
Segundo página oficial da Prefeitura de Campos (veja aqui), o Palácio da Cultura, equipamento cultural muito conhecido e que é objeto de memória afetiva em Campos, está com “infiltrações, trechos de iluminação expostos, modificações irregulares e setores sem condições de uso”. Segundo mesma reportagem da Comunicação da Prefeitura, a senhora afirma que o prédio passou por uma “maquiagem”. Qual o planejamento para o uso do prédio e também da Biblioteca Nilo Peçanha? Existem condições de implantar o que foi pensado no Plano de Governo, apresentado nas últimas eleições? Existe previsão de cessão ou parceria para uso cultural ao setor privado?
—O Palácio da Cultura foi minha primeira visita (depois da posse na FCJOL) e foi com muita expectativa e com muita alegria de que estaria recebendo um equipamento que a gente pudesse de imediato, ou a curto e médio prazo, revitalizar aquele espaço que tinha sido devolvido à cultura pelo prefeito (Rafael Diniz), que ele foi inaugurar, inclusive tem uma placa lá. Eu e minha equipe esperávamos um local devidamente reformado para que a gente pudesse então efetivar aquilo que estava no plano de governo e pudesse devolver o Palácio da Cultura a cultura do nosso município. Mas, cheguei lá e fiquei anestesiada, paralisada com o que vi. Existem duas situações. Uma é a tal reforma que disseram ter tido e que estava pronta para devolver para a cultura, que foi parte de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) em função demolição daquela chácara, ‘do chacrinha’ (O Palácio da Cultura foi reformado graças a um acordo judicial, sem custos para a Prefeitura, com valor total pago pela empresa responsável pela demolição do antigo Casarão Clube do Chacrinha, que ficava localizado à esquina das ruas 13 de Maio e Saldanha Marinho - confira aqui). E o restante do Palácio. Vamos fazer outra visita lá e aí vou chamar todo colegiado da cultura, o conselho, a sociedade que quiser ir, estaremos indo lá com a secretaria de obras, para mostrar exatamente que a tal reforma que daria condições de a gente entrar para o Palácio da Cultura, fazer algo acontecer, não é real. Infelizmente não é real. Vamos falar do estava no TAC, a reforma, que eu considero uma maquiagem. (...) A parte inicial que estaria projetado para um projeto de inovação e tecnologia, com piso frio, descaracterizando completamente o patrimônio histórico, não houve respeito com patrimônio histórico-cultural. Não tem condições. A obra (Secretaria de Obras) vai ter que entrar ali de novo para que a gente possa fazer a revitalização do espaço. A única coisa que posso dizer é que o compromisso do prefeito (Wladimir) que o Palácio da Cultura será da cultura, sem qualquer outra possibilidade. O que estava no TAC foi uma maquiagem e o que estava fora do TAC? O auditório está destruído. O mobiliário está acabado. Não tem nada. Vai ter que ser refeito. No sótão, onde tinha a biblioteca, não podemos entrar, estava em limpeza. Já estamos providenciando essa limpeza. Nos parece que há um animal morto lá dentro. Está insalubre.
Sobre o prazo de entrega do Palácio, Auxiliadora informa, após pergunta do jornalista Aluysio Abreu Barbosa:
Final de 2021 até meados de 2022.
Outro ponto preocupante para o setor cultural de Campos é o patrimônio material. Prédios históricos encontram-se em péssimas condições e apresentam risco eminente de ruína. Uma dessas construções é o Solar dos Airizes, localizado na BR-356, prédio de alto valor cultural para a região Norte Fluminense e já apresenta diversas evidências de desmonte da estrutura. Em apuração jornalística recente, este mesmo espaço (confira aqui) confirmou haver processo judicial transitado em julgado que determina a cessão do prédio ao município, inclusive com previsão de busca de recursos em órgãos federais, como Iphan e multa por descumprimento. Qual o planejamento de uso dos Solares e outros prédios históricos em Campos, visto que o uso é consenso que é a única forma de efetivamente preservá-los? No caso específico do Airizes, a FCJOL tem conhecimento do processo que o envolve? 
—Estamos tomando conhecimento desse processo, o nosso jurídico já esta levantando essa questão e essa demanda, para que a gente possa ter mais informação. Estamos a menos de 15 dias a frente da FCJOL. Então todas essas informações e dados estão sendo levantados. Não tivemos acesso nesses primeiros dias, estamos buscando, pesquisando, para que possamos ter essa informação. (...) Não vai ser uma coisa fácil, o patrimônio material do município está em uma situação bem preocupante. Vai requerer vontade de trabalho, de planejamento, vontade política, apoio do legislativo e do executivo e da sociedade de uma maneira geral para que esse trabalho possa se efetivar a curto médio e longo prazo. Nem tudo vai poder ser terminado no governo Wladimir em quatro anos. (...) Nós vamos buscar resolver com a prefeitura e com parceiras público-privadas. E em Brasília. Estamos buscando alternativas em Brasília, já sensibilizamos a deputada Clarissa, para que ela possa construir emendas de bancada para buscarmos esses recursos. Campos é um patrimônio histórico-cultural conhecido pelo mundo inteiro. A história do Brasil começou por aqui e não podemos deixar isso morrer. 
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Em respeito ao leitor, reproduzo o restante das perguntas que foram enviadas a presidente da FCJOL, até o momento sem reposta: 
 - Campos possui equipamentos culturais de grande qualidade e que entregam serviços e produtos relevantes. Dois destes equipamentos atuam diretamente no resgate e valorização da história do município, Arquivo Público e Museu Histórico. Qual o planejamento para esses equipamentos? Qual previsão de reabertura, visto que tiveram suas equipes esvaziadas e encontram-se em situação de vulnerabilidade?
 - Nesses casos específicos, existe a demanda premente de pessoal capacitado, por abrigar um acervo que precisa de manutenção, armazenamento correto e restauro constantes. Embora haja necessidade de realização de concurso público, para que haja continuidade e estabilidade, especificamente para museólogo e arquivista, a curto prazo se mostra pouco provável. Existe previsão de retorno das equipes, que já receberam treinamento custeado pela municipalidade e possuem experiência nas especificidades que as instituições Arquivo e Museu exigem?
- A cultura imaterial de Campos é vasta. Manifestações e instituições como Cavalhada, Jongo, Lyra de Apollo e festividades distritais relatam resistência em permitir apoio direto da Prefeitura, alegando quebra de promessas, inclusive em governos do grupo garotista. Existe previsão de inclusão no calendário oficial de festejos locais, as manifestações que ainda não integradas? Qual o planejamento para manter viva a cultura imaterial de Campos, sem interferir nas tradições?
- A cultura é um setor que conta com recursos disponíveis em fundos estaduais, federais e até internacionais. Mas para acessá-los é preciso projeto. Existe a previsão de criação de uma equipe dentro da estrutura da FCJOL para elaboração de projetos e captação desses recursos, que traria o “dinheiro novo” tão falado pelo governo?
- A Câmara de Vereadores pode funcionar como um centro de cultura, visto suas instalações, em prédio histórico, suas próprias funções institucionais e pela existência da EMUGLE. Existem previsões de parcerias com a Câmara para desenvolver projetos culturais?
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Mais ataques à cultura: Cepop e Academia Pedralva sofrem arrombamento
14/01/2021 | 17h25
O Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop) foi alvo de ações criminosas em mais de uma oportunidade entre o final de 2020 e o início deste ano. Segundo a Prefeitura, houve furtos no local em 26 de outubro e novamente em 7 e 8 de janeiro. Em visita, uma equipe da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL) constatou sinais de abandono e furto de peças como cabos, fios de cobre, peças de ar-condicionado e bicos de mangueira de incêndio, além de sinais de vandalismo em pias e luminárias. Nesta semana, também foi descoberto arrombamento do prédio que guarda os pertences da Academia Pedralva Letras e Artes.
— Nossa equipe recebeu informações de um profissional que faz a vigilância do Cepop, dando conta de que houve um furto no dia 26/10/2020 que, após comunicar aos seus hierárquicos, nenhuma providência foi tomada. Nos dias 07 e 08 de janeiro, também segundo o vigia, houve novos furtos. A GCM foi acionada, no ilícito do dia 07/01/2021, e fez um registro de ocorrência administrativo — disse Auxiliadora Freitas. — Nas últimas ações, 7 e 8 de janeiro, os meliantes deixaram para trás sandálias, ferramentas e uma bicicleta, que foi levada para ser acautelada, no último dia 12, na 134º Delegacia de Polícia (DP), onde foi lavrado o boletim de ocorrência, sob o número: 134-00211/2021. A Polícia Civil dará prosseguimento às investigações para identificar os culpados. Já as ferramentas foram recolhidas pela GCM — detalhou Auxiliadora Freitas.
 
Segundo a Prefeitura, o vigia afirmou que esteve na DP no dia 7 de janeiro, mas, após cinco horas sem ser atendido, foi embora. Além dos furtos, a equipe da Fundação também encontrou portas arrombadas e, de todas as chaves encontradas, nenhuma abria qualquer das portas do Cepop, que, na gestão municipal anterior, era administrado pela superintendência de Entretenimento e Lazer.
Academia Pedralva — Além do Cepop, o prédio que guarda os pertences da Academia Pedralva Letras e Artes também sofreu arrombamento, averiguado pela presidência da instituição nesta quinta (14). Segundo o presidente da entidade cultural, Carlos Augusto Souto Alencar, que confirmou a ação criminosa, o evento pode ter acontecido anteriormente, estando em andamento as investigações. 
— Infelizmente procede o arrombamento. Não foi bem a Pedralva e sim o local onde estão nossas coisas, em uma meia água nos fundos do prédio da Campos Luz desde o início das obras no Palácio da Cultura. Não é possível saber em que dia foi. Nosso diretor de patrimônio esteve lá hoje, e a porta estava arrombada. Pode ter sido entre o fim de dezembro e o começo de janeiro. Não temos como saber. Ele fará o boletim de ocorrência. Nos levaram um microfone, uma caixa de som e um retrato. Levaram o que dava para vender e uma lembrança, vamos colocar assim. É um prejuízo para a Casa — informou o presidente da Academia Pedralva. 
— É bom registrar que não sabemos a data do evento. Mas, serve como um alerta sobre a necessidade de atenção ao patrimônio cultural, pois a Pedralva, assim como outras instituições culturais, guardam uma parte da memória cultural da cidade, e esse episódio, associado ao que aconteceu ao Museu Olavo Cardoso, mostra que ela está exposta a risco — pontuou Carlos Augusto. 
No final de 2020, o Museu Olavo Cardoso, fechado há vários anos, também foi alvo de ação de bandidos. No dia 29 de dezembro, a FCJOL fez registro de ocorrência junto à Polícia Civil sobre depredação e furto no prédio, descoberto na véspera. Segundo informação da Prefeitura, além de parte do acervo do museu, também foram furtados mobiliários para uso administrativo. O poder público informou ainda que havia dois vigilantes no local, que se renovavam em turnos diários. À noite, a ronda era feita pelo patrulhamento da Guarda Civil Municipal.
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Onde Campos pode e deve ser o espelho do Brasil
12/01/2021 | 21h26
Getúlio Vargas, ao se deparar, nos anos 1930, com uma planície verdejante e emoldurada por um cinturão de imensos canaviais que alimentavam pelo menos duas dezenas de usinas e engenhos, ficou impressionado. O então Presidente da República disse, diante daquela realidade, que a planície pertencente a Campos dos Goytacazes, era o “espelho do Brasil”. O município perdeu sua capacidade industrial desde então, assim como o país, mostrando estar correta a análise (ou seria uma praga?) de Vargas; confirmada ainda hoje.
A Ford encerra suas atividades depois de receber R$ 20 bi em incentivos fiscais. As renúncias de impostos foram promovidas e permitidas por diversos governos em troca de empregos e desenvolvimento industrial
A Ford encerra suas atividades depois de receber R$ 20 bi em incentivos fiscais. As renúncias de impostos foram promovidas e permitidas por diversos governos em troca de empregos e desenvolvimento industrial / Reprodução
A multinacional americana Ford anunciou nesta segunda-feira (11) que vai encerrar a fabricação de automóveis no Brasil. O anúncio foi o fim de uma longa história de produção no país, que se iniciou em 1919. A Ford foi a primeira montadora de automóveis a atuar no Brasil. Entre os motivos para a decisão, Lyle Watters, presidente da Ford na América do Sul, citou um "ambiente econômico desfavorável" agravado pela pandemia (O Globo).
A Ford encerra suas atividades com uma dívida alta com os brasileiros. Recebeu R$ 20 bi em incentivos fiscais. As renúncias de impostos foram promovidas e permitidas por diversos governos, em troca (em tese) de empregos e desenvolvimento industrial. Além de incentivos fiscais, a Ford recebeu pelo menos três grandes financiamentos do BNDES, a juros baixos. A empresa demitirá agora seus 6.171 funcionários no Brasil.
Não é preciso ser economista para entender que é uma fórmula que deu errado. Subsídios públicos e empréstimos do BNDES, com juros abaixo da inflação, não se mostrou sustentável. O que ajudou a indústria automobilística foram modernizações infralegais que permitiram diminuir o risco dos financiamentos, permitindo aumentar suas vendas.
Retomada do agronegócio em Campos pode ser o único caminho de crescimento industrial e econômico.
Retomada do agronegócio em Campos pode ser o único caminho de crescimento industrial e econômico. / Rodrigo Silveira
O país compensou sua baixa produtividade e capacidade industrial com o agronegócio. O setor também recebe subsídios, porém o Brasil é um dos países que menos subsidia sua produção agrícola. E a produção agropecuária ainda é fortemente impactada pelo chamado “custo Brasil”, com burocracia excessiva, estradas em péssimas condições, dificuldades de exportação, dentre outros. Mesmo assim, obteve 160% de ganhos de produtividade de 1990 a 2009 e cresce de 4 a 5% ao ano, há mais de 30 anos. O Brasil foi o primeiro país a investir em tecnologia agrícola nos anos 70, compensou as dificuldades com boas políticas públicas de inovação tecnológica, tendo na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a capacidade técnica aprendida nas melhores práticas internacionais para, por exemplo, produzir grãos em zonas temperadas. A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da USP, desenvolveu a forma de colocar o café arábica no serrado mineiro, e hoje é o melhor café do Brasil, para citar outro exemplo. 
Campos tem uma nova chance, com o fim ou forte diminuição dos vultuosos recursos de compensação da exploração de petróleo. Uma segunda chance para ser o “espelho do Brasil” onde pode, tem vocação histórica e deve se espelhar: na retomada do agronegócio e agricultura familiar.
O blog consultou o especialista em finanças Igor Franco para comentar sobre o assunto. Ele confirma que políticas públicas baseadas em subsídios "vão acumulando ineficiências que vão sufocar a própria indústria" e que repetimos (a município de Campos) "em pequena escala, o problema macro que culminou no fechamento da Ford":
Um outro ponto interessante é que as indústrias automobilísticas sempre foram muito exitosas nas pressões realizadas junto aos governantes. Sempre conseguiram benefícios fiscais, linhas subsidiadas, tarifas de importação sobre veículos estrangeiros.
O grande problema é que, no longo prazo, esse tipo de política pública vai acumulando ineficiências que vão sufocar a própria indústria. Ao pedir tarifas especiais, agravaram as distorções tributárias e a guerra fiscal que vivemos. Ao pedir por proteção, blindavam a competição e, por consequência, a pressão por melhorias. Ao pedir linhas subsidiadas, agravavam o custo de capital no país.
Podemos fazer uma comparação a um doente que pede cada vez mais remédio e acaba envenenado por superdosagem. Em paralelo, temos o agronegócio, uma vocação natural do país e campo no qual sempre tivemos muito êxito em transformar os subsídios e incentivos em ganhos de produtividade que nos destacavam de outros países. Diferente de muitos defensores de industrialização (e eles existem na ortodoxia - um pouco menos - e na heterodoxia - um pouco mais), entendo que, a princípio, cada país deve perseguir setores em que possuam vantagens comparativas. E, sem dúvidas, há uma grande vocação da nossa cidade para o agronegócio.
Tivemos péssimas experiências com fomento de indústrias ineficientes que quebraram, deixando um rastro de destruição de empregos e utilização de capital público sem retorno para o desenvolvimento econômico. Repetimos, em pequena escala, o problema macro que culminou no fechamento da Ford.
Em outra abordagem, igualmente necessária, o blog consultou a Coordenadora Geral do Sepe Campos, Graciete Nunes. Ela lembra a necessidade de "termos as relações de trabalho numa outra perspectiva, uma vez o histórico em "nossa região o uso de mão de obra análoga a escrava":
O que não é possível é oferecer incentivos fiscais milionários à empresas que a qualquer tempo decide encerrar sua produção. Importante destacar que além de incentivos fiscais essas empresas são atraídas por mão de obra e matérias prima baratas.
Considerando a vocação local para a agropecuária é importante ter as relações de trabalho numa outra perspectiva. É recorrente em nossa região o uso de mão de obra análoga a escrava e são elementos que não devem ser trazidos de volta. Penso que a parte do trabalho pesado deve ser mecanizado e, ao trabalhador caberá o controle do trabalho a ser realizado, por exemplo no corte da cana.
Por se tratar de trabalho no campo as relações de trabalho precisam ser realmente repensadas.
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Grupo Folha: 43 anos misturando talentos e semeando sucessos
10/01/2021 | 22h05
“Espero que, no futuro, meus filhos e netos possam dar continuidade a esse trabalho. Foi um sonho de Aluysio (Cardoso Barbosa), que partiu e o deixou comigo. Venho carregando. Apesar de todas as dificuldades, é algo que vale a pena”. Essa é uma fala de Diva Abreu Barbosa nas comemorações dos 42 anos da Folha da Manhã, em janeiro de 2020. Neste janeiro, de 2021, a Folha completa mais um ano de inegável sucesso. O principal grupo de comunicação da região continua sua história.

O início da imprensa em Campos, segundo a maioria dos autores, se dá no primeiro exemplar do “qCorreioConstitucional”. Em fins de 1833, é que o médico e jornalista Dr. Francisco José Alypio instalou junto a José Gomes da Fonseca Parahyba, também médico, a Tipografia Patriótica, então de propriedade de Parayba&Alypio, sediada à rua do Conselho número 94. Foi nesta tipografia que foi impresso pela primeira vez o jornal “O Campista”, de circulação bissemanal – que se publicavaas quartas e sábados. A sua circulação se deu do dia 04 de Janeiro de 1834 até o dia 31 de dezembro do dito ano (Fonte: historiadora Rafaela Machado).

Normalmente, junto à criação de um novo jornal vinha o apelo ao letramento, ao progresso e a uma sociedade mais ilustrada. Não foi diferente com a Folha da Manhã, 145 anos depois que o “O Campista” circulou na cidade. Com apenas três meses de circulação, a Folha da Manhã já havia consolidado sua posição de liderança, que mantém até hoje, conforme comprovam pesquisas realizadas e prêmios conquistados. O processo de desenvolvimento foi conduzido em estreita sintonia com a comunidade, incluindo participação ativa na vida cultural, social e econômica de Campos. Exemplos atuais são a Feijoada da Folha, que em 2019 chegou à sua 28ª edição, reunindo lideranças políticas, empresariais, sociais e comunitárias, e o Troféu Folha Seca, que já homenageou 20 campistas de destaque nacional e internacional em suas área 

Orgulhosamente, este que escreve tem um espaço hospedado no portal do Grupo Folha, além de já ter assinado matérias no jornal impresso, participado de iniciativas na PlenaTV e algumas vezes na bancada do Folha no Ar, da FolhaFM. Embora contribuindo pouco nesses 43 anos, sinto-me em casa ao escrever. E agradecido, com total confiança no profissionalismo, zelo pelo bom jornalismo e cuidado com cada detalhe que compõe essa história de sucesso.

Parabéns ao Grupo Folha, como empresa familiar (de sucesso, fato não muito comum no Brasil) faz com que seus colaboradores sintam-se em família. Já dizia o fundador, que já não está entre nós como matéria, Aluysio Cardoso Barbosa, que jornalismo é trabalho coletivo. Assim, toda equipe merece os parabéns. Mas, externo aqui para Aluysio Abreu Barbosa, Christiano Abreu Barbosa e Diva Abreu Barbosa. Irmãos que se complementam, ambos donos de enormes talentos, meticulosamente trabalhados, sob o comando de uma mulher que já era empoderada bem antes do termo ser moda. Como norte, a memória de um grande e visionário jornalista. Esses elementos misturados são a fórmula do sucesso da Folha. Vida longa!
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O sol que ilumina a Terra Plana
07/01/2021 | 21h13
O sol já iluminava o solo brasileiro, nas primeiras horas do dia no ocidente, quando neste 7 de janeiro o Congresso americano pôde enfim declarar como eleitos, Joseph R. Biden Jr e Kamala D. Harris. Na Geórgia, concomitantemente, o reverendo Raphael Warnock e o documentarista Jon Ossoff foram ratificados como senadores, deixando o Partido Democrata com maioria na Câmara e no Senado durante o biênio 2021-22. Os Estados Unidos da América dão por encerrado o seu processo eleitoral, sem possiblidade de reverter, depois que o Congresso Nacional sanciona o resultado.
O sol que iluminou o solo americano algum tempo depois, pelo movimento de rotação da terra — sim, confirmando que a terra não é plana, e cabendo essa ressalva, infelizmente, em um século XXI que teima em não se reconhecer —, deveria ter Biden e Kamala Harris formalmente eleitos horas antes.
Deputados e senadores foram impedidos de concluir seus trabalhos institucionais por um motivo assustador: tiveram a vida posta em risco. Pela primeira vez a democracia mais longeva do mundo, há 232 anos elegendo pelo voto seus representantes, foi atacada por um presidente que incitou manifestantes para que invadissem o Parlamento de forma a impedir que a escolha popular fosse confirmada.
E ele foi invadido. Levando quatro pessoas a morte. Vândalos deixaram 14 policiais feridos e dois continuam hospitalizados. A democracia americana foi espancada por um caudilho topetudo tosco, que reduziu o orgulhoso país, que humilha seus moradores latinos, a uma República de Bananas, termo do escritor americano William Sydney Porter, conhecido como O. Henry, no conto ‘O Almirante’, de 1904. O termo é usado pejorativamente para definir países latino-americanos politicamente instáveis.
Foram ações sem precedentes na história. A única comparação possível envolve a Guerra Anglo-Americana, iniciada em 1812, quando a Inglaterra invadiu os EUA e levou, dois anos, depois à Batalha de Washington, onde tropas europeias ocuparam o Capitólio e a Casa Branca, sede do poder estadunidense.
Donald Trump, nos jardins da Casa Branca — no equivalente americano do “cercadinho do Alvorada”, onde o presidente brasileiro dispara suas imbecilidades — discursou para a turba. O ainda presidente americano continuou com sua retórica de fraude eleitoral, sem qualquer prova, e incitou o ataque democrático: “Nós vamos agora andar até o Capitólio, vamos celebrar nossos bravos senadores e deputados e deputadas, e talvez não celebremos alguns deles”. A claque que o ouvia seguiu ao Congresso e invadiu o Capitólio — prédio histórico e extremamente representativo na democracia americana—, pegando a segurança desprevenida e causando estrago. Um dos baderneiros desfilava com uma bandeira confederada — símbolo do movimento de 1860 que queriam dividir o EUA. Outro circulou com uma camiseta que estampava “Campo Auschwitz”, campo de concentração, maior símbolo do Holocausto, localizado no sul da Polônia, operado pela Alemanha Nazista. Muitos carregavam bandeiras com Trump escrito em letras garrafais.
Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Por Aluysio Abreu Barbosa, no Blog Opiniões Foto: Reprodução)
Militantes convocados por Donald Trump invadiram o Congresso dos EUA hoje, interrompendo a sessão que reconheceria a vitória do presidente eleito Joe Biden (Por Aluysio Abreu Barbosa, no Blog Opiniões Foto: Reprodução)
 
Em essência, os imbecilizados manifestantes aderem a uma teoria denominada “QAnon”. Segundo essa teoria, Trump estaria travando uma guerra secreta contra “pedófilos adoradores de Satanás” que estariam representados no grupo que ganhou a eleição, na esquerda, na imprensa e em outros lugares que uma mente perturbada pode supor. Nada mais fantasioso e perigoso, como visto ontem.
A repercussão foi, obviamente, mundial. Líderes ao redor do mundo repudiaram o ataque frontal à democracia americana, a mais longeva do mundo — vale a repetição. Por aqui, em uma democracia bem mais recente e frágil, Bolsonaro se rendeu ao complexo de vira–latas e a adoração trumpista já conhecidas, e se limitou a dizer: “Vocês sabem que eu sou ligado ao Trump. Então você já sabe qual é a minha resposta aqui”. Mas, não deixando de aumentar a preocupação, experimentada por muitos brasileiros, logo depois do ataque ao Capitólio: “Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os Estados Unidos”.
A preocupação tem sentido. Trump e Bolsonaro fazem parte da mesma onda ultraconservadora e populista de direita que chegou ao poder, com representantes, além dos EUA e Brasil, na Polônia, Itália, Áustria, Turquia e outros. Assim que Trump começa a questionar o resultado eleitoral por lá, Bolsonaro lança dúvidas sobre o de cá. Pedindo o voto impresso, o presidente brasileiro ainda questionou o resultado das eleições onde ele mesmo saiu vitorioso, em 2018. Caso o resultado de 2022 seja negativo ao bolsonarismo, parece ser perfeitamente possível que ataques à nossa democracia aconteçam. Resta saber se nossa fragilidade institucional e democrática, pode suportar os ataques com efetividade. A democracia não é propriedade intrínseca de nenhum país. Quando suas condições sociais e políticas são diluídas, ela se apequenar ou se desconstituir em qualquer lugar.  
Por outro lado, talvez a violência americana possa criar cenários de fortalecimento das democracias, paradoxalmente. Explico: Um ataque grave como o de ontem, em uma democracia tão representativa, pode criar mecanismos de defesa, sendo a sociedade — e a própria democracia, por consequência — um organismo vivo. E, assim como uma vacina que cria armas para que o sistema imunológico humano rebata ameaças por já conhecê-las previamente, o 7 de janeiro de 2021 pode agir como um imunizante. Talvez. Salvo se o negacionismo premente prevaleça, e o como vemos no caso da pandemia do coronavírus, muitos se neguem à autopreservação. Mas, o sol que nasce no ocidente pode iluminar nossa terra plana.
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Campos, palco relevante e de alta qualidade, historicamente e contemporaneamente, de produção jornalística, cultural, artística e acadêmica, repercutiu o alarmante 7 de janeiro. Dialogo aqui com alguns dos atores campistas responsáveis, na atualidade, por essa relevância e qualidade:
Aluysio Abreu Barbosa, jornalista, editor do Blog Opiniões, hospedado no Folha1: (Atualizado em 08/01)
Tenho 48 anos. Lembro-me dos presidentes dos EUA desde Jimmy Carter. E dos seus seis sucessores na Casa Branca. Incluindo o atual, derrotado por Joe Biden nas urnas de novembro por 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares. 
Vivi para ver o Congresso dos EUA ser ontem invadido por militantes de um caudilho de 5ª categoria. Para transformar a democracia mais longeva do mundo, que há 232 anos elege pelo voto seus representantes, em uma republiqueta de bananas. 
Espero viver para ver o responsável ser acusado, julgado e condenado com todo o rigor da lei. Tão logo seja cumprido seu mandado de despejo do poder, daqui a apenas 13 dias. E que sirva de exemplo abaixo do Equador, ao que espera o Brasil em 2022.
George Gomes, professor de sociologia da UFF-Campos:
Penso que uma das chaves para interpretar o que ocorreu nos EUA seja a estética política do que a extrema-direita, inclusive no Brasil, chama da "ucranização". No imaginário político de parte da extrema-direita contemporânea a Ucrânia forneceu um caminho, um rito de “purificação” das instituições alicerçado em um discurso ultranacionalista. Na prática instituiu a barbárie e a violência contra sua classe política tradicional. Tudo feito de maneira espetacularizada.
Na “ucranização”, ocupar prédios públicos é parte do repertório. Penso que o que ocorreu no Capitólio é fundamental para entender o que pode ocorrer por cá nos próximos tempos. Se tornou por enquanto um fato que confere concretude a determinadas ameaças.
E nem precisaremos chegar em 2022. As hostes já estão excitadas. As últimas falas de Bolsonaro, ameaçando a legitimidade do processo de concorrência eleitoral brasileiro acendem um alerta. Por enquanto amarelo. Mas, pode se tornar vermelho. A opinião pública, as instituições, a sociedade civil, a classe política.. Todos estão ainda em tempo de desarmar a tentativa de implementação de um projeto disruptivo. Pouco importa se tal projeto será bem ou mal sucedido. Algo assim não transcorre sem deixar prejuízos. Prejuízos estes, alguns deles, que necessitam do empenho de gerações para serem superados.
De todo modo, para a extrema-direita o que aconteceu no Capitólio foi um experimento. Vale pelo fato isolado e vale ainda mais pelas consequências. As repercussões jurídicas, simbólicas e políticas importam muito nas próximas semanas e meses.
Por fim, o White Trash norte-americano achou um Rubicão para atravessar. E não.. o Partido Republicano não tem como sair inteiro disso.
Rafaela Machado, historiadora, diretora do Arquivo Público de Campos:
Mais do que a pronta resposta dos líderes e organizações mundiais, a democracia norte-americana precisa punir os que abriram essa triste chaga ao invadirem o Capitólio, como também a quem incitou e levou os manifestantes a promoverem aquelas cenas de caos. O que digo é necessário não só para que os EUA se recuperem do erro cometido ao eleger Trump, como também para que as demais democracias mundiais, especialmente as que hoje são governadas por essa direita ultraconservadora, percebam os reais efeitos de qualquer ação que se queira parecida.
Estejamos certos de que a intenção do governo brasileiro é seguir na mesma onda de desordem, caos e de solapamento da democracia - enquanto esperam se fortalecer e minar qualquer mínima oposição. Bolsonaro não discursa há tempos contra o nosso sistema eleitoral inocentemente. Assim como não é desprendido de motivo as vozes que se levantam pelo fechamento do Supremo. A resposta das autoridades norte-americanas precisa ser proporcional ao grande mal praticado, pois só assim lá e aqui estaremos no caminho de garantir a sobrevivência, ainda que a duras penas, do sistema democrático.
Roberto Dutra, sociólogo e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF):
Assim como afirmei (confira aqui) em relação a Trump antes das eleições nos E.UA., não vejo como ter dúvidas de que Bolsonaro vai atacar o procedimento eleitoral em 2022. Toda sua prática e discurso apontam nesta direção. Bolsonaro não é, obviamente, o único fator de corrosão da democracia brasileira. A democracia moderna depende de condições sociais e políticas que não são propriedade intrínseca de nenhum país. Entre estas condições, eu destaco duas como sendo as mais importantes:
1) o sentimento de pertencer à comunidade política nacional sustentado na inclusão social e econômica e 2) a adesão aos procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia. A erosão das condições e perspectivas de vida das classes populares e médias tem corroído o sentimento de pertença à comunidade política nacional e a atuação de líderes e governantes autoritários como Trump e Bolsonaro, que se aproveitam da frustração e do ressentimento que se originam da decadência social, é o que mais contribui para destruir a adesão aos procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia. Quando essas condições sociais e políticas são diluídas, a democracia pode se apequenar ou se desconstituir em qualquer nação. Portanto, o desafio que se coloca para enfrentar o bolsonarismo em 2022 é duplo: reconstruir uma perspectiva de cidadania e inclusão socioeconômica para as maiorias e defender os procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia. De fato, os sistemas sociais costumam desenvolver mecanismos ou subsistemas imunológicos contra ameaças. A invasão do Congresso dos E.U.A pode estimular este tipo de evolução social em outros países como o nosso. Mas apenas a defesa dos procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia, embora seja necessária e urgente, não é suficiente para imunizar a sociedade e a política contra ameaças autoritárias. Precisamos levar em conta também as condições sociais, especialmente os problemas de inclusão socioeconômica que alimentam a cultura política do bolsonarismo.
 
 
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Em Campos, a palavra de ordem é Independência
05/01/2021 | 17h06
"São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”. É o que determina a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 2º. Na esfera municipal, o legislativo é a Câmara de Vereadores. Ora, é preciso sim harmonia, pelo bem do povo, de onde emana “todo o poder”, como explicitado na mesma constituição. Mas, é preciso harmonia com independência.
É possível? Tem que ser.
A Câmara exerce – ou deveria exercer – papel fundamental para trazer esse mesmo povo para o jogo democrático. Em sua função primeira, de legislar, faz refletir as necessidades do município nos ordenamentos que passam a ser obrigatórios aos gestores eleitos, sejam eles quais forem. O vereador é um representante do cidadão, nas suas pluralidades de interesses. Por isso temos 25 edis em Campos, em número máximo permitido, aliás, naquela mesma carta magna dos anos 1980.
Outra função dos vereadores é fiscalizar o executivo. E daí vem o conceito de intendência do legislativo. Que deve existir mesmo havendo atuação firme do judiciário em seus órgãos municipais, que devem ser provocados para agir. O legislativo não. Deve fiscalizar por dever de ofício. E por iniciativa própria. Deve ser independente, assim como o Ministério Público, que não é órgão do judiciário e não obedece ao princípio da inércia.
Câmara e Ministério Público são independentes justamente para que eles cumpram o papel de fiscal. E um fiscal que tem o povo como mandante e eles como mandatários. E obedecem ao que a Lei das Leis, já citada aqui, definir.
E o executivo, deve ser independente? Esse já cumpre o papel de administrar interesses do povo, governar segundo relevância pública e fazer cumprir as leis elaboradas pela Câmara, pela Casa do Povo. Em Campos, o executivo precisa de independência, como nunca. Por quê? A independência necessária no caso específico do executivo em Campos, e do grupo que foi tomou posse em primeiro de janeiro, fica para uma próxima conversa.
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Arquivo Nacional faz 183 anos e Arquivo de Campos corre perigo
03/01/2021 | 20h30
Ontem (2), tomei conhecimento, através de uma postagem do historiador Carlos Freitas, no grupo de WhatsApp do programa Folha no Ar, da FolhaFM e do Blog Opiniões, do jornalista Aluysio Abreu Barbosa, sobre o aniversário do Arquivo Nacional (AN), comemorado naquele dia. O AN fez longos 183 anos. A Cultura faz parte do meu dia, tanto na atividade jornalística, quanto nos projetos que estou envolvido. Mas, sinceramente, não havia me atentado pela data.
A Folha da Manhã noticiou ontem o furto no Museu Olavo Cardoso (MOC), localizado no centro de Campos, que encontra-se fechado há anos. Eu e o jornalista Matheus Berriel começamos a apuração tão logo tomamos conhecimento sobre a ocorrência, e escrevemos a matéria (confira aqui). Conversei com várias pessoas e representantes da cultura do município. O roubo aconteceu no início da semana, e o MOC sequer tinha um diretor ou diretora nomeado ou nomeada, apesar do que representa e do que havia em sua guarda. Estamos em um momento de transição de governo e sigo apurando para obter acesso à relação completa do que havia efetivamente no acervo antes e depois do furto. A pauta ainda está muito viva, pela sua importância.
Uma das pessoas que consultei e que sempre defendeu arduamente os equipamentos culturais de Campos, foi Rafaela Machado, que é diretora do Arquivo Waldir Pinto de Carvalho, equipamento cultural que conta com uma equipe aguerrida, mas com fragilíssima estrutura para trabalhar. Tiverem energia cortada diversas vezes nesse ano que passou, cortes na equipe e falta de segurança.
Wladimir Garotinho, prefeito que tomou posse no último dia primeiro, escolheu Auxiliadroa Freitas para a FCJOL. O seu plano de governo, durante a campanha de 2020, foi analisado por alguns representantes da cultura campista.
Wladimir Garotinho, prefeito que tomou posse no último dia primeiro, escolheu Auxiliadroa Freitas para a FCJOL. O seu plano de governo, durante a campanha de 2020, foi analisado por alguns representantes da cultura campista. / Edmundo Siqueira
O Arquivo Nacional dos Estados Unidos da América, tem sua segurança feita pelo FBI, a Polícia Federal americana. Aqui no Brasil, a guarda é terceirizada e diminuída nos equipamentos culturais — ou deixa de existir — quando há corte de orçamento. Lá, existem exposição permanente da Declaração de Direitos, da Constituição, e da declaração da Independência. São documentos de formação da identidade americana. São visitados constantemente por estudantes, formando uma geração que se importa com a História do país.
O Arquivo Nacional brasileiro, que é detentor da Lei Áurea, das Constituições Brasileiras, do Processo de Condenação de Tiradentes, da Fundação do Banco do Brasil em 1808, e de outros tantos documentos, também deveriam formar identidade. Mas, a maioria esmagadora dos brasileiros, sequer sabe que eles existem. Assim como os campistas não sabem o que existe no Arquivo, no Museu Histórico, nos porões do Palácio da Cultura, ou mesmo quem está em seu Pantheon.
E nunca vai saber o que havia no Museu Olavo Cardoso. A instituição teve seu acervo subtraído, sob a “proteção” da prefeitura. Acervo que poderia estar sob a guarda de outro aparelho em atividade, como o Museu Histórico, com direção de Graziela Escocard, ou ainda no Arquivo, que Rafaela e equipe protegem apesar da falta de apoio. Escolhida para a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), a professora Auxiliadora Freitas precisará se esforçar bastante para que o que foi feito até aqui, com muito esforço das equipes desses instrumentos culturais, seja ao menos preservado.
Não queremos a proteção do FBI nos nossos equipamentos culturais. Mas, ao menos, devemos exigir que nossa história seja preservada, para que uma identidade campista seja criada e nosso Arquivo também possa fazer 183 anos.
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A coragem precisava vencer, mas faltou bastante
30/12/2020 | 16h31
Amanhã (31), o prefeito Rafael Diniz (Cidadania) encerra seu ciclo na Prefeitura de Campos dos Goytacazes. Eleito em 2016, em primeiro turno, com 55% dos votos que totalizaram mais de 151 mil eleitores, Diniz representava uma esperança. À época, o resultado eleitoral demonstrava insatisfação do eleitorado campista com a administração do grupo garotista — desgaste potencializado nos 100 milhões desperdiçados no CEPOP.
Durante as eleições deste ano, Roberto Henriques (PCdoB) adjetivou, em entrevista ao Folha no Ar da Folha FM 98,3, como "perdulários" os modelos de gestão na Prefeitura de Campos desde 1998. E estava coberto de razão. Mas, a esperança que o jovem prefeito representava precisava vir do verbo esperançar; que é o contrário de esperar, como a palavra parece supor. Era preciso agir.
Na última entrevista antes do primeiro turno, concedida ao portal G1, Rafael demonstrava saber o que precisava ser feito. Respondendo a indagação “o que você pretende fazer para que Campos seja uma cidade de destaque no estado?”, ele respondeu: “investindo em nossas vocações históricas. No caso da Agricultura, por exemplo, podemos ser destaque não só no estado, mas em todo o país. Infelizmente este governo transformou a Secretaria de Agricultura em uma superintendência. Vamos reimplantar a Secretaria de Agricultura e Pesca, garantindo maior participação no orçamento”.
 Rafael no lançamento, durante a pandemia, do programa
Rafael no lançamento, durante a pandemia, do programa "Campos daqui para frente", prevendo a retomada de atividades econômicas e sociais, debatido com representantes das instituições do comércio e indústria. / Reprodução
 
Assim como alguém que votou em Bolsonaro não pode alegar desconhecimento sobre sua falta de decoro, Rafael não pode dizer que não conhecia os problemas e as soluções de Campos. Seu mote de campanha era afirmar que “nada foi feito nos últimos anos para diminuir a dependência dos royalties”. Mas, esse foi o modelo que ele fez perdurar. A agricultura continuou uma superintendência, com orçamento pífio, e o agronegócio que poderia ter “salvado a lavoura” não foi incentivado, trabalhado, tampouco utilizado como fonte de receita para o município.
Por estimativa do empresário Renato Abreu, presidente do Grupo MPE, o setor sucroalcooleiro irá movimentar na economia local algo em torno de R$ 500 milhões durante a safra 2019/2020.
Por estimativa do empresário Renato Abreu, presidente do Grupo MPE, o setor sucroalcooleiro irá movimentar na economia local algo em torno de R$ 500 milhões durante a safra 2019/2020. / Rodrigo Silveira
 
Para dar apenas alguns exemplos, em Sapezal, no Mato Grosso, município líder na produção de algodão, o PIB agro em relação PIB do município é de 54,5%. Ainda no mesmo estado, Diamantino tem a proporção de 54,3%. Em São Desiderio, na Bahia, a participação do PIB é de 66,5%. O valor médio da produção dos 50 municípios com maior valor da produção de agronegócio é de R$ 1,521 bilhão. Ainda utilizando o exemplo de Sapezal, a sua produção de agro foi na cifra de 3,338 bilhões. Vale lembrar que o orçamento total previsto para Campos em 2021 é de 1,57 bilhão.
Em 2020, Rafael tenta a reeleição com o lema “a coragem precisa vencer”. Os 5,45 % dos votos conseguidos por ele mostram que o slogan não refletia a prática. Faltou coragem, faltou ação. Em uma analogia rasa, mas que exemplifica bem o que precisa ser dito, se alguém herdasse dívidas de seus pais, e nada fizesse senão reclamar da herança maldita, estaria ele ou ela fadado ao fracasso contínuo e passaria por sérias dificuldades. Rafael não buscou “dinheiro novo”, não atraiu investimento e não aproveitou as mesmas “vocações históricas” que ele já conhecia e prometera investir.
Campos ainda precisa de coragem. A a Folha promoveu 11 painéis, com especialistas em diversas áreas (podem ser conferidos neste link, que tem um excelente resumo do jornalista Aluysio Abreu Barbosa), que comprovam essa necessidade. Em um ano tão complexo e triste, resta a nós, campistas, esperançarmos em dias melhores. E que eles reflitam em possiblidade real de investimento em cultura, educação, esporte e lazer, direitos fundamentais, previstos na Constituição Brasileira de 1988 e tão necessários em solo campista.  
Mesmo representando um grupo tradicional e “perdulário”, o prefeito eleito Wladimir Garotinho parece ter acertado na escolha do vice, Frederico Paes (um dos grandes responsáveis pela sua vitória em opinião pessoal deste que escreve), e no secretário de Agricultura, Almy Junior (com grande capacidade acadêmica e de gestão, já demonstradas), que apresentam as condições técnicas e pessoais para ter a coragem de fazer o município se render ao que nasceu para ser: produtivo, com um agronegócio (aqui em lato sensu, envolvendo a agricultura familiar) forte.
Com o ‘ouro negro’, que brota na bacia sedimentar campista, mostrando que não é uma fonte inesgotável de recursos, restam poucas alternativas econômicas com potencial para salvar o município, e quase todas concentradas no campo. Mais especificamente — e possivelmente — no ‘ouro branco’ que pode brotar dos  mais de 4 mil quilômetros quadrados.
A esperança que Rafael Diniz representava foi ficando presa nos buracos das vias urbanas e das estradas que deveriam promover o escoamento da produção agropecuária. O malabarismo que todo campista teve que fazer para desviar desses e outros buracos exigiu coragem, aprendida na dificuldade, não no exemplo.
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O melhor presente de Natal de 2020 é 'virar um Jacaré'
25/12/2020 | 20h54
Os sentimentos (pelo menos os dignos) que celebram o Natal, em nada se confundem com os que temos quando olhamos para um Presidente da República que desestimula constantemente a única saída segura conhecida para a pandemia do coronavírus: a vacina. Se não por humanidade, Bolsonaro deveria ter o bom senso econômico — e político — de querer a vacinação em massa no Brasil, o mais rápido possível. O próprio Paulo Guedes (ministro da Economia chamado carinhosamente de ‘Posto Ipiranga’ pelo ignóbil presidente) já disse que o auxílio emergencial pode chegar a R$ 55 bilhões por mês, enquanto a vacinação da população custaria menos da metade, R$ 20 bilhões. A despeito de tudo isso, Bolsonaro prefere dizer que em um evento na Bahia, que se você tomar vacina e “virar um jacaré, é problema seu”.
Qualquer vacina pode causar efeitos adversos. Embora seja impossível a vacina transformar quem foi imunizado em um jacaré (ou em um chipanzé como Bolsonaro teria falado se não fosse impedido pelo medo da fala ser interpretada como racismo, algo que ele tem histórico negativo), essa fala do líder da nação causa dúvidas e medos nas pessoas. O primeiro imunizante contra a covid-19 a conseguir autorização emergencial no mundo, o da Pfizer, teve sim, problemas com reações adversas no Reino Unido. Quatro profissionais de saúde três deles com histórico de alergia grave apresentaram reação alérgica após tomar o imunizante. O que rapidamente foi retirada a indicação apenas para este público, e a vacina segue sendo distribuída e aplicada.
Nessa semana, inclusive, dois importantes líderes mundiais se imunizaram, e fizeram questão de divulgar, orgulhosos, a vitória da ciência contra uma doença que já matou mais 1,7 milhão de pessoas pelo mundo. Joe Biden, presidente eleito dos EUA e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, conhecido como Bibi.
Joe Biden recebe a primeira dose da vacina contra o coronavírus da enfermeira Tabe Mase em Newark, Delaware
Joe Biden recebe a primeira dose da vacina contra o coronavírus da enfermeira Tabe Mase em Newark, Delaware / Reprodução
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, recebeu a vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNtech neste sábado (19)
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, recebeu a vacina desenvolvida pela Pfizer/BioNtech neste sábado (19) / Reprodução
 
Neste Natal, após Biden e Bibi não se transformarem em um jacaré (pelo menos até esta publicação), o presente que todos queremos, os minimamente preocupados com a saúde pública, ou mesmo com a sua e de seus familiares, é aquele que seja capaz de nos imunizar do vírus que parou o mundo e vem deixando milhares de famílias sem razão de sorrir neste fim de ano. Se o bom velhinho vier em um jacaré voador, desde que traga a vacina, será bem vindo.
 
 
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Sobre o autor

Edmundo Siqueira

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