Arthur Soffiati: Reflexões sobre natureza e cultura (III)
Arthur Soffiati - Atualizado em 23/12/2020 20:34
Num escrito clássico, Engels diz que “... o animal apenas utiliza a natureza exterior e provoca nela modificações apenas pela sua presença; por seu lado, o homem transforma-a para que ela sirva os seus fins; domina-a. E é nisto que consiste a última diferença entre o homem e os animais; tal diferença deve-a o homem mais uma vez ao trabalho.” (O papel do trabalho na transformação do macaco em homem. Dialéctica da Natureza. Lisboa: Presença, 1974). Mesmo depois de Darwin, Engels e o marxismo continuaram sustentando a dicotomia homem x animal.
Um dos últimos pensadores a defender essa separação foi Ernst Cassirer. Segundo ele, os animais são capazes de se comunicar através de uma linguagem emotiva, mas não conseguem fazer uso de signos com referência objetiva ou sentido. Não são capazes de desenvolver uma linguagem preposicional, que representa a fronteira entre o ser humano e o animal. Para fundamentar melhor sua tese, ele explica que “Sinais e símbolos correspondem a dois universos diferentes do discurso: um sinal é uma parte do mundo físico do ser; um símbolo é uma parte do mundo humano do sentido. Os sinais são ‘operadores’; os símbolos são ‘designadores’. Os sinais, ainda sendo entendidos e utilizados como tais, possuem, não obstante, uma espécie de ser físico ou substancial; os símbolos possuem unicamente um valor funcional”. (Antropologia Filosófica. México: Fondo de Cultura Económica, 1992). Sem negar imaginação e inteligência aos animais, o filósofo demonstra que só o ser humano desenvolve inteligência e imaginação simbólicas.
Estudos relativamente recentes vêm demonstrando cada vez mais comportamentos surpreendentes entra animais. Vejamos primeiramente os espontâneos, que os cientistas chamam de “in situ”, ou seja, no ambiente do animal e sem a interferência humana. O estudioso se restringe aqui apenas a observar. Não se trata mais do simples reflexo condicionado de Pavlov, pois que certos animais conseguem mesmo adquirir o conceito de “eu”, que, nas crianças humanas, só se desenvolve aos poucos. Chauvin esclarece: “Entende-se por ‘eu’ aquilo que permanece uno e estável através dos acontecimentos e para o homem ‘aquilo que pensa’. Mas há um eu primário (a concepção verbal ou não do estável através do instável) e um eu secundário (a concepção do pensamento enquanto sujeito pensante). Para o animal só se pode tratar evidentemente do primeiro caso”. (A Etologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1977).
Insistindo na observação de Chauvin, José Lino Oliveira Bueno informa que “Staddon procura mostrar que os animais desenvolvem uma representação interna de seu mundo que guia a sua ação. Os animais precisam ter habilidade para reconhecer quando comportamentos adaptativos particulares são apropriados. Isto implica a existência de processos que permitam ao animal comportar-se da mesma maneira — ou de maneiras que sejam as mesmas em aspectos essenciais — toda vez que eles estejam na mesma situação. Ou de comportar-se diferentemente numa situação em relação à outra”. (O comportamento animal é mediado por representações. (Ciência e Cultura v. 41, nº 7. São Paulo: Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, junho de 1989).
Roger Penrose, um dos cientistas enciclopedistas do século XX, acredita na capacidade que certas espécies animais têm de expressar conceitos por meio de signos verbais. Segundo suas palavras, “Há uma considerável controvérsia sobre a capacidade de verbalização autêntica de chimpanzés e gorilas, quando lhes é possível usar a linguagem de sinais em lugar de falar de maneira normal (o que não podem fazer devido à falta de cordas vocais adequadas). Parece claro, apesar da controvérsia, que eles são capazes de se comunicar pelo menos até em certo grau elementar, por esse meio. Na minha opinião, há uma incompreensão das pessoas ao não admitir que isso seja chamado ‘verbalização’. Talvez ao negar aos macacos o ingresso no clube dos verbalizadores, tenham a esperança de excluí-los do clube dos seres conscientes! (...) Surge uma questão interessante em relação aos golfinhos (e baleias). Podemos notar que os cérebros (telencéfalos) dos golfinhos são tão grandes (ou maiores) do que os nossos e que eles também podem enviar sinais sonoros muito complexos entre si. É bem possível que seus cérebros grandes sejam necessários para alguma outra finalidade que não a ‘inteligência’ em escala humana ou quase humana. Além disso, por não terem mãos com que possam segurar, não podem construir uma ‘civilização’ do tipo que apreciamos — e, embora não possam escrever livros pela mesma razão, poderiam ser filósofos e ponderar sobre o significado da vida e a razão de estar ‘ali’! Poderão transmitir seus sentimentos de ‘consciência’ através de seus complexos sinais sonoros de submarinos?” (A MenteArthur Soffiati Nova do Rei: Computadores, Mentes e as Leis da Física. Rio de Janeiro: Campus, 1991).

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