Lula é um homem de ontem, Flávio, de anteontem
11/10/2026 | 09h41
Lula e Flávio Bolsonaro: dias de um futuro esquecido
Lula e Flávio Bolsonaro: dias de um futuro esquecido / Montagem feita pelo autor / Edmundo Siqueira

O segundo turno eleitoral é também uma batalha de rejeições. Não basta convencer o eleitor de que se é a melhor escolha, as campanhas precisam demonstrar que o adversário representa um risco maior. Lula e Flávio Bolsonaro possuem 46% e 43% de rejeição, respectivamente, de acordo com o último Datafolha. O empate técnico, porém, se dá entre duas visões de mundo muito diferentes para o Brasil, e ambas atrasadas.

Não é intelectualmente — ou democraticamente — justo fazer uma simetria entre as propostas e o modo de agir politicamente do lulismo e do bolsonarismo. Lula participa ativamente da vida política do país há décadas, passando por vitórias importantes e por derrotas, mesmo as maiores, sem questionar a legitimidade do sistema eleitoral. Bolsonaro, o Jair, tentou um golpe de Estado quando perdeu, após vencer a sua primeira eleição para presidente. Foi condenado por isso. Portanto, as representações postas nesta eleição são de dois grupos que jogam jogos diferentes perante a democracia.


Porém, Lula não é um homem de hoje. E não se trata de idade. O atual presidente do Brasil é o maior representante ainda na ativa de um modelo de sociedade consolidado a partir da Constituição de 1988, chamado de Nova República. E esse modelo, a despeito de inegáveis avanços sociais, está em profunda crise. O tipo de presidencialismo que se consolidou naquele período rachou. O Congresso assumiu uma parcela crescente do controle sobre o orçamento federal, especialmente por meio das emendas parlamentares, e o Judiciário passou a ocupar um espaço cada vez maior nas decisões políticas, nem sempre respeitando os limites que deveriam separar os Poderes.

O alicerce econômico e social que sustentou o modelo da Nova República também começou a mostrar rachaduras severas. A burocracia brasileira herdou estruturas antigas, muitas delas favoráveis à concentração econômica, à proteção de grandes empresas e à excessiva intervenção estatal. O mercado de trabalho continuou organizado em torno de uma relação regida pela CLT, que garante uma gama de direitos, mas não conseguiu impedir a persistência de baixos salários, jornadas extensas e pouca qualificação profissional. Os investimentos estatais em tecnologia de ponta, embora existentes, ainda não produziram a transformação necessária desse cenário. E setores altamente competitivos da iniciativa privada, como o agronegócio, apesar de sua importância na geração de empregos, não conseguem, sozinhos, absorver uma população que precisa de ocupações cada vez mais qualificadas e bem remuneradas.


A rachadura do modelo não tem apenas causas internas. A profunda transformação nas relações sociais e na economia trazida pelas redes, e agora pela inteligência artificial, acelerou o descontentamento com as promessas que não foram cumpridas pela democracia liberal, no mundo inteiro. A sociedade mudou suas formas de trabalhar, consumir, informar-se e até de compreender a realidade. As instituições políticas, entretanto, não acompanharam essas mudanças na mesma velocidade.

Voltando ao caráter “de ontem” de Lula, percebe-se claramente que boa parte das ações, ideias e falas de seu governo ainda está voltada ao mundo anterior a essa toda essa transformação. A ideia tradicional petista é que a formalização do trabalho, nos modelos da CLT, deve ser o principal caminho de proteção e ascensão social. A garantia de direitos seria o grande ganho para esses trabalhadores, o que é verdade, mas já não corresponde, necessariamente, ao que boa parte deles deseja. A própria discussão sobre o fim da escala 6x1 mostra que o modelo precisa ser revisto. Não basta garantir o emprego formal se a remuneração não permite uma vida digna e se o trabalhador deseja, além dos direitos, autonomia, tempo e oportunidades de crescimento.

Há ainda uma transformação que o petismo parece não ter compreendido inteiramente. O empreendedorismo passou a integrar as aspirações de uma parcela considerável dos brasileiros. Muitos empreendem por necessidade, é verdade, submetidos a uma precarização disfarçada de autonomia. Mas outros desejam ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria e não depender de um patrão. E a classe C, principalmente aquela que toca pequenos negócios, carrega uma carga de impostos e obrigações burocráticas que muitas vezes compromete sua capacidade de crescer. É gente que emprega, produz riqueza e não se reconhece necessariamente no discurso político tradicional sobre a classe trabalhadora. O petismo não soube, basta olhar para os números do primeiro turno, propor soluções suficientemente convincentes para esses impasses.


Flávio e o retrocesso


Flávio, porém, é de anteontem. E não se trata, igualmente, de idade. O senador representa uma visão de sociedade que busca recuperar uma ordem supostamente perdida, um passado idealizado no qual a autoridade, a hierarquia e os valores tradicionais seriam capazes de organizar a vida nacional. O bolsonarismo é, em grande medida, um movimento de retrocesso. Não por acaso, o próprio plano de governo de Flávio apresenta a ideia de que o Brasil precisa voltar a ser um país sem os avanços de hoje. A promessa de futuro começa, curiosamente, pelo retorno ao passado.

O simbolismo não é desprezível. O lema “Deus, Pátria e Família”, utilizado pelo bolsonarismo e reproduzido no próprio site de campanha de Flávio, foi também a divisa da Ação Integralista Brasileira, fundada por Plínio Salgado em 1932. Isso não significa afirmar que Flávio seja integralista, nem que a defesa da religião (sem imposição, é claro), da família ou do patriotismo seja incompatível com a democracia. Mas revela a persistência de um repertório político que encontra no passado suas principais referências de organização social.

Existe, nesse ponto, uma contradição interessante. O bolsonarismo compreendeu como poucos movimentos políticos brasileiros a importância das redes sociais, da comunicação direta e da construção de identidades políticas no ambiente digital. Não se pode, portanto, dizer que desconheça as transformações tecnológicas. Mas dominar os instrumentos do presente não significa possuir uma concepção contemporânea de sociedade. É possível utilizar a tecnologia mais avançada para defender ideias muito antigas. E é justamente essa combinação que torna o movimento de massa em um país como o Brasil.

Também não seria correto afirmar que todo o conservadorismo é autoritário. Existem tradições conservadoras profundamente comprometidas com o Estado de Direito, a separação dos Poderes e a preservação das instituições democráticas. O bolsonarismo, na figura de seu principal líder, foi condenado por tentar impedir a alternância de poder. Flávio não pode ser responsabilizado pelos crimes do pai, mas é o herdeiro político declarado de seu movimento e pretende governar em nome desse legado.

A experiência histórica demonstra que o desejo de ordem pode produzir resultados bastante diferentes, conforme essa autoridade esteja submetida à Constituição ou pretenda se colocar acima dela. O Brasil já conheceu governos que justificaram a concentração de poder pela necessidade de combater a desordem, a corrupção e os inimigos da nação. Não foram experiências que deixaram boas lembranças à democracia.


Dias de um futuro esquecido

Lula tenta preservar um modelo que envelheceu. Flávio promete restaurar uma ordem que já deveria ter ficado para trás. E o Brasil continua à espera do futuro.
Lula tenta preservar um modelo que envelheceu. Flávio promete restaurar uma ordem que já deveria ter ficado para trás. E o Brasil continua à espera do futuro. / Charge criada por IA, a partir do envio do texto / Edmundo Siqueira


Lula e Flávio, portanto, representam respostas distintas e não equiparáveis a um mesmo fenômeno: o esgotamento da capacidade de representação política das últimas décadas. Um procura preservar e reformar um modelo que ajudou a construir. O outro promete superá-lo, mas busca no passado parte importante de suas referências.

Nenhum dos dois parece oferecer, de maneira suficientemente convincente, uma resposta à sociedade que se forma sob novas relações de trabalho, novas tecnologias e novas expectativas individuais. Isso ajuda a explicar o descontentamento, embora não seja suficiente, sozinho, para compreender o resultado eleitoral.

Mas há uma diferença fundamental, que não pode desaparecer nessa crítica. Uma democracia pode sobreviver a governos incapazes de compreender inteiramente seu tempo. Pode reformar suas instituições, substituir seus representantes e corrigir suas escolhas. O que ela não pode é abrir mão das próprias regras de funcionamento. Uma eleição não serve apenas para escolher um projeto econômico ou uma determinada visão de sociedade. Serve também para decidir quem exercerá o poder e sob quais limites.

O Brasil chega, assim, ao segundo turno dividido entre dois passados. O de Lula, que ainda procura respostas no pacto político e social construído há quase quatro décadas, e o de Flávio, que se apresenta como renovação enquanto reivindica a restauração de uma ordem anterior. A escolha entre eles não é indiferente, especialmente para a democracia.

Mas qualquer que seja o resultado, permanecerá uma questão que a eleição não parece capaz de resolver: por que, diante de tantas transformações, os brasileiros continuam procurando no passado e no autoritarismo as respostas para o futuro?
Compartilhe
Dutra, Lula e a última aposta
26/09/2026 | 08h12


Em 29 de abril de 1946, O Globo publicava na capa o que seria a primeira de uma série de reportagens sobre os cassinos do Rio de Janeiro. Uma das fotografias mostrava uma montanha de dinheiro sobre uma mesa do Cassino Atlântico, resultado de uma única noite de apostas. Segundo uma das versões, aquelas imagens tiraram do sério o presidente Eurico Gaspar Dutra, e pesaram em sua decisão de, no dia seguinte, assinar o Decreto-Lei nº 9.215 que viria a anular as licenças e proibir os jogos de azar em todo o território nacional.

Dutra não se furtou a justificar oficialmente a decisão, o texto do decreto dizia que o jogo contrariava “a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro”. Há ainda uma versão mais prosaica sobre a decisão do presidente, segundo a qual os cassinos foram fechados a pedido da primeira-dama Carmela Dutra, a Dona Santinha. Católica fervorosa, ela teria aderido à cruzada da Igreja contra o ambiente viciado dos cassinos e pressionado o marido.
O Globo


Oitenta anos depois, o Brasil vê novamente uma decisão presidencial fechando uma modalidade de jogo que se espalhou pelo país. Na última sexta-feira (25), o presidente Lula editou uma Medida Provisória proibindo as chamadas “bets”. Porém, o jogo, parte do argumento e, principalmente, a Constituição mudaram. O que antes precisava de salões iluminados da Urca e de Copacabana para funcionar, hoje cabe dentro de um smartphone e espraiou-se por um percentual de brasileiros bem maior.

A justificativa atual, ao menos a oficial, não cita a “moral e bons costumes” de Dutra, que colocou em seu lugar a ludopatia (o transtorno associado à compulsão pelo jogo), o endividamento e a proteção das famílias. E desta vez, o presidente que interrompeu o jogo é também candidato à própria sucessão. Na manhã em que anunciaria a medida, Lula levantou num ato de campanha no Recife um cartaz escrito “fim das bets”. Horas depois, como presidente da República, assinou a MP que colocava a frase do cartaz dentro do ordenamento jurídico do país.

A legislação eleitoral não proíbe que o presidente continue a exercer suas funções enquanto veste o chapéu de candidato. Não é exigido que o incumbente se afaste do cargo, e o governo precisa continuar a acontecer. E há ainda boas razões — sociais e econômicas — para que o Estado restrinja ou mesmo proíba as bets, uma vez que as plataformas de jogos eletrônicos sabidamente viciam e endividam apostadores.

Para além dos julgamentos morais, religiosos, sociais e jurídicos envolvidos, cabem questionamentos em relação ao momento em que a medida foi colocada em prática. A apenas nove dias do primeiro turno das eleições, a medida pode ter o potencial de alterar o resultado? Favorece a candidatura petista? Como deve ser encarada uma política pública de enorme apoio popular, capaz de reorganizar o debate eleitoral, que passa a valer por decisão imediata de um presidente poucos dias antes do eleitor julgar esse presidente nas urnas?

O Estado que abriu e fechou a porta

Em 2018, o governo Michel Temer legalizou a modalidade de aposta esportiva em “quota fixa”, focada em palpites sobre resultados de eventos esportivos no país. Temer também o fez por meio de Medida Provisória (MP 846/2018), mesmo instrumento que Lula usa agora para proibir. A MP foi convertida na Lei nº 13.756/2018, que previa prazos de regulamentação não cumpridos integralmente na época.

O governo subsequente, de Jair Bolsonaro, se omitiu em regulamentar. As bets começaram a movimentar uma quantidade enorme de dinheiro e financiar times de futebol, influenciadores digitais, programas de internet e TV. Regulamentar as bets se mostrava ainda mais problemático para Bolsonaro pois envolvia a questão religiosa, como agora, e a regulamentação poderia ser vista como uma aprovação dele.

Campanha do PT usando o fim das Bets
Campanha do PT usando o fim das Bets / Estadão/Reprodução


Só em 2023, cinco anos depois, as bets começaram a ser regulamentadas. Já no governo do presidente Lula foi sancionada a Lei nº 14.790/2023, estruturando as regras de taxação e funcionamento das apostas esportivas e jogos online no mercado nacional. A medida era, também, uma excelente oportunidade para arrecadar impostos para o governo.

Dinheiro, crime e urna

Os dilemas envolvendo apostas, governo e sociedade não são exclusividades do Brasil. Os cassinos atuam, mundialmente, em uma linha tênue de legalidade, não raro com envolvimento do crime organizado e lavagem de dinheiro. No Brasil, o Senado chegou a instalar uma CPI das Bets, cujos trabalhos reuniram indícios de ligação com o crime organizado, embora o relatório final tenha sido rejeitado em 2025.

Os números são gigantescos. Segundo reportagem do UOL, as bets movimentaram R$ 410,85 bilhões no primeiro semestre deste ano, gerando uma arrecadação de R$ 8,75 bilhões em impostos federais. Porém, segundo a mesma reportagem, saíram R$ 141 bilhões da economia brasileira no ano passado, pelo dinheiro direcionado às apostas.

O dinheiro ajuda a explicar parte da resistência. Clubes, emissoras, influenciadores e empresas incorporaram as bets às próprias receitas — e o Estado, aos seus tributos. E a quantidade jorrada por esse mercado mostra que muitas pessoas, empresas e instituições estão com seus orçamentos reféns desses recursos. Vale dizer, recursos que estavam regulamentados pelo próprio governo que agora interrompe os jogos.

A MP de Lula tem consequências imediatas, e em 60 dias, prorrogáveis por mais 60, o Congresso precisa se debruçar sobre ela para aprová-la ou não. Mesmo o segundo turno, caso aconteça, está marcado para 25 de outubro, portanto ainda na vigência da MP. A acusação de eleitoreira é automática e não poderia deixar de ser.

Proibir as bets produz dois efeitos, já visíveis: domina o noticiário e as conversas entre as pessoas e agrada alguns setores religiosos. São votos valiosos — se assim for convertido — de eleitores que não são necessariamente da base petista ou mesmo de esquerda. Em uma eleição de empate técnico, como apontam as pesquisas, esses votos podem decidir a eleição. Porém, a MP também desagrada setores poderosos e times de futebol que possuem torcidas muito numerosas.

Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada na quarta-feira (23/9) mostra que 75% dos brasileiros são a favor da proibição das apostas on-line. Portanto, 3 em cada 4 defendem a proibição. Com esses números em mãos, proibir as bets pode ser menos arriscado que parece eleitoralmente, mas com consequências ainda imprevisíveis.

Transpor o debate público para esse assunto pode ser interessante em um cenário que estava dominado por crise institucional com o STF e o escândalo do INSS, que afetam o governo. Mas também pode tirar o foco de seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, na investigação sobre as negociações com Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre seu pai.

O governo lembra que Lula tratou a regulamentação como um teste e prometeu suspendê-la se não funcionasse. “Eu, pessoalmente, acabava com as bets. Acho elas um mal para a sociedade”, disse o presidente, antes. Porém, uma MP com esse impacto a nove dias da eleição não se desvincula dela.

A Dona Santinha de hoje vai à urna?

Talvez nunca se saiba quanto existe de convicção e quanto existe de cálculo na decisão de Lula, assim como oitenta anos depois ainda se discute quais as motivações de Dutra para fechar os cassinos, se foi por Dona Santinha, pelas fotografias de O Globo ou simplesmente porque considerava o jogo incompatível com o país que pretendia governar.
Arquivo


Há, contudo, uma diferença que o calendário não permite esconder. Dutra fechou os cassinos depois da eleição que o levou ao poder. Lula fecha as bets enquanto pede voto ao eleitor. A medida pode ser necessária, popular e até correta. Mas, nada disso elimina a necessidade de perguntar por que uma política construída durante anos, regulamentada pelo próprio governo e capaz de movimentar centenas de bilhões de reais se tornou urgente exatamente agora.

No dia 4 de outubro, o eleitor dará sua resposta antes do Congresso. A medida provisória continuará produzindo efeitos enquanto deputados e senadores ainda discutem se ela deve sobreviver. Oitenta anos atrás, uma fotografia de dinheiro sobre uma mesa ajudou a simbolizar o fim dos cassinos. Hoje, o jogo inteiro cabe na tela de um telefone. Mas talvez a pergunta continue a mesma: quando o Estado decide que a aposta terminou, quem, afinal, está jogando?

Compartilhe
Dias de um futuro adiado
22/09/2026 | 10h36
Edmundo Siqueira


Faltam menos de duas semanas. Doze dias, para ser exato. Uma eleição estranhamente desmobilizada — não se fala exatamente em eleições e sim em instituições e acontecimentos que podem influenciá-las — confunde-se com a que talvez tenha maior importância na Nova República, justamente por representar seu crepúsculo ou sua manutenção.

A falta de estímulo é visível, mesmo na militância. O sentimento mais presente é o de evitar que o “outro lado” vença. Existem dois candidatos esponjas, que absorvem fidelidades, ressentimentos e identidades políticas previamente construídas, e que partem de pisos consolidados, representando projetos e ideologias conhecidos da maioria dos eleitores. Ambos carregam enormes rejeições, e são elas que estarão em jogo no provável segundo turno, daqui a 33 dias.

Não há um problema nisso, em princípio. Democracias podem acabar convergindo em duas visões de mundo, duas formas de governar, que podem ser dois partidos ou duas personalidades políticas. O problema aparece quando a divergência deixa de ser sobre futuros diferentes e passa a ser apenas sobre inimigos diferentes.

A questão brasileira, principalmente em 2026, é que a discussão binária não passa pelas propostas dessas visões de mundo. Há muito de futuro adiado numa eleição em que estão em jogo mais as personalidades dos candidatos do que suas ideias para o progresso da nação. Entram nessa disputa até seus costumes, religião e vida pessoal. O Brasil é um país central no mundo, detentor de importantes reservas naturais e uma de suas maiores economias. Qual papel o país deverá desempenhar neste novo desenho global que tem se construído? Quais setores estratégicos deverão receber investimento estatal? Quais linhas de pesquisa acadêmicas devem ser fomentadas? Como lidaremos com o mercado de trabalho interno com o avanço de inteligências artificiais? São todas perguntas absolutamente sem resposta a 12 dias das eleições.

Flávio Bolsonaro é um candidato por procuração. Representa o pai, condenado na trama golpista e atualmente em prisão domiciliar, e o movimento de massa construído a partir de sua figura. Bolsonaro, pai, foi construindo ao longo do tempo uma alternativa viável para uma direita e extrema-direita órfãs desde a redemocratização, que estavam adormecidas, envergonhadas, sem uma liderança popular. Consolidou-se como porta-voz de um eleitor conservador que viu muitos de seus ideais frontalmente atacados pelo progressismo. Bolsonaro, como todo político habilidoso, aproveitou as janelas de oportunidade que a história fornece, abraçando o forte antipetismo que se fortaleceu após a operação Lava Jato.

Não foi preciso uma construção partidária, os ideais se concentraram na pessoa de Bolsonaro, que ganhou em 2018 pelo PSL, tentou fundar um partido próprio, fracassou e acabou no PL, que ganhou novo protagonismo nacional pela chegada de Bolsonaro, não o contrário. Mas Bolsonaro se mostrou incapaz de aproveitar a sua maior oportunidade, que foi sentar-se na cadeira de presidente. Some-se a desastrosa condução da pandemia à tentativa de golpe de Estado, e ter-se-á o primeiro presidente, desde a instituição da reeleição consecutiva, a disputar e perder um segundo mandato.

Lula é a personificação da Nova República. Os “pais fundadores” deste regime, em sua maioria, já não estão entre nós; Fernando Henrique Cardoso está aposentado e o PSDB, como uma centro-direita histórica, foi engolido pelo bolsonarismo. Restou Lula, que disputa seu quarto mandato. Por essa personificação e pelo número de mandatos, carrega consigo os bônus e os ônus de tudo que o Brasil pós-Constituição de 1988 produziu. E isso traz a ele seu piso, inamovível, e também seu teto. Lula alcançou os maiores índices de popularidade já vistos por um presidente no Brasil, e foi um dos principais nomes na construção de uma das mais duradouras e capilarizadas organizações partidárias brasileiras.

Portanto, Lula é um “velho conhecido” do brasileiro, o que é um importante ativo, pois traz previsibilidade e simpatia de quem se beneficiou em seus governos, mas também traz um cansaço, um desalento do mais do mesmo. Somem-se os inúmeros casos de corrupção em seus governos à profunda crise econômica do governo Dilma e ter-se-á um empate técnico em pesquisas recentes com um candidato que disputa sua primeira eleição presidencial e atua por procuração.

A tragédia talvez esteja justamente aí. As duas opções mais viáveis eleitoralmente estão centradas nas personalidades políticas e não necessariamente na construção do país. E uma eleição tão ocupada pelo passado ocorre quando o futuro parece ter chegado antes do previsto, por uma nova disputa global por energia, tecnologia e recursos naturais. Os minerais críticos, por exemplo, tornaram-se ativos de interesse econômico, tecnológico e geopolítico, quando o Brasil possui reservas relevantes e precisa decidir se continuará apenas extraindo matéria-prima. Não é uma abstração para 2050. Já está acontecendo.

Dia 4, a eleição; dia 5, aniversário ou velório

No entanto, se Lula é a Nova República e o bolsonarismo nasceu como sua negação, esta é, sim, uma eleição de projetos — só que de um projeto já existente, o de 1988, contra a sua recusa. A Constituição completa 38 anos no dia 5 de outubro, o dia seguinte ao primeiro turno. Chega à maturidade sem saber se será celebrada ou velada.

O futuro não esperará a política brasileira terminar suas discussões sobre o passado. Um país não deixa de ter futuro porque não o discute. Apenas corre o risco de chegar a ele atrasado. No caso do Brasil, mais uma vez.
Compartilhe
O último duelo e a disputa que não está na cédula
23/08/2026 | 08h50
https:/pixabay.com/pt/vectors/arte-desenho-animado-vaqueiro-duelo-1295282/

Não é difícil reconhecer a existência de um duelo à brasileira desde 2018, no qual figuram nos polos Lula e Bolsonaro. Convencionou-se chamar de polarização — estão em extremidades políticas opostas, então é justo nomear assim —, mas ela se dá mais em relação aos personagens do que às suas premissas ideológicas. Há extremismos visíveis em Bolsonaro, o que não é percebido em Lula. Apesar disso, polarizam, ainda que assimetricamente, mas como uma polarização afetiva e centrada nos candidatos.
Veja a última análise de pesquisas eleitorais para presidente aqui, do Blog Opiniões de Aluysio Abreu Barbosa. 

Por força dessa polarização afetiva, há em Lula e Bolsonaro um evidente protagonismo na esquerda e na direita, respectivamente, e partindo dessa premissa, a eleição de 2026 poderá, por inelegibilidade de Bolsonaro e por limite de mandatos consecutivos de Lula, representar o fim desse duelo, pelo menos como centro eleitoral, ainda que um deles tenha uma sobrevida de quatro anos.

Se olharmos com olhos estritamente legais, há possibilidade de esse duelo persistir — a inelegibilidade de Bolsonaro não é eterna e Lula pode concorrer novamente com 88 anos —, mas a realidade se impõe como um enorme dificultador para ambos. Então, o que restará quando os dois deixarem o centro da disputa eleitoral? Como se comportarão os campos ideológicos sem essas lideranças carismáticas protagonizando as urnas?

O exercício de futurologia é válido, mas qualquer projeção depende de variáveis que hoje não podem ser estimadas com segurança: não sabemos qual composição do Congresso sairá das urnas, nem quais acontecimentos reorganizarão o debate político até 2030. Portanto, consideremos, nesta análise, um recorte que vai de 2018 aos dias atuais.

Uma eleição em que o incumbente se coloca na disputa assume um caráter plebiscitário, mas na atual, de 2026, esta decisão de continuidade ou não do governo traz consigo outras camadas, como a de permitir que Lula, como personagem altamente conhecido da política nacional e do imaginário popular, finalize sua “carreira” presidencial.

Portanto, para o eleitor historicamente lulista o peso está na finitude, podendo ser esta a última eleição de Lula. Para o eleitor circunstancial, sobretudo o que faz essa escolha por rejeitar o outro polo, a decisão passa por ser a opção “que resta”, a única aparentemente possível para impedir o retorno do bolsonarismo ao poder.

Do outro lado, o filho do ex-presidente Bolsonaro tenta impor à sua campanha o ar de continuidade interrompida do governo do pai, prometendo ser não uma versão ou alguém com inspiração paterna e política, mas o procurador de um movimento político de massa comandado pela figura carismática de Bolsonaro que se encontra impedido de concorrer. O que pode parecer um trunfo a uma expressiva quantidade de eleitores mostra-se como uma desconfiança para outra, que vê a continuidade dada por fios de marionete como fraqueza e ausência de ideias e propostas próprias.

É uma eleição de continuidades. No caso de Lula, a continuidade é vista como um fim provável, como último governo, por não haver nenhum substituto viável eleitoralmente, não apenas no PT como em todo o campo progressista. No caso bolsonarista, a continuidade é vista como um sentimento dúbio, em que votar em Flávio significa salvar o pai e trazer o movimento de volta ao poder, mas o escolhido por procuração política não goza da confiança irrestrita de todos os eleitores do campo conservador.

Continuidades diferentes, sucessões problemáticas

Embora haja continuidades em disputa dos dois campos, elas se apresentam de formas diferentes. A de Lula mostra a fraqueza do fim do ciclo, e a de Flávio, a opacidade de agir por procuração. Além da dificuldade de continuísmo, o pós-2026 apresenta uma contradição interessante em relação à sucessão.

Lula não tem hoje um sucessor evidente, capaz de capitalizar votos como ele. A experiência de 2018 de Haddad por procuração — problema parecido para Flávio, hoje — mostrou os limites de transferência que tendem a piorar se Lula sair do cenário definitivamente como protagonista. Em 2018, mesmo preso, exercia essa posição.

Bolsonaro, ao contrário, tem seu espólio político disputado por diversas figuras, dentro e fora da família. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, era o nome natural para esta eleição, até que foi dada a bênção do pai a Flávio. Tarcísio era visto por parte da direita como alguém capaz não apenas de reter os votos de Bolsonaro, mas de ampliá-los, atingindo parcelas que rejeitam o bolsonarismo, mas concordam com muitos de seus ideais.

O paradoxo aparente dessa diferença decorre do fato de que o PT é um partido estruturado, histórico, de base social forte e vitorioso em diversas eleições, mas que não soube criar lideranças efetivas em volta da figura de Lula, enquanto o bolsonarismo, de frágil base partidária, conseguiu produzir nomes competitivos eleitoralmente.

Mas a sucessão não deixa de ser problemática para o bolsonarismo, pois há o receio de que uma vitória presidencial de alguém de fora da família possa mudar o protagonismo do campo conservador, adormecendo a figura de Bolsonaro como protagonista. Para muitos analistas, esse foi o principal motivo da escolha de Flávio: manter o bolsonarismo como está.


O pós-2026
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto.
Galeria de ex-presidentes no térreo do Palácio do Planalto. / Reprodução

A eleição deste ano representa ao mesmo tempo continuidade e finitude. Após ela, fecha-se inevitavelmente um ciclo da história política do país, assim como o ciclo Fernando Henrique Cardoso se encerrou mesmo tendo permanecido vivo. No caso de FHC, houve sucessores — Serra, Alckmin, Aécio —, todos competitivos, nenhum vitorioso. O PSDB só derreteu depois de 2014, quando perdeu não os quadros, mas o lugar próprio: espremido entre os dois polos, virou fornecedor de nomes para governos alheios.

Porém, mais que uma dificuldade partidária, o fechamento do ciclo atual representa um desafio para todo o campo progressista, que viu sua representatividade política ficar concentrada na figura de Lula. Caso o PT definhe como o PSDB, levará consigo uma profunda desestruturação da esquerda brasileira, que precisará de uma reconstrução orgânica.

A direita parece chegar ao pós-Bolsonaro com maior oferta de lideranças competitivas, mas com um problema inverso ao da esquerda: não a ausência de herdeiros, e sim o excesso deles. A disputa será para saber quem poderá reivindicar o eleitorado de Bolsonaro sem herdar integralmente sua rejeição.

Em 2026, Lula e Bolsonaro ainda organizam a eleição. A verdadeira disputa, porém, talvez seja sobre quem organizará a política quando eles não puderem mais fazê-lo.
Compartilhe
A falsa paz dos cansados
26/07/2026 | 09h03
Foto: ernie114/Pixabay

Entramos de maneira efetiva nas eleições deste ano. A Copa se foi — rápida e dolorosa — e a maior parte das convenções aconteceu. Estamos a 70 dias de uma eleição estranha: importante demais para ser relegada a segundo plano e previsível o bastante para gerar um certo tédio e preguiça em discuti-la.

Mas é aí que a coisa complica — na preguiça. Estamos cansados de batalhas, eu sei. Estamos há anos discutindo em redes sociais, em reuniões de família, em grupos de WhatsApp, no trabalho e até no boteco (aquele ambiente sagrado de risadas e desavenças de times de futebol). Fomos expulsos de grupos e saímos de outros tantos, parentes não nos olham do mesmo jeito, evitamos lugares com “certas pessoas” e bloqueamos mais de uma dezena de perfis no Instagram.

Portanto, viemos de tempos de guerra. Conflitos constantes por termos construído um ambiente em que decisões políticas definem nossa identidade. A declaração de voto em um político ou partido é logo vista como definidora de características pessoais, de formas de pensar. Além disso, como em toda guerra, os lados radicalizados tendem a endurecer ainda mais quando pressionados. E aí cabe uma questão: devemos entender que não há solução e abandonar os “campos de luta” ou continuar em guerra?

Essa indagação admite duas respostas opostas, ambas defensáveis com argumentos igualmente genuínos. Mas a proximidade das eleições parece reacender a necessidade de respondê-la em tom de continuidade. A premissa dessa dualidade impõe uma guerra inevitável — que nos obriga a desertar ou entrar em novas batalhas —, mas há os que não percebem essas diferenças políticas como um embate, e sim como algo que deveria gerar concordâncias — paz, portanto.

A questão é que a democracia não é um ambiente distensionado. Para se manter funcional, a democracia exige tensões constantes, choques entre visões de mundo distintas que disputam qual delas será a regra do jogo vigente. O equilíbrio e alternância pacífica são o que se espera idealmente, mas a realidade ideal não é algo a ser conquistado, mas buscado.

A paz e o silêncio

Buscar a convivência pacífica não significa abrir mão de se posicionar, tampouco silenciar diante de injustiças. Conviver pacificamente diante das diferenças é o que o regime democrático espera e a convivência vinda do medo e da repressão é o que uma ditadura impõe. O resultado é o mesmo — o viver pacífico —, mas as formas de chegar até ele fazem toda a diferença.

Cabe uma ponderação sobre a “paz”: ela pode significar ausência de conflitos, mas a paz em uma sociedade democrática significa que há soluções pacíficas para os conflitos, que todos serão tratados igualmente nessas soluções.

A “preguiça” de discutir política nos meios sociais em que estamos inseridos vem de um esgotamento e da ideia de que não será possível mudar o outro, o que ele pensa politicamente e sua escolha de candidato. Em casos mais extremos, vem do medo da reação, de sofrer represálias e até atos violentos.

Excetuando-se os casos que envolvem crimes, não é saudável democraticamente aceitarmos o “não-argumento” e a omissão política em ambientes em que devemos ter voz ativa. E não apenas na política eleitoral e partidária, mas também devemos ter o direito de argumentar e de nos posicionarmos diante das situações cotidianas. Quando isso é suprimido pelo ambiente ou por alguém, e não por uma decisão pessoal, vira um problema. Em outras palavras: quando queremos nos manifestar diante de uma injustiça ou de um posicionamento que consideramos errado e não o fazemos por medo de como será a reação, não é paz e sim silenciamento.

Então, temos as eleições. E elas são justamente uma das principais formas de resolução pacífica de um conflito — como as democracias brigam e decidem sem destruir nem silenciar. O voto é o substituto civilizado da guerra, não sua continuação. Ou seja: aquilo de que você está cansado — a política, a disputa, o desgaste familiar — não é a doença; é justamente o remédio.

Mas, como toda boa ciência médica explica, a diferença entre um remédio e um veneno é a dosagem e a forma de aplicação. A disputa praticada como aniquilação — em que se espera a extinção do oponente depois da apuração — deixa de ser eleição e volta a ser guerra.

Daqui a pouco mais de dois meses, e depois deles e de um eventual segundo turno, as pessoas continuarão a pensar diferente. A pergunta certa a se fazer é: a voz dos derrotados será garantida independentemente do resultado?

Porque a democracia não se revela na festa dos vencedores, mas na liberdade que continua assegurada aos derrotados.



Compartilhe
A melhor forma de destruir a democracia: relativizá-la em tempos de defendê-la
04/04/2026 | 09h03
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto.
Imagem gerada por IA a partir do envio do texto. / Gemini


A democracia é um conceito abstrato. E não apenas isso, trata-se de um acordo, um pacto feito na sociedade que decide adotá-la como modelo, que mesmo depois de pactuado, exige ser constantemente lembrado. Mas a democracia não se sustenta sozinha. Precisa ser constantemente lembrada, reafirmada e defendida. Seria justamente sua abstração um motivo para desistir dela?

A justiça é, do mesmo modo, um conceito abstrato. Não se pode “tocar” a justiça, ela não se materializa no cotidiano e tampouco está no imaginário da sociedade enquanto conceito filosófico. Porém, ela é fundamental para a vida coletiva e muitas vezes suprime liberdades individuais em nome do bem comum. Deve ser entendido como justo alimentar quem tem fome, custear a saúde pública e oferecer educação a todos, assim como punir severamente quem mata ou atua no tráfico de drogas.

A própria Constituição de um país é um compêndio de ideias abstratas. “Homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”; “ninguém será submetido a tortura”; ou “é livre a manifestação do pensamento”, são conceitos que garantem as materialidades envolvidas nas abstrações legais.

Em termos simples: governo, dinheiro, tribunal, mandato, propriedade e fronteira não são “ilusões”; são fatos institucionais, sustentados por regras constitutivas e aceitação social. Eles não existem como uma pedra existe, mas existem socialmente de modo objetivo o bastante para prender, taxar, casar, condenar, legitimar e governar.

No livro dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem, é explicado que a derrocada democrática na era moderna ocorre de forma gradual, lenta e legal. Portanto, é uma forma de destruir o ordenamento usando as próprias previsões legais. Promove-se a erosão gradual das regras escritas da sociedade —e das não escritas.

Democracia jamais será um valor absoluto — nem pretende ser

Há conceitos que possuem universalidade e partem de uma premissa que devem ser respeitados sob quaisquer circunstâncias. Como o direito à vida, por exemplo. Entretanto, mesmo um direito tão fundamental pode ser relativizado, por exemplo, em tempos de guerra ou em situações de legítima defesa.

A reflexão sobre absolutismos e dogmas sempre será perpassada pelas religiões. Hegel (1770-1831) —filósofo germânico, autor de “Fenomenologia do Espírito” — ensina que a verdade religiosa não é algo separado da razão ou da filosofia, mas sim uma etapa essencial no desenvolvimento do que ele chama de “geist” (espírito). A compreensão de Deus e da realidade se dá através de "representações" (imagens, símbolos e histórias) que buscam uma verdade absoluta, um dogma.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos.
A Ágora Romana foi construída no século I a.C., com doações de Júlio César e Augusto, para abrigar as atividades comerciais de Atenas. A ágora é delimitada pela imponente Porta de Atena Arquegétis, enquanto o Relógio de Kyrrestos, com figuras em relevo representando os oito ventos, e a Mesquita Fethiye se erguem em seus cantos. / Fonte: Hellenic Organization of Cultural Resources Development


Outros pensadores entendem que há uma distinção clara entre a verdade religiosa e a verdade filosófica, sendo a primeira no campo da fé e da revelação, e a segunda no campo do trabalho da razão. A filosofia se dá em um processo de descoberta e questionamento, enquanto a religião se baseia na aceitação de dogmas.

Portanto, a democracia — que não se pretende absolutista tampouco religiosa — não deve trabalhar com verdades imutáveis; mesmo porque, essa forma de pactuação social é recente no tempo histórico e ainda pouco testada em comparação a modelos anteriores. Ao contrário: a democracia se sustenta em um ordenamento social e legal que deve se adaptar com o tempo, observar os valores éticos e culturais de seu tempo e propor soluções para os conflitos que são contemporâneos a ela.

A democracia deve ser defendida — não por ser absoluta, mas necessária

As relativizações e fraquezas da democracia não podem servir de desculpa para seu abandono. A fragilidade do modelo não se mostra como um atalho para apoiar sua morte gradual, mas, ao contrário, deve ser entendida como uma característica que a difere de modelos absolutistas.

É justamente por isso que a abstração não enfraquece a democracia; ela revela sua natureza civilizatória. Democracia não é um objeto, mas um arranjo normativo exigente. A tradição contemporânea a descreve menos como simples vontade da maioria e mais como um método de decisão coletiva que pressupõe alguma forma de igualdade política entre os participantes. Em outras palavras, democracia não é apenas contar votos; é reconhecer que o poder precisa passar por regras, freios, justificação pública e aceitação do dissenso.

A melhor forma de destruir a democracia, portanto, não é necessariamente negá-la em praça pública. É algo mais sofisticado e mais covarde: relativizá-la enquanto se diz defendê-la. É conservar sua casca retórica e demolir, por dentro, os princípios que lhe dão sentido. Porque a democracia raramente morre apenas quando lhe arrancam o nome. Muitas vezes, ela começa a morrer quando já não se acredita que certas abstrações mereçam ser levadas a sério.
 
Compartilhe
Trump grita, Nova York mastiga: a vitória de Mamdani e o novo apetite político da América
09/11/2025 | 12h13
Zohran Mamdani em campanha pelas ruas de NY.
Zohran Mamdani em campanha pelas ruas de NY. / Reuters

Nascido em Uganda e nova-iorquino desde os sete anos, Zohran é como a maioria dos habitantes da Big Apple: apaixonado por comida de rua. Há nove meses gravou um vídeo para o YouTube (veja aqui) dizendo que Nova York vivia uma crise e, como a boca cheia com uma porção do prato que segurava, explicou que se tratava de “halalflation” (a inflação do halal).

Halal é uma referência aos alimentos permitidos pela lei islâmica (sharia), que devem ser preparados em rígidas regras de abate — segundo a tradição invoca-se o nome de Alá — e manuseio do animal, sem nenhum vestígio de carne de porco e álcool, entre outras adequações.

Zohran, muçulmano, entrevistou durante o vídeo alguns donos de food trucks perguntando sobre o custo dos alimentos, as taxas para vender nas ruas de NY entre outras dificuldades. Com desenvoltura de youtuber e discurso afiado, Zohran termina o vídeo comendo novamente e, quando perguntado pelo vendedor de rua como estava o gosto da comida, disse que estava “com gosto de 10 dólares, mas que deveria ser 8”.

Ele fez história na terça-feira (4). Com apenas 34 anos, Zohran Mamdani será o primeiro prefeito muçulmano de Nova York e o mais jovem em pouco mais de um século a governar a maior cidade dos Estados Unidos. Inimigo declarado do presidente Donald Trump, o deputado estadual democrata assume a gestão de NY a partir de janeiro de 2026.

Woke, imigrante, jovem e socialista

A eleição de Mamdani em uma cidade da importância de Nova York representa mais que uma simples vitória democrata. Ele consegue reunir em sua persona muitos dos elementos atualmente combatidos pelo presidente Trump, principalmente por ser imigrante e de esquerda.

No discurso de vitória, o prefeito eleito de NY deu um recado direto ao presidente: “Donald Trump, eu sei que você está assistindo. Só tenho quatro (turn up the volume) palavras para você: Aumente o volume!”. Eloquente e carismático, Mamdani acabou atraindo olhares do mundo inteiro, e se tornando uma esperança e exemplo para a esquerda — socialista ou não — que segue carente de lideranças assim.
Prefeito eleito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, comemora vitória no Brooklyn Paramount Theater. Apelo jovem na retórica, cores, fontes e estilo da campanha.
Prefeito eleito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, comemora vitória no Brooklyn Paramount Theater. Apelo jovem na retórica, cores, fontes e estilo da campanha. / ANGELINA KATSANIS / AFP


Embora se declare como socialista, Mamdani é, antes de tudo, woke — termo que surgiu na comunidade afro-americana, que originalmente significa “estar alerta para a injustiça racial”, mas hoje tem sentido mais amplo, algo como estar “consciente sobre temas sociais e políticos”. No Brasil, o paralelo importado da cultura woke é o identitarismo.


O prefeito eleito de NY é filho de pais cosmopolitas, sofisticados e altamente respeitados no meio acadêmico. Sua mãe, Mira Nair, graduou-se em Harvard e é uma cineasta festejada, ganhou prêmios em Cannes, no Festival de Veneza e foi indicada ao Oscar. O pai, o antropólogo Mahmood Mamdani, é professor de política e antropologia na Universidade Columbia, com vasta produção intelectual, diretamente relacionadas às arrojadas e progressistas propostas que o filho Zohran apresenta.

Nada mais woke, nada mais anti-Trump.

De NY para o restante da América?

Mamdani tornou-se cidadão americano em 2018, e portanto, pela lei americana, não pode ser eleito presidente. Contudo, pode exercer outros cargos importantes ao ponto de alterar o jogo político dos EUA. Porém, é cedo para afirmar.

Nova York é uma cidade-símbolo dos EUA. Uma metrópole moderna, de forte apelo ao poder financeiro e que consegue simbolizar o “sonho americano” e a “terra de oportunidades”, ideais caros ao povo norte americano. Mas ao mesmo tempo, também pelas oportunidades que traz, é uma cidade altamente cosmopolita, construída e vivida por imigrantes. E muitas vezes não representa o que pensa o restante do país.


“A vitória do Mamdani na última terça chamou atenção por ser um candidato com um perfil diferente do tradicional em Nova York. Nas ruas, dá para perceber que ele tem apoio em alguns grupos, principalmente em bairros com populações mais jovens e diversas, mas a cidade é muito heterogênea e as opiniões variam bastante”. Essa é Letícia De Nadai, capixaba que vive em NY há mais de 15 anos. Ela e o marido foram para a cidade americana após um convite de trabalho.

Letícia continua:

“Mas, no geral, há uma certa cautela. É um momento para observar como ele vai se posicionar e o que realmente vai conseguir colocar em prática. Em nível nacional, ainda é cedo para dizer que ele tem um protagonismo forte, mas certamente ele é uma voz importante dentro do que chamam de “woke culture” nos EUA. Nova York abraça isso bastante, mas o restante do país está mais dividido”.

Geração Z, aluguéis e ônibus gratuitos

Assim como o Brasil, os Estados Unidos são um país dividido. Direita e esquerda são definições possíveis para analisar a política, mas, sendo também válido para os dois, até pelo tamanho que ambas nações possuem, há muitas direitas e muitas esquerdas.

Mamdani está mais à esquerda na régua progressista dos democratas. No Brasil, ele estaria filiado ao PSOL, e os democratas seriam o que representa o PT hoje, inclusive em suas vertentes de centro e centro-esquerda. Entre as propostas  principais do agora prefeito de NY estão ônibus gratuitos por toda a cidade, uma rede de supermercados públicos administrados pela prefeitura, congelamento de aluguéis e creche gratuita. Também pretende aumentar impostos sobre quem ganha mais de US$ 1 milhão.

A moradora de NY Letícia dá uma boa pista sobre o apelo dessas propostas na cidade, quando indagada sobre questões econômicas do dia a dia: “Sobre a economia, Nova York segue estável, mesmo com crescimento lento. O custo de vida continua altíssimo, especialmente aluguel e moradia, que é um problema constante. Muitas pessoas reclamam dos preços altos de moradia, transporte e alimentação”.
Zohran Mamdani e constante uso da culinária de rua nova-iorquina
Zohran Mamdani e constante uso da culinária de rua nova-iorquina / Getty Images


A motivação de quem saiu para votar em Mamdani (mais de 1 milhão de nova-iorquinos) talvez tenha sido elevada por um desejo de mudança. “Há quem apoie as mudanças sociais, e muita gente está frustrada com a situação econômica e o custo pesado de viver na cidade. A vida aqui é intensa e vibrante, mas cheia de desafios financeiros para a maioria”, continua Letícia.

A campanha de Mamdani atuou fortemente de porta em porta. Segundo o próprio candidato, que utiliza um sistema online para cadastro e registro de ações, foram mais de 90 mil voluntários inscritos, que realizaram mais de 3,6 milhões de abordagens nesse sistema presencial e personalizado. A estratégia também passava pelo digital, com Mamdani publicando vídeos virais, chamando as pessoas para se engajarem, e pedindo que elas comentassem para receber informações da campanha. De forma retroalimentar, os apoiadores nas ruas geravam imagens para serem usadas nas redes.

Assim, Mamdani conquistou boa parte da “geração Z” (nascidos entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010) de NY. Letícia confirma:

“O apoio dos jovens é bem perceptível. Ele se comunica bem, fala de temas que interessam a essa faixa etária e usa muito as redes sociais. Existe uma identificação natural com essa forma mais direta e idealista de fazer política”.
Calor, pressão e poder

Se o Zohran dos vídeos de comida de rua terá capacidade de se concretizar em um líder político influente, o tempo dirá. A sua vitória eleitoral dá um frescor ao campo progressista de toda América, mas precisa provar que será um governo exitoso. As esquerdas andam sedentas de rostos jovens e narrativas autênticas como a de Mamdani, mas é cedo para saber se o frescor sobreviverá ao calor do poder.

Além disso, a cultura woke — seja nos EUA ou no identitarismo à brasileira — é também excludente e promove cancelamentos constantes em quem pensa diferente ou usa termos inadequados. É uma forma de política em que a linguagem importa tanto quanto as identidades e que deve oferecer respostas para além das bolhas criadas pelo próprio movimento e de suas batalhas morais.

Mas por ora, Trump ainda grita e Nova York mastiga. E quando a cidade que nunca dorme volta a ter fome de mudança, o banquete político dos Estados Unidos inteiro pode estar apenas começando.



Compartilhe
Ao menos uma história romântica no PT campista
13/10/2024 | 12h14
Arte digital crida com IA
Arte digital crida com IA / Edmundo Siqueira

O amor da deputada Carla Machado foi uma mentira que a vaidade do PT de Campos quis acreditar. Ela não poderia ser candidata à prefeita de Campos por uma questão jurídica, e a proximidade dela com o também deputado e presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, denunciava que haveria uma aliança.

O PT de Campos acertou no candidato, porém deveria — mesmo agindo em “poesia de cego” ou em um “amor inventado” — ter apostado no professor Jefferson desde o início. Mas decidiu, em um corte lento e profundo, o deixar como segunda opção.

Eleger alguém do PT em uma cidade como Campos não é tarefa simples. Seja prefeito ou vereador. Exigiria desconstruir uma rejeição enorme, ou pelo menos atrair a maioria do eleitorado que se identifica com o campo progressista na cidade. E pior: assim como em outros locais, as esquerdas são divididas, e os liberais, sociais democratas e liberais sociais não optam por votar no PT automaticamente; é uma escolha que requer cálculo político do eleitor desse campo.

A verdade é que o PT não conseguiu cumprir nenhum dos objetivos que parecia disposto nesta eleição. Não elegeu Jefferson, sequer conseguiu o número de votos esperado e não elegeu nenhum vereador. Existem muitas explicações, mas para uma enormidade de eleitores campistas, ver Lula no material de campanha dos candidatos locais não era “mais tão bacana quanto a semana passada”.

Mas, apesar da rejeição sabida, era Lula que aparecia na campanha petista. Pensar que o campista que votou em Lula na última eleição presidencial iria votar para prefeito e vereador, apertando o 13 novamente, foi mais uma mentira que a vaidade do PT quis.

Quando a eleição acaba, a gente pode pensar que ela nunca existiu. Mas há um trabalho necessário a ser feito. Campos precisa se reencontrar com as esquerdas e com a direita democrática (ou centro-direita). Os anos Bolsonaro criaram um campo de extrema-direita na cidade que não é saudável à nossa já combalida democracia.

A questão aqui não é culpar o PT, apontar erros gratuitamente ou mesmo ser engenheiro de obra pronta, como se diz. A questão é reconhecer que estaremos por mais quatro anos sem representação progressista em Campos. É claro que houve compra de votos e derrama de dinheiro. Uma conta de padaria rápida prova isso com a quantidade de bandeiras nas ruas. E é claro que pode-se olhar o copo meio cheio. O PT ampliou o número de votos comparado à última eleição. Mas o resultado foi insatisfatório; não se elegeu ninguém do campo progressista.

Muito pode ser feito sem mandato, mas uma representação formal, na Câmara de Vereadores, tem o poder de interferir em políticas públicas, formar maior consciência política, e dar pluralidade representativa. Ocupar espaços de poder é fundamental.

Mas ficou “tudo fora do lugar; café sem açúcar, dança sem par”. Mas as esquerdas podiam “ao menos contar uma história romântica” nesse interregno até 2028, passando por 2026. E uma um pouco mais pragmática nos anos decisivos.
 
*
O Nosso Amor a Gente Inventa
Cazuza


O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver

Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu

O nosso amor a gente inventa, inventa
O nosso amor a gente inventa

Te ver não é mais tão bacana
Quanto a semana passada
Você nem arrumou a cama
Parece que fugiu de casa

Mas ficou tudo fora do lugar
Café sem açúcar, dança sem par
Você podia ao menos me contar
Uma história romântica

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu

Mas ficou tudo fora do lugar
Café sem açúcar, dança sem par
Você podia ao menos me contar
Uma história romântica

O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu

O nosso amor a gente inventa, inventa
O nosso amor a gente inventa
 
Compartilhe
Entre fortunas, erros e virtudes, Campos decidiu reeleger o príncipe
07/10/2024 | 08h19
Arte digital criada com IA
Arte digital criada com IA / Edmundo Siqueira


Foi em primeiro turno. Em votos válidos, Wladimir recebeu 69,11%. Uma vitória esmagadora que provou que o prefeito de Campos não teve apenas habilidade política ou o bom uso do sobrenome que carrega. Quem acompanhou o jogo pôde perceber que ele soube trabalhar com dois fatores essenciais da política: a “virtù” e a “fortuna”.

Essa coisa de virtude e fortuna foi explicada na política por Nicolau Maquiavel — que era tudo, menos um ingênuo —, quando escreveu sua obra seminal “O Príncipe”, em meados de 1500. Em suma, o governante precisa de talento para liderar (virtù) e sorte para aproveitar as oportunidades (fortuna).

Wladimir, que não nasceu ontem, soube jogar com os dois. De um lado, ele carregou a política local nas costas, fazendo o que sabe fazer melhor: articulação. De outro, teve a sorte de navegar por um cenário onde seus adversários somados não conseguiram chegar a 10% dos votos, com exceção da Delegada Madeleine, que conseguiu 24,22% dos votos válidos, e mostrou forte consistência em todas as zonas eleitorais.

Em Campos, uma cidade com problemas endêmicos de infraestrutura e serviços públicos deficitários, principalmente em transporte, ele conseguiu o que parecia improvável: alta popularidade, alta taxa de conhecimento e a reversão de uma impopularidade histórica de seu grupo na chamada “pedra”, na zona 98. Isso não é pouco. Maquiavel aplaudiria.

Ele soube usar a máquina pública para agradar o povo com programas sociais, melhorias pontuais e espetacularização do fazer político. E ainda mais importante: Wladimir conhece o cheiro do poder e, como bom estrategista, sabe quando avançar e quando recuar. E demonstrou uma baita habilidade em gestão de crises.

A exceção, que confirma a regra, foi a relação com a Câmara, que não soube manejar e acabou perdendo a presidência em um momento crucial para seu governo, momento onde também recebeu questionamentos agressivos da oposição.
Folha1
A “fortuna”
A sorte (fortuna) sorriu para ele quando seu xará, o presidente da Rússia Vladimir Putin, iniciou contra a Ucrânia, um de seus países vizinhos, uma invasão militar, marcando uma escalada para um conflito que começou em 2014. Entre outros fatores, a guerra elevou o preço do barril de petróleo, e a petrorentista Campos viu seus cofres gordos novamente. Soma-se a isso uma retomada natural da economia no pós-pandemia, e o cenário é bastante favorável.

A sorte foi dele, e ele soube aproveitá-la. Maquiavel dizia que a “virtù” do governante é sua capacidade de se adaptar às circunstâncias. O resultado eleitoral refletiu a sorte e a virtude Wladimir, mas também foi permitida por uma oposição que não soube se organizar. Parecia que todas as forças estavam fora de lugar na campanha. Os números estampados nos bonés muitas vezes eram diferentes da atuação partidária. Havia bipolaridade em uma oposição que deveria estar plenamente sadia. Além da campanha, a “pacificação” de antes, entre o grupo Bacellar e Wladimir favoreceu o prefeito, que fez cara de paisagem e colheu os frutos dela.

Contrariar as estatísticas é o desafio
Wladimir Garotinho navegou com destreza entre a virtù e a fortuna. Ele fez o que precisava, jogou com as cartas que tinha e venceu a partida. Mas o problema de brincar de príncipe é que o castelo, uma hora ou outra, pode começar a ruir. Não será o primeiro, nem o último a ver a “fortuna” mudar de humor.

Campos dos Goytacazes, esse feudo resistente, pode ser generosa com seus líderes, mas é impiedosa quando as promessas não resistem à realidade. Wladimir, esperto como o clã lhe ensinou, sabe que o jogo não acabou. Se Maquiavel estivesse por aqui, talvez dissesse que agora começa o verdadeiro teste: sobreviver à própria sombra.

E aí, meu caro Wladimir, quando a “fortuna” cansar de você, seu verdadeiro feito vai ser contrariar o que lhe favoreceu nessa eleição: as estatísticas. Precisará fazer um segundo governo melhor que o primeiro.
Compartilhe
Como cultura e patrimônio estão inseridos nos planos de governo dos candidatos à prefeitura de Campos?
08/09/2024 | 12h19
Campos dos Goytacazes é uma cidade de orçamento bilionário. Desde meados dos anos 1980, vem recebendo vultosos recursos oriundos da exploração de petróleo, e, antes disso, beneficiava-se dos ciclos econômicos da pecuária e da cana-de-açúcar. Constituiu-se como um centro urbano importante ainda no Brasil Império e possui localização privilegiada.
Por esses e outros fatores, estabeleceu-se como uma referência regional em saúde, comércio, imprensa, universidades e serviços, além de ter produzido lideranças políticas de relevância nacional.
Porém, alguns setores foram negligenciados ao longo do tempo. Cultura, turismo, meio ambiente e mobilidade urbana estão certamente entre eles. A negligência de sucessivos governos e o desinteresse do empresariado campista em investir nessas áreas deixaram provas inequívocas na paisagem de Campos: diversos patrimônios materiais históricos deixaram de existir, outros tantos estão em ruínas; o movimento turístico é irrisório; áreas como Lagoa de Cima e Imbé foram abandonadas; e há poucas opções de modais de transporte.
Interligados em uma cidade histórica como Campos, cultura e turismo começaram a ganhar algum destaque recentemente. O uso de áreas como o Cais da Lapa e o centro histórico está em discussão; solares como os Airizes e Colégio receberam investimentos e também estão sendo debatidos, assim como o Mercado Municipal.
Embora sejam setores com potencial para gerar empregos, divisas e impostos — além de promover pertencimento e educação — cultura e turismo carecem de políticas públicas em Campos. Décadas de negligência não se resolvem sem ação efetiva e perene, e movimentos isolados não possuem força suficiente para mudar o cenário.
Mas, como estão as áreas cultural e patrimonial nos planos dos sete candidatos à prefeitura nesta eleição? Quais compensações foram apresentadas como propostas? Cultura está entre as prioridades nos planos de governo? Qual plano se destaca?
Essas questões são respondidas a seguir, com uma análise dos planos de governo dos candidatos em ordem alfabética, conforme os respectivos nomes de campanha (veja números das últimas pesquisas aqui):
 
DELEGADA MADELEINE
 
  • Candidata a prefeita: Madeleine Dyckman Farias (Delegada Madeleine)
    Partido: União Brasil
    Candidato a vice-prefeito: Oziel Baptista (Ozielzinho)
    Partido: PSB
    Quantas vezes “cultura” é citada: 4
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 0
 
O tema da cultura é tratado de forma tímida no programa de governo da candidata. No eixo turismo, o item 2.6.3 propõe "incentivar a cultura do turismo interno, inclusive com a preparação de recursos humanos com impacto direto". O item também cita como “importante, ou fundamental, pessoas que falam outros idiomas, como inglês e espanhol”
Há também a proposta de "inserir a cultura como um tema relevante para o desenvolvimento do turismo", e a priorização dos "eventos tradicionais da população, como a folia de reis".
O plano, entretanto, não apresenta nenhuma proposta para a preservação do patrimônio histórico.

DR. BUCHAUL
 
  • Candidato a prefeito: Alexandre Buchaul (Dr. Buchaul)
    Partido: Novo
    Candidato a vice-prefeito: Isaac Vieira
    Partido: Novo
    Quantas vezes “cultura” é citada: 4
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 0
 
A cultura aparece no 3º item dos Eixos Temáticos do plano de governo de Dr. Buchaul, porém, também trata o tema de forma superficial. No item “Educação, cultura e esporte”, o foco está na educação, sem detalhamento específico para cultura. A cultura também surge em "Segurança Pública", quando diz que irá “estruturar intervenções integradas de prevenção ao crime, em cooperação com as áreas de cultura, educação, saúde, assistência social e com as forças de segurança” propondo intervenções preventivas.
No eixo "Transporte Coletivo e Mobilidade", com projetos de revitalização de terminais , citando “revitalizar terminais de ônibus e metrô por meio de projetos que ampliem as atividades comerciais e culturais oferecidas aos usuários do transporte coletivo”.
O plano não apresenta nenhuma proposta para a questão patrimonial.

FABRÍCIO LÍRIO
 
  • Candidato a prefeito: Fabrício Lírio Rodrigues (Fabrício Lírio)
    Partido: Rede Sustentabilidade
    Candidata a vice-prefeita: Vanessa da Enfermagem
    Partido: Rede Sustentabilidade
    Quantas vezes “cultura” é citada: 19
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 3
 
O plano de governo do candidato Fabrício Lírio também traz o tema em conjunto com educação e esporte, mas dedica um subitem específico para a cultura. Propõe a criação de “Centros Culturais” nos bairros, “para promover a cultura local” e a criação de um “Calendário Cultural”, propondo a valorização de “tradições locais”.
O plano também traz a proposta de “incentivar os artistas locais por meio de programas de investimento em arte e cultura” e “workshops culturais”, com objetivo de “identificar artistas locais”.
A cultura volta no item 9 do plano de governo do candidato Fabrício Lírio, também dividindo espaço com o turismo, mas traz propostas específicas sobre o patrimônio histórico: “implementar políticas de preservação do patrimônio histórico e cultural, revitalizando áreas e prédios históricos locais”.
Também cita como ideia fomentar “parcerias com as universidades para garantir a pesquisa contínua sobre nossa cultura” e a criação de “Roteiros Turísticos”, com objetivo de “desenvolver roteiros turísticos que valorizem a cultura, história e natureza do município, promovendo o turismo sustentável”.

PASTOR FERNANDO
 
  • Candidato a prefeito: Fernando Sergio Trindade Crespo (Pastor Fernando)
    Partido: PRTB
    Candidata a vice-prefeita: Dr. Carlito
    Partido: PRTB
    Quantas vezes “cultura” é citada: 50
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 3
 
Assim como os demais até aqui, traz a cultura como tema acessório, em conjunto com o “esporte” e “lazer”. Mas dedica um subitem exclusivo à cultura, dizendo na introdução que “a cultura e um elemento vital para a identidade e a coesão social” e que “promover a cultura e essencial para valorizar nossa historia, nossas tradições e nossa criatividade”.
Entre as propostas para a cultura, o plano traz a criação de “Espaços Culturais”, apoio para “artistas locais” e a criação de “festivais e eventos culturais”. No fechamento do item dedicado à cultura, o candidato traz novamente a ideia de “valorizar nossa identidade e promover a coesão social” e cita a cultura como um elemento capaz de “impulsionar o desenvolvimento econômico”.
Sobre patrimônio histórico, o candidato insere o tema em conjunto com o turismo, onde pretende “explorar o potencial turístico do município, promovendo as belezas naturais e o patrimônio histórico cultural”. A questão patrimonial também aparece quando é tratado o tema da “Revitalização de Áreas Urbanas Degradadas”.

PROFESSOR JEFFERSON
 
  • Candidato a prefeito: Jefferson Manhães de Azevedo (Professor Jefferson)
    Partido: PT
    Candidata a vice-prefeita: Mayra Coriolano Freitas
    Partido: PT
    Quantas vezes “cultura” é citada: 40
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 6
 
O plano de governo do candidato traz a cultura associada à questão patrimonial, dedicando um item exclusivo para isso, denominado como “Cultura, Patrimônio Histórico e Turismo”. Como proposta central, pretende destinar “1% do orçamento municipal para o Fundo Municipal de Cultura”, onde, segundo a proposta, deverá custear o que está previsto no Plano Municipal de Cultura.
O Plano Municipal de Cultura foi instituído em Campos através da Lei 9.065, de 31 de maio de 2021, e traça diretrizes e políticas públicas da área para a cidade até 2031. Constituir um plano é uma obrigação dos municípios brasileiros, conforme diretriz do Ministério da Cultura, e é requisito para receber algumas verbas estaduais e federais.
O candidato Professor Jefferson cita ainda como proposta o “reconhecimento do papel dos órgãos representativos do Sistema Municipal de Cultura do município”, como o Comcultura, Coppam e Funcultura. Apresenta também como proposta a realização de concurso público para a área.
Também traz o uso da educação patrimonial nas escolas municipais, para “atuação como elo entre a cultura, o patrimônio e as unidades escolares e os munícipes” e para identificar “potenciais artistas nas diversas modalidades culturais e artísticas” entre os alunos. Propõe a utilização do CEPOP como “equipamento cultural” e garante a realização de eventos “já tradicionais”, como o carnaval, Bienal do Livro, Festival Doces Palavras (FDP!) e Rock Goitacá. Cita ainda o “reconhecimento da cultura do povo negro e periférico do município”.
Sobre a questão patrimonial, o candidato propõe a criação de uma “política pública de recuperação e preservação do patrimônio histórico-cultural municipal”, e a “implantação de museus temáticos para divulgar e preservar a memória e a história da população campista”. Também propõe “a criação de mais duas Casas de Cultura em distritos mais distantes do centro”.

THUIN
 
  • Candidato a prefeito: Raphael Elbas Neri De Thuin (Thuin)
    Partido: PRD
    Candidata a vice-prefeito: Clodomir Crespo
    Partido: DC
    Quantas vezes “cultura” é citada: 57
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 3
 
O candidato inicialmente traz a cultura dentro do eixo “comércio”, com o subitem “Cultura e Entretenimento”. trazendo como proposta “promover eventos culturais e de entretenimento no centro da cidade” e “parcerias com artistas locais para revitalizar fachadas e espaços públicos com murais e intervenções artísticas”.
No eixo “turismo”, propõe a organização de “eventos e festivais temáticos que celebrem a cultura” e a criação de um “calendário anual de eventos”. O candidato dedica o item 16 do plano de governo para a “cultura e entretenimento”, onde propõe a “valorização da cultura local” e o “desenvolvimento de eventos e espaços culturais que enriqueçam a vida dos cidadãos”. Cita a ideia de “transformar Campos dos Goytacazes em um polo cultural dinâmico”, e “fomentando a diversidade cultural”.
O plano segue com outras propostas para a cultura, como a “formação e capacitação cultural”, pretendendo “desenvolver programas de formação e capacitação em diversas áreas artísticas” e oferecer “programas de formação e capacitação em diversas áreas artísticas”. Também propõe a “realização de festivais de cinema, teatro e música”, feiras exposições, “festivais culturais” e “centros culturais e comunitários”.
Como inovação, propõe a criação de “Programas de Residência Artística”, onde pretende “desenvolver programas de residência artística para atrair artistas de outras regiões e países, promovendo o intercâmbio cultural”. Como continuidade (a Secretaria Municipal de Captação de Recursos e Convênios foi criada pela Lei 9.463, de 14 de março de 2024), cita a criação de “Subsecretaria para Captação de Recursos e Fomento a Projetos Culturais”, para “promover a captação de recursos através de leis de incentivo à cultura”, “parcerias com empresas” e “suporte técnico e financeiro para a elaboração e execução de projetos culturais”.
Na questão de patrimônio histórico, o candidato propõe que seja realizado um “inventário e divulgação do patrimônio cultural (...) material e imaterial de Campos dos Goytacazes, incluindo monumentos, edificações históricas, festas populares, artesanato e tradições locais”. Também cita como ideia “divulgar amplamente o patrimônio cultural através de exposições, publicações, mídias sociais e campanhas educativas”.

WLADIMIR GAROTINHO
 
  • Candidato a prefeito: Wladimir Barros Assed Matheus de Oliveira (Wladimir Garotinho)
    Partido: PP
    Candidata a vice-prefeito: Frederico Paes
    Partido: MDB
    Quantas vezes “cultura” é citada: 10
    Quantas vezes “patrimônio” é citado: 1
 
O plano de governo do candidato traz inicialmente a cultura inserida em outros itens, nas propostas para a “terceira idade”, “infância e juventude” e “turismo”. Entre as propostas, cita que irá “implementar levantamento georreferenciado para atualizar inventário turístico de pontos históricos, culturais, belezas naturais” e a criação de um “Portal digital”, trazendo informações turísticas de Campos.
Cita ainda a capacitação de “alunos da rede pública municipal para atuarem como condutores turísticos mirins, incentivando o interesse pelo patrimônio cultural local e enriquecendo a experiência de aprendizagem”.
No item dedicado à cultura, o plano evidencia o Arquivo Público Municipal, o Solar dos Airizes, o Teatro Trianon e o Teatro de Bolso, relacionando com o tema do patrimônio material de Campos.
Propõe “manter e prover o Arquivo Público Municipal, para preservação e acesso ao acervo de documentos públicos e privados de interesse da população”, e a criação do “Museu Campos de Energias”, no Solar dos Airizes, “visando resgatar a importância histórica de atividades produtivas, manifestações históricas e culturais, relativas à matriz elétrica e sucroenergética de nossa cidade”.
Para os teatros, propõe a “expansão dos serviços oferecidos pelo Teatro Trianon e Teatro de Bolso, para impulsionar a cultura, criação, inovação e a diversidade artística no Município”.

*
Cultura e patrimônio ainda não vistos como um potencial 
A análise dos programas de governo dos sete candidatos à prefeitura de Campos dos Goytacazes revela uma tendência recorrente: a cultura, o patrimônio e o turismo ainda são tratados como temas periféricos, mesmo em uma cidade com histórico e potencial econômico para explorá-los de maneira estruturada. Apesar do reconhecimento de sua importância, poucos planos apresentam propostas verdadeiramente robustas e detalhadas para enfrentar décadas de negligência.

Campos, com seu orçamento bilionário, localização privilegiada e herança histórica, tem o potencial de se tornar um polo cultural e turístico. No entanto, esse caminho requer ações integradas e políticas públicas contínuas, capazes de preservar o patrimônio material e imaterial e fomentar o turismo de forma sustentável.
Infelizmente, a maioria dos candidatos falha em reconhecer o papel estratégico dessas áreas, limitando-se a propostas pontuais, sem a necessária articulação com o desenvolvimento econômico e social da cidade.

Sem o uso sustentável do patrimônio histórico, e com os empresários locais, historicamente alheios a esses setores, o poder público, seja quem for ocupar a cadeira em 1º de janeiro de 2025, precisa incentivar o investimento, pois a revitalização desses setores não será possível sem uma parceria público-privada sólida.

Campos precisa mais do que intervenções isoladas. A cidade carece de um projeto ambicioso e consistente que posicione a cultura e o patrimônio como motores de desenvolvimento econômico e de pertencimento. Sem isso, a paisagem seguirá marcada pelo abandono, e as promessas de campanha permanecerão vazias.
Compartilhe
Pr�ximo >
Sobre o autor

Edmundo Siqueira

[email protected]