Matheus Berriel
17/12/2022 10:09 - Atualizado em 17/12/2022 10:14
Neymar e Modric em ação no Brasil x Croácia das quartas de final
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Foto: Divulgação/Fifa
Chega ao fim neste domingo (18) a 22ª Copa do Mundo de Futebol, que nos deixa algumas lições. Uma delas, especialmente para o povo brasileiro: a de que, assim como o sol não gira em torno da Terra, a bola não rola apenas em nosso país. Pelo contrário, faz tempo que o Brasil deixou de ser o centro das atenções no que se refere ao Campeonato Mundial de Seleções. Nunca deixará de ser tratado como favorito, pelo menos enquanto seguir isoladamente como o maior campeão do mundo — e assim será, no mínimo, até 2026, visto que a França ou a Argentina chegará apenas ao terceiro título agora, dois a menos do que os que nos trouxeram os escretes liderados em campos estrangeiros por Didi, Garrincha, Pelé, Romário e Ronaldo. Porém, as cinco estrelas no peito continuarão não sendo suficientes para trazer a sexta enquanto a Seleção tiver apenas bons jogadores. Sendo o futebol um esporte coletivo, é necessário ter um time, e talvez tenha sido esse o principal erro de Tite no bom ciclo que liderou, dependente da individualidade e preso a somente um estilo de jogo.
Com Vinícius Júnior, Rodrygo e Militão no Real Madrid; Casemiro, Fred e Antony no Manchester United; Danilo, Alex Sandro e Bremer na Juventus; Gabriel Jesus e Gabriel Martinelli no Arsenal; Alisson e Fabinho no Liverpool; Thiago Silva no Chelsea; Raphinha no Barcelona; Ederson no Manchester City; Bruno Guimarães no Newcastle; Lucas Paquetá no West Ham; e, sobretudo, Marquinhos e Neymar no Paris Saint-Germain — ao lado dos finalistas Messi e Mbappé —, é impossível negar que continuamos produzindo bons jogadores. Isso sem citar Éverton Ribeiro e Pedro, protagonistas de um vitorioso Flamengo junto ao uruguaio Arrascaeta e o sempre decisivo Gabigol; o paredão Weverton, do Palmeiras, tão capacitado quanto os dois primeiros goleiros brasileiros no Qatar; mais uma imensidão de valores, que variam em destaque de acordo com preferências técnicas, táticas ou clubísticas de quem fala ou escreve sobre o tema. Tanto na Europa quanto dentro das nossas fronteiras, temos jogadores brasileiros atuando em alto nível, o que, aliado à tradição, faz do país um natural candidato a brigar pelos títulos que disputar. Faltou e falta, portanto, a capacidade de compreender o futebol atual e a ele se adaptar, reconhecendo falhas e potencializando valores, como fizeram neste Mundial os honrados Marrocos e Croácia, adversários neste sábado (17) na disputa pelo terceiro lugar.
A lição da quarta eliminação em quartas de final nas últimas cinco Copas, fora a trágica semifinal de 2014, passa por compreender que não se chega 100% preparado a uma competição deste nível sem enfrentar equipes de primeiro escalão. Em solo sul-americano, sobramos nas Eliminatórias e vencemos uma Copa América, perdendo a outra para a Argentina, que tem em Lionel Messi um craque que quebra a lógica de todo esta análise. Messi, portanto, é a exceção que comprova a regra, e dificilmente os hermanos seriam finalistas no Qatar não fossem os seus lances de genialidade, mesmo tendo no restante do grupo coadjuvantes que também exercem momentos de protagonismo.
Limitando-me a falar do Brasil, que não tem Messi, os 20 anos do jejum de um título mundial serão 24 na próxima Copa. Antes da falta de clareza de jogo da comissão técnica para evitar que a Croácia cadenciasse o confronto nas quartas, e a falta de malícia dos jogadores para administrar um resultado positivo a quatro minutos do fim da prorrogação, faltou força nos bastidores para evitar a panelinha europeia a partir da criação da Uefa Nations League. Desde então, os jogos contra as principais seleções europeias, já escasseados e cercados por rios de dinheiro quando ocorriam, deixaram de vez de acontecer. Assim surgiu uma confraria do Velho Continente, e o futebol pentacampeão do mundo, sem força nos bastidores, nada fez para impedir.
Aos poucos, a ótima campanha nas Eliminatórias reviveu no torcedor médio o interesse pela Seleção Brasileira. Um histórico já conhecido em anos de Copa, mas que não se limita ao futebol. Da mesma forma cresceu o interesse coletivo pelo automobilismo, a partir do fenômeno Ayrton Senna na Fórmula 1, entre o final dos anos 1980 e início dos 1990; pelo vôlei, desde o ouro olímpico masculino de 1992; pelo tênis, quando Guga tornou-se o número 1 do mundo, em 2000; pelas artes marciais mistas, com Anderson Silva, José Aldo, Vitor Belfort e companhia dominando o UFC por vários anos; até mesmo pelo handebol, com o título mundial feminino de 2013. Movimentos similares ocorreram com o boxe, no auge de Popó; o surfe, graças à Brazilian Storm, liderada por Gabriel Medina; e, atualmente, o skate de Rayssa Leal e a ginástica artística de Rebeca Andrade. Mais do que de esporte, o povo brasileiro gosta mesmo é de vencer.
Junto ao interesse pela Seleção de Tite, veio com muitos torcedores o velho clima de oba-oba. Foi dele que surgiu a impressão de o Brasil ter chegado ao Qatar como grande favorito, quando, na verdade, sempre dividiu o status de candidato ao título com Argentina, Inglaterra e a quase unânime França. Alguns analistas também enxergaram valores em Portugal; outros, na decepcionante Alemanha. Houve quem citasse a Croácia, mesmo modificada em relação à equipe vice-campeã em 2018, e a Bélgica, de quem sempre se espera que os bons jogadores superem a falta de tradição — de novo, não foi desta vez. Todos estes palpites válidos, num Mundial sem seleção favoritíssima, como há muito não se via. A Alemanha e a Bélgica caíram cedo demais. A Inglaterra resistiu até as quartas, agradando especialmente pela habilidade do jovem Bellingham. Portugal caiu na mesma fase, em eliminação marcada pelo choro incessante de Cristiano Ronaldo. A Croácia encontrou resiliência para ser semifinalista, com a cadência ditada por Modric. Tudo isso é do jogo. Como também faz parte ser superior ao adversário e, ainda assim, acabar eliminado, como aconteceu com o Brasil. São justamente episódios assim que fazem do futebol um esporte tão apaixonante, recheado por surpresas agradáveis ou não. Os vencedores comemoram, enquanto os vencidos, quando sábios, arrumam as malas levando junto o que pode servir de aprendizado.
Não fosse o inexplicável ataque a quatro minutos do fim, demonstrando a falta de entendimento do cenário que se apresentava, talvez hoje o Brasil fosse finalista, e Neymar acabaria exaltado por enfim mostrar numa Copa a habilidade que nunca lhe faltou. Seria uma resposta elegante àqueles que comemoraram a sua lesão por conta de opiniões políticas, mostrando-se iguais ou piores em relação a quem tanto criticam. Por outro lado, talvez teríamos vencido a Croácia e parado na Argentina de Messi, dando ainda mais combustível para pessoas que sequer acompanham futebol no dia a dia, mas torcem contra o país em que nasceram pelo simples prazer de diminuir tudo o que é de casa. Destes, nos resta ter pena por nunca terem superado o complexo de vira-latas que descreveu Nelson Rodrigues. Entre muitas suposições, fato mesmo é que a nossa Copa, de novo, acabou mais cedo; mas a do Mundo só termina domingo, com França x Argentina. Apreciemos o que ainda nos reservam Mbappé e Messi.