Marquinho Bacellar defende Câmara independente, mas sem atrapalhar o prefeito
Arnaldo Neto 10/12/2022 11:52 - Atualizado em 11/12/2022 10:43
Marquinho Bacellar em entrevista ao Folha no Ar
Marquinho Bacellar em entrevista ao Folha no Ar / Genilson Pessanha
*Com Cláudio Nogueira e Matheus Berriel
“Quem espera uma Câmara atrapalhando o prefeito, brigando o tempo todo, está enganado”. Foi o que afirmou o presidente eleito do Legislativo campista e atual líder da oposição, Marquinho Bacellar (SD), em entrevista ao Folha no Ar dessa quinta (8). Proclamado presidente para o próximo biênio duas vezes, devido à polêmica anulação do pleito de fevereiro, teve a vitória confirmada no último dia 30, após um acordo por pacificação que envolveu o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido), o secretário estadual de Governo, Rodrigo Bacellar (PL), e até o governador Cláudio Castro (PL). Por outro lado, o grupo liderado por ele cedeu no remanejamento para o prefeito no Orçamento do ano que vem, passando para 20%. O vereador diz que a proposta inicial, de 5%, foi uma forma de conseguir o que chama de respeito do prefeito. Filho do ex-presidente da Câmara Marcos Bacellar (SD), aponta um suposto afastamento de Wladimir do pai, o ex-governador Anthony Garotinho (União), como benéfico para o governo. E diz que refletiu até na gestão do atual presidente da Casa, Fábio Ribeiro (PSD), apesar de, para ele, não apagar o que classifica como erros à frente do Legislativo. Marquinho também diz ser necessário destravar pautas, o que incluiu as contas dos ex-prefeitos Rosinha Garotinho (União) e Rafael Diniz (Cidadania). Contudo, acredita que um grande desafio é a reforma do regimento. Com muitas críticas a Wladimir, visualiza nos últimos movimentos dele uma tentativa de acertar: “Acho que ele amadureceu mais na dor do que no amor”.
Orçamento de Campos – O impasse ficou na LDO. Realmente, quem acompanha a política, quem entende um pouco sabe que 5% (de remanejamento) seria algo radical, mas foi a nossa forma encontrada para que o prefeito enxergasse com respeito um grupo de vereadores. Se ele não respeitar a Câmara em sua maioria, ele não respeita a população. Em entrevistas, deixei claro que tinha essa divergência dentro do grupo dos 14: Fred Machado (Cidadania), assim como outros colegas, entendia que 5% era algo realmente radical. Mas, foi nossa forma de pedir respeito ao prefeito, para que ele pudesse sentar com os 25 vereadores e buscar um entendimento. Não pode ter uma tratativa com 11 vereadores e outra com 14. E assim nós viemos, em vários debates quentes na Câmara, até que ele teve o bom senso de ir até o governador. Lá, com o secretário estadual de Governo, Rodrigo Bacellar, eles sentaram e buscaram o entendimento. Ficamos assim, meses, também ouvindo o governador, ouvindo o Rodrigo, pedindo para a gente tentar pacificar, porque quem perderia era a cidade. Só que o prefeito pediu 40%, quase metade de remanejamento. Não tem condições! A gente chegou no entendimento de sair de 5%, buscar um meio termo. Ele tentou 30%, e a gente negou, até que chegamos num consenso de 20%. Acredito que, com 20%, ele consegue governar a cidade até o fim do ano se fizer realmente um governo enxuto, sem exageros em contratos e RPAs. E a Câmara vai estar ali, independente, para colaborar no que for possível para governar essa cidade e fazer o melhor para o município.

Pressão sobre vereadores – Bastidor da política tem muita fofoca. Mas, realmente, o que a gente passou do dia 15 (de fevereiro) até hoje foi algo que nunca vi na política. Lógico, sou novo na política, mas é algo que nunca vi na Câmara dos Vereadores acompanhando meu pai. Esse grupo dos 14, eu nunca vi igual na política. Eu não acreditava que na política poderia ter grupo político assim, porque a gente escuta que política é aquilo: ofereceu, vai. E houve muitas fofocas fortes de que ofereceram, sim; tentaram cooptar vereador. Eu entendo que uma Câmara deveria ser independente em todas as cidades. O presidente não pode ser da base do prefeito, porque senão não tem lógica. Numa Câmara, que é um órgão fiscalizador do prefeito, como é que pode estar alinhada com o prefeito? Perde um pouco da coerência. E, quanto a essa Câmara independente do ano que vem, deixei claro em plenário, após a votação: quem espera uma Câmara atrapalhando o prefeito, brigando o tempo todo, está enganado. A gente brigou porque foi necessário brigar, subir o tom, foi necessário às vezes baixar o nível na Câmara, porque a gente estava buscando respeito. Infelizmente, tem gente que só respeita se a gente for radical. Então, acho que o papel da Câmara a partir de 1º de janeiro é ser parceira do prefeito no sentido de mostrar a ele uma visão de que, talvez, dentro de uma bolha dos seus secretários, seus DAS’s, não mostrem a ele a verdade. A cidade não está um brinco. A cidade ainda está um caos. Projetos não podem vir em um dia para serem votados no outro. A gente vai ter que chegar num consenso de ter tempo para a gente ouvir as entidades, ouvir as classes que vão ser envolvidas. Acho que a importância dessa independência vai ser muito grande.

Contas de Rosinha e Rafael – Eu acho que o maior desafio da Câmara é a mudança do regimento. Não pode ter duas opiniões dentro de um regimento; tem que ser uma opinião só, e ser respeitada. E a questão das contas, assim como projetos, assim como outras coisas que ficaram paradas nesses dois anos da gestão de Fábio, é a gente colocar as pautas todas em andamento, botar para andar. A gente tem que desembolar o que está embolado lá dentro.

Famílias na política – Se a gente for levar para o fígado momentos políticos diferentes, a gente não consegue trabalhar. Papai e Garotinho tiveram seus momentos, foi um embate também muito grande. Da parte de papai, aquela franqueza de sindicalista, aquele papo direto; e de Garotinho, aquele papo de bastidor, mais sujo. Hoje, como eu falo para os colegas e para pessoas com quem convivo, não falando mal da família de ninguém, mas é triste você ver um cara que foi um dos maiores políticos da cidade de Campos chegar onde chegou, como o Garotinho. Um cara que está hoje atacando o próprio filho em rede social. Só vive de ataque, de ofensas, sem credibilidade na política. Não estou falando de família de prefeito, estou falando da figura política do Garotinho. E eu acho que esse afastamento, de Garotinho para Wladimir... Pós-eleição, a gente não vê mais aquele laço de união dos dois, de convergirem na mesma coisa... Acho que está fazendo bem ao prefeito. Prova disso é ele entender que perdeu uma eleição, que ele fez um movimento errado na Câmara; ele ou Fábio, que é o presidente. A gente sabe que o prefeito interfere muito, já que o presidente é da base dele. Acredito que há um amadurecimento tanto da minha parte ali, com primeiro mandato, como da dele, como a de Rodrigo. A gente está ali para amadurecer todo dia, acho que é o objetivo de todo mundo. Mas, acho que esse afastamento do pai está fazendo bem a ele.

Pedido de Wladimir sobre a Mesa – Para ser bem sincero, se teve qualquer pedido dele, seja para qualquer pessoa ligada ao nosso grupo, ao governador, ao Rodrigo, eu acho que eles não tiveram nem a coragem de pedir para a gente. Mesa era algo que a gente não abriria mão e não vai abrir de forma alguma. Os 14 já tinham combinado, já tinham escolhido, e a gente não ia mudar isso de forma alguma, a pedido de ninguém, pela união do nosso grupo. Só a gente sabe o que a gente passou, o que a nossa família passou. Nós fomos expostos em outdoor, em rede social. Nós sofremos neste ano algo que eu não vi nenhum grupo político sofrer em Campos: de perseguição, rede social, outdoor e Câmara, enfim; imprensa de fora que veio para cá, invadindo gabinete... Nós sofremos.

Você fala do caso Ceperj? – Não foi feito nada de errado, isso vai ficar provado na hora que tiver que ficar provado. Isso é mais uma estratégia suja. A gente sabe de onde saiu, de onde vieram os problemas. Hoje, circulam vídeos ainda. A turma brinca que estamos num momento de pacificação, mas tem vídeos atacando meu irmão, atacando o governador. A gente sabe de onde vem: não tem um grupo político, não tem dois grupos político. Talvez, tenha grupo dividido em dois. Infelizmente, faz parte do jogo político. Quem aceitou a missão de vir como figura pública tem que estar disposto a tomar pedrada, não tem como. Você não vai passar o período de vereador, de prefeito, de deputado sem tomar pedrada. Se você passar, é porque você não fez nada de bom ou de ruim. Você tem que ter errado e acertado, não tem como.

Grupo dividido em dois, seria Wladimir e Garotinho? – Talvez...

Desempenho de Bruno, com apoio do prefeito, e Rodrigo nas urnas de Campos – Eu acho que o Wladimir, até pelo apoio do Cláudio Castro e do Rodrigo Bacellar em trazer melhorias para a nossa cidade, colhe os frutos juntos, lógico. O prefeito que foi lá pedir, que fez sua parte de cobrar. (Essa votação alta) parte também da postura do Bruno (Dauaire), que é uma figura que não tem embate, não tem polêmica com ninguém, o jeitão dele fácil de lidar. E não há o que discutir sobre o poder da máquina. Quando você tem uma Prefeitura na mão, que a gente chama de máquina, isso pesa numa eleição. Eu acredito que essa aceitação do prefeito na rua se passa muito por isso: pelos investimentos que vieram, lógico, mais do estado do que do município. E essa aceitação tanto de Rodrigo (Bacellar) quanto do Bruno passou por isso aí.

Avaliação do governo Wladimir – Começou muito ruim, imaturo, o que já era esperado, talvez. Muito dependente do seu pai ou do grupo político antigo que acompanhava o seu pai. Os principais erros culminaram onde chegou, de ele perder a Mesa. Naquele aumento de imposto, ele perdeu vereador. O fato de ir destratando vereador, jogando vereador fora, e vereador vindo para a oposição, se tornando independente, isso foi atrapalhando o governo. Ele errou muito e percebeu onde errou. E está tentando, talvez, começar a acertar. Espero que seja o começo de uma tentativa de acerto, de um amadurecimento. Hoje, eu acho que ele amadureceu mais na dor do que no amor. Muita pancada que ele levou também foi de movimento errado que ele fez. E repito: se a gente tiver que brigar, nós vamos continuar brigando até o final do mandato, não tenha dúvida. Mas, espero que ele tenha entendido realmente a importância da Câmara, dos vereadores, e que possa respeitar as decisões que já foram tomadas. E, daqui para frente, a gente ter uma tratativa de respeito entre uma Câmara e uma Prefeitura para a população colher os frutos.

Projeções para 2024 – Eu acho que a reeleição de qualquer prefeito é algo que seria natural. Enfrentar uma máquina é algo muito difícil, e, como a gente viu, o governo Rafael veio, infelizmente, numa decadência financeira. Então, hoje, o Wladimir chegando, a gente brinca que o mínimo que ele fizer vai ser melhor que o governo passado, não por capacidade administrativa, longe de mim compará-los, mas por questão financeira. Então, acho que Wladimir, com a máquina andando redondo, como a gente entende e tem a expectativa de andar, uma reeleição dele se torna mais favorável. Ele sai na frente de qualquer outro candidato. O nosso grupo, na eleição passada para prefeito, nós lançamos um candidato em cima da hora, realmente, porque a gente entendeu que precisaria de um candidato. Para a próxima eleição, a gente não tem ainda, a gente não trocou ideia, não planejou nada nesse âmbito. É lógico, a gente tem um grupo de vereadores, tem um grupo de ex-vereadores, tem um grupo de suplentes que fazem parte do nosso grupo, e o nosso primeiro objetivo é manter essa unidade, fortalecer todos. E, para prefeito, a gente ainda tem que analisar muito. Muda muito rápido e tem muito tempo até lá.

Possível candidato da família a prefeito? – A gente não tem essa conversa, a gente não tem nem planejamento de Prefeitura, de Rodrigo prefeito ou eu ser prefeito. Eu acho que não tinha nem no meu planejamento ser vereador, ainda mais presidente da Câmara. Foi algo que foi acontecendo. A gente não tem essa vaidade, essa pretensão.

Rodrigo e a presidência da Alerj – É algo que se especula muito, pela proporção que o Rodrigo tomou. Falar do meu irmão aqui parece até clichê, porque é meu irmão. Mas, é evidente o destaque dele. No primeiro mandato, Rodrigo chegar onde chegou, secretário de Governo, enfrentar vários processos que houve naquela Alerj, e de peito aberto ali... É um cara fácil de lidar, que cria amizades... Essa especulação é normal. Rodrigo é um cara agregador, isso vem do nosso pai, de manter grupo e de saber manter um grupo, respeitar opiniões sem impor, sem prejudicar, sem perseguir. É natural! Então, essa especulação acontece, sim, tem acontecido. E está tudo sendo analisado. É lógico que eu espero que aconteça. Espero que os colegas lá entendam o valor dele, a importância de ter um presidente como ele.

Amigo de Castro, Rodrigo teria independência para presidir a Alerj? Dentro de comparativos de grupos políticos e histórias políticas, se eu comparar a história política de um Cláudio Castro com a história do grupo Garotinho, é algo que não tem comparação. Então, como eu digo: um governador que veio, pegou uma bomba como o Cláudio pegou, vem se saindo bem demais... É um cara que não precisa ter aquela rédea curta, não precisa ter alguém vigiando. Se a gente tivesse na Prefeitura um grupo político que não tivesse escândalos, que não tivesse corrupções envolvidas nesse grupo, seria uma tratativa talvez diferente, de dar confiança para ele seguir o trabalho. Se o Wladmir passar no seu mandato agora sem escândalos de corrupção, que possam prejudicar a imagem do seu grupo, e vier para uma reeleição, for reeleito sem problemas, o próximo presidente (da Câmara) pode ser alinhado, porque que aí você tem credibilidade para trabalhar. Agora, quando você tem, infelizmente, um grupo político com a quantidade de crimes que eles cometeram, tem que estar muito bem vigiado, com a rédea muito curtinha.

Avaliação de Fábio Ribeiro – Ficou claro para toda a população que a interferência do grupo político do prefeito nele era algo evidente. Eu acho que ele não tinha opinião própria no começo do mandato. Aquilo de anular a reprovação das contas de Rosinha não pode sair de um presidente da Câmara. Você não pode desrespeitar os ex-vereadores que passaram ali. Ele errou muito. Muito pela influência e pressão do grupo político. Eu acho que, na eleição que passou (em outubro), quando talvez teve o rompimento do pai com o filho, que é o que os corredores dizem, acho que o próprio prefeito respirou e falou: “Acho que eu vou fazer do meu jeito e vou ver o que eu vou fazer agora”. E isso interfere em Fábio. Teve um momento, não me lembro o mês exato, mas em que ele parou de cortar a nossa fala; passou a pautar processos nossos com mais facilidade... Não é que apaga tudo o que passou. O que ele fez para trás foi uma tragédia, é fato! Mas, teve uma mudança de chave. Não sou do grupo deles nem quero ser, mas, enxergando distante, acho que essa divergência de pai para filho, entre o prefeito e o pai dele, fez com que a cidade começasse a voltar a trabalhar sem polêmica.

Planejamento – A gente está com muita ideia, vem planejando. A gente está eleito desde o dia 15 (de fevereiro), pelo menos para a gente. Antes de botar em prática, é lógico, a gente precisa se reunir com o prefeito, porque a maioria delas passa por intermédio dele, de uma coisa ou outra, de a gente fazer parcerias. Então, eu espero que, se tudo correr bem, a gente vira dia 1º (de janeiro) eleito, sem mais problemas. E espero que a gente possa ter essa parceria, essa primeira reunião com o prefeito. Outro ponto importantíssimo: temos o planejamento mensal de sentar com as entidades de classe e sindicatos. Temos que levar para o prefeito, realmente, a necessidade direta das classes. É tentar aproximar o prefeito da população através da Câmara, e essa linha direta vai ser muito importante. Mas, que a gente vai trabalhar para captar recursos de todas as formas, vai. A gente vai colaborar demais com o prefeito, mostrando uma visão que talvez ele não teve ainda.
**Publicado na edição deste sábado (10) da Folha da Manhã

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