A Câmara de Campos teve outra semana negativa. O vereador Fred Machado (Cidadania) protestou após ser indeferido um recurso que ele protocolou para anular a sessão na qual foi arquivado o processo de destituição contra o presidente da Câmara, Fábio Ribeiro (PSD), e o vice, Juninho Virgílio (União). Ele justificava que a votação não foi válida porque começou após a oposição, que é maioria, esvaziar o plenário. Logo, sem quórum, não haveria sessão. O recurso foi considerado intempestivo, e Fred usou a tribuna para falar sobre algo que todo mundo já percebeu nessa legislatura: “vai ser difícil chegar a uma conciliação”.
“Briga com AR-15” na Câmara
A conclusão que Fred chegou na tribuna não é novidade. Desde 15 de fevereiro, quando os governistas tentaram antecipar a eleição da Mesa — na esperança de reeleger Fábio, mas acabaram sendo derrotados por Marquinho Bacellar (SD) e, posteriormente, anularam a disputa — não há clima para consenso na Casa. Prova disso foi o próprio discurso de Fred, que após ser sensato ao citar sobre as dificuldades de conciliação, principalmente quando o assunto é a interpretação do regimento, perdeu a razão ao dizer que o momento era de “partir para briga, com AR-15 mesmo. Explodir a Câmara”.
Imagem manchada
Fred tanto sabe que errou ao fazer alusão ao uso de armas na Casa — embora não seja o primeiro episódio —, que logo usou as redes sociais para se desculpar. A intenção não é a de defender ninguém, mas quem conhece o temperamento do ex-presidente da Câmara não tem dúvida que as palavras proferidas na tribuna foram mais um ato impensado, no calor da emoção, do que uma ameaça velada. Apesar de ter tido maior repercussão, Fred não foi o único que perdeu a linha na sessão da última quarta. A troca de ofensas entre vereadores, insinuações maldosas, tudo isso só vem manchando a imagem do Legislativo.
Fôlego da oposição
E não há sinal de que a bandeira da paz será erguida na Casa. Aliás, está longe disso. Embora o resultado tenha sido anulado, a derrota política na eleição da Mesa tem um preço caro para o governo — deu fôlego à oposição, um ano antes de poder assumir, de fato, o protagonismo de chegar ao comando da Mesa em 2023. As dificuldades que o governo do prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) encontra hoje na relação com o Legislativo tendem a ser muito mais intensas nos últimos dois anos do atual mandato, quando, fora um ponto muito fora da curva, a Mesa será toda da oposição, como a maioria dos vereadores da Casa.
Wladimir contra a parede
Não por acaso a oposição já sinalizou que vai impor a Wladimir um remanejamento de só 5% no Orçamento do ano que vem. Como disse o próprio prefeito, o movimento vai obrigá-lo a “tomar bênção” à Casa, dominada por opositores. O lado que tem maioria na Câmara pode mudar a qualquer momento, mas, na atual conjuntura, é mais fácil a oposição crescer do que a base se reestruturar. E o governo já chegou a ter 23 vereadores do seu lado. A habilidade que o prefeito teve para articulação enquanto deputado federal, ao que parece faltou na interlocução com a Casa ou na escolha de quem do seu grupo seria o responsável por isso.
Queda de braço
Em meio a esse fogo cruzado, Wladimir vetou, nesta semana, um projeto de lei de Marquinho Bacellar, que instituía a semana da diversidade no município. Entre as ações propostas estava a realização da parada LGBTQIA+. A pauta é espinhosa em uma sociedade conservadora, bem como para o público cristão, sobretudo o evangélico, nicho eleitoral dos Garotinho. Mas o veto abre mais uma disputa, já que Marquinho deve trabalhar para derrubá-lo. Precisa do mágico número de 17 votos (2/3 da Casa), que nenhuma bancada conseguiu alcançar ainda, desde que houve um racha na base, nas polemicas discussões do Código Tributário, no ano passado.
Casa do Povo mais distante
Movimentos políticos, como forma de demonstração de força, sobretudo em ano eleitoral, sempre aconteceram. E sempre vão acontecer. Só que neste ano, na Câmara, ao que parece fugiu do controle, não há tentativa mínima de convivência amistosa, na qual brigam as ideias, não os homens, como já pregava Tancredo Neves. A divergência é salutar, sobretudo em interesses da população, como no caso das discussões sobre o transporte público. Em uma cidade na qual mais de uma a cada quatro pessoas tem fome, é incompreensível que, na Casa do Povo, a briga pelo poder se sobreponha a debates importantes para a sociedade.
Queda de arrecadação
E para fechar a semana no Legislativo goitacá, foi apresentado ontem, pelo secretário Paulo Hirano, os relatórios de gestão do terceiro quadrimestre de 2021 e do primeiro quadrimestre de 2022 da secretaria municipal de Saúde. Pelos dados levados ao plenário, o orçamento da pasta teve uma queda significativa na comparação dos últimos quatro meses do ano passado em comparação com os quatro primeiro deste ano, passando de R$ 237,5 milhões para R$ 117,1 milhões. O principal motivo, segundo Hirano, foi a redução drástica dos repasses federais para combate à Covid-19.
