Nesta semana, em meio às comemorações pelo Dia Internacional da Mulher, veio a notícia de que o governo federal decidiu liberar a distribuição gratuita de absorventes para alguns grupos de mulheres, como forma de combater a pobreza menstrual, mesmo que ainda de forma restrita.
Polêmicas à parte sobre a liberação só ter vindo agora, já que antes foi vetada, o que eu quero aqui nesta postagem é falar sobre os impactos que a falta de absorvente pode causar no meio escolar e de que forma, nós educadores, podemos contribuir para um ambiente cada vez mais saudável e acolhedor para as nossas meninas e mulheres.
Na noite desta terça-feira (08), foi exibida uma reportagem que trazia um depoimento que me marcou, apesar de não ser surpreendente por, infelizmente, saber que faz parte da vida de milhares de mulheres.
No quintal de uma residência simples, a dona de casa Maria Brito dos Santos relatou à repórter que as netas passam apuro quando não dá para comprar absorvente e, muitas vezes, acabam faltando as aulas: “Quando você não tem dinheiro para comprar, como é que você faz? A criança não vai para a escola, a menina não vai”, contou.
Um levantamento feito pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), no ano passado, revelou que entre adolescentes e jovens que menstruam, 35% afirmaram que já passaram por alguma dificuldade por não ter acesso a absorventes.
“A experiência de menstruar tem sido algo difícil para muitas pessoas que menstruam, seja pela falta de insumos, como absorventes, seja pelas condições estruturais, como água e banheiro. Na enquete, ouvimos pessoas que, na falta de recursos mínimos, relataram uso de fralda, pano e até sabugo de milho no período menstrual. Isso tem um impacto profundo no direito de ir e vir, na construção de autoestima e confiança corporal, e na dignidade de pessoas que menstruam”, afirma Astrid Bant, representante do UNFPA no Brasil.
O mesmo levantamento revelou outro dado preocupante. As informações sobre menstruação ainda não fazem parte da vida escolar. Entre as pessoas que menstruam, 71% disseram que nunca tiveram aulas, palestras ou rodas de conversa sobre cuidados na menstruação na escola. Entre quem não menstrua, 58% nunca tiveram.
“A dignidade menstrual é um direito de cada adolescente e jovem que menstrua. É essencial retirar o tabu em relação ao tema. As escolas têm um papel fundamental nesse processo. Cabe a elas acolher todas as pessoas que menstruam e contribuir para transformar o ambiente escolar em um espaço acolhedor, sem bullying, e que respeite a todas e todos", defendeu, em 2021, a representante do UNICEF no Brasil, Florence Bauer.
A pesquisa ainda mostrou que entre quem menstrua, 62% afirmam que já deixaram de ir à escola, ou outros lugares por causa da menstruação. Além disso, 73% dizem que já sentiram constrangimento na escola ou em outro lugar público por conta menstruação. O constrangimento é também notado por quem não menstrua: 58% disseram que já presenciaram essas situações de constrangimento.
Esta enquete feita pela UNICEF é um recado que adolescentes e jovens estão nos dando, e revela que é essencial garantir espaços seguros de diálogo nas escolas e nas famílias para garantir que os direitos menstruais sejam respeitados.
Como cidadão, gestor escolar e também como professor concursado de Educação Física, no Governo do Estado do Rio, desde 2007, nunca conseguiria passar ileso a tantas informações tão impactantes.
Tenho dito e trabalhado para que o papel da escola seja efetivo nas ações por melhores condições de vida para as mulheres, contribuindo para uma sociedade justa e igualitária, a começar pelo ambiente escolar. É nosso dever fazer um trabalho de fortalecimento para as meninas e ainda de conscientização envolvendo também os meninos.
Só vamos conseguir avançar nisso com parcerias, contando com o apoio de quem se preparou para lidar com estas questões. Tanto as escolas públicas, quanto as privadas precisam estar atentas a isso.
No fim do ano passado, tive o privilégio de conhecer o trabalho do Instituto ELA (Educação, Liderança e Altruísmo). Fundado há dois anos, em São Paulo, o instituto é formado por um grupo de educadoras, mulheres fortes e sonhadoras que se uniram pelo protagonismo da mulher, dando suporte principalmente a educadores, com palestras e campanhas, inclusive incentivando a doação de absorventes.
Logo me encantei com o trabalho e hoje somos parceiros. Temos o Selo de Responsabilidade Social Feminina, e iniciamos, como gestor do Centro Escola Riachuelo, algumas ações este ano nas nossas cinco unidades, por meio do nosso Departamento da Família.
Na volta às aulas, as estudantes já encontraram absorventes disponíveis nos banheiros das unidades.
A nossa proposta é envolver todos em campanhas não só sobre a importância do absorvente, mas também em outros temas que não podem passar desapercebidos no dia a dia.
Queremos quebrar o tabu que ainda existe em relação à menstruação, e também incentivar uma campanha de doação do produto íntimo a comunidades carentes.
Não nos resumiremos à questão, outros temas precisam ser abordados, inclusive seguindo as orientações da Lei Federal 14.164, de 10 de junho de 2021, que determina a aplicação de conteúdos sobre a prevenção da violência contra a mulher nos seus currículos e institui a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher.
O que buscaremos sempre é o fortalecimento das nossas meninas e mulheres, principalmente incentivando à educação socioemocional. Para falar de empoderamento feminino, da valorização delas, a gente precisa começar onde? Na base. Precisamos mostrar para estas meninas que estão nas escolas, que elas podem ser o que quiserem, mas que, para isso, precisam estar fortalecidas.
Educador e empreendedor em Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, sou graduado em Educação Física pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e professor concursado da área no Governo do Estado do Rio de Janeiro desde 2007. Atuei como coordenador pedagógico e geral de várias escolas particulares em Campos até 2011. Fui também coordenador administrativo do Sesc Mineiro, em Grussaí, no município de São João da Barra, até 2013. Há oito anos me dedico ao Centro Educacional Riachuelo como Diretor Geral das cinco unidades, que formam hoje o Grupo Riachuelo. Sou pós-graduado em Gestão Escolar Integradora e Gestão de Pessoas pelo Instituto Brasileiro de Ensino (IBE). Atualmente também sou apresentador do programa Papo Cabeça na rádio Folha FM 98,3.