Dib Hauaji, o mais antigo repórter fotográfico do Rio e o maior colecionador de câmeras da América do Sul
Matheus Berriel 17/12/2021 21:07 - Atualizado em 17/12/2021 21:42
Dib Hauaji
Dib Hauaji / Foto: Rodrigo Silveira
Campos tem, oficialmente, o mais antigo fotógrafo do estado entre os registrados na Associações Profissional dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio de Janeiro (Arfoc). O reconhecimento foi feito pela entidade a Dib Sahid Hauaji, que, do alto dos seus 84 anos de idade, também carrega o posto de ter a maior coleção de máquinas fotográficas da América do Sul. Entre câmeras, lentes, flashes e capas protetoras, são mais de 4 mil itens.
— Eu comecei há 52 anos, embora ainda esteja comemorando 50 anos de profissão, porque não pudemos festejar direito nos últimos anos. Fotografo há muito mais tempo, mas, profissionalmente, são 52 anos — conta o repórter fotográfico.
Descendente de libaneses, Dib Hauaji começou a carreira como comerciante. Em seguida, deixou Campos para ingressar no ramo da construção civil, trabalhando na companhia Everest. Passou pelo Porto Mucuripe, no Ceará, e participou de obras em vários estados brasileiros. Mas, retornou à cidade natal em 1966, quando se casou com a esposa, Tânia. Praticante de artes marciais, só passou a ter a fotografia como fonte de renda após um acidente durante uma luta de judô, que o deixou paralítico.
Incentivado pelo amigo Fred Alberto Pirralho, Dib então montou uma loja de fotografia, tendo como funcionário logo de início o fotógrafo Esdras Pereira, que morreu em novembro passado, aos 63 anos. Então um adolescente de 14 e portando uma câmera Beauty Flex que pertencia ao seu pai, Esdras trilhou um caminho que nas décadas seguintes seria percorrido por inúmeros outros fotógrafos de Campos. Afinal, teve marcante passagem pela loja de Dib antes de se destacar profissionalmente no “Jornal do Brasil” e na Folha da Manhã.
— Em Campos, deve haver uns 200 fotógrafos. Pelo menos 180 começaram comigo. Eu não ensinei a ninguém, porque não sei nem para mim. Mas, eu dava apoio, oportunidade e confiança a todos eles. Quando Esdras chegou lá, eu dei algumas instruções e disse para ele sair e fotografar, porque ia dar certo. Ele saiu e fez uma grande foto no Mercado Municipal, com 10 minutos. Foi uma força que eu dei — recorda o veterano Dib.
Se os primeiros cliques de Esdras foram realizados com uma Beauty Flex, os de Dib tiveram como equipamento uma câmera da fabricante chinesa Yashica. Com ela e tantas máquinas que viriam depois, ele fotografou formaturas escolares, casamentos, aniversários e outros eventos da sociedade campista. Logo aconteceriam os primeiros contatos com a imprensa.
— Eu tinha vergonha de ser fotógrafo, me achava muito ruim, batia muitas fotos para algumas saírem boas. Mas, de repente, dominei o mercado de Campos. Os jornais me ajudaram muito. A minha primeira foto publicada foi no “Monitor Campista”, por Márcia Angela, há 50 anos. Dali em diante, fiquei sendo o queridinho dos jornais. Eu ajudei a todos os jornais de Campos, fotografava para todo mundo — relata Dib. — Antigamente, fotos de futebol em Campos só saíam três dias depois, porque os jornais usavam clichê. Então, tinha que fotografar e levar na clicheria. O (jornalista e advogado) Luiz Mário Concebida disse para eu fazer e entregar na hora. Quando acabava o jogo, eu já estava com o clichê na mão, fazendo. E eu ajudava a todos os jornais com fotos para coluna social, notícia... Fazia tudo — complementa.
Amigo do jornalista Aluysio Cardoso Barbosa nos tempos em que ambos estudaram no Liceu de Humanidades de Campos, Dib manteve com ele relação de proximidade. Tanto é que indicou o pupilo Esdras para integrar a equipe da Folha da Manhã antes mesmo da sua fundação, em 1978, como também teve, o próprio Dib, participação importante no rápido sucesso do jornal.
— Aluysio trabalhava em “A Notícia”. Ele e Diva Abreu Barbosa, que era professora do Liceu, tiveram um sonho de fundar um jornal em offset, que veio a ser a Folha da Manhã. E, desde que surgiu a Folha, eu nunca mudei. Tive ofertas boas para sair, houve jornal criado depois, mas eu sempre fui Folha. É uma família para mim — afirma.
Muito do destaque obtido por Dib deveu-se à boa relação colunistas sociais como Silvia Salgado, de “A Notícia”, a já citada Márcia Angela Arêas, Maria Ester Balbi e Celso Cordeiro Filho, com passagens pela Folha da Manhã. Por sempre ter o seu nome publicado em créditos pela imprensa campista, o repórter fotográfico passou a estar presente em momentos históricos. Foram várias as visitas presidenciais registradas, obtendo credenciamento mesmo durante a ditadura militar.
— Entre suas muitas histórias, estão a cabeçada que deu em Emílio Garrastazu Médici, quando o presidente da ditadura militar, ao receber um título em Campos, deu literalmente “de cara” com Dib, que, afoito, não queria perder o clique da entrega do documento. Anos depois, outro presidente da ditadura militar também foi “vítima” do fotógrafo campista: por ocasião da campanha eleitoral Arena/MDB, João Figueiredo fazia um discurso em público quando o flash da máquina de Dib explodiu no rosto do general — relata o portal Mapa de Cultura RJ, que tem uma página dedicada unicamente ao personagem campista. — Imediatamente, os seguranças (de Figueiredo) me agarraram e me imobilizaram, achando que tinha sido um tiro — conta Dib no mesmo Mapa de Cultura RJ.
Como fotógrafo oficial dos prefeitos de Campos por décadas, o profissional viu e fotografou inaugurações de prédios, encontros políticos e acontecimentos marcantes como a assinatura dos royalties do petróleo, na praça do Santíssimo Salvador, com presença do então presidente José Sarney.
Numerosa coleção — As trocas dos equipamentos utilizados durante a carreira proporcionaram a Dib a oportunidade de se tornar colecionador, ainda que a sua vontade inicial não tenha sido propriamente esta.
— Eu não comecei colecionando, comecei juntando câmeras. No início, juntava as Yashicas, porque eu já tinha uma equipe de 40 fotógrafos. Só tinha eu, fazia Campos toda, tudo era comigo nas décadas de 1970 e 1980. Depois, surgiu a Rolleiflex, e eu fui para a Rollei, mas não vendi as Yashicas. Guardei, para não armar o concorrente. As máquinas de ponta, só eu tinha. Depois, vieram as da Nikon. Quando fui ver, me espantei, tinha quase mil máquinas. Hoje, são mais de 2 mil máquinas, desde a caixa de sapato, que foi como começou a fotografia. Tem Pikanon, Pentax, todo tipo de máquina. Contando todos os itens, são mais de 4 mil — ressalta.
Em 2016, já reconhecido como o maior colecionador de câmeras do Brasil, Dib expôs parte do seu acervo no Museu Histórico de Campos. Entre as preciosidades, há modelos da alemã Leica, uma Speed Graphic popularizada em filmes do Super-Homem, e inusitadas lambe-lambes, como são chamadas as máquinas-caixotes populares no início do século XX. Também integram a coleção centenas de máquinas digitais, símbolos de uma nova fase da fotografia, que tem a sua história grandemente representada na coleção de Dib. “Nada aqui é para vender. São equipamentos caros, mas, no fundo, isso tudo não tem preço”, enfatiza ele.
Dib Hauaji
Dib Hauaji / Foto: Rodrigo Silveira
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Dib Hauaji / Foto: Rodrigo Silveira
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Dib Hauaji / Foto: Rodrigo Silveira

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