* Arthur Soffiati
08/08/2019 17:38 - Atualizado em 15/08/2019 17:43
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Outro autor que expressa o clima pré-modernista no Brasil é Guilherme de Almeida. Ele nasceu em 1890 e morreu em 1969. Como era bastante comum em sua época, Guilherme formou-se em Direito e se destacou como inspirado poeta, além de jornalista e crítico de cinema. Juntamente com Tácito de Almeida, seu irmão, ele participou da Semana de Arte Moderna de 1922.
“Nós”, seu primeiro livro publicado, data de 1917, ano em que também vieram a lume “Há uma gota de sangue em cada poema”, de Mário de Andrade, e “A cinza das horas”, de Manuel Bandeira. A capa de “Nós” foi desenhada por Correia Dias, tendo a publicação ficado a cargo do jornal “O Estado de S. Paulo”.
Mas Guilherme de Almeida contava com muitos poemas escritos antes do lançamento de seu primeiro livro. Esses poemas foram distribuídos em três livros: “Simplicidade” (com poemas escritos entre 1912-14), “Na cidade da névoa” (1915-16) e “Suave colheita” (1912-19). Os três figuram no primeiro tomo de “Toda poesia”, reunião de sua obra poética em seis tomos, publicada em 1952 pela Martins Editora (São Paulo), quando o poeta contava com 62 anos. Tenho essa edição com dedicatória do autor para uma jovem.
“Simplicidade” reúne seus primeiros poemas e é, de fato, um trabalho simples. Jovem, o poeta sente saudade da sua infância: “Lembrança, quanta lembrança/Dos tempos que já lá vão!/Minha vida de criança,/Minha bolha de sabão”. Ouvem-se, nos poemas, ecos do parnasianismo, do simbolismo e até do romantismo. Mas nota-se também a facilidade de Guilherme em metrificar e encontrar rimas, traço que vai caracterizar toda sua obra poética. Ele manifesta preocupações de ordem social ao olhar para as pessoas pobres que trabalham nas ruas de São Paulo. Sua poesia já revela sua dicção viril, lírica e apaixonada. Ele escreve versos para seu primeiro amor, revelando as belas paixões juvenis que não mais ocorrem.
“Na cidade da névoa” (1915-16), encontramos uma espécie de contraponto a “Pauliceia desvariada”, primeiro livro de poesia declaradamente modernista, lançado por Mário de Andrade em 1922. Enquanto, neste, a cidade fervilha, no livro de Guilherme de Almeida, São Paulo estertora. Trata-se de uma Pauliceia comportada. O poeta não gosta do mês de abril, que Mário tanto amava. As casas envelhecem e começam a ruir. Ele fala da São Paulo antiga. Mas domina a arte da poesia e já revela laivos de modernismo: “Oh! A chuva! Este spleen, esta neurastenia!/A enxurrada que sai pelos poros da rua;/Esta transpiração aborrecida e fria/Da Cidade que está que nem sequer se move.../Esta febre, será que nunca se acalma?/A doença é contagiosa: e eu sinto, cada dia,/Que, quando chove assim pela Cidade, chove/Dentro da minha alma”. Nesse livro, Augusto dos Anjos está presente como inspiração, mas também algo a ser desenvolvido por Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes futuramente.
Em “Nós”, publicado em 1917, mas contendo poemas que remontam a 1914, Guilherme de Almeida reúne 33 sonetos sobre um caso de amor muito provavelmente vivido por ele. São versos decassílabos com rimas perfeitas, algumas até raras. O romance começa como começavam os romances de antigamente. O casal troca juras, deseja o casamento e a formação de um lar com filhos. Vislumbra o apaixonado envelhecimento de ambos. Mas o amor revela cansaço e termina em separação. Ela se enamora de outro e ele padece o sofrimento da solidão. Depreendo, desses sonetos, uma certa liberdade conquistada pela mulher de classe média depois da Primeira Guerra Mundial. É ele que fala por si e por ela, mas a mulher lê. Por mais apaixonado que seja, o homem não se coloca como dono da mulher. Numa estrofe, ele rima ‘de’ com ‘cidade’. Os sonetos refletem o movimento da vida, o efêmero. Rumamos para o modernismo.
Mas é em “A dança das horas”, de 1919, com ilustrações de Di Cavalcanti, que o poeta começa a se soltar e ousar. Aparecem estrofes alternando versos de métricas distintas. Haxixe e ópio, marca registrada do modernismo, despontam em versos. Estrofes de três, cinco e seis versos são frequentes. Figuras insólitas. O espelho, que captura a imagem: “O alto espelho parece/rir, feliz de te haver possuído inteira e nua”. O erotismo se torna mais explicito nos poemas do livro, mas nunca alcançando a voltagem de Manuel Bandeira. Almeida é um fauno. Bandeira é um sátiro.
Em “Livro de horas de Soror Dolorosa”, publicado em 1920, o poeta se dedica a decantar em versos, ainda com influência simbolista, o amor de uma religiosa por Cristo em clima sensual e erótico: “Foi meu desejo louco/diluir-me, pouco a pouco,/nessa noite pagã,/para que o sol entrasse/como um amante, e amasse/meu corpo, de manhã...”. Ele se vale de rimas toantes, bem mais tarde empregadas sistematicamente por João Cabral de Melo Neto: concha/monja; timbres/simples; negro/sossego.
Mas é no poema “Estância VII” (sobre a ambição) que deparamos com essa forma:
Só
De pó
Deus o fez.
Mas ele, em vez
De se conformar,
Quis ser sol. E ser mar,
E ser céu... Ser tudo, enfim!
Mas nada pôde! E foi assim
que se pôs a chorar de furor...
Mas — ah! — foi sobre sua própria dor
que as lágrimas tristes rolaram. E o pó,
molhado, ficou sendo lodo – e lodo só!
Estamos diante de um poema que prenuncia o concretismo, tendência que se consolida a partir dos anos de 1960. Fala o conteúdo, mas a forma também fala. Adão, o homem em si, estava no topo da pirâmide quando vivia no Paraíso. Mas, cometido o pecado original, ele se rebaixa e não passa de pó na base da pirâmide.
Ainda antes de “Encantamento” (1921-25), Guilherme de Almeida escreve “Era uma vez...” e os poemas para teatro “Scheherazada” e “Narciso”, todos de 1921. Se se aventura nas conquistas do verso livre, da torrente psicológica e do simultaneísmo, ele acaba voltando para a forma clássica de escrever poesia. Sanguíneo e apaixonado, ele teve marcante participação na Revolução Constitucionalista de São Paulo. Sua pátria era mais seu Estado que seu País. Foi o primeiro modernista a se eleger para a Academia Brasileira de Letras e foi coroado como o “Quarto Príncipe dos Poetas Brasileiros”.