"Bolsonaro é um grande engodo"
Aldir Sales 03/09/2018 22:36 - Atualizado em 11/09/2018 21:04
Deputado federal e candidato ao Senado pelo Psol, Chico Alencar esteve em Campos ontem, onde cumpriu agenda na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e analisou o cenário para a eleição de outubro nas disputas aos palácios do Planalto e Guanabara. Para o parlamentar, o PT deveria confirmar o quanto antes a candidatura de Fernando Haddad no lugar de Luiz Inácio Lula da Silva, barrado pela Ficha Limpa. Alencar também afirmou que o presidenciável Jair Bolsonaro significa a “arrogância da ignorância”.
Lula, Haddad e TSE – O Lula é, inegavelmente, o maior líder popular do país. A Justiça forçou a mão. Na verdade, foi bem seletiva em relação a esse processo do triplex, passou à frente dos outros, inclusive, lá no TRF-4. Portanto, tem um elemento de injustiça nessa decisão da Justiça. E assim ele foi condenado em segunda instância colegiada. A Ficha Limpa, que nós apoiamos e ele sancionou, está em vigor, então, desde o início, a não ser que essa decisão do TRF-4 fosse anulada, ele sabia da possibilidade da inelegibilidade. Eu entendo que era melhor para o processo político que e o Fernando Haddad assumisse logo sua condição de candidato, o que vai acontecer. Na política, quanto mais transparência, melhor, e, por outro lado, quanto mais a Justiça for igualitária para todos e não seletiva, melhor também.
Bolsonaro – Bolsonaro significa a despolitização e a arrogância da ignorância. Ele não tem ideias para o país e a imagem de “mito” sempre comporta uma mentira. Ele é um candidato de frases feitas, gestos arrebatados, que, infelizmente, arrebatam alguma popularidade. Mas ele sabe que não tem condições e capacidade de agregação para dirigir o país. E nesse momento de insatisfação, ele tem vendido a imagem de alguém contra o sistema, sendo absolutamente do sistema. Deputado de sete mandatos e com os filhos todos na institucionalidade política. Ele vende a imagem de alguém que vai resolver os problemas, transformando problemas complexos em soluções simplistas. Resumindo, é um grande engodo.
Ciro Gomes – O Ciro é um cara muito inteligente, um tanto quanto errático, mas que tem uma experiência a ser reconhecida. Agora, do ponto de vista da trajetória partidária, ele é um “zigue-zague” muito grande. Isso sempre me preocupa. Embora você tenha uma posição convicta e fechada e beira o dogmatismo, alternar tanto, trocar tanto de partido, pode gerar uma insegurança no eleitor. Mas eu convivi com ele como deputado, assim como o Bolsonaro, assim como o Lula, como dirigente partidário no PT. Todos esses eu conheço pessoalmente, não sou juiz deles, mas faço uma avaliação política. Eu destaco no Ciro sua enorme capacidade de comunicação, mas, obviamente, não é o meu candidato.
Geraldo Alckmin – O Alckmin luta contra a sensaboria dele próprio. Ele não tem carisma, tem uma visão conservadora da sociedade. Ele representa a ideia do PSDB de privatismo máximo e estado mínimo. Mas o fenômeno Bolsonaro nos leva a não considerar o Alckmin tão à direita quanto de fato ele é.
Marina Silva – A Marina eu também conheço, também convivi. É uma pessoa idealista, que tem suas convicções, mas que muitas vezes não consegue ter firmeza de posições. Fica um pouco pendular em muitas situações. Defendeu o impeachment da Dilma Rousseff, votou no Aécio Neves no segundo turno em 2014. Tudo isso faz com que ela perca força de apoio em setores mais progressistas, mas também postula à presidência pela terceira vez com toda a legitimidade. É de um partido pequeno que, mesmo novo, conseguiu ter mais dissidências e defecções do que o nosso Psol.
Guilherme Boulos – O Boulos é uma liderança popular, é o meu candidato à presidência da República. É o mais jovem candidato à presidência da República, não possui esses vícios da velha política, não tem rabo preso com nenhum esquema. Espero que ele seja percebido como uma novidade política nesta campanha. Muito articulado, muito equilibrado, psicanalista, inclusive, que fez uma opção de sair de uma zona de conforto de filho da classe média paulistana para dedicar sua vida, desde os 17 anos, ao movimento social do MTST, dos sem teto, e sempre coerente com isso.
Romário – Foi brilhante como jogador e oportunista na pequena área. Também o conheço do mandato de deputado. Teve uma votação espetacular para o Senado, mas agora tem demonstrado na disputa ao Governo do Estado ser um certo perna de pau, tanto que fugiu do debate que o grupo Globo promoveu na semana anterior. Ele gira mais em torno da celebridade, que de fato é, do que alguém com propostas e conteúdo.
Eduardo Paes – O Eduardo Paes, eu já disse isso para ele, fez uma aliança que, inclusive, incorpora o seu ex-partido, todas as figuras que têm responsabilidade na devastação do Rio de Janeiro, do MDB, ao qual ele pertenceu até pouco tempo. Mudou para o DEM, trocou seis por meia dúzia, e o tempo enorme que ele ganhou de televisão vai ter que gastar se explicando. As investigações sobre ele, embora não tenham resultado na situação de um Cabral, seu aliado, também não é confortável. Para renovação e restauração política que o Rio exige, claro que o Paes não é solução.
Anthony Garotinho – O Garotinho parece uma bananeira que já deu cacho. Uma liderança política com enraizamento no Norte Fluminense, mas que tem muitas complicações na vida pública. E parece que o grande drama dele é enfrentar a rejeição enorme que continua tendo. Um processo também que é errático. O PRP (partido de Garotinho) é uma legenda de aluguel, né? É mais um que opera sobre a própria figura.
Tarcísio Motta – Tarcísio é um professor que ninguém conhecia antes da última eleição. Na reta final, com um debate entre candidatos na televisão, foi percebido com um baita quadro político, estudioso, preparado, que tem carisma, poder de convencimento. Tem rabo de cavalo, mas não tem rabo preso. É o meu candidato ao Governo do Estado e tenho certeza de que é o mais preparado e com a estrutura partidária menos comprometida com outras que são reprodução desse poder que nos levou a ruína.
Indio da Costa – O Indio da Costa é outro que vai de acordo como a música toca. Como se disse, ele já foi secretário de quase todo mundo, mas não será do Tarcísio Motta, de jeito nenhum. É um Indio que quer perambular por todas as tribos e, nessa, perde totalmente a identidade.
Marielle e Anderson – Quase seis meses. Essa é uma dor que a gente carrega com travo de amargura pela execução política e pela não elucidação do crime. É verdade que menos de 7% dos homicídios do Brasil são esclarecidos, mas esse tem um contorno tão forte porque ela era detentora de um mandato que exercia com brilhantismo, com ousadia, por causas que uma parte da sociedade conservadora repudiava. Ela incomodava muito. O nosso dever, como diz São Francisco de Assis, a melhor maneira de homenagear os nossos mortos é fazer o que eles fizeram. A cobrança tem que continuar cada vez mais intensa.

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