A revolta do senso comum, a crítica vadia e o papel disciplinar da sociologia
12/03/2025 | 12h43
A crítica ilustrada da autoridade especializada
A sociedade contemporânea está sobrecarregada com a crítica. Uma de suas modalidades mais marcantes é a crítica aos especialistas, inclusive aos especialistas na crítica como os cientistas sociais. Mas não estamos sozinhos. Políticos, jornalistas, médicos, sacerdotes, professores e, antecipando o destino geral, os técnicos de futebol. Desde há algum tempo o público de eleitores, leitores, pacientes, fiéis, pais e alunos passaram a fazer o que os torcedores de futebol sempre fizeram: criticar a autoridade e os padrões de decisão dos especialistas de seus respectivos sistemas, com base em novas demandas de inclusão que exigem redefinição da relação entre especialistas e leigos e especialmente um questionamento crescente da forma como os especialistas produzem e entregam os desempenhos e serviços nos respectivos sistemas funcionais da sociedade.
Especialistas, sobretudo profissões como professores, jornalistas, médicos, sacerdotes e cientistas, são de certo modo os “guardiões” dos valores, mandamentos e regras de proteção de suas respectivas esferas de valor. São eles que garantam oposição aos processos de intrusão inimiga e colonização, conduzidos por forças e critérios estranhos à “legalidade específica” (Max Weber) de cada esfera. Sua identidade e atuação profissional se definem intrinsecamente pela vinculação com os valores internos de suas esferas sociais (Schimank/Volkmann, 2017, p. 40), em nome das quais devem se opor à imposição de critérios oriundos de outras esferas, como pode ocorrer quando os “leigos” ganham protagonismo na definição das rotinas e condições de trabalho dos “especialistas”.
A confiança estável nos especialistas de vários sistemas parece ser mais uma característica típica do período que Peter Wagner definiu como “modernidade organizada” (Wagner, 1995) do que um traço geral da modernidade com pensava Anthony Giddens (1991). O mundo consolidado nos pós-segunda guerra, apesar das enormes desigualdades regionais e sociais, foi marcado pela consolidação de estruturais organizacionais baseadas na confiança generalizada na produção especializada e padronizada de produtos, desempenhos e serviços nos mais diferentes sistemas funcionais. A este respeito, Parsons (1951, p. 438-439) destaca em sua análise sobre a relação médico-paciente nos Estados Unidos dos anos 1950 que era esperado dos pacientes que abicassem de procurar mais de um médico para comparar opiniões e recomendações de tratamento. A confiança no especialista era uma norma fortemente institucionalizada. Neste contexto, a própria crítica social era predominantemente exercida por especialistas capazes de mobilizar seguidores em torno de formas profissionais de negação de estruturas e padrões socioculturais. O questionamento da autoridade não era coisa pra qualquer um. A crítica também estava submetida a certa disciplina que lhe conferia uma autoridade semelhante àquela que eventualmente era o objeto desta crítica.
As mudanças organizacionais que abalaram ou dissolveram as certezas da “modernidade organizada” afetaram também a relação entre leigos e especialistas na sociedade como um todo. Existem muitas ofertas interpretativas sobre esta mudança. Mas parece ter predominado uma interpretação elogiosa que descreve este processo como uma mudança cultural que promove a preferência por “valores pós-materialistas” (Inglehart, 1990) e emancipatórios. A difusão da prosperidade, da segurança econômica e do acesso à educação no pós-segunda guerra teria permitido que as gerações mais jovens pudessem escolher orientações de valores de forma mais livre em relação a preocupações econômica. Assim, a busca pela auto-realização e autonomia pessoal teriam formado uma nova cultura política, marcada, entre outras coisas, pela suspeita em relação a todo tipo de hierarquia e pela valorização da individualidade expressiva. A tese da popularização da “crítica artística”, oriunda da contracultura dos anos 1960, segue a mesma linha de apontar um abalo na confiança das relações hierárquicas de produção e consumo (Boltanski/Chiapelo, 2009) nas últimas décadas do século XX.
Também nesta mesma direção, Jürgen Gehards (2001) oferece uma interessante intepretação sociológica baseada na teoria dos sistemas sociais sobre a experiência alemã com esta mudança cultural. Segundo ele, no período entre 1960 e 1989, as demandas por inclusão e as formas de conduta dos “papeis de público” passaram por rápida mudança estrutural na sua relação com os “especialistas” dos mais diferentes sistemas funcionais. Pacientes (sistema de saúde), eleitores (política), consumidores (economia), alunos e pais (educação) e réus (direito) passaram a exigir e a conseguir oportunidades de participação ativa nas decisões dos especialistas sobre a produção e entrega de serviços e desempenhos em vários sistemas funcionais, trazendo a tona dois elementos fundamentais e inter-relacionados: uma exigência de individualização do público, articulada como negação da inclusão passiva e padronizada na saúde, na educação, no mundo do trabalho, na política, no direito e nos meios de comunicação de massa, e uma crítica da forma de produção e entrega de desempenhos e serviços por parte de médicos, professores, supervisores de fábrica, políticos, juízes e jornalistas nos seus respectivos sistemas funcionais.
A exigência de individualização do público nos processos de inclusão e a crítica da forma de produção especializada de desempenhos e serviços nos subsistemas da sociedade estão constitutivamente vinculadas, pois os problemas que uma levanta do “lado da demanda” a outra formula do “lado da oferta”. Os “consumidores” das entregas sistêmicas passam a problematizar a qualidade (o que é produzido e entregue), a extensão (em que quantidade e para quem) e a composição social dos produtores (quem pode produzir o que em cada sistema), relativizando assim a própria diferenciação de papeis entre “leigos” e “especialistas”, sem a pretensão de abolir esta diferenciação. Observado do “lado da oferta”, podemos falar de uma crítica social com o foco de ampliar os horizontes de programação dos sistemas funcionais, ou seja, de encontrar e criar equivalentes funcionais e alternativas institucionais para a produção e entrega de desempenhos e serviços sistêmicos, o que resulta, na dimensão social, numa maior abertura para concorrentes e atores que buscam ocupar os papeis especializados com novos padrões de conduta e trabalho. Neste sentido, a “revolta dos públicos” já carrega a marca da diferenciação funcional, pois se realiza como busca de soluções alternativas funcionalmente especializadas para problemas igualmente específicos. Como resultado prático desta “revolta”, a invenção e a produção de novas soluções e programas só se materializam enquanto alternativas especificamente econômicas, educacionais, medicinais, jurídicas e políticas (Gehards, 2001, p. 179). A efetividade da crítica está diretamente ligada a seu caráter relativamente disciplinado enquanto negação interna de sistemas funcionais, ou seja, à sua condição de críticas que negam estruturas, mas não os valores e códigos que definem a existência destes sistemas.
A crítica vulgar da “compreensão humana saudável”
Em sua emergência, esta “revolta” tinha um público relativamente familiar para o ambiente progressista das ciências sociais: pessoas com alto nível de instrução e empregadas no setor de serviços, que aproveitaram o aumento da prosperidade e da expansão da educação no período pós-guerra. Graças à capacidade de mobilização e organização deste segmento social, foi possível atrair a atenção de público mais amplo para suas demandas e críticas, criando assim uma situação permanente à qual as organizações médicas, jurídicas, educacionais, jornalísticas e políticas reagiram com as mudanças estruturais correspondentes na relação entre “especialistas” e “leigos”. No entanto, a proximidade sociocultural com este público de classe média alta parece ter criado a impressão de que a “revolta” seria sempre disciplinada e que a autoridade da ciência social e da crítica cientifica da sociedade não seriam abaladas pela desconfiança geral com os especialistas.
O engano possivelmente foi supor que a revolta seria sempre conduzida pelos “ilustrados” que reconhecem o valor da crítica especializada e científica da sociedade sob as fórmulas conhecidas da crítica da desigualdade, da dominação e da alienação. Atualmente, está claro que a “revolta do público” se autonomizou de seus protagonistas iniciais, tendo se difundido de forma imprevisível pela sociedade global do século XXI. Embora a revolta contra o establishment de diferentes sistemas funcionais tenha sido liderada por setores progressistas em seu surgimento, hoje parece inegável que a direita cultural e política é quem comanda esse processo, e tendo como suporte não os setores “ilustrados” da sociedade, mas sim um conjunto bem mais amplo de públicos, cuja crítica social parece nunca ter despertado muito interesse nas ciências sociais. No lugar da “crítica ilustrada”, relativamente disciplinada, parece que a sociologia não pode mais ignorar a crítica social que vem da chamada “compreensão humana saudável”; não aquela “compreensão humana saudável” disciplinada pela formação marxista, como queria Gramsci (1994), nem aquela formada pela nova vulgata do populismo epistemológico “decolonial” com sua preferência pela “abordagem literária e filosófica” dos “afetos” (Castro Varela, 2023), mas sim um tipo de senso comum que resolveu se revoltar de forma abertamente indisciplinada e vulgar contra os “especialistas”, incluindo as ciências sociais e humanas.
Para dar um exemplo bastante sensível para o nosso “pessoal das humanas”: No sistema de ensino, a “revolta do público” protagonizou uma reestruturação dos papeis de professores, gestores, pais e alunos, resultando também em formas de auto-organização do público com o intuito de institucionalizar e assegurar os novos direitos e presentões de inclusão participativa. Nos países europeus e até nos ambientes mais prósperos e “ilustrados” de países como o Brasil, pais e alunos passaram a ter mais direitos de participar de decisões nos processos de alocação dos filhos nas turmas e séries e na definição dos conteúdos pedagógicos (Gehards, 2001, p. 172-173). Desde os anos 1960 até o final do século XX, a predominância de um viés progressista, sustentado pelo protagonismo das classes médias “ilustradas”, parece ter alimentado a crença de que a ampliação dos poderes de participação dos “leigos” não era uma grande ameaça à autoridade dos professores e gestores. A afinidade cultural e possivelmente político-ideológica com estes “leigos ilustrados do bem” garantia a continuidade da sensação de segurança dos “especialistas”. Enquanto a crítica da hierarquia administrativa e pedagógica era feita sob o pano de fundo de uma cultura compartilhada com o próprio establishment do sistema de ensino, estava tudo bem. O problema é que a porteira aberta pelos “ilustrados” foi escancarada pelo “cidadão comum” que também resolveu questionar abertamente a autoridade dos “especialistas” e exigir participação na vida interna das escolas, inclusive na definição dos conteúdos, só que desta vez com outras orientações culturais e ideológicas e novas formas de auto-organização do público, muitas vezes estranhas e hostis às “humanas” e à sua agenda pedagógica de “esclarecimento” moral progressista apoiada de forma irrefletida e militante pela maioria dos cientistas sociais que não se esforça para diferenciar a crítica científica da critica dita “ilustrada” de seu ambiente social mais próximo.
A tarefa e o exemplo disciplinar da sociologia
Como esta reorientação política e cultural da “revolta do público” afeta a autoridade da sociologia, especialmente da sociologia crítica? Quais as formas pelas quais esta crítica social indisciplinada e vulgar, em grande medida culturalmente estranha para a sociologia, desafia a forma e o conteúdo da sociologia crítica enquanto crítica especializada? Como a sociologia pode reagir a esta situação, reformulando a relação entre “especialistas” e “leigos”, entre sociologia crítica e crítica social? Deveria a sociologia contribuir para uma reorientação disciplinar da crítica, dando testemunho com sua própria autocontenção nos limites do que pode lograr a crítica científica como forma particular de crítica social ou, ao contrário, apostar na crítica indisciplinada e assim na própria implosão da diferenciação funcional da sociedade e de si mesma enquanto subsistema desta sociedade? Trato destas questões em artigo científico que estou escrevendo. Mas adianto minha reposta: a sociologia deve contribuir para disciplinar a crítica social dando exemplo com a autodisciplina de sua própria crítica. Minha proposta tem como objetivo desdobrar a ideia de uma crítica sociológica autodisciplinada pela reflexividade sobre as condições de possibilidade e limites da crítica social como um todo e da critica científica em particular, tendo como critério deste disciplinamento a ampliação da contingência estrutural dos sistemas sociais, ou seja, do horizonte de equivalentes funcionais e alternativas estruturais consideradas desejáveis viáveis, plausíveis de acordo com os problemas de referência e a perspectiva histórica concreta de cada sistema.
Nesta direção, a sociologia deve ser vista como um fazer prático na medida em que pode fornecer novas autodescrições sistêmicas que ampliam o horizonte para a solução criativa de problemas de referência incontornáveis de cada sistema funcional, como a crise de legitimação política, a estagnação da produtividade econômica, a desmotivação pedagógica, o esfriamento das amizades, a insegurança generalizada sobre a validade das normas jurídicas e a apostasia da fé. No entanto, se a diferenciação sistêmica é levada a sério, estes horizontes não podem estar limitados a novas formulas de intervenção política e estatal sobre as outras esferas sociais. A tarefa é combinar a politização das relações sociais com a reestruturação autônoma dos sistemas funcionais. Não cabe à política definir as estruturas que programam diretamente as organizações educacionais, as empresas e as relações amorosas. Esse tipo de hiperpolitização sempre conduz a uma intervenção destrutiva da política sobre os demais sistemas sociais, que ao invés de estimular, inibe a busca criativa por soluções.
A crítica sociológica deveria ser a primeira a respeitar estas fronteiras práticas entre as esferas, pois somente a crítica ancorada e disciplinada pela perspectiva interna de seu objeto pode contribuir com alguma melhoria real. Se a sociologia não quiser ser engolida pela crítica indisciplinada e vulgar da “compreensão humana saudável” ela própria deve deixar de caminhar com a crítica vadia que deseja resolver problemas militares, geopolíticos ou pedagógicos com pregações morais cegas à realidade prática e a suas possibilidades concretas. Só assim, não podendo transformar diretamente nenhum sistema, ela pode ajudar a abrir o leque de possibilidades e contribuir indiretamente para a transformação estrutural descentralizada.
Bibliografia
BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Eve (2009). O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes.
CASTRO VARELA, María do Mar. (2023). “Unruhe bewahren. Eine unordentliche Antwort auf LoïcWacquants Plädoyer für eine Diskurskorrektur”. Berliner Journal für Soziologie, https://doi.org/10.1007/s11609-023-00496-y.
GEHARDS, Jürgen (2001). “Der Aufstand des Publikums. Eine systemtheoretische Interpretation des Kulturwandels in Deutschland zwischen 1960 und 1989”. In: Zeitschriftfür Soziologie 30 (2001), p. 163-184.
GIDDENS, Anthony (1991). As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP
GRAMSCI, Antonio. (1994). Gefängnishefte. Kritische Gesamtausgabe. Bd. 6. Philosphie der Praxis: Hefte 10 und 11. Hamburg: Argument Verlag.
PARSONS, Talcott. (1951). The social system. London: Routledge /Kegan Paul.
INGLEHART, Ronald (1990). Cultureshift in Advanced Industrial Society. Princeton
WAGNER, Peter (1995). Soziologie der Moderne. Frankfurt /M: Campus
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A crise multidimensional e as eleições antecipadas: pra onde vai a Alemanha?
19/02/2025 | 11h41
Depois do Brasil, a Alemanha é o país que mais me interessa. Não apenas por ter passado uma parte de minha vida aqui para fazer meu doutorado e agora novamente para fazer um pós-doutorado, mas também por entender que o destino deste país, que liga geograficamente “ocidente” e “oriente”, importa bastante para os destinos da humanidade. Sempre acompanhei de perto a vida alemã e agora observo de dentro o momento mais dramático de sua história recente deste o fim da segunda guerra mundial.
Acordando com Trump e dormindo sem rumo na policrise
No próximo domingo, dia 23 de fevereiro, os alemães vão às urnas para escolher o novo parlamento, do qual deverá sair um novo governo para suceder a fracassada “coalizão semáforo” formada por socialdemocratas, liberais e verdes. A antecipação das eleições foi consequência direta da ruptura da aliança entre socialdemocratas e verdes de um lado e liberais de outro, na noite de 06 de novembro de 2024, no mesmo dia em que Donald Trump confirmou sua vitória avassaladora como presidente dos EUA. A data da ruptura não foi mera coincidência. De fato, o café da manha com Trump eleito ditou o timing de um divórcio político que já estava desenhado internamente na alta política alemã, e que foi acionado no momento tido como oportuno ou inevitável pelo chanceler socialdemocrata Olaf Scholz, depois de ser sistematicamente boicotado pelo então ministro das finanças Christian Lindner, chefe dos liberais.
A ruptura da “coalisão semáforo” e os desafios da eleição do próximo domingo podem ser interpretados como eventos e padrões de uma crise política circundada e amplificada por outras crises, como a guerra na Ucrânia, a estagnação econômica, os problemas com o fluxo descontrolado de pessoas que pedem asilo no país, a reorganização geopolítica global e, não menos importante, uma crise da identidade nacional da Alemanha enquanto suporte europeu dos ditos “valores liberais e democráticos ocidentais” na aliança transatlântica com os EUA. Trata-se de uma policrise, uma crise multidimensional que envolve vários sistemas sociais de modo simultâneo e que corrói rapidamente uma série de certezas e pressupostos que orientaram a vida do povo alemão (e da sociedade mundial como um todo) por algumas décadas desde a reconstrução do país a partir do final da segunda guerra mundial.
Não tenho a pretensão de analisar com profundidade esta situação complexa cheia de incertezas. Apenas desejo traçar as linhas gerais dos desafios que a política alemã não poderá evitar, sob pena de aprofundar ainda mais o processo de deslegitimação do status quo político e de fortalecer a direita radical, representada pelo partido Alternativa para a Alemanha (AfD). O conceito de policrise, como nos ensina Edgard Morin, descreve uma situação complexa de crises múltiplas, interconectadas e que tendem a se amplificar mutuamente. No entanto, como também nos ensina o sociólogo alemão Niklas Luhmann, embora as crises em sociedades hipercomplexas estejam interconectadas em sua emergência e amplificação, a sociedade não dispõe de um sistema central capaz de criar e coordenar com segurança as múltiplas soluções para os diferentes problemas. O dilema da política é que ela pretende ser este sistema coordenador central, sem nunca poder sê-lo como promete. Tentarei tratar da policrise a partir de seus significados especificamente políticos, e não econômicos ou climáticos.
O fato da política não ser o centro absoluto da sociedade não significa que ela não consiga coordenar, em medida significativa e suficiente para resolver problemas importantes, o funcionamento da economia, do ensino e dos demais sistemas envolvidos na produção das policrises. Significa apenas que ela precisa contar com um grau igualmente significativo de imprevisibilidade e decepção em seus esforços, ou seja, que políticas públicas podem sempre falhar. A política consegue realizar uma coordenação “contextual”, no tempo e no espaço, dos demais sistemas sociais, mas pode perder esta capacidade em determinados contextos. O problema da política alemã é que ela tem falhado sistemática e continuamente em várias áreas. O longo governo de Angela Merkel não foi capaz de preparar o país para um futuro sem o estrondoso sucesso do modelo fordista de exportações que garantiu o bem-estar dos alemães por décadas a fio. A produtividade do trabalho estagnou e a inovação tecnológica também. O exemplo mais significativo é que hoje, até mesmo na Europa, os carros elétricos chineses deixam os carros alemães no chinelo. As consequências sociais desta decadência econômica são evidentes: retração drástica dos empregos industriais de qualidade, aumento da pobreza e da desigualdade econômica, aniquilamento das chances e perspectivas de ascensão social para as maiorias. É nesta situação de estagnação econômica, desintegração social e insegurança sobre o futuro que o tema da imigração ganha nova relevância política.
Durante muito tempo, os partidos de esquerda negaram as consequências danosas dos fluxos descontrolados de refugiados entrando no país, quase sempre ocasionados por guerras criadas pelos EUA, e recentemente pela guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas estas consequências são visíveis nas escolas e nos bairros de todas as cidades que recebem grande fluxo de pessoas, embora sejam ignoradas pelos progressistas boêmios de Berlin e Hamburgo. Existem gerações de turcos com cidadania alemã incluídos de modo efetivo na economia e no sistema de ensino observando escolas e bairros sem capacidade de acolher mais gente. Muitos deles vão votar na direita radical na esperança de frear o fluxo. Não são apenas “alemães orientais”, acusados de baixa adesão aos “valores democráticos”, que estão preocupados com o descontrole dos fluxos de refugiados. A preocupação é geral e os políticos de esquerda e centro pelo menos decidiram priorizar o assunto.
A guerra na Ucrânia é outra crise importante para a política alemã. Como as demais, ela não pode ser entendida isoladamente. Mas no seu caso, há a especificidade de que seus efeitos foram importados muito gentilmente pelo governo de Olaf Scholz, com apoio não apenas dos governistas verdes e liberais, mas também do principal partido de oposição, a União Democrática Cristã, líder das pesquisas para domingo, partido do provável novo chanceler Friedrich Merz. A Alemanha decidiu romper o comércio de gás com a Rússia e assim agravar a tendência de aumento da energia, afetando não só a vida das pessoas comuns, como também sua competitividade industrial. Seu volume de ajuda financeira à Ucrânia só é superado pelos EUA. E o apoio popular a esta política de guerra, que no começo era alto, caiu drasticamente, catapultando, junto com a estagnação econômica e a crise de controle dos fluxos de refugiados, a subida da AfD (direita radical) ao patamar de 20% dos votos.
O partido, liderado por uma mulher homossexual com dois filhos adotados, está em segundo lugar nas intenções de voto; e até aqui a única fórmula para limitar seu poder é o chamado muro de contenção de incêndio: o acordo entre todos os partidos ditos “democráticos” de não fazer aliança, de não governar com a AfD, chamada por eles e pela imprensa erudita de “fascista”. Bonito, civilizado, diria a turminha do “amor vai vencer o ódio” ai no Brasil. Acontece que nesta “apoteose do amor”, como zombava Marx de seus amigos humanistas, o medo da guerra parece ser alimentado mais pelos antes pacifistas socialdemocratas e verdes do que pela AfD, que sempre defendeu a retomada do canal diplomático com a Rússia. Até o começo do ano, a direita radical alemã parecia estar isolada em sua posição pró-negociação com a Rússia. Todos os demais partidos, acreditando na duração eterna da “aliança transatlântica” com os EUA, acusavam a AfD de ser uma sucursal de Putin na Alemanha.
Mas com a volta de Trump tudo mudou. Agora não só a negociação de paz entrou na pauta, como entrou para isolar politicamente e geopoliticamente seus antigos opositores na Alemanha e na Europa. No último domingo, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, esteve na conferência de segurança de Munique para dizer que a Europa, e particularmente a Alemanha, e não a China ou a Rússia, é que ameaçam a democracia e a liberdade. A crença na perenidade da “aliança transatlântica de valores” como suporte de uma “ordem global baseada em regras”, na qual a Europa tinha sua posição de centralidade garantida pela aliança, foi frontalmente atacada pelo seu principal parceiro. Não bastasse, Vance ainda atacou o muro de contenção de incêndio contra a AfD, declarando que democracia tem a ver com vontade do povo manifesta nas urnas e que um partido relevante segundo as urnas não pode ser isolado. Na dimensão prática, as negociações sobre o fim da guerra na Ucrânia, iniciadas esta semana na Arábia Saudita com a exclusão sumária dos europeus enquanto interlocutores, assumem um formato no qual a crescente periferização geopolítica da Europa e da Alemanha estão claramente indicadas.
O fim da era habermasiana e a política sem tutela
Até a posse de Trump o status quo alemão ainda insistia em contar que os EUA estavam lá do outro lado para endossar a distinção entre amigos e inimigos da democracia, com a qual a imprensa e os partidos dominantes podiam garantir a exclusão de quem eles resolviam definir como antidemocráticos, com o apoio de um excêntrico tribunal de proteção constitucional com a incumbência de vetar partidos definidos como extremistas. Este consenso moral antiextremismo, envolvendo o establishment político, midiático, jurídico e até as humanidades, se constituiu a partir da derrota do nazismo e da conversão da Alemanha aos valores da democracia liberal ocidental como condição moral para sua reconstrução no âmbito da “aliança transatlântica”. Acontece que esta conversão tinha como pressuposto uma “América” que professasse os mesmos valores e que assim atuasse como um tutor legítimo do “aprendizado moral” alemão.
Com a volta de Trump, a tutela americana ruiu e os alemães parecem despreparados para uma maioridade política sem a proteção da distinção moral e juridicamente ancorada entre “democráticos” e “antidemocráticos”. A Alemanha do pós-segunda guerra parece ter realizado o antigo sonho de sua velha burguesia cultural e acadêmica de uma política disciplinada, limitada e vigiada pelo direito e pelo consenso moral. Nesta “era habermasiana”, o teórico do consenso e da racionalidade comunicativa, a política deveria ser fortemente protegida de tendências “populistas” dispostas a trazer a vontade popular para o jogo sem antes passar pelos devidos filtros civilizatórios e comunicativos incumbidos de esfriar e desacelerar a relação entre maiorias sociais e governos. A combinação de parlamentarismo com estilo acadêmico, tutela jurídico-moral da vida partidária e consenso dos “democratas” em torno de muros de contenção dos “populistas” parece ter servido bem a esta política contida e protegida das emoções perigosas de segmentos populares tidos como pouco afeitos aos valores democráticos, como são considerados os próprios alemães dos estados que antes formavam a Alemanha Oriental pelos principais partidos, todos de raízes no lado ocidental.
O problema é que este consenso “democrático” entre socialdemocratas, democratas-cristãos e verdes, ao excluir como “antidemocrático” um partido que já consegue ser maior que todos estes outros na parte oriental e em camadas sociais crescentes da parte ocidental, é percebido cada vez mais como uma violação arbitrária da própria democracia por esta parcela do eleitorado. O efeito Trump é aumentar a pressão e o calor contra este muro dos “democratas”, fazendo com o que a “era habermasina” do consenso ceda cada vez mais espaço para uma nova era de conflitos que a tutela moral e jurídica já não pode mais conter. É a política, estúpidos! A política com emoções perigosas, divisões sociais e culturais fortes, partidos velhos morrendo, partidos novos surgindo, e tudo isso sem tutela interna ou externa.
Ao sistema político alemão só resta processar esta situação “caótica” para os padrões anteriores e tentar criar e oferecer novas alternativas para lidar com as múltiplas crises que afetam o país. Da perspectiva política a crise é tanto de “demanda” quanto de “oferta”, tanto de input como de output: os partidos e lideranças atuais não conseguem mais, como era o caso antes, obter o apoio de grandes maiorias que enxerguem nestes partidos e lideranças a representação de seus interesses e visões de mundo, e isto porque não conseguem também – inclusive a direita radical que se identifica pela alcunha de Alternativa para a Alemanha – ofertar programas distintos, com linhas de ação e políticas públicas capazes de se diferenciar nas eleições e nos governos e assim ganhar a confiança dos eleitores.
Esta crise programática da política, cujo indicador mais seguro é esta crescente indiferenciação dos principais partidos, não é certamente um traço peculiar da Alemanha. Hoje ela está presente em quase todas as grandes democracias, em maior ou menor grau. No caso Alemanha, o agravante é que a crise programática envolve não só as múltiplas crises antes mencionadas, mas também o desafio inadiável de reconstruir sua identidade nacional depois do fim da “era habermasiana” do consenso, da política domesticada e da “aliança transatlântica” em torno dos valores liberais e democráticos. Para que o Estado alemão recupere sua capacidade de resolver problemas e enfrentar crises diversas é preciso que a nação alemã imagine e invente novamente o futuro, desta vez sem tutela, com os riscos e perigos da maioridade política e geopolítica, sem medo de expandir seus horizontes (e não suas fronteiras!), mesmo que tenha que combinar novamente com os russos.
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A intransparência política da classe trabalhadora atual
01/05/2024 | 12h57
Grande parte da crise de legitimidade de democracias como a brasileira tem a ver com o fracasso dos partidos políticos – de esquerda, direita e centro – em representar e construir políticas públicas para o que ainda hoje podemos chamar de classe trabalhadora. A falta de legitimidade, entre os próprios trabalhadores, das propostas de regulação jurídica das relações de trabalho de motoristas e entregadores com as mega empresas de aplicados é uma clara evidência desta grande dificuldade política. A existência inequívoca de uma classe trabalhadora, apesar da diversidade de ocupações e situações de vida, pode ser atestada pelo fato de que uma grande maioria de pessoas precisa vender sua força de trabalho para empresas que controlam o capital e com isso o poder de definição do preço do trabalho. Isto significa que a classe trabalhadora existe enquanto um agrupamento estatístico definido por condições de vida comuns. Em resumo, é inegável a existência da classe trabalhadora enquanto “situação de classe” (Max Weber) ou “classe em si” (Karl Marx).
E a existência política da classe trabalhadora atual? Tão inegável quanto sua existência econômica “objetiva” enquanto “situação de classe” e “classe em si” é a incógnita sobre sua existência política enquanto “formação de classe”(Max Weber) e “classe para si”(Karl Marx). O problema clássico da teoria marxista das classes continua atual e aberto: como construir a ação política coletiva de classes a partir da situação econômica de classe? A situação econômica do que hoje podemos chamar de classe trabalhadora é bem distinta de outras variantes históricas, especialmente da classe trabalhadora fabril, mas o problema é o mesmo: a mobilização política da classe nunca foi e nem será uma consequência necessária de sua posição no sistema econômico. Para que a classe enquanto agrupamento estatístico (o que Bourdieu chama de “classe no papel”), construído por uma observação externa, se torne um grupo político real é preciso um processo contingente de autodefinição prática da classe enquanto coletividade identificável e imputável politicamente. A “classe para si” é uma construção política contingente que não emerge diretamente da “classe em si”.
A organização fabril do trabalho facilitava enormemente este processo de autodefinição prática da classe enquanto coletividade real. A observação mútua dos operários no local de trabalho permitia a identificação subjetiva com base na mesma condição objetiva, dando a impressão de que o processo de construção política da classe poderia ocorrer espontaneamente a partir da vida econômica e laboral. Mas esta impressão sempre foi enganosa, pois a mesma situação objetiva sempre ensejou caminhos muito diversos em termos de mobilização política e sindical. Sempre houve uma intransparência política relativa sobre como articular interesses e narrativas capazes de agregar politicamente os trabalhadores em uma coletividade real. No final de sua vida, Friedrich Engels, o verdadeiro conhecedor empírico da classe na dupla marxista, cogitou que a social-democracia alemã pudesse ser um alternativa mais promissora que o comunismo revolucionário; esta dúvida exprime bem a contingência e a intransparência da política de classes.
A construção política da classe trabalhadora é intransparente e contingente porque a política não pode observar nem definir de forma direta e “analógica” (ou seja, com base em traços imediatamente visíveis) os interesses e aspirações de nenhum agrupamento populacional observável de modo “digital” em termos estatísticos, ou seja, com base em dados não imediatamente visíveis como posição econômica relativa. Do mesmo modo que a classe em sentido econômico sempre foi uma construção “digital” com base em observações externas sem correspondência necessária com identidades e situações de vida concretas, a classe na política precisa também ser construída pela recombinação de elementos simbólicos e culturais capazes de agregar o que se acha desagregado. A mobilização política da classe trabalhadora já era “digital” e intransparente para o operário de fábrica, embora o local de trabalho comum desse a impressão de uma construção espontânea e “analógica”. Esta intransparência da classe trabalhadora é um traço geral da política de classes moderna. O que vemos hoje é o aumento exponencial desta intransparência, ditado pela fragmentação da percepção da posição econômica e pela pluralização crescente de estilos de vida, orientações de valores e visões de mundo. O grande desafio atual da política de classes é encontrar formas políticas “digitais” capazes de identificar e observar padrões latentes de conduta e expectativas sociais compartilhados, e tratá-los como matéria-prima para construir coletividades políticas abrangentes e poderosas. Estes padrões latentes de conduta podem e costumam ser invisíveis também para os próprios “membros” em potencial da classe, mas que, ao serem acionados discursivamente, podem criar o novo: ou seja, uma nova autodefinição de “classe para si” capaz de sustentar e orientar não só a luta política, mas também a construção de políticas públicas afinadas com os interesses e visões de mundo com potencial de generalização e agregação.
Observar padrões latentes sempre foi a grande tarefa “digital” da sociologia (Nassehi, 2019). Mesmo antes das tecnologias digitais (algoritmos acoplados a massas de dados) que hoje conhecemos, já havia na sociedade problemas de ação coletiva que só poderiam ser resolvidos de forma “digital”, ou seja, pela observação e tematização de padrões latentes de conduta capazes de reduzir a complexidade das situações e aspirações de vida em torno de formas políticas agregadoras. A mobilização política de classe sempre dependeu de uma boa sociologia “digital” capaz de lidar com a contingência das estruturas sociais, tomando os padrões latentes como matéria-prima para construir grupos políticos reais. As novas tecnologias digitais operam de modo proto-sociológico (Nassehi, 2019), pois vivem basicamente de identificar padrões latentes a partir da recombinação de dados discretos sobre a conduta de pessoas para diversos fins. Precisamos de uma política bem orientada sociológicamente para construir novas formas de mobilização política da classe trabalhadora. Em resumo: precisamos de uma política de classes inteligente.

Referências:
Nassehi, Armin. Muster. Theorie der digitalen Gesellschaft. Verlag C.H.Beck oHG, München 2019
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A esquerda moribunda e o alambrado à direita
22/04/2024 | 13h29
A diferença entre esquerda e direita já foi declarada superada inúmeras vezes. A crise desta diferença política fundamental parece ter se tornado a própria normalidade. Não é uma crise da esquerda nem da direita isoladamente. É uma crise da própria diferença clássica da política moderna: o marcador semântico de distinções programáticas capazes de engajar maiorias de um lado e de outro torna-se uma diferença que quase já não faz diferença. Isto fica bem claro, por exemplo, na constatação de que não existem diferenças entre os governos Lula e Bolsonaro capazes de refazer a demarcação entre um programa de direita e outro de esquerda. No essencial, naquilo que importa para as maiorias, há mais semelhanças do que diferenças: as grandes questões nacionais que afetam maiorias continuam sem solução: primitivismo econômico, ameaças à soberania e à integridade nacional, política social que reproduz pobreza, serviços públicos de educação, saúde e segurança de baixa qualidade. Lula não tem, por exemplo, nenhum caminho concreto para tirar o Brasil da mediocridade econômica e as maiorias sociais da condição de beneficiários de transferências de renda para alçá-las ao papel de protagonistas de suas vidas e do país como um todo. Com uma política assistencialista mais bem avaliada pelo povão, Bolsonaro conseguiu abalar fortemente a popularidade de Lula entre os beneficiários e dependentes do Estado. A diferença entre os dois só pode ser traçada na dimensão moral. Na programática política concreta é uma diferença que quase já não faz diferença.
No entanto, se esta diferença perdeu momentaneamente sua validade, como explicar que o Brasil tenha virado à direita? Porque as maiorias nacionais, apesar da crescente frustração com a política estabelecida, prefere claramente a direita? O governo Lula 3 é o pior na comparação com os dois anteriores e precisará de um milagre para não sofrer uma surra vergonhosa nas eleições municipais deste ano e de uma mudança de rumo improvável para que seja favorito na sucessão presidencial de 2026. Tudo indica que Lula é apenas uma pausa no longo caminho no deserto que a esquerda precisará percorrer para encontrar sua redenção. A maioria de direita no congresso deixa isso muito claro. Lula perdeu grande parte do apelo popular. Hoje é visto, com méritos, como alguém rodeado de elites culturais e ativistas sem conexão com o povo. Como eu identifiquei em meados de 2022, Lula está perdendo sua identidade de líder carismático popular e assumindo a identidade de alguém que, embora tenha vindo do povo, vive rodeado por gente fina e granfina que no fundo despreza tudo que é popular. O aberrante protagonismo de Janja com sua “turminha do capital cultural” evidencia bem esta mudança de identidade política. Mas o Brasil não virou à direita porque Bolsonaro fez alguma política melhor que as de Lula, mas sim porque a direita ganha de lavada nas “guerras culturais”, na moralização da política e sobretudo na genuína proximidade com os novas formas e estilos de vida do povão, do trabalhador uberizado, dos evangélicos.
A direita não tem um programa com soluções decentes para os problemas concretos da maioria. Mas seu protagonismo não é apenas o resultado de marketing político superficial. A direita tem base organizada e popular, sobretudo entre os evangélicos, e hoje ganha com folga da esquerda identitária das universidades e da mídia a luta para representar as maiorias, os pobres, as mulheres, os negros e os pardos. Com sua bem sucedida representação de uma “maioria moral”, construída na prática e no discurso ao longo dos últimos anos, a direita consegue ressignificar sua diferença em relação a esquerda, mas continua incapaz de oferecer políticas públicas que encaminhem soluções para a mediocridade econômica e a crescente cisão social entre cidadãos autônomos que sustentam a própria vida e sub-cidadãos dependentes do Estado. Talvez o maior sintoma desta situação seja o fato de que a crítica ao bolsa família tenha praticamente desaparecido da política nacional. Todos parecem concordar em eternizar a sub-cidadania assistida e financiada pelo Estado. A disputa é apenas entre as melhores táticas de cooptação dos pobres. E assim, a pecha de não gostar de pobres que Lula e o PT atribuíam aos tucanos de outrora, hoje pode ser usada contra Lula e o PT.
A diferença esquerda/direita padece de uma crise programática, pois nenhum dos lados contribui para criar e reforçar linhas diferentes de políticas públicas que sejam suficientemente fortes e abrangentes para se enraizarem no imaginário político popular. Esta crise programática é compensada pela diferenciação moral, com larga vantagem para a direita. O grande desafio é sair da dimensão moral e ocupar devidamente a dimensão programática da política nacional. A prioridade não deve ser aprendizado moral e sim aprendizado político. A moral precisa ser cerceada para que a política entre em cena. A desorientação teórica da esquerda, marcada pelo uso moralista de conceitos como capitalismo (que adquire no discurso subsociológico o status de um “ator”, um verdadeiro “capetalismo” definido como entidade protagonista da decadência moral), colonialidade, patriarcado e “racismo estrutural” reforça o problema prático de seu afastamento das maiorias. Neste ponto, a direita brasileira parece ter uma grande vantagem: além da inegável “química” cultural e moral com a maioria do povo brasileiro atual, ela não cultiva nenhuma “teoria” social ou política que a torne refém de abstrações vazias como as que amarram a esquerda no fatalismo, no vitimismo, na derrota e na insignificância. A dinâmica aberta e inovadora da direita traz mais esperança que o conservadorismo semântico da esquerda. Minha tese central é que é mais fácil surgir uma “direita que faz”, capaz de resolver problemas concretos como nossa decadência econômica, às ameaças à nossa soberania nacional, a insegurança pública e os impasses da política social do que nossa esquerda moribunda achar um rumo decente. A esquerda precisa morrer e ser sepultada para que uma nova possa surgir. Um governo de direita sério faria bem ao Brasil e à esquerda.
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Lançamento do livro "Teoria sistêmica da desigualdade" na Acadêmia Campista de Letras
23/08/2023 | 15h14
No próximo sábado dia 26 de agosto, as 16 horas, farei lançamento e apresentação do meu livro “Teoria sistêmica da desigualdade” na sede da Academia Campista de Letras (ACL), no Jardim São Benedito em Campos-RJ. O livro foi publicado pelo Ateliê de Humanidades em julho deste ano. Será o primeiro evento de lançamento na cidade. Agradeço à ACL, na pessoa de seu presidente Christiano Fagundes, por esta honrosa oportunidade.

Breve apresentação do livro
Estruturas de desigualdade: produção, reprodução e transformação
O livro propõe uma teoria não estruturalista das desigualdades sociais. A ideia central é que estruturas de desigualdade são construídas, reproduzidas e transformadas pelas práticas de diferentes sistemas sociais. E como a sociedade é um conjunto complexo de sistemas sociais diferenciados, as estruturas de desigualdade também são múltiplas e em grande medida distintas de acordo com o sistema social. Não existe, por exemplo, uma estrutura de classes que define de antemão as chances das pessoas na economia, no sistema de ensino, no direito e na política. O que chamamos de desigualdade de classe são formas de classificação de pessoas produzidas por cada um destes sistemas sociais, e que se tornam, em cada um deles, fenômenos estruturais distintos. O mesmo vale para desigualdades de gênero e de raça.
Minha proposta é romper com o que chamo de unitarismo estrutural: a ideia de uma estrutura difusa de desigualdade que determina de fora as chances das pessoas nos diferentes sistemas sociais. Como alternativa apresento a ideia de desigualdades estruturadas dentro de cada sistema. Embora existam influências das desigualdades do ambiente sobre as desigualdades do sistema, estas influências não são automáticas. Estas influências só podem existir de modo indireto, pois os sistemas sociais desempenham um papel ativo em produzir, reproduzir ou transformar estruturas de desigualdade. Pesquisas empíricas sobre desigualdades educacionais mostram, por exemplo, que desigualdades sociais externas não penetram diretamente na escola. A organização escolar não é passiva, mas sim ativa, decidindo ou não construir desigualdades educacionais com base em desigualdades sociais externas.
Apresento uma teoria não determinista sobre a desigualdade que pode ajudar a compreender as desigualdades existentes no Brasil como o resultado de práticas e decisões organizacionais dos mais diversos tipos. Trata-se de observar como o Estado e suas diversas organizações, as empresas, as escolas, os tribunais constroem estruturas de desigualdade de classe, gênero, raça etc. Um aspecto importante de minha proposta é a existência de uma única e mesma sociedade mundial e a recusa em falar de sociedades nacionais. O Brasil não é uma sociedade com uma estrutura de desigualdade própria, mas sim um Estado-nação integrado nesta sociedade global. Isto significa que as desigualdades dentro do Brasil precisam ser relacionadas com desigualdades entre o Brasil e outros países. Não apenas pessoas são colocadas em posições desiguais em relação a outras pessoas. Isto também ocorre com países.
Desigualdades são estruturas construídas, reproduzidas e transformadas por diferentes práticas sociais que frequentemente geram efeitos cumulativos intergeracionais, mas estes efeitos podem ser interrompidos por outras práticas como as políticas públicas e também por processos de mudança estrutural em cada sistema. Desigualdades são, portanto, estruturas contingentes: não precisam ser como são e podem ser substituídas por outras estruturas. A contingência das estruturas de desigualdade significa que o presente de sistemas sociais sempre oferece possibilidades maiores ou menores de transformação estrutural. Desigualdades estruturais são o resultado de práticas do presente que reforçam processos de acumulação de vantagens e desvantagens.
As desigualdades do passado são evidentemente importantes, mas sua importância é sempre decidida e atualizada no presente das práticas sociais, nos níveis micro, intermediário e macro da vida social. Tomemos como exemplo o caso da chamada “herança da escravidão” no Brasil. O passado de trabalho escravo em massa foi certamente um obstáculo estrutural à inclusão dos libertos e de seus descendentes nos diferentes sistemas da sociedade: na economia, no ensino, na política, e até mesmo na esfera da vida afetiva em família. Mas esta “herança da escravidão” não determinou de modo necessário a exclusão dos negros na sociedade pós-escravista. O significado do passado é definido no presente de práticas e decisões sistêmicas, como a decisão de bloquear o acesso dos negros à propriedade da terra, a direitos trabalhistas, à educação etc. Não é uma estrutura do passado que se projeta por si mesma no presente de sistemas sociais que reproduzem passivamente esta estrutura. É o presente que seleciona e atualiza o passado. São decisões e práticas que selecionam e reiteram ativamente as estruturas de desigualdade já criadas, em um horizonte de possibilidades relativas de mudança estrutural.
Na verdade, mesmo a reprodução de estruturas do passado não é meramente reprodução; inovações são sempre introduzidas, ainda que as mesmas populações permaneçam com vantagens ou desvantagens relativas entre si. A acumulação de desigualdades econômicas, educacionais, políticas e jurídicas que afetam negros, mulheres e pobres, assim como outras categorias, é formada por estruturas plurais de desigualdade que são acopladas de modo mais forte entre si, criando polarizações entre categorias sociais cuja participação nos sistemas sociais não produz pontos de contato e cooperação.
Desigualdade e igualdade
A existência de estruturas de desigualdade localizadas em certas organizações e contextos não é o grande problema da sociedade em que vivemos. O igualitarismo pleno não é possível nem desejável em nenhum contexto, pois ele viola outros valores sociais como liberdade e mérito. O grande problema é a acumulação de vantagens e desvantagens em diferentes sistemas por parte de determinadas categoriais de classe, de gênero e raça, ou seja, quando estas categoriais se combinam com assimetrias que tendem a ser reproduzidas em vários sistemas e contextos, inviabilizando não só a mobilidade, mas também desacreditando a própria expectativa de que o intercurso social pode ocorrer de forma relativamente independente de classe, gênero ou raça. Este tipo cumulativo e generalizado de desigualdade é um traço do Brasil, mas não é uma fatalidade definida por nenhum mal de origem e muito menos uma peculiaridade brasileira ou de países do chamado “sul global”. Ele também está presente em países ditos desenvolvidos como os EUA, Alemanha, Inglaterra e França.
A reprodução das desigualdades é o resultado de práticas e decisões organizacionais em empresas, escolas, organizações políticas, jurídicas e outras, que produzem a categorização desigual de pessoas em termos de classe, gênero e raça. A existência de desigualdades entre ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres não é o resultado de categorias e estruturas que antecedem o funcionamento de sistemas sociais como estas organizações que impactam diretamente a chance de vida das pessoas. São as organizações que constroem a adotam ativamente estas estruturas de desigualdade como solução para seus problemas operativos.
Podemos trazer como exemplo a prática do perfilamento racial pela polícia e pelo judiciário. Estas organizações adotam o perfilamento racial como solução para o problema de selecionar quem abordar na rua, e com isso produzem e reproduzem claramente uma estrutura racializada de desigualdade que combina atribuição de conduta suspeita ou criminosa com traços físicos. Para desconstruir na prática esta estrutura de desigualdade é preciso encontrar uma estrutura alternativa que oriente a distinção sobre quem abordar ou não abordar e que seja independente de categorias raciais. A dificuldade em promover a igualdade decorre do fato de que as organizações aprendem a resolver problemas e a tomar decisões com base em desigualdades já estabilizadas.
Toda organização precisa classificar e excluir pessoas, isto é inevitável. O que pode ser evitado é que isto seja feito com base em categoriais sociais que levem a acumulação de vantagens e desvantagens em vários sistemas sociais. O processo de mudança depende de aprendizados organizacionais capazes de modificar estruturas e rotinas de práticas e decisões. Mas não podemos absolutizar o valor da igualdade e exigir um igualitarismo impraticável e indesejável. Não é um grande problema a existência de desigualdades contextualizadas, ou seja, que não conduzem nem à acumulação de vantagens e desvantagens em diferentes sistemas, nem a criação de categoriais sociais opostas que vivem, na prática, sempre em sistemas sociais distintos.
Em resumo, a busca deve ser por uma igualdade relativa, ou complexa como diria Michael Walzer, cujo principal ponto de referência na sociedade em que vivemos é a cidadania nacional enquanto esfera de igualdade capaz de assegurar uma vida considerada digna e de valor independente de estruturas de desigualdade existentes em outras esferas. Para que esta igualdade complexa ou relativa seja uma estrutura real é preciso que esta esfera da igualdade seja autônoma o suficiente para evitar que experiência de exclusão social em um sistema funcional – como na economia – gere efeitos cumulativos em outros sistemas como a educação, a política e o sistema jurídico.
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A negação da história nos 30 anos da UENF
21/08/2023 | 17h32
No último dia 16 de agosto a UENF se vestiu para a festa. Emocionados, alunos, servidores técnicos, professores e a comunidade se prepararam para celebrar, com rito e cerimônia oficial, os 30 anos da Universidade. Rituais e cerimônias, independente do tamanho e da pompa, nos convocam a suspender interesses e preocupações imediatas e nos remetem à duração de coisas grandiosas, que transcendem o horizonte estreito que assumimos em nossas atividades e pelejas corriqueiras. São oportunidades de grandeza e magnanimidade até para quem vive atolado na mediocridade e nas intrigas. Somos inseridos em um trabalho extraordinário de memória coletiva: esquecer de coisas pequenas lembrando e exaltando algo grandioso que nos congrega. Na vida privada, momentos rituais e cerimoniosos como aniversários e funerais de entes queridos costumam ser marcados por gestos extraordinários de unidade e transcendência da mesquinharia e das intrigas que costumam afetar o cotidiano das famílias e das relações pessoais. Na vida pública, são situações propícias até para políticos do varejo de curto prazo ensaiarem o papel de estadista ao menos uma vez. Rituais e cerimônias são momentos de celebrar e performar a grandeza de instituições e coletividades. Participar destes momentos é poder tomar parte de algo grandioso que ultrapassa os feitos pessoais e a temporalidade de cada um; e estes feitos adquirem sua eventual grandeza unicamente ao se mostrarem parte da construção da obra duradoura em uma temporalidade cheia de história, memória e futuro, e que transcende o ciclo de vida e atuação das pessoas. Daí que a honra ritual aos ancestrais de uma instituição é menos um culto a personalidades do que o reconhecimento de contribuições importantes para o legado da obra maior.
Nestes 30 anos da UENF, foram muitos os que contribuíram para a construção desta grandiosa Universidade, deixando assim seu nome nas páginas de nossa história e memória. Neste período, foram muitas as conquistas e batalhas que envolveram um grande número de pessoas. Muitas destas pessoas ainda estão na Universidade, outras seguiram sua vida em outras instituições e atividades, mas sempre se fazem presentes nos rituais da UENF, quando convidadas. Uma parte significativa delas estava presente na Reunião Extraordinária do Conselho Universitário (CONSUNI) da Universidade, no Centro de Convenções Oscar Niemayer, para a cerimônia oficial de comemoração do aniversário da instituição. Muitos chegaram à UENF no momento de sua criação e participaram de seus primeiros passos. Como ex-aluno, atual professor e membro do CONSUNI, observava com muita reverencia, respeito e encanto nossos “cabeças brancas” chegando para a honrosa cerimônia. Incitado pela memória oral, pelos causos que tenho o prazer de ouvir pessoalmente de alguns deles, sempre fico imaginando a ousadia e os feitos destas senhoras e senhores para construir e fazer durar e crescer a UENF. É um privilégio conviver diariamente com a memória viva e encarnada da Universidade. A expectativa era que a cerimônia de aniversário fosse um ritual de reverência à história e à memória da instituição, o que incluiria lembrar a contribuição de gerações e pessoas que criaram e deram prosseguimento à obra coletiva de 30 anos. Mas a contribuição de nossos “cabelas brancas” foi solenemente ignorada na cerimônia organizada e conduzida pela reitoria.
Perplexos, assistimos uma blasfêmia ritual, um esforço tosco e indecoroso do reitor Raul Palacio para exaltar sua própria gestão em vez de celebrar a obra maior e transcendente que ali nos reunia. Três ex-reitores estavam presentes. Nenhum deles foi convidado a compor a mesa oficial, composta pelo reitor, diretores dos centros e pró-reitores. Também não foram mencionados pelo reitor com o mínimo de deferência. Sua contribuição à história da UENF foi esquecida, como se a Universidade tivesse começado a existir na atual gestão. Outros dois ex-reitores muito importantes na história da UENF estariam presentes se fossem convidados: O professor Wanderley de Souza, que dirigiu a implantação da estrutura da UENF, e o professor Salassier Bernardo, primeiro reitor eleito da Universidade. O atual dirigente máximo da instituição colocou o interesse eleitoral interno e a pequena política no lugar do ritual da grandeza que nos leva a transcender os particularismos. Depois que os diretores dos centros (CCTA, CCT, CCH, CBB) exaltaram a história e a memória da UENF, era a vez do reitor encerrar a cerimônia, encarnando, pelo menos de forma extraordinária, o papel do estadista com visão estendida do passado e do futuro. Mas parecíamos estar diante de um candidato a vereador tentando fidelizar sua clientela. O vício pela pequena política parece não ter deixado nenhum espaço para nada maior. Os grandes feitos científicos que marcam a história da UENF e o trabalho que os servidores realizaram antes que o atual grupo político chegasse ao poder pareciam não ter nenhum valor. A história da UENF foi sistematicamente negada no seu aniversário de 30 anos.
A negação mais evidente e escandalosa de nossa história foi a narrativa de que a primeira homenagem a um servido técnico-administrativo com a Medalha Darcy Ribeiro, maior honraria concedida pela UENF, havia ocorrido naquela cerimônia, pelas mãos do reitor Raul Palacio. Uma faixa (ver imagem 1) colada no palco pelo Sindicado dos Trabalhadores das Universidades Públicas Estaduais do Rio de Janeiro (Sintuperj) registrou e reforçou o negacionismo, afirmando que o tratorista Ademir Ribeiro Manhães seria o primeiro servidor de sua categoria a ser homenageado com a honrosa medalha.
Imagem 1
Imagem 1 / Arquivo pessoal
A homenagem foi indicada e aprovada pelo Conselho Universitário (CONSUNI), em votação quase unânime, com votos de todas as categorias, inclusive dos professores, em gratidão e reconhecimento pelo trabalho extraordinário de Ademir em defesa da UENF. Eu mesmo votei entusiasmado para que ele fosse o grande homenageado na festa de 30 anos. Representa muito bem a grande contribuição que os servidores de sua categoria deram e dão à Universidade durante este período. Mas o fato histórico é que ele não foi o primeiro de sua categoria a receber a mais alta homenagem da UENF. O primeiro a receber a Medalha Darcy Ribeiro foi o técnico Mário Lopes Machado. Além de ter ajudado a consolidar a instituição como servidor do seu quadro permanente, Mário ocupou um papel fundamental na criação da UENF: atuou com liderança na coleta de assinaturas para apresentar a emenda popular à Assembleia Constituinte Estadual para a criação de uma universidade pública em Campos dos Goytacazes. Por este feito, recebeu a Medalha Darcy Ribeiro em 2008 das mãos do então reitor Almy Junior (ver imagem 2). Depois de Mário, outra servidora também recebeu a Medalha em 2011. Foi a professora e então servidora do corpo técnico-administrativo Zuleima Faria (ver imagem 3), uma das pessoas que criou e institucionalizou a Secretaria Acadêmica da UENF.
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Esta lembrança em nada desmerece a contribuição e a homenagem feita a Ademir no aniversário de 30 anos. Ao contrário: é o esquecimento das outras homenagens, em esforço constrangedor de negar o passado, que desvaloriza o trabalho do corpo técnico-administrativo como um todo. Mas este não é um fato isolado. A negação da história e da memória parecem constituir um padrão para o atual reitor e o grupo que governa a Universidade. Na cerimônia usada pelo reitor para fins eleitoreiros, não havia nenhum trabalho de memória institucional com base em arquivos fotográficos e audiovisuais. Os slides apresentados pelo dirigente máximo da UENF estavam focados em sua própria gestão. O padrão politiqueiro continuou blasfemando a história e a memória da UENF. No dia 18 de agosto, última sexta-feira, a reitoria organizou uma mesa de debate sobre o legado de Darcy Ribeiro na Casa de Cultiva Villa Maria. Em vez de uma mesa que ressaltasse o pensamento e a obra de Darcy Ribeiro, o evento foi usado para reforçar os conchavos políticos do reitor fora da Universidade. Presentes estavam um ex-deputado estadual, o reitor do Instituto Federal Fluminense (IFF) e pré-candidato a prefeito de Campos e a diretora da UFF/Campos. Nada contra nenhum dos convidados da mesa. Mas a ausência de um cientista que trabalha sistematicamente com o pensamento e a obra de Darcy é um escândalo. No caso, a ausência tem nome e já trabalhou anos na própria UENF: a professora Adélia Miglievich Ribeiro, atualmente na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), é uma das maiores conhecedoras de Darcy, e está sempre disposta a atender os convites da UENF. Faltou na mesa a dimensão científica tão valorizada por Darcy e tão desprezada pela atual gestão da Universidade. O evento parece ter sido organizado como uma luva para reforçar os interesses do reitor na política local e estadual. Mas Darcy não criou a UENF para servir de instrumento para particularismos políticos. É verdade que nosso “pai fundador” não demonizada a política e os políticos. Até porque ele foi um destes raros personagens que sabe navegar e entender estes dois mundos tão distintos que são a política e a ciência. Mas nada é mais contrário ao legado de Darcy do que manipular a ciência e o pensamento de longo prazo em favor de interesses eleitorais do momento.
De um reitor se espera respeito à Universidade que dirige. Isso exige respeitar os ritos, a história e a memória da instituição. O reconhecimento do trabalho e das contribuições dos que vieram antes é parte inseparável disto. Dele também se espera que saiba separar o significado maior de uma cerimônia oficial para celebrar o nascimento da UENF do desejo particular de elogiar o próprio mandato e promover seus objetivos eleitorais de curto prazo. Ao magnífico e seu grupo político faltou o mínimo de magnanimidade.
Quando assistia este discurso de autoelogio do reitor, me veio a mente outra grande realização de Darcy Ribeiro, Leonel Brizola e Oscar Niemayer: A construção do Sambódromo do Rio de Janeiro (mais conhecida como Marquês de Sapucaí e oficialmente nomeada de Passarela Professor Darcy Ribeiro). Nesta outra grande obra que transcende particularismos, a Estação Primeira de Mangueira nos arrebatou, em 2019, com o enredo “A história que a história não conta”. Nele aprendemos como a história tornada oficial pode se fazer pelo apagamento de muitos de seus protagonistas. Foi exatamente isso que nosso reitor tentou fazer. Mas o enrendo da verde e rosa, cuja bateria abrilhantou o aniversário de 15 anos da UENF em 2008 (ver imagens abaixo) com apresentação do enredo do carnaval de 2009 sobre o livro “O Povo Brasileiro” de Darcy, também nos ensina que a memória nunca está concluída e que a história das contribuições e protagonistas apagados pode sempre ser recuperada pela luta. Não uma luta em nome da vaidade de ex-reitores, servidores técnicos, professores e alunos. Mas uma luta em nome da verdade histórica sobre a construção e o legado da UENF. Não uma luta em torno do passado e suas picuinhas. Mas uma luta em torno do futuro, porque o costume de encurtar o horizonte temporal do passado, tratando 30 anos de Universidade como se fossem 4 anos do mandato de um reitor, tem afinidade carnal com o costume de negligenciar o futuro. A UENF não merece e não aceitará esta tentava de apequená-la.

                                     






 
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30 anos de UENF: experimento de grandeza compartilhada
16/08/2023 | 13h11
“Um plano é uma coisa real e as coisas projetadas são experimentadas. Um plano, depois de feito e visualizado, torna-se uma realidade ao lado de outras realidades – não podendo nunca ser destruído, mas podendo facilmente ser atacado”

John Steinbeck

Neste 16 de agosto de 2023 a UENF completa 30 anos. É um momento oportuno para refletir sobre o sentido desta Universidade. Oficialmente, este sentido está fixado no próprio nome da UENF, que carrega a assinatura de seu “pai fundador” Darcy Ribeiro. Não se trata meramente de uma homenagem ao político e intelectual que liderou a criação da Universidade. Mas acima de tudo de uma identidade assumida publicamente com um sentido específico de compromisso e tarefa sobre o papel da Universidade que Darcy Ribeiro defendia.
Qual compromisso e qual tarefa assume a UENF ao definir a si mesma com o nome de Darcy Ribeiro? Esta não é uma questão consensual e fácil e responder. A única resposta consensual e fácil, pelo menos para quem tem o mínimo de contato com as obras e a existência de Darcy, é que não existe nada mais contrário ao espírito criador da UENF do que o culto à personalidade e ao passado. Não estamos falando de uma obra de relevação a ser mantida intacta junto com a imagem cultuada de seu grande artífice. Diria que resposta mais adequada sobre o compromisso e a tarefa da UENF está na direção contrária. Por mais complexo que seja o pensamento de Darcy, podemos dizer que a ideia de uma grandeza compartilhada e projetada pelo povo brasileiro está presente na concepção e na identidade da UENF. O “pai fundador” da nossa Universidade definia os brasileiros como sendo um “povo novo” (Ribeiro, 2006), uma “nova Roma”: forjada nos “moinhos de moer gente” da sociedade colonial, nossa nação, apesar de ainda continuar moendo gente, foi capaz de criar e difundir um sentido de pertencimento que supera os limites da etnicidade comum, suporte da maior parte das identidades nacionais existentes no planeta. A maioria dos brasileiros não se quer descendente de etnia comum, e nem quis inventar uma tradição étnica para chamar de sua, como fizeram tantos outros povos. Nosso sentido de nação não depende de uma unidade étnica projetada no passado. Em vez disso, inventamos uma ideia de povo nacional cuja unidade está ancorada no futuro do destino comum, nos artefatos socioculturais produzidos em ambiente de vasta e intensa diversidade ecológica e cultural e na capacidade de inovação em todas as áreas da vida. O povo brasileiro não é um povo europeu deslocado no além-mar. Não somos continuidade de nenhum dos povos que nos formaram. Ser um “povo novo” significa principalmente isso: não ter o passado e sim o futuro como referência principal. Quando dizia “povo novo”, Darcy também queria dizer “povo do futuro”. Mas o que isso tem a ver com a UENF?
Tudo. A UENF traz a marca da utopia nacional de seu “pai fundador”. Como afirmava recorrentemente, Darcy era um utópico por todos os poros e partes do corpo. Mas para ele, utopia não tinha o sentido de negação da realidade, como era o caso, por exemplo, para Karl Marx. O futuro de uma nação, de um povo e até de uma pessoa é um sonho inventado no presente e que já começa a se tornar realidade no presente. A utopia é um sonho com passos significativos e reais que podemos realizar aqui e agora. O futuro só importa quando ele é adjacente, quando pode ser experimento como realidade em desenvolvimento. A utopia nacional popular de Darcy, por exemplo, não abre mão de um caminho de grandeza econômica, científica, tecnológica, política, militar e cultural. Mas esta grandeza não pode ser nacional se não for compartilhada pelos nacionais, e não pode ser compartilhada se não começar pelo enfrentamento dos problemas concretos vividos pela maioria do povo aqui e agora: a fome, o analfabetismo, a miséria, o racismo, a violência, etc. O futuro sonhado coletivamente e o enfrentamento dos problemas urgentes se reforçam mutuamente.
Não se trata de fazer projeções arbitrárias, mas de imaginar e inventar o futuro com base nas possibilidades, potências e práticas que já existem. A utopia nacional de um país produtivo e próspero, pujante, inteligente, inclusivo e fraterno surge da experiência do que já existe: sem abdicar da crítica feroz e contundente das iniquidades vigentes, ver também o que deu certo como potencial de algo novo que a realidade possibilita inventar. Darcy não foi otimista, ufanista nem ingênuo. Ele não acreditava que o Brasil daria certo apesar de tudo. Podia, pode e continua dando errado em muita coisa. Mas deu certo e continua dando certo em muitas outras. Darcy não recusava a realidade. O que ele recusava era o fatalismo que nega as possibilidades incrustadas na ordem existente. Afirmar que o Brasil pode ser um país grandioso e inclusivo não é negar a realidade nacional, mas sim compreendê-la efetivamente em sua complexidade e ambiguidade. Nem todo país pode sonhar com isso. A maioria dos países possivelmente não pode.
Assim como na utopia nacional, grandeza e inclusão são elementos centrais e inseparáveis no papel e no sentido da UENF. Grandeza é poder e decidir não aceitar certos limites como intransponíveis no próprio desenvolvimento. É poder transcender padrões socioculturais. A grandeza pode ser pessoal e coletiva. A UENF é um projeto de grandeza coletiva que também se desdobra no engrandecimento pessoal. A Universidade não nasceu para ser uma instituição periférica do interior, mas para atuar e alterar a fronteira do conhecimento científico e da inovação tecnológica em diversas áreas capazes de impulsionar o desenvolvimento regional e nacional: Na produção agroindustrial, na biotecnologia, nas engenharias, na administração pública e na organização produtiva, na política social, no recrutamento de elites e profissionais da política, no mundo empresarial, na educação e em muitas outras áreas. A tarefa da UENF é combinar grandeza com inclusão, ou seja, criar grandeza compartilhada.
Darcy nunca separou grandeza de inclusão como hoje se faz em parte dominante dos progressistas e também em setores da UENF. Nestes últimos anos, quando se deixou de praticar o experimento de colocar a Universidade no centro e na fronteira da produção de ciência e tecnologia, houve uma separação entre grandeza e inclusão que trai o sentido e a tarefa da UENF. Grandeza sem inclusão leva ao elitismo incompetente, cego as contribuições da diversidade popular na criação de soluções para os problemas comuns. No final deixa de ser grandeza e se torna mediocridade mal disfarçada de elites raivosas e decadentes. Darcy e a UENF não nasceram para serem elitistas. Mas inclusão sem grandeza, sem engrandecimento individual e coletivo, também não serve (Texeiras/Medeiros, 2022). Incluir em um sistema social que perde competência em sua tarefa mais importante e a para a qual existe é uma inclusão rebaixada, pois bloqueia caminhos da grandeza científica e tecnológica como parte inseparável do desenvolvimento universitário, regional e nacional. Ao comemorar seus 30 anos, faço votos que a UENF decida pela grandeza no lugar do rebaixamento de expectativas que nos faz aceitar um lugar menor no mundo. Sem isso não podemos levar a diante o experimento proposto do Darcy e acolhido oficialmente por todos nós.
Referências: 
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.
TEXEIRA, Carlos Sávio Gomes/MEDEIROS, Tiago. A igualdade como problema, a grandeza como solução. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. V. 489, n. 183, p. 207-234, 2022.
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O novo governo e a tarefa da reconstrução e conciliação nacional
31/10/2022 | 09h51
O próximo governo tem pela frente uma tarefa inadiável de reconstrução e conciliação nacional. A divisão política polarizada confirmada nas urnas não é um problema em si. O problema é a polarização moralista que contamina todas as relações e esferas sociais sem trazer o lado bom da polarização propriamente política: a possibilidade de escolher entre duas linhas programáticas distintas sobre soluções para os problemas reais da sociedade. O maior desafio deste novo governo Lula é reconstruir uma polarização política que não resulte em uma polarização social açambarcante e simplista, baseada unicamente no sentimento moralista do nós contra eles. O caminho para isso é deslocar a polarização política das lutas culturais e morais para as lutas em torno da economia política e da política social. Para nos reconciliarmos, precisamos reaprender a brigar.
A ordem constitucional e institucional da Nova República foi arruinada não apenas pela ação de seus adversários. Sua derrocada também é o efeito de sua incapacidade intrínseca de ofertar ao país duas coisas essenciais sem as quais uma constituição cidadã não pode se efetivar: 1) inovações institucionais capazes de produzir direitos sociais e serviços públicos em quantidade e qualidade suficientes para garantir a cidadania; 2) e um modelo de desenvolvimento capaz de elevar a complexidade e a produtividade do sistema econômico e assim assegurar inclusão econômica qualificada e fonte de financiamento para as políticas sociais. Não é possível garantir política social e dignidade para as maiorias sem inovações institucionais na oferta de serviços públicos e sem um novo modelo econômico que combine elevação da complexidade e da produtividade com a inclusão das maiorias em empregos e oportunidades econômicas de qualidade. Falar em cidadania sem enfrentar estas duas questões é faltar com a dignidade intelectual e política.
Caso opte pelo atalho e evite enfrentar os conflitos e desafios políticos necessários para resolver os dois problemas estruturais mencionados acima, o novo governo certamente será um fracasso, preparando o caminho para a volta da extrema-direita ao poder. O atalho leva, desta vez, mais diretamente ao precipício. A falta de compromisso programático de Lula não é um bom sinal, pois indica que o grande líder popular pode novamente escolher este caminho curto e trágico. Mas este mau sinal nunca deve ser tomado como destino e necessidade. O futuro é aberto também porque as pessoas nunca estão prontas, porque novas situações exigem a busca por alternativas e inovações no ser e no agir. Por isso, arrisco uma avaliação antideterminista sobre o futuro governo Lula: ou será muito ruim e trágico se optar pelo atalho, ou será muito bom e construtivo se optar pelo caminho radical da reconstrução nacional. O meio termo se tornou uma opção indisponível.
A tarefa de reconstrução nacional requer combinar radicalidade no conteúdo com amplitude na forma de agregação de forças políticas. No conteúdo, é urgente reconectar a agenda da política social – inclusão social e redistribuição de renda – com a agenda da mudança da política econômica em torno de um projeto nacional de desenvolvimento centrado na soberania nacional. A reconexão entre política econômica nacionalista e política social universalista consiste em mudanças sociais induzidas pelo sistema político no sentido de construir solidariedade complexa no plano nacional, oferecendo programa e discurso que façam o que chamo de fusão política majoritária de interesses sociais distintos em interesses políticos comuns, responsável pela criação de identificações coletivas suficientemente amplas e coesas parra sustentar decisões políticas. Na política social, esta solidariedade complexa requer a ruptura com a fragmentação entre política compensatória de transferência marginal de renda para os pobres e política regulatória de serviços privados para a classe média. A tarefa é atrair a classe média para os serviços públicos, para a escola pública, para o SUS. Na política econômica, o desafio é romper com o abismo institucional entre produção desigual e redistribuição marginal da riqueza. É preciso reinventar a receita do bolo, de modo que produção e distribuição não sejam momentos e processos desconectados, mas processos correlatos. A esquerda precisa conjurar o rebaixamento das expetativas e não se contentar em redistribuir pela tributação redistributiva a riqueza produtiva a apropriada de modo desigual no sistema econômico. É preciso transformar as estruturas sociais da economia. É preciso transformar e diversificar as formas de propriedade, recolocando a questão do controle dos meios de produção e da relação entre o capital e o trabalho no centro da agenda. O trabalho assalariado não serve mais como forma de trabalho livre garantidor de cidadania para as maiorias. Formas alternativas de produção, consumo e financiamento como o trabalho cooperativo, que no século XIX figuravam como opções para superar a julgo do trabalho pelo capital, devem ser recuperadas e reformuladas à luz dos novos desafios. A inovação jurídica, especialmente nos direitos de propriedade, deve estar na ordem do dia. Em uma palavra, é preciso ousadia programática.
Na forma, é preciso compreender que uma política de alianças não está em contradição necessária com uma política radical no conteúdo. É possível ser radical no conteúdo e amplo na construção de alianças. A tarefa de reconstrução nacional não é uma tarefa da esquerda, embora possa ter o protagonismo da esquerda ao lado de outras forças. Neste sentido, a aliança entre Lula e Alckmin, assim como o movimento de aproximação com antigos adversários como FHC, são excelente sinais. Pode ser parte de uma eventual solução para ampliar a força política necessária para reconstruir o país. A maioria das pessoas de esquerda acredita que fazer alianças em busca do centro político exige borrar ou apagar diferenças e conteúdos programáticos radicais. Acreditam que a moderação programática é o único caminho possível. Precisam se dar conta que ela é parte do problema. Estão ainda reféns da confusão entre ser radical e ser sectário: partem da premissa de que um programa político radical, ousado, que busque soluções estruturais para problemas estruturais, é sempre sectário, estreito no espectro dos grupos e classes sociais que lhe dão sustentação. Esta confusão pode e deve ser desfeita, pois ser radical na dimensão programática não significa necessariamente sectarismo na relação com as forças políticas. Programas rebeldes de desenvolvimento nacional foram sempre radicais e contaram com ampla base de apoio envolvendo setores populares e médios. Quando não contaram com o apoio de setores burgueses, o apoio da classe média e dos setores populares garantiu, muitas vezes, as condições para a coerção política da minoria dissidente e entreguista. Não há lei social ou política que faça da classe média a linha de frente da burguesia antinacional e antipopular. É preciso recuperar as nuances e contradições da história política e a contingência das estruturas da ação social.
Para Lula o caminho radical da reconstrução nacional impõe pelo menos dois desafios específicos que implicam romper com o padrão dos governos lulistas anteriores: 1) desfazer a confusão entre política de alianças e rendição programática que serve de desculpa para governos medíocres; 2) buscar novos horizontes intelectuais para superar o deserto de ideias do PT. A confusão entre amplitude de alianças e rendição programática está sintetizada na doutrina estruturalista pseudo-sociológica da “correlação de forças”: a ideia de que as classes, grupos e demais forças sociais possuem interesses claramente definidos e fixados de antemão, antes da política. Daí se supõe que a natureza transformadora dos interesses é sempre inversamente proporcional à quantidade de atores que compõem uma aliança política, como se a política apenas reagisse passivamente à “correlação de forças” entre estes interesses. Esta suposição não leva em conta que a política transformadora real sempre promoveu sínteses de interesses diversos em um interesse maior: a política é ativa e formadora em relação aos interesses, pois estes nunca estão plenamente definidos e fixados pelos atores, que podem aprender a defender novos interesses a partir da política. Não se trata de imaginar uma situação de consenso, mas de buscar uma síntese de interesses entre classes médias e populares para antagonizar com as oligarquias rentistas que saqueiam o país. É aliança para o conflito.
No entanto, para superar esta falsa dicotomia entre ousadia programática e política de alianças, assim como outros determinismos, o novo governo precisa se libertar de certas amarras intelectuais entranhadas desde sempre no PT e na esquerda. No geral, essas amarras se caracterizam pela combinação de abstrações sem detalhamento contextual em termos de diagnóstico e programa, como a ideia vaga de socialismo, com um profundo desprezo pela história nacional e pelas conquistas brasileiras antes do PT chegar ao poder. Para a quase totalidade dos intelectuais petistas, nada no Brasil prestou antes de chegada de Lula ao poder em 2002. O nacionaldesenvolvimentismo e a pujança nacional em quase todas as esferas da vida social, que transformou o Brasil entre os anos 1930 e 1980, são simplesmente esquecidos e apagados, pra usar o jargão cultivado pela esquerda atual. Este negacionismo antinacional tem possivelmente sua melhor expressão no pensamento de Marilena Chauí, a filósofa para quem o Brasil não valeu a pena. Em análise recente com recomendações para o futuro governo , Chauí evidencia novamente seu distanciamento cognitivo e afetivo em relação aos problemas e soluções nacionais. Primeiro e determinante do resto, ela parece não estar observando os acontecimentos políticos dos últimos anos, pois só isso pode explicar tamanha alienação em supor que a tarefa de refazer o país é ou pode ser uma tarefa da esquerda. Ela parece não conceber a possibilidade de que outras forças políticas tenham contribuições importantes ao país e à tarefa de reconstruí-lo. Setores como os evangélicos e o agronegócio, que representam as duas maiores mudanças sociais e culturais no Brasil das últimas 5 décadas, não teriam lugar na obra de reconstrução nacional. Aceita-se, eventualmente, como foi no passado, que estes setores sejam convocados para ajudar na cozinha ou no porão da política, mas nunca para dividir a sala com a mesma dignidade que a esquerda atribui a si mesma. Na sequência deste esquerdismo, Chauí aborda temas como educação, reforma política, forças armadas e superação do neoliberalismo de modo abstrato, superficial e descolado dos problemas concretos do país. É uma lista de temas importantes com testemunho de boas intenções. Nenhum diagnóstico, nenhuma formulação programática.
Lula sabe como ninguém a arte de construir alianças e isso é uma virtude indispensável para reconstruir o país. Mas ele precisa aprender a dar a importância que nunca deu à forças das ideias na política, sobretudo quando representadas e encarnadas por líderes e partidos fortes como ele o PT. As ideias são armas indispensáveis nas disputas políticas de grandes dimensões, como as lutas redistributivas e pela soberania nacional que estarão na mesa do futuro governo. Lula estará diante destas lutas, querendo ou não. Minha esperança é que, cobrado pelas circunstâncias e agraciado pela sorte e por Deus, ele possa desenvolver a virtude de valorizar as formulações programáticas para estruturar e conduzir o governo. Se optar pelo atalho, como fez no passado, não fará um governo mediano capaz de entregar picanha e cerveja. Desta vez, o atalho conduz diretamente ao precipício antes de passar o bastão ao sucessor. Para Lula, isso significaria entrar para a história sob o signo da pequenez. Sua única alternativa pessoal é também a melhor para o país: fazer aliados, comprar as brigas necessárias, virar a mesa e construir um caminho radical de reconstrução nacional. Aí sim ele entraria para o panteão seleto dos grandes construtores do país.
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10 anos de Administração Pública na UENF
16/08/2022 | 11h37
Amanha, dia 17 de agosto, a UENF comemora 10 anos de seu curso de graduação em Administração Pública e do Laboratório de Gestão de Políticas Públicas, o LGPP. A criação do curso e do laboratório foi um processo de inovação e desenvolvimento institucional idealizado pelo professor Sérgio de Avezedo, atualizando o espírito e a prática de experimentação institucional preconizados por Darcy Ribeiro, o pai fundador da UENF. Darcy desejou criar uma universidade nova, de excelência no ensino, na pesquisa e na intervenção social.
O ideal é o de uma universidade capaz de produzir ciência e conhecimento de ponta e ao mesmo tempo responder com agilidade e efetividade aos desafios colocados por seu entorno social. Nada mais contrário a este ideal do que o espírito de idolatria institucional e a inércia. Ser fiel ao espírito fundador da UENF é defender e promover constante processo de inovação e desenvolvimento institucional na Universidade, pois só assim é possível responder aos desafios colocados pela sociedade, seja a nível local, regional ou nacional. A criação do curso de Administração Pública e do Laboratório de Gestão de Políticas Públicas encarna esta busca por uma instituição pujante em seu dinamismo. Isso permitiu à UENF produzir pesquisas de excelência sobre os temas ligados ao Estado e às políticas públicas, elaborar projetos de extensão focados nos desafios do setor público e formar quadros para os governos locais, regionais e até federal.
Em 10 anos de funcionamento, podemos dizer, sem nenhuma dúvida, que esta é uma história de sucesso! Apesar dos desafios internos, o curso de Administração Pública e o LGPP fortaleceram e qualificaram a capacidade da UENF influenciar positivamente na vida social. Em tempos de acelerada ofensiva neoliberal, da qual fazem parte os ignorantes que insistem em confundir administração pública com administração de empresas, a existência bem sucedida da pesquisa, do ensino e da extensão em administração pública é uma arma de enorme valor no esforço de reconstruir as capacidades estatais necessárias para induzir o desenvolvimento e produzir cidadania.
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A metamorfose ambulante do carisma lulista: do sindicato à turminha do capital cultural
02/06/2022 | 11h09
Max Weber define o carisma como uma forma de autoridade baseada em qualidades extraordinárias que os adeptos atribuem a um líder político, religioso ou de qualquer outra esfera social. O ponto fundamental é que antes de ser algo possuído pelo líder, o carisma é algo atribuído pelo movimento carismático. Não existe líder carismático sem movimento carismático.
Lula é o mais importante exemplo de liderança carismática na política brasileira das últimas 4 décadas. Muitos estudos já foram feitos sobre a trajetória pessoal e política dele. Mas ainda não conheço um estudo sobre a trajetória do carisma lulista, ou seja, sobre as metamorfoses do movimento carismático responsável pela construção e duração deste carisma.
O ponto de partida para um estudo deste tipo deve ser o da pluralidade e sobreposição estratificada dos diferentes segmentos que compõem o movimento carismático. E deste ponto de partida decorre evidentemente a tese de que tanto o movimento como o carisma não permanecem estáticos: eles vão se transformando de acordo com a centralidade que certos grupos e classes sociais assumem no movimento e na atribuição das qualidades extraordinárias que constituem o carisma do líder.
Tendo por base esta reflexão, gostaria de esboçar um modelo hipotético sobre a trajetória do carisma lulista.
1) A primeira fase: Nas décadas de 1980 e 1990 o carisma lulista era a de um líder sindical que sabia defender com qualidades políticas extraordinárias os interesses dos setores organizados da classe trabalhadora, sejam estes da indústria ou do funcionalismo público. Sustentando este carisma havia um movimento sindical forte, que mesmo não sendo capaz de garantir vitória em eleições presidenciais, assegurava pelo menos 25% dos votos. Intelectuais e artistas participavam do movimento, mas não constituem um grupo definidor do carisma lulista.
2) A primeira metamorfose: Entre 2002 e 2010, durante seus mandatos presidenciais, ocorreu um realinhamento eleitoral em torno de Lula que também se verifica na estrutura do movimento carismático em torno de sua liderança: como fica claro nas eleições de 2006, a maioria dos pobres e dos setores desorganizados da classe trabalhadora passam a fazer parte não apenas do eleitorado, mas também do movimento carismático lulista. Lula deixa de ser apenas um líder carismático dos sindicatos para ser também um líder carismático do Brasil popular desorganizado, ocupando um espaço que lideranças como a de Brizola e Arraes já haviam ocupado. Este segundo momento é o mais pluralista e amplo na trajetória do movimento carismático lulista, cujo auge foi em 2010. No entorno mais próximo de Lula, ainda se encontram seus companheiros líderes sindicais. Mas é ao redor deles, em outro segmento, que vemos a grande força do movimento: o povão desorganizado que projeta em Lula não as qualidades de um líder sindical combativo e habilidoso, mas as virtudes de um homem do povo que já passou fome e que tem empatia e compromisso com os pobres.
3) Segunda metamorfose? Entre 2010 e 2018 o movimento carismático lulista viveu o processo mais difícil de todo movimento carismático: a sucessão do líder por outra pessoa e os riscos de encolhimento que isso pode trazer para o carisma do líder, empenhado no fracassado governo Dilma. O fracasso da sucessora de Lula criou problemas sérios para os elementos populares e desorganizados do lulismo. E como o governo Lula promoveu a maior desindustrialização da história brasileira, ele acabou também destruindo as bases sociais do elemento organizado/sindicalizado do movimento carismático. O sindicalismo hoje não representa nada no movimento lulista, assim como não representa no país. Com a volta da fome em massa e da miséria selvagem no governado Bolsonaro, Lula retorna com força. Mas o que isso indica para a composição de seu movimento carismático? A grande maioria dos pobres continua atribuindo a Lula qualidades extraordinárias no sentido de melhorar a vida do povo, da classe trabalhadora desorganizada, hoje jogada na mais selvagem informalidade. Trata-se, porém, de um carisma baseado na memória recente, e que pode ser abalado tanto pelo embate com outra memória recente - a tragédia Dilma - como pelas dificuldades de um eventual novo governo. Velho e claramente sem condições pessoais para os embates políticos que precisaria enfrentar para garantir o mínimo existencial para este público mais pobre, Lula corre o risco de perder rapidamente a principal base que resta a seu movimento carismático. Além dos pobres, o movimento carismático lulista conta hoje com um entorno mais próximo de artistas, intelectuais e ativistas de orientação identitária, como pudemos ver claramente no evento desta semana na PUC de São Paulo. Ao contrário dos antigos companheiros sindicalistas, este segmento da elite cultural detesta tudo que é popular, da música sertaneja ao pentecostalismo. Essa "turminha do capital cultural", para usar a expressão do cientista político Carlos Sávio Teixeira, pode redefinir o carisma de Lula em uma direção elitista e politicamente preocupante: em vez de ser o líder com qualidades extraordinárias para representar o povo organizado ou desorganizado, se atribui a Lula qualidades extraordinárias que parecem transformá-lo numa espécie de novo Chico Buarque, ou seja, um senhor refinado e com sensibilidade para os afetos e padrões de comportamento pessoal da classe média culta, mas sem apelo popular. É o Lula que dá protagonismo à esposa no palanque para não parecer o “tosco machista”; é o Lula que fala em comida vegana para não provocar desgosto em uma plateia que não consegue disfarçar sua condenação do gosto popular pelo churrasco. Mesmo a empatia de Lula com a pobreza ganha outro sentido nesta relação que o líder carismático mantém com seu círculo mais próximo, hoje constituído por essa “turminha do capital cultural”: agora não se trata de uma relação de empatia entre Lula e os pobres, mediada apenas pelo trabalho de difusão dos meios de comunicação de massa, mas sim de uma empatia de Lula com a “turminha do capital cultural”, cujo sentido é confirmar, para este público, seu próprio sentimento de superioridade moral por gostarem dos pobres e por estarem do “lado certo da história”. Evidência de que esta hipótese é correta foi o fato de que, no evento destinado à leitura de cartas enviadas a Lula durante o período em que esteve preso, o protagonismo maior foi assumido não pelos autores das cartas, mas pelos artistas que estavam ali para melhor interpretar o sentimento popular. Para essa parte culturalmente elitizada do movimento carismático lulista, o povo é apenas um pretexto. E se Lula continuar neste caminho corre o risco de ter seu exuberante carisma reduzido ao tamanho da importância que a “turminha do capital cultural” possui para o povão, que graças a Deus não é muita coisa.
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Sobre o autor

Roberto Dutra

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