FLIP 8 - Paraty 2010
21/01/2017 | 18h41
  Ontem a entrevista com a escritora chilena Isabel Allende que teve como mediador Humberto Werneck foi mesclada com assuntos particulares de sua vida como o fato de não ter conhecido seu pai, que saiu de casa quando ela tinha ainda três anos e só voltou a vê-lo já morto. Foi chamada para fazer um reconhecimento do corpo, e pensando ser seu irmão, dirigiu-se para o local com seu padrasto. Lá chegando afirmou desconhecer o corpo do homem sem vida, e o padrasto então falou ser aquele seu pai. Disse ainda manter uma troca de cartas quase diária com sua mãe que hoje  está com noventa e seis anos. Perguntada se haveria a possibilidade de publicar esses escritos, respondeu que apesar de ter tudo guardado e catalogado por datas, não se sentia a vontade para tanto, pois ali está muito de sua intimidade e dos seus. Divertiu a todos com comentários sobre a forma como conheceu seu marido e como é o convívio de uma chilena com um americano. “É muito difícil estar casado comigo. Primeiro porque sou muito mandona. E sou muito forte”. Seduziu a platéia com um jeito simples e garantiu boas risadas quando afirmou que o ponto G da mulher fica no ouvido. Explicou em seguida, que foi através das conversas e histórias contadas pelo marido que se apaixonou por ele. Falou sobre sua forma de criação, o medo e insegurança que tem a cada vez que começa a escrever um livro. Disse ainda que sempre que inicia, pensa que está escrevendo algo ruim, sem valor, e que assim vai adquirindo aos poucos a confiança necessária para ter um bom resultado. Trabalha em seus textos por 14 horas seguidas e que a melhor forma de conseguir sucesso é persistência, esforço e disciplina. Seu último livro “A ilha sobre o mar” é passado no século XVIII, onde hoje é o Haiti, e fala sobre escravidão, romance e prazeres. Como a maioria de seus livros, ao começar a ler, o leitor não conseguirá parar até que chegue a última página.                                                Cândida Albernaz   6-8-2010
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Ponto sem nó
21/01/2017 | 18h41
   Cândida Albernaz Aquela pequena capela, com bancos de madeira resistentes ao tempo ficava em meio a árvores e o que um dia foi um gramado. Hoje capim por cortar.  A casa um pouco distante, com pedaços de reboco caindo da varanda onde tantas vezes sentara para conversar com amigos ou simplesmente pensar.  Naquela época, pensar não doía como agora. Acreditava ter a vida à sua disposição. O tempo fez questão de mostrar que ela sim, disporia dele como bem entendesse.  Os pais morreram quando tinha vinte e seis anos. Um acidente na estrada, quando um cavalo atravessou na frente deles sem que houvesse tempo para desviar.  Herdou aquela fazenda e alguns outros bens na cidade. Gostava da terra, dos bichos e hoje da solidão.  Estava noivo na época e com planos para casar. Desistiu. Resolveu fazer uma viagem que duraria um mês, mas levou um ano para voltar.  A noiva se magoou com ele que não fez questão de dar maiores explicações.  Quando voltou, ela estava de casamento marcado com um de seus amigos. Foi à cerimônia e com olhos sem amor, viu os dela fixarem-se nele durante todo o caminho até o altar. Resolveu que não iria à recepção.  Os imóveis que possuía na cidade, rendiam mais do que o suficiente para que pudesse tocar a fazenda com calma, levando-a a crescer e produzir. Os pastos a cada ano viam aumentar o gado.  Conheceu Liliana em uma de suas idas a cidade. Freqüentava os bares e festas que haviam por lá.  Em menos de um ano estava casado e na espera do primeiro filho. Não era homem de grandes paixões, costumava dizer. Programava seu dia, semana ou ano e seguia em frente.  Os amigos continuavam a frequentar sua casa, inclusive a ex noiva com o marido. Gostava de realizar pequenas festas que durava toda a noite. Numa delas eles chegaram com um casal de amigos. Foram ficando, ficando e já amanhecia quando se despediram. A garota era bem mais jovem do que ele, dançava de forma insinuante, provocando a maioria dos olhares masculinos.  Com a desculpa de mostrar a ela um potro que havia nascido, sumiram os dois por algum tempo. Depois desse dia, encontravam-se sempre que possível.  Quando contou que estava grávida, pediu que ele largasse a mulher e ficasse com ela. Riu de sua pretensão e questionou o fato de ser ele o pai. Como ter certeza?  Não esperava o que viria a seguir. Ela contou ao marido sobre os dois, que foi tirar satisfação com ele em sua casa. Mulher e filho presentes ouvindo o que não deviam. Ainda tentou se explicar, mas não deu em nada.  Mais tarde, ficou provado que a criança era do marido. Os dois se acertaram e criam a filha juntos.  Com ele foi diferente. Liliana saiu de casa levando o filho que passou a ver de vez em quando.  Não acreditou sentir tanta falta. Saiu da fazenda e foi morar na cidade. A casa ficou abandonada, perdeu o gosto. Continuou com o gado, mas passou a ir apenas quando necessário. Mesmo assim, levou anos sem voltar à sede.  Hoje, olhando a casa naquele estado, pensou o quanto havia se enganado sobre si mesmo. Era na verdade um homem de grandes paixões, e por isso a cada dor vivida, fugia de tudo o que o fizesse recordar.  Só não conseguia fugir de si mesmo.
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Choro (Marcelo Moutinho)
21/01/2017 | 18h41
"Ao explodir a algaravia da meia-noite, o ano escorreu por seu rosto em seis ou sete lágrimas quentes. Num canto esquerdo e minúsculo daquele mundo repentinamente branco, a piedade lhe chegava em sussurros porosos como areia: "Não chore, não chore..." Ignoravam que chorar é um fato, não uma opção."                                                                                         Marcelo Moutinho.
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Cansaço...
21/01/2017 | 18h41
Cansaço...                                                                                                                            Cândida Albernaz             Subindo a escada com dificuldade, lembrou-se do tempo em que correr era fácil. Hoje necessitava de ajuda para fazer coisas básicas como ir para o andar superior onde ficava seu quarto.             Quando construíram a casa, foi ela quem decidiu fazer dois pavimentos. O terreno era grande e não  havia necessidade de ser assim, mas achava bonito e pretendia,com isso, se isolar quando quisesse. Ilusão, nunca pôde escolher ficar sozinha com dois filhos que costumavam chamá-la por qualquer coisa e o marido que exigia sua presença constantemente.             Agora se pudesse, não ficaria só, mas foi o que sobrou. Os filhos casaram-se e o marido morreu há alguns anos. Queria ter ido antes dele. Por egoísmo, é claro. Sabia que sua vida seria difícil. Estava doente há muito tempo. Doença nos ossos que a cada dia piorava.              Augusto nunca adoecia, mal se gripava ou tinha uma dor de cabeça. Parecia que duraria para sempre.             Não foi o que aconteceu. Num dia comum, sentiu-se mal pela manhã e após o almoço já havia morrido. Não deu trabalho algum, mas causou uma dor em seu peito que até hoje a faz chorar.             Ela, ao contrário, sempre preocupava os filhos ou a ele com suas reclamações de dor aqui e ali.             Não se recordava mais quando começara a ser chata. Porque tinha certeza que era assim que a viam. Ela se enxergava dessa forma, portanto era impossível que os outros a olhassem diferente.             Tinha três netos, e por mais que os amasse, o barulho que faziam quando a visitavam, a incomodava. Via nos olhos da filha a crítica por sua impaciência. Nem mesmo sabia se conseguira ser uma boa mãe.             Nunca trabalhou fora e nem teria tempo. Gostava da casa impecável, estudava com os filhos e apesar de não precisar, cozinhava sempre que podia. Sua mania de perfeição ocupava todo o seu tempo. Quando adoeceu e aos poucos foi sendo obrigada a deixar para os outros o que fazia, tornou-se amarga. Aliás, era como se sentia hoje, amarga e cansada. Mais do que de costume. Liberou Vilma, a garota que lhe fazia companhia. A princípio ela não queria, estava preocupada porque seu coração se tornara fraco com o tempo, e de vez em quando teimava em pregar-lhes pequenos sustos. Mas estava com muita vontade de sentir Augusto perto dela, e só conseguia isso se estivesse sem ninguém por perto. Então insistiu e ela concordou             Conversava com ele em voz alta e se alguém escutasse pensaria que estava ficando louca. Era só o que faltava. Além de todos os problemas de saúde, ser taxada de maluca.             Talvez não entendessem que o nome do que sentia era saudade e não havia remédio que aliviasse.             Os filhos tinham razão em preocupar-se. Seus movimentos tornavam-se mais lentos e pesados. As pernas não obedeciam ou agüentavam o peso do seu corpo. Eles vigiavam sua alimentação e não sabiam que se a funcionária saía para fazer algo na rua, ligava para uma lanchonete ali perto e encomendava gulodices. Sabia que agia como criança, mas tinha um prazer enorme naquilo. Complicado era esconder os potes ou pacotes de Vilma. Algumas vezes ela percebera, mas fazia com que prometesse não contar nada.             Hoje à noite, antes de sair, avisou que não descesse mais. Não havia necessidade. Deixara tudo o que precisava em seu quarto. Claro que teimara e agora se encontrava no meio da escada, cansada, com a respiração ofegante e o coração batendo de forma acelerada. Quase caiu há pouco.             Resolveu sentar no degrau até que se sentisse melhor. Notou que foi se acalmando e terminou sua pequena-gigantesca subida.             Pensou em ligar a televisão e desistiu. Talvez fosse bom recostar em sua cama . A filha passaria mais tarde para ver se estava tudo bem.             Não queria dormir, havia programado uma conversa com Augusto. Imaginara ver algumas fotos e com as lembranças, ririam um pouco.             Precisava rir, fazia tempo não conseguia. Apenas de mentirinha na frente dos filhos.             Talvez o ideal fosse Augusto deitar ao seu lado. Poderiam ver as fotografias mais tarde, quando estivesse mais descansada.             Dê-me a mão Augusto, só um pouquinho. Não sei o por quê, mas estou com medo. Medo de não ter tempo para rir mais uma vez. Queria tanto...
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Há noites...
21/01/2017 | 18h41
"Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer."                                                                                                        Mário Quintana
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Deixa acontecer
21/01/2017 | 18h41
      Cãndida Albernaz  Cabelos negros, olhos cor de mel, o ar petulante de quem ainda é jovem e pensa que o mundo se move por ele.  A pequena exigência de ocupar o lugar ao seu lado como se fosse um direito dele estar ali. Não em qualquer outra cadeira desocupada durante o lanche no refeitório. Isso provocava nela um sorriso que só sairia de seus lábios depois que o sono chegasse.  Essa demonstração de pequeno macho que assume postura de comando, mesmo que numa quase brincadeira, a atraía.  Não importava qualquer diferença que possuíssem.  Eram homem e mulher, domínio e submissão por puro prazer.  Meias palavras, meios olhares, toques rápidos entre mãos e ombros, acendiam nela uma sensação a que se obrigara a desistir por algum tempo.  Não precisava concretizar, não por enquanto.  E se começasse a doer, como já fizera tantas outras vezes, fugiria. A não ser que ele a puxasse para si com os mesmos gestos e olhos exigentes com que a tratava no hospital.  Era residente, em breve seria substituído por outro que não teria a mesma pele morena, o cheiro de suor masculino no final do dia, e o ar de garoto-homem-moleque que o acompanhava.  Ela chegara cedo, como sempre. Não gostava de atrasos. Estacionou, ficando ainda dentro do carro por um tempo esperando que terminasse a música que ouvia.  A medicina era sua paixão. Não vivera sempre na cidade. Viera do interior de Minas onde os pais, pessoas humildes, continuavam a morar. Quatro irmãos e apenas ela saíra da terra em busca de estudos.  Uma prima de sua mãe trabalhava em casa de família e precisavam de babá. Trocou o trabalho por uma escola e alguns poucos trocados.  Sempre fora inteligente e com a ajuda dos patrões e uma bolsa de estudo conseguiu concluir a faculdade. Devia muito a essa família. Hoje estava casada, com um filho crescido e um marido nem sempre presente “se fico longe tanto tempo é por vocês. Para que tenham conforto. Se trabalho tanto é para vocês”. A ladainha com a qual até hoje não se acostumara, era repetida com maior freqüência do que gostaria de ouvir. A ausência do marido no crescimento do único filho que possuíam ou na relação dos dois, também era maior do que pretendera ter para si. Aquele homem não mais tão jovem e completamente absorvido com seus próprios desejos não a satisfazia. Não pensaria mais nisso. Não agora. O serviço estava intenso. Solicitavam-na a todo o momento. Hoje era seu dia na emergência e estava cheio. Não havia tempo de pensar em seus problemas. Ali, tudo era de proporção muito maior. Ao terminar, já noite, exausta, mal se despediu dos colegas e foi para o estacionamento. Ao lado do carro, parado e olhando-a fixamente, ele resolveu: abra a porta, vou com você. Nem cogitou dizer não. Sentou-se ao volante, retirando alguns livros que estavam ocupando o banco do carona para que ele se acomodasse. Ligou o rádio como sempre fazia e virou-se para ele. Não pense em nada. Guio você. Aproximou seu rosto e a beijou. Um beijo sem pressa alguma. Vamos. Se fosse preciso ela se adaptaria à sua ausência mais tarde, da mesma forma que se acostumava com sua presença.
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Algumas vezes...
21/01/2017 | 18h41
  Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar
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Gosto de olhos
21/01/2017 | 18h41
                              Cândida Albernaz Gosto de olhos moleques, que encaram, firmam e não fogem.  Quando o conheci, era um garoto ainda e buscava o mundo para si, como se este estivesse à disposição.  Seus pais, que se mudaram para perto de minha casa há pouco, encaravam nossa amizade com certa restrição.   O problema era minha mãe. Depois de ter o terceiro filho, ela modificou. Conseguia em um mesmo dia arrumar toda a casa, enfeitá-la com flores, levar-nos ao parque, mas sem que esperássemos, trancava-se no quarto, onde nenhuma luz podia entrar. Do lado de fora, onde éramos obrigados a ficar, ouvíamos seus soluços. Isso podia durar muitos dias. Só meu pai, por diversas vezes através da força, a convencia tomar banho ou comer.  As crianças chamavam-na de “louca”.  Você de longe, me olhava e saía a defendê-la. Por mim.  Seus olhos me acalmavam. Olhos que sorriem de forma safada, que buscam outros olhos sem medo.  Nos últimos três anos, seus pais o matricularam numa escola fora de nossa cidade. Eles acharam melhor que fosse assim. Diziam que “será alguém na vida”, e se continuasse aqui, não poderia crescer.  Isolei-me de todos nessa época. Costumava ficar sozinha e quase não ia a lugar algum.  Fazia o segundo grau. Estava na frente de casa chegando da escola, quando do outro lado da rua vi você parado. Olhava-me: de outra forma.  Veio até onde estava e conversamos por muito tempo. Quis saber tudo a seu respeito e você me contou sobre sua vida cheia do que fazer, tão diferente da minha.  Passamos a nos encontrar todos os dias daquele minúsculo mês em que ficou com sua família.  Sua mãe quando nos via, olhava esquisito, como se eu a incomodasse. Fingia não perceber. Sempre que chegava a casa, deixava minhas coisas no quarto e atravessava a rua para chamá-lo.  Dois dias antes de você ir embora novamente, não fui à aula e fiquei em casa com minha mãe, que já estava trancada no quarto havia uma semana.  Você veio e na minha cama, enquanto não tirava meus olhos dos seus, buscou em meu corpo o prazer que eu só conhecia sozinha até então.  No dia seguinte, sem que ninguém soubesse, esperei por você no mesmo lugar.    Olhos que tentam dizer tudo, mas você não adivinha o que falam.  Nos próximos cinco anos, passei sem vê-lo. Seus pais costumavam viajar para encontrá-lo e nas poucas vezes em que me deram atenção, disseram que talvez não voltasse mais. Já estava até mesmo trabalhando por lá.  Escrevi várias cartas e pedi que seus pais as entregassem. Havia me dito que sua vida era cheia do que fazer e o tempo, curto. Devia ser assim mesmo. Nunca houve resposta.  Minha mãe, nesse período, foi internada. Tentara contra a vida algumas vezes e disseram ser melhor para ela. Não havia mais momentos de euforia, só depressão.  Estava saindo de casa para visitá-la quando o vi atravessando a rua. Chegou perto de mim e apresentou-me a garota: sua noiva e se casariam no início do próximo ano.  Busquei seus olhos, mas não consegui entender o que diziam. Pela primeira vez.  Então você me indagou:  “Quem é essa menina linda a seu lado?”.  “Minha filha”.  “Soube que teve uma filha. Casou-se?”.  “Não, o pai foi embora”. “Desculpe”. “Melhor assim, sei como criá-la”. A garota, como era mesmo o nome dela? , chamou-o. Despediu-se e se foi. Olhou ainda uma vez para trás. Nossos olhos se encontraram. Entendi, como sempre.  Abraçou a noiva com mais força e não se voltou mais. Fui ver minha mãe junto com Alice. Ela costuma ir comigo a todo lugar. Tem cinco anos, minha filha. Você não perguntou. Gosto de olhos, não importa a cor ou o formato.                 *                    *                    *                    *                    *                    * Gosto de olhos moleques, Que encaram, firmam e não fogem. Olhos que sorriem de forma safada, Que buscam outros olhos sem medo. Olhos que tentam dizer tudo, Mas você não adivinha o que falam. Gosto de olhos, Não importa a cor ou o formato.
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Candida Albernaz

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