Deixa acontecer
Cãndida Albernaz
Cabelos negros, olhos cor de mel, o ar petulante de quem ainda é jovem e pensa que o mundo se move por ele.
A pequena exigência de ocupar o lugar ao seu lado como se fosse um direito dele estar ali. Não em qualquer outra cadeira desocupada durante o lanche no refeitório. Isso provocava nela um sorriso que só sairia de seus lábios depois que o sono chegasse.
Essa demonstração de pequeno macho que assume postura de comando, mesmo que numa quase brincadeira, a atraía.
Não importava qualquer diferença que possuíssem.
Eram homem e mulher, domínio e submissão por puro prazer.
Meias palavras, meios olhares, toques rápidos entre mãos e ombros, acendiam nela uma sensação a que se obrigara a desistir por algum tempo.
Não precisava concretizar, não por enquanto.
E se começasse a doer, como já fizera tantas outras vezes, fugiria. A não ser que ele a puxasse para si com os mesmos gestos e olhos exigentes com que a tratava no hospital.
Era residente, em breve seria substituído por outro que não teria a mesma pele morena, o cheiro de suor masculino no final do dia, e o ar de garoto-homem-moleque que o acompanhava.
Ela chegara cedo, como sempre. Não gostava de atrasos. Estacionou, ficando ainda dentro do carro por um tempo esperando que terminasse a música que ouvia.
A medicina era sua paixão. Não vivera sempre na cidade. Viera do interior de Minas onde os pais, pessoas humildes, continuavam a morar. Quatro irmãos e apenas ela saíra da terra em busca de estudos.
Uma prima de sua mãe trabalhava em casa de família e precisavam de babá. Trocou o trabalho por uma escola e alguns poucos trocados.
Sempre fora inteligente e com a ajuda dos patrões e uma bolsa de estudo conseguiu concluir a faculdade. Devia muito a essa família.
Hoje estava casada, com um filho crescido e um marido nem sempre presente “se fico longe tanto tempo é por vocês. Para que tenham conforto. Se trabalho tanto é para vocês”. A ladainha com a qual até hoje não se acostumara, era repetida com maior freqüência do que gostaria de ouvir.
A ausência do marido no crescimento do único filho que possuíam ou na relação dos dois, também era maior do que pretendera ter para si.
Aquele homem não mais tão jovem e completamente absorvido com seus próprios desejos não a satisfazia.
Não pensaria mais nisso. Não agora. O serviço estava intenso. Solicitavam-na a todo o momento. Hoje era seu dia na emergência e estava cheio. Não havia tempo de pensar em seus problemas. Ali, tudo era de proporção muito maior.
Ao terminar, já noite, exausta, mal se despediu dos colegas e foi para o estacionamento. Ao lado do carro, parado e olhando-a fixamente, ele resolveu: abra a porta, vou com você. Nem cogitou dizer não. Sentou-se ao volante, retirando alguns livros que estavam ocupando o banco do carona para que ele se acomodasse.
Ligou o rádio como sempre fazia e virou-se para ele. Não pense em nada. Guio você. Aproximou seu rosto e a beijou. Um beijo sem pressa alguma. Vamos.
Se fosse preciso ela se adaptaria à sua ausência mais tarde, da mesma forma que se acostumava com sua presença.