Cansaço...
Cansaço...
Cândida Albernaz
Subindo a escada com dificuldade, lembrou-se do tempo em que correr era fácil. Hoje necessitava de ajuda para fazer coisas básicas como ir para o andar superior onde ficava seu quarto.
Quando construíram a casa, foi ela quem decidiu fazer dois pavimentos. O terreno era grande e não havia necessidade de ser assim, mas achava bonito e pretendia,com isso, se isolar quando quisesse. Ilusão, nunca pôde escolher ficar sozinha com dois filhos que costumavam chamá-la por qualquer coisa e o marido que exigia sua presença constantemente.
Agora se pudesse, não ficaria só, mas foi o que sobrou. Os filhos casaram-se e o marido morreu há alguns anos. Queria ter ido antes dele. Por egoísmo, é claro. Sabia que sua vida seria difícil. Estava doente há muito tempo. Doença nos ossos que a cada dia piorava.
Augusto nunca adoecia, mal se gripava ou tinha uma dor de cabeça. Parecia que duraria para sempre.
Não foi o que aconteceu. Num dia comum, sentiu-se mal pela manhã e após o almoço já havia morrido. Não deu trabalho algum, mas causou uma dor em seu peito que até hoje a faz chorar.
Ela, ao contrário, sempre preocupava os filhos ou a ele com suas reclamações de dor aqui e ali.
Não se recordava mais quando começara a ser chata. Porque tinha certeza que era assim que a viam. Ela se enxergava dessa forma, portanto era impossível que os outros a olhassem diferente.
Tinha três netos, e por mais que os amasse, o barulho que faziam quando a visitavam, a incomodava. Via nos olhos da filha a crítica por sua impaciência. Nem mesmo sabia se conseguira ser uma boa mãe.
Nunca trabalhou fora e nem teria tempo. Gostava da casa impecável, estudava com os filhos e apesar de não precisar, cozinhava sempre que podia. Sua mania de perfeição ocupava todo o seu tempo. Quando adoeceu e aos poucos foi sendo obrigada a deixar para os outros o que fazia, tornou-se amarga. Aliás, era como se sentia hoje, amarga e cansada. Mais do que de costume.
Liberou Vilma, a garota que lhe fazia companhia. A princípio ela não queria, estava preocupada porque seu coração se tornara fraco com o tempo, e de vez em quando teimava em pregar-lhes pequenos sustos. Mas estava com muita vontade de sentir Augusto perto dela, e só conseguia isso se estivesse sem ninguém por perto. Então insistiu e ela concordou
Conversava com ele em voz alta e se alguém escutasse pensaria que estava ficando louca. Era só o que faltava. Além de todos os problemas de saúde, ser taxada de maluca.
Talvez não entendessem que o nome do que sentia era saudade e não havia remédio que aliviasse.
Os filhos tinham razão em preocupar-se. Seus movimentos tornavam-se mais lentos e pesados. As pernas não obedeciam ou agüentavam o peso do seu corpo. Eles vigiavam sua alimentação e não sabiam que se a funcionária saía para fazer algo na rua, ligava para uma lanchonete ali perto e encomendava gulodices. Sabia que agia como criança, mas tinha um prazer enorme naquilo. Complicado era esconder os potes ou pacotes de Vilma. Algumas vezes ela percebera, mas fazia com que prometesse não contar nada.
Hoje à noite, antes de sair, avisou que não descesse mais. Não havia necessidade. Deixara tudo o que precisava em seu quarto. Claro que teimara e agora se encontrava no meio da escada, cansada, com a respiração ofegante e o coração batendo de forma acelerada. Quase caiu há pouco.
Resolveu sentar no degrau até que se sentisse melhor. Notou que foi se acalmando e terminou sua pequena-gigantesca subida.
Pensou em ligar a televisão e desistiu. Talvez fosse bom recostar em sua cama . A filha passaria mais tarde para ver se estava tudo bem.
Não queria dormir, havia programado uma conversa com Augusto. Imaginara ver algumas fotos e com as lembranças, ririam um pouco.
Precisava rir, fazia tempo não conseguia. Apenas de mentirinha na frente dos filhos.
Talvez o ideal fosse Augusto deitar ao seu lado. Poderiam ver as fotografias mais tarde, quando estivesse mais descansada.
Dê-me a mão Augusto, só um pouquinho. Não sei o por quê, mas estou com medo. Medo de não ter tempo para rir mais uma vez. Queria tanto...