São muitas as formas de promover a própria imagem em público. Seja por reconhecimento conquistado ao longo do tempo, por um cargo ocupado ou mesmo pela formulação de uma série de meias verdades que tenham como finalidade a autopromoção.
No mais das vezes, as apresentações são dispensadas, não sendo preciso estardalhaço para dizer quem é fulano, pois ele o é publicamente, não apenas em sua autoimagem, em seu ego supernutrido – e, convenhamos, esse negócio de dizer ser alguém sempre fica na linha tênue entre a vaidade arrogante e a apresentação educada.
Diante disso, a questão que me intriga aqui é outra: o indivíduo não suscita qualquer comentário, ninguém nem sabe quem é, mas ele é figura carimbada de qualquer evento – mesmo sem convite nem nada -, apenas para expor sua imagem e dizer quem é.
Uma coisa é certa: se alguém franquear a palavra num evento público, essa pessoa vai pegar o microfone e se apresentar longamente, despetalando cada um de seus títulos em rol – principalmente os que não tiveram origem em conquistas reais -, afirmando ser representante de instituições desconhecidas e ter recebido comendas encomendadas.
Isso vai surtir efeito naqueles que, entreolhando-se, ficarão embasbacados com a extensa lista do que a pessoa diz ser. Por outro lado, quem acompanha o tal poderá relatar que todos os títulos, quando postos em prática, são apenas arrogância e ideias desprezíveis.
O ponto do texto, porém, é que, modesto ou arrogante, quem depende de títulos e autoaclamação para se sentir alguém, no fundo, sabe não passar muito de mais uma pessoa que não desperta interesse em quem está ao redor – justamente por ser limitado em sua área de atuação ou mesmo por não ter construído uma história respeitável.
Ora penso que seja pura arrogância – uma forma de menosprezar os outros – ora penso que se trate de um sentimento de inferioridade – que enseja alguma ação para se sentir superior aos demais. Ambos os casos são lastimáveis, principalmente, para quem presencia a crise de vaidade que acomete quem faz questão de declamar seu currículo e seus grandes feitos como uma epopeia grega.
É o tipo de pessoa que seria capaz de criar um prêmio e indicar seu próprio nome entre os candidatos a recebê-lo, o que é tão deprimente quanto postar “parabéns para mim” nas redes sociais, como forma de incitar que os vínculos virtuais mandem mensagens e preencham a solidão de quem cantaria parabéns para si mesmo – com direito a “com quem será”!
O problema – além da cafonice, claro – está na autoproclamação impertinente, uma vez que nem sempre as pessoas estão aí pra quem você é. O bom disso é que, ao seguir o exemplo acima – que consiste em se fazer presente e gastar todo tempo possível falando de si mesmo –, você vai alcançar algum respeito vindo de pessoas que valorizam outras apenas por quem elas dizem ser, podendo até arrumar uns puxa-sacos se tiver alguma sorte.
Na pior das hipóteses, se ninguém der valor pro que você diz ser e se os títulos comprados ou inventados tiverem alguma notoriedade, é possível ser convidado para ocupar um cargo no alto escalão do governo Bolsonaro. Só depende de você.
*Esta crônica faz parte da série “Manual de desutilidades”, que tem como finalidade trazer reflexões críticas sobre questões cotidianas, brincando com o pragmatismo dos manuais de instruções – mas sem a pretensão de instruir ninguém.
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Sobre o autor
Ronaldo Junior
[email protected]Professor e membro da Academia Campista de Letras. Neste blog: Entre as ideias que se extraviam pelos dias, as palavras são um retrato do cotidiano.