Ponto Final: Terrorismo em Brasília é a conta chegando da pior forma possível
Rodrigo Gonçalves 11/01/2023 08:37 - Atualizado em 11/01/2023 15:36
Ponto Final
Ponto Final / Ilustração
Terrorismo
Divergências jurídicas à parte, é impossível não encarar o que aconteceu em Brasília no último domingo como terrorismo. Pelo menos tem sido desta forma que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes vem tratando os atos de criminosos bolsonaristas que invadiram e depredaram os prédios do Palácio do Planalto, Congresso e STF. É assim também que tem sido visto pela maioria democrática da sociedade, até mesmo por aqueles que um dia não conseguiram medir as consequências de um governo autoritário, cuja conta está chegando da pior forma possível. O preço aos fanáticos que invadiram ou facilitaram a série de crimes ainda parece barato, sobretudo àqueles que tentam se esconder.

Ironia do destino
Os que fizeram questão de aparecer, com publicações nas redes sociais se orgulhando de serem criminosos e desmontando o falso discurso de patriotas, agora clamam por direitos humanos que tantas vezes fizeram questão de invalidar. Não que esses não devam ter os direitos garantidos pela ampla defesa e bons cuidados por estarem sob custódia do Estado, mas pela ironia do destino traçado por eles mesmos durante os quatro anos anteriores. Há tempos se especulava se os apoiadores de um golpe militar seriam inflados ao ponto de partirem para a violência. E a prova veio, com certa facilidade de apoiadores políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que não deve sair ileso por tantas vezes inflamar discursos de ódio e o delirante fanatismo.

“Cidadão de bem”
Ao se apoiarem no discurso de cidadão de bem, bolsonaristas radicais pareciam aguardar apenas uma chance para, vestidos com a camisa da seleção, como já tinham demonstrado anteriormente em tentativa de invasão à Polícia Federal e destruição em Brasília, praticar os ataques de domingo. Esses jamais poderiam ser tratados com surpresa, como chegou a falar o afastado governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, e o ex-secretário de Segurança Pública do DF Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, que teve a prisão decretada ontem por omissão e conivência, segundo o STF. Em férias nos EUA, Torres afirmou que antecipará o retorno ao Brasil e se entregará à PF.
Comparação
A imprensa mundial comparou a ação de bolsonaristas radicais com a invasão ao Capitólio nos EUA em 2021. Assim como lá, onde os apoiadores do então presidente Donald Trump não aceitavam a sua derrota nas urnas para Joe Biden, os bolsonaristas não aceitam o resultado das eleições de outubro, em que Jair Bolsonaro perdeu para Luiz Inácio Lula da Silva. Tanto os terroristas americanos quanto os brasileiros são de direita e defendem “pautas conservadoras” e foram inflamados por discursos diretos ou indiretos dos seus líderes.

“Transitório”
O que aconteceu no domingo ainda terá seus desdobramentos, mas em uma avaliação feita ontem pelo vice-presidente e também ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, a democracia sai fortalecida e, por terem aspecto “transitório e passageiro”, esses atos não prejudicarão a economia do país. “Os Estados Unidos tiveram a invasão do Capitólio, mas isso não mudou a economia americana. Economia é competitividade. Temos de trabalhar, porque temos muitas oportunidades”, comentou.

Avaliação
Para o professor de Economia Política da Uniflu Igor Franco, os atos de barbárie observados no domingo trazem, sim, impactos relevantes para a economia. “No curto prazo, a reação coesa dos Poderes e dos principais agentes políticos fortaleceu a capacidade de aprovação de medidas por parte do Executivo. Porém, o custo de eventuais erros pode ser muito elevado, caso o governo aproveite essa janela de oportunidade para aprovar medidas ruins. O contexto de polarização política generalizada e a presença de uma parcela radicalizada da população podem ser explosivos, caso o país caminhe a passos largos para uma tragédia econômica derivada de más políticas públicas”, avaliou.

Ataque à cultura (I)
Muitos foram os danos causados à cultura brasileira durante os atos antidemocráticos. Os próprios prédios do Planalto, do Congresso e do STF representam grandioso patrimônio arquitetônico, assinado pelo modernista Oscar Niemeyer. É considerada irreparável a destruição de um relógio do século XVIII, que Dom João VI trouxe ao Brasil, em 1908, após tê-lo recebido como presente da corte do rei da França Luis XIV. No Palácio do Planalto, também foi danificada a tela “Mulatas”, de Di Cavalcanti, com valor estimado em R$ 8 milhões e que foi perfurada em sete pontos; assim como esculturas importantes foram quebradas.

Ataque à cultura (II)
Outras obras atacadas no Planalto foram a pintura “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo”, e um retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Chegou a circular nas redes sociais que essa seria uma pintura de Oscar Pereira da Silva, renomado artista natural de São Fidélis. Porém, a obra original feita por Pereira da Silva sobre José Bonifácio encontra-se no Museu do Ipiranga, em São Paulo. Embora tenha alguma similaridade com o quadro assinado pelo fidelense, o retrato danificado em Brasília vem sendo tratado como obra de artista desconhecido.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Sobre o autor

    Rodrigo Gonçalves

    [email protected]