Heloísa Helena: "Se houver golpe, estarei lutando"
Pré-candidata a deputada federal no Rio de Janeiro, a ex-senadora por Alagoas Heloísa Helena (Rede) disse que fez a escolha em um contexto do partido, sem fundo eleitoral e tempo de televisão, em apostar nos maiores eleitorados do país. Neste acordo, a também ex-senadora Marina Silva disputaria o pleito por São Paulo. Natural da cidade de Pão de Açúcar, ela diz que sua ligação com o estado fluminense vai além da terra natal e cita o trabalho do pai na construção civil no Rio. Na política, Heloísa lamenta a polarização nacional entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o atual presidente Jair Bolsonaro (PL). Ela explicou que os integrantes da legenda estão livres para apoiarem quem quiser, mas que ela prefere debater ideias para o país e, por isso, se aproxima de Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno. A ex-senadora disse não acreditar em um golpe de estado caso Bolsonaro perca a disputa, mas afirmou que “se houver golpe, estarei lutando”. Afastada de Brasília desde 2006, quando deixou o Senado, Heloísa Helena falou, ainda, sobre o machismo na política, sua dissidência e expulsão do PT, ajudando a criar o Psol e, mais tarde, o Rede Sustentabilidade, ao lado de Marina Silva.
Início na política – Não sou de família de políticos, sou de uma família muito humilde do sertão de Alagoas. Nunca imaginei que entraria na política eleitoral, não estava nos meus planos. Eu já estava na universidade federal e os planos eram de que eu iria sair do Brasil, porque tinha duas propostas de bolsas de estudo para a minha área, que é a de epidemiologia e planejamento de serviços públicos. Nesse exato momento, todos os militantes que tinham chance de eleição estavam disponibilizando os nomes para vereadores. Quando entrei, tive a alegria de ser vice-prefeita da capital na chapa do Ronaldo Lessa. À época, muito tempo atrás, eu era do PT, Ronaldo era do PSB, e eu fui vice dele, porque, na verdade, como eu estava para sair do Brasil, solicitaram de mim uma contribuição para que eu pudesse fazer o debate programático. E acabou que, nesses revezes da história, foi justamente no ano do impeachment do Collor. Acabou que nós ganhamos a eleição. Eu era militante política, do movimento social, mas não de disputar eleitoralmente. Foi uma experiência importante para mim porque eu trabalhei muito na área de gestão. Era minha área de planejamento na universidade, mas eu aprendi muito. Depois, eu fui deputada e, também nesses maremotos assim da história, acabei senadora, porque foi um momento de crise muito grande no estado de Alagoas. Era aquele debate nacional sobre as letras financeiras do tesouro. Então, várias categorias do serviço público ficaram oito meses sem salário. Foram momentos de dores e sofrimento no serviço público. E aí que, num movimento único no estado de Alagoas, onde uniu desde as forças da segurança pública aos movimentos sociais, a gente conseguiu derrubar o governador, e isso, de alguma forma, com certeza possibilitou que eu fosse eleita senadora. Até porque, todo mundo sabe: na dinâmica nacional, acontece em quase todo o Brasil, para tocar os tapetes, as unhas do Senado, muitas vezes tem que ser da elite política e econômica, filho de famílias tradicionais. E eu não fui. Então, foi assim, mais ou menos, que eu entrei. Mas, politicamente, havia uma necessidade histórica, que também é a mesma necessidade histórica que me trouxe de volta para o Rio; este Rio que viu o sangue, as lágrimas e o suor do meu pai na construção civil, meu irmão mais velho foi nascido aqui também, infelizmente foi assassinado depois em Alagoas. 

Expulsão do PT - O mundo da política é um mundo onde o cinismo, a dissimulação, o sorriso na frente, facada nas costas, os balcões de negócios sujos, o bandidismo político, isso tudo é muito comum. Então, quando você não aceita nem promover uma traição àquilo com o que você se comprometeu no período eleitoral e ao longo da sua vida... Eu dediquei os melhores anos da minha juventude no enfrentamento político para viabilizar a construção do PT. Eu podia ter flexibilizado minha posição, ou seja, eu podia não criticar quando o então governo Lula indicou um banqueiro para presidente do Banco Central, que, além de acusado de crimes contra o sistema financeiro, era o presidente do sexto maior conglomerado financeiro do mundo. Eu podia não ter ido para o conselho de ética do referido partido se tivesse aceitado votar no Sarney para presidente do Congresso Nacional. E eu podia ter aceito também votar favorável à reforma da Previdência, que roubava direitos dos trabalhadores e impactava especialmente a vida dos trabalhadores mais vulneráveis economicamente, tanto na segurança pública como na educação, na saúde, e espalhado pelos municípios e estados brasileiros. E neste momento, ao contrário do que pensam alguns... Sempre, na política, quando se está diante de uma mulher que tem coragem de defender o que acredita, sempre se diz que é rancor, mágoa, mimimi, que eu fico olhando lá o passado e que tenho rancor contra determinadas personalidades políticas por ter sido expulsa do partido que eu ajudei a construir. Na verdade, nem guardo rancor nem mágoa, sinceramente. Para mim, foi uma experiência única e essencial, porque eu medi o meu caráter. Então, neste momento, eu não tenho mágoa nem rancor, pelo contrário. Foi muito bom eu me testar, muito importante para mim eu ser testada entre ter cargos, liberação de emendas, prestígio e poder.  

Pré-candidatura pelo Rio de Janeiro - Antes de eu entrar no contexto histórico, que foi realmente uma discussão que foi feita para que Marina fosse para São Paulo e eu fosse para o Rio, até porque ela preferia ir para São Paulo e eu já preferia vir para o Rio... O Rio foi o estado que, proporcionalmente, mais me acolheu politicamente e que me deu a honra, não apenas de uma votação tão bonita, tão generosa (para presidente, em 2006), mas me deu a honra também de ser abraçada politicamente. Eu sempre acompanhei muito o Rio, tanto por essa questão emocional, porque meu pai trabalhou aqui, deixou lágrimas, suor e sangue aqui na construção civil, meu irmão mais velho nasceu aqui. Quando eu fui candidata a presidente da República, vocês sabem que a maioria dos partidos tem como sede nacional Brasília ou São Paulo, mas a gente fez a nossa base aqui. Eu sempre vim muito aqui. Sempre ficava entre Rio, Brasília e Minas, pelas circunstâncias da minha neta. Então, nós discutimos internamente, era muito importante. Na época, não tinha a questão da federação, da proposição de federação com o Psol. Foi em março do ano passado. Nós tínhamos discutido que, como a nossa principal atividade tinha que ser, além da atualização da plataforma 18, com propostas para Rio, São Paulo, Alagoas, Nordeste, Brasil, buscar os maiores colégios eleitorais para que a gente pudesse disputar mentes e corações, disputar no imaginário popular alternativas a esse modelo que considero fracassado, que é o modelo neoliberal, de intensa exploração humana e exploração predatória da natureza. Então, nós já tínhamos decidido isso. Inclusive, as formalidades já tinham sido feitas, porque a gente já tinha discutido.

Não foi fácil para nenhum de nós tomar uma decisão dessa. É sempre difícil fazê-lo, mas nós entendíamos que era de fundamental importância, e eu agradeço profundamente. Por isso que, quando Marina disse que não queria vir para o Rio, eu disse que viria para o Rio. Se tivesse que mudar o domicílio eleitoral, eu viria para o Rio de Janeiro, por todas essas questões. Eu sempre acompanhei muito o Rio. Então, do ponto de vista nacional, os projetos que nacionalmente a gente defende, defende para todos, para o Brasil todo. Tem pessoas que votam em mim e sabem que eu não defendo nada que vá favorecer a elas, mas que entendem que é importante que tenha alguém que possa defender as políticas sociais, as políticas públicas, sejam relacionadas a mobilidade urbana, ao transporte, habitação, ambiente, saúde, segurança pública, educação, com base no que eu acredito. 

Polarização da eleição - É uma eleição muito dura. Toda eleição onde a polarização está em torno dos ídolos, e não em torno dos projetos, é sempre muito complicada. A questão é tão complexa que nós, inclusive, na Rede, ao atualizar a plataforma 18, com as propostas para o Brasil, liberamos as nossas direções e os nossos dirigentes e militantes em torno da campanha presidencial. Não à toa o Randolfe, meu querido irmão de caminhada, mais jovem do que eu, mas a gente militou junto em outros partidos por onde passamos juntos, o Randolfe está na coordenação nacional da campanha do ex-presidente Lula. E eu já disse que não abro mão, como mortal, de apoiar a candidatura do Ciro. Eu digo que todos os mortais têm o direito de escolher no que acreditam, senão é a mais perversa das ditaduras. Então, eu quero escolher. Eu quero uma escolha pelo programa que ele apresenta. No segundo turno é outra coisa. Espero estar votando nele (no Ciro) também no segundo turno. Tem uma questão dramática nas candidaturas do Executivo. Também a Rede, muito antes de eu estar aqui, a gente já tinha decidido apoiar a candidatura do Marcelo Freixo (a governador) e a candidatura do Molon ao Senado, se essas pré-candidaturas se constituírem como candidaturas. São sempre muito nebulosas e complexas as articulações das forças políticas, mas seria essa caracterização. Se eu tiver a honra de chegar lá, independentemente de quem seja o presidente ou o governador, os prefeitos, eu vou agir com a honestidade, como eu sempre agi, e com respeito às escolhas feitas pela população. Tem muita gente que diz: “Ah, tem que resolver logo no primeiro turno, porque senão vai ter golpe”, isso e aquilo outro. Eu estou entre aqueles que dizem que não acreditam que vai ter golpe. E, se houver golpe, eu estaria lutando com todas as minhas forças e com todas as armas disponíveis contra qualquer experiência de golpe ditatorial. Respeitaria quem vai para o exílio, mas eu vou ficar aqui, lutando pela pátria. Não acredito que haverá, tem gente que fica também fazendo esse amedrontamento e tal. Então, eu não tenho medo de nenhum dos ídolos das grandes torcidas que estão sendo colocadas hoje. E, como mortal, eu quero ter o direito de votar num projeto. Até internamente, a gente sabe da complexidade.

Eleição, eu sempre digo que é uma máquina de moer gente, sonhos e dignidades. Acho que tem espaço para todo mundo no Rio de Janeiro. Até no número de cadeiras para deputado federal há muitas. A gente não pode falar ainda em campanha para não dar multa para a rádio, não podemos falar disso, mas eu digo assim: as pessoas escolhem. Se as pessoas se identificarem com os projetos que eu defendo, com a coerência que marcou a minha vida e com a honra pessoal que eu não abro para ninguém, então as pessoas farão a escolha. É difícil, é um processo eleitoral difícil, especialmente quando as pessoas se dividem nas torcidas em relação aos ídolos que estão na frente das pesquisas. Isso é ruim, atrapalha, mas faz parte da democracia. A gente não vive numa democracia ainda, porque não tem justiça social. Não se consolidou a democracia apenas porque aqui estamos a falar do que acreditamos, mas tem uma democracia representativa, mesmo frágil. A gente tem a obrigação de duelar todos os dias no campo de batalha pelo que eu acredito e, humildemente, aceitar o resultado e continuar os combates, depois das urnas, se a gente entender que forem necessários fazer. Mas, a gente conhece razoavelmente. Vamos trabalhar. Eu digo sempre que quando a gente vai para uma campanha, quem faz campanha como eu, é como se a gente estivesse com as mãos, distribuindo panfleto ou teclando. Nas minhas redes sociais, não tenho assessoria, sou eu mesma que faço. Não tenho mais o jipinho, meu irmão ficou com ele (risos). Mas há outros que têm e emprestam para a gente também (risos). Então, é como se a gente fosse para o campo de batalhas com as mãos, para enfrentar os poderosos tanques de guerra suja. Temos também uma infantaria de gente simples, do povo, gente de vários setores sociais, que vai olhar no olho do adversário e fazer esse combate como é necessário ser feito.

Figuras alagoanas de destaque - Graciliano Ramos nasceu em Quebrangulo, mas, como foi prefeito de Palmeira dos Índios, meu irmão era o maior frequentador da Casa Graciliano Ramos. Eu vivia asmática dentro de casa e não conseguia nem sair de um canto para outro, mas as primeiras coisas que eu li... Por isso nunca tive duelo em relação à esquerda e o cristianismo, porque as primeiras coisas que eu li, com nove anos de idade, influenciada pelo meu segundo irmão, foram de Graciliano Ramos. Ele lia tudo do Velho Graça, e então, para mim, foi muito interessante. Eu, que fui criada pelas irmãs holandesas, lendo a Bíblia, vendo a história de luta e libertação de um povo, e ao mesmo tempo lia esse duríssimo comunista chamado Graciliano Ramos, que contava com poucas, mas duras palavras, o sofrimento de um povo. Eu não vou falar de um carioca que foi para Alagoas e foi muito ruim. Vou falar: o Collor, que nasceu aqui (risos). Agora, vou dar o troco em outro sentido. Eu nasci lá e vou fazer um belo trabalho. Se eu tiver a honra de chegar lá, porque a gente não pode falar de eleição, vou tentar fazer com que o Rio de Janeiro tenha orgulho de ter uma sertaneja nordestina, como tantos outros, representando esse estado, que consegue ser mais belo quando abraça os diferentes. Tem mais beleza nisso do que até nas imensas belezas naturais do Rio.

Chances de uma “terceira via” - É correto, absolutamente honesto intelectualmente quando você diz que tem duas candidaturas que são muito fortalecidas e cada vez, dependendo da caracterização que possamos fazer sobre elas, mas que tem uma força inclusive eleitoral. Mas eu digo assim, independente de ser desejo, pelo menos hoje o programa com o qual eu me identifico mais, que tem elementos de política econômica, social, ambiental, é realmente da candidatura do ex-ministro Ciro Gomes. Mas eu já vi muita coisa também em campanha eleitoral. Já vi candidaturas que eram estatisticamente inexpressivas e conseguiram por uma determinada circunstância histórica acabar sendo vitoriosas. Então, como eu já vi isso nacionalmente porque no início de determinadas campanhas nacionalmente a gente dizia que era impossível até ultrapassar os chamados dois dígitos nas pesquisas de opinião e que foram reviravoltas gigantescas. Eu eu sei que é difícil. Também não gosto dessas expressões de terceira via, quarta via porque na verdade um país desse tamanho é no mínimo um poliedro. Não pode ter só dois lados. Tem vários lados, podem ter vários projetos, várias formas de apresentar os respectivos projetos. Eu prefiro achar e não é uma questão de fé pessoal. Eu prefiro achar que a gente vai ter a oportunidade de fazer um debate de programa, de projeto para o Brasil. Candidaturas que possam dizer, como no caso do Ciro, dizer assim: “olha, no primeiro ano eu quero fazer 10% disso ou 20% ou 30%”. Qual é o projeto que eu tenho para o Brasil? Seja nos oito anos, mas eu dando conta no que vou fazer no primeiro, no segundo, no terceiro, no quarto ano. Como do ponto de vista financeiro, orçamentário, econômico, isso pode ser concretizado. Eu prefiro achar que tem espaço para o debate programático além da idolatria. Eu prefiro achar que tem o debate programático a ser feito. As pessoas, às vezes, até brincam: “diz aí como é que vai ser no segundo turno, o que é que vai fazer?”. Eu digo: “bom, mas aí você quer derrotar o projeto que eu acredito logo no primeiro turno. Já está dizendo que ele não vai para o segundo turno”. Então, no segundo turno, óbvio,  é quando teremos a posição mais coerente com o que a gente defende, com a nossa história de vida, nossa obrigação de fazê-lo. Mas eu quero estar entre aqueles que analisam o programa, aqueles que querem que o Brasil tenha uma plataforma de propostas concretas, ágeis e objetivas. Um projeto para o Brasil que é o projeto do Brasil. Na última eleição mesmo, pessoas que eu dizia que não seriam eleitas e que foram eleitas. Contestando e contrariando todas as análises. Eu prefiro pensar que haverá espaço no primeiro turno para o debate de um projeto nacional.

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