17 de Agosto: Campos pode comemorar o Dia do Patrimônio Histórico?
- Atualizado em 17/08/2021 21:07
A situação atual dos principais patrimônios materiais históricos em Campos, as promessas de restauro e veja quais construções são tombadas por órgãos federais e estaduais.
Um dia como hoje, em um 17 de Agosto de 1898, nascia Rodrigo Melo Franco de Andrade, o primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O advogado, jornalista e escritor — e pai do Iphan — foi um grande defensor da memória brasileira, e se tornou o maior responsável pela consolidação jurídica do tema ‘Patrimônio Histórico Cultural’ no Brasil. Em sua homenagem, hoje se comemora o Dia Nacional do Patrimônio Cultural.
Campos dos Goytacazes é uma cidade histórica. Eleva-se a essa categoria em 1835, mas é reconhecida como uma importante Vila do Império já no século XVII. Um conjunto de construções foi erguido por esse processo colonizatório — e também de invasão e eliminação cultural dos povos originários. Edificações que contam sobre os ofícios, lugares, modos de fazer, saberes, celebrações e expressões culturais transmitidos de geração a geração, construindo identidades, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade campista. E que ensinam, e portanto evitam, a repetição da tolerância dessa mesma sociedade à exploração de mão de obra escrava, desigualdade e miséria.
Algumas dessas construções foram reduzidas a cinzas, e a educação patrimonial que carregavam em seus muros, impedida de ser exercida. Alguns exemplos emblemáticos podem ser citados: o Cine Teatro Trianon — um dos mais belos teatros do Brasil, demolido para dar lugar a uma agência bancária —, o Cine Don Marcelo e o Coliseu, e a Santa Casa, grandiosa e altamente representativa, que veio ao chão para dar lugar a um estacionamento.
Antiga Igreja Mãe dos Homens e ao lado o Hospital Santa Casa de Misericórdia, em frente a Praça das Quatro Jornadas, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho - Arca Photovideo
Antiga Igreja Mãe dos Homens e ao lado o Hospital Santa Casa de Misericórdia, em frente a Praça das Quatro Jornadas, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho - Arca Photovideo
Outras tantas construções estão em situação de total abandono. O Solar dos Airizes, que foi residência de Alberto Lamego, vem perdendo esquadrias, portas e janelas a cada ano e tem sua ruína anunciada. O histórico prédio da Lyra de Apollo, no centro da cidade, de visível beleza arquitetônica, sofreu um incêndio nos anos 1990 e foi reconstruída pelo esforço da sociedade, mas continua em estado lastimável. O Solar da Baronesa, construído em 1844, que foi sede da Fazenda do Barão de Muriaé, também abandonado. O Hotel Amazonas, Hotel Flávio, e tantos outros a mercê do tempo e do desuso.
Veja a situação do Solar dos Airizes aqui.
Os bons exemplos: o patrimônio histórico precisa e sobrevive com seu uso
Não apenas de ruínas vive o patrimônio histórico em Campos.
O Solar do Colégio, mais antiga e maior construção histórica em alvenaria da cidade, construído pelos padres da Companhia de Jesus, no século XVII. Uma fortaleza erguida em Tocos, na mítica Baixada Campista, que resistiu aos séculos e ao abandono, até seu renascimento, há duas décadas, quando foi escolhido para abrigar o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho. Hoje, além de cumprir a função de abrigar uma instituição pública essencial, é objeto de uma parceria entre a Sociedade Artística Brasileira (Sabra) e a Prefeitura de Campos que objetiva restaurá-lo com completo.
Veja mais sobre o Solar do Colégio aqui
O Solar do Visconde de Araruama, construção histórica no entorno da principal praça da cidade, que serviu de sede do poder público municipal e da Câmara de Vereadores no início do século XX, foi restaurado para abrigar o Museu Histórico. Hoje exerce suas funções com plenitude. O Arquivo e o Museu são equipamentos administrados pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL).
Veja mais sobre o Museu Histórico aqui.
A Casa de Cultura Villa Maria, construída em 1918, foi um presente a Maria Queiroz de Oliveira, que por sua vez a deixou, em testamento, à primeira universidade que viesse a instalar-se na cidade. E assim foi feito. Com a criação da Universidade Estadual Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), a Villa foi doada para que ali se instalasse a sua administração. Hoje, encontra-se preservada.
Há outros bons exemplos. Mas estamos longe de poder comemorar o Dia do Patrimônio. Em âmbito municipal, os tombamentos são feitos pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de Campos (Coppam). Mas, com o potencial que Campos possui, e o retorno que a preservação — e uso — do patrimônio poderia trazer, é exigido que festejemos esse dia quando não mais permitirmos que construções de alto valor histórico, social, educacional e de memória afetiva sejam destruídos para se transformarem em estacionamentos.
Os 100 anos do Mercado Municipal
Foto: Ralph Braz
Foto: Ralph Braz
O Mercado Municipal de Campos — uma edificação de 1920 com arquitetura inspirada no conceito do Mercado de Nice, na capital da Riviera Francesa — foi tombado pelo Coppam. O mesmo órgão, porém, autorizou em 2014 que as obras propostas para seu entrono fossem iniciadas, que na prática o descaracterizava, uma vez que mantém sua fachada e lateral encobertas. Com a aprovação do Coppam as obras iniciaram, mas não foram concluídas. O que mudou com a decisão recente do desembargador Agostinho Teixeira, da 13º Câmara Cível, autorizando o reinício.
Veja mais sobre o marcado aqui e aqui.
Inaugurado em 15 de setembro de 1921, prestes a completar 100 anos, portanto, o Mercado de Campos foi construído para ser símbolo do progresso. Recebia mercadorias pelo Canal Campos-Macaé, uma das maiores obras de engenharia do Brasil no século XIX. O Mercado é um bom exemplo que o uso deve ser racional, para que o patrimônio possa exercer toda sua plenitude, e potencial econômico e turístico.
Veja quais Patrimônios Históricos são tombados pelo Iphan em Campos (disponível em http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/126):
Solar e Capela do Engenho do Colégio – Tombado em 1946 – Atualmente abriga o Arquivo Público
Solar do Visconde de Araruama – Tombado em 1943 – Atualmente abriga o Museu Histórico.
Solar dos Airizes – Tombado em 1940 – Atualmente é objeto de decisão judicial transitado em julgado que o cede à prefeitura.
Solar da Baronesa de Muriaé – Tombado em 1974 – Atualmente encontra-se abandoando sem previsão de uso ou restauro.
Mosteiro de São Bento – Encontra-se em processo de "instrução" no Iphan - localiza-se no distrito de Mussurepe
Veja os Patrimônios Históricos tombados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) – disponível em http://www.inepac.rj.gov.br/index.php/acervo/detalhar/32/0:
Liceu de Humanidades (antigo Solar do Barão da Lagoa Dourada), na Praça Barão do Rio Branco n° 15 – Tombado em 1988 – Ainda abriga o Liceu de Humanidades.
Solar do Visconde de Araruama, na Praça São Salvador nº 40, Lira do Apollo, na Praça São Salvador nº 63, Hotel Gaspar, na Praça São Salvador nº 30, Hotel Amazonas, na Rua Barão do Amazonas nº 58, Coreto na Praça Barão do Rio Branco – Tombados provisoriamente em 1987.
Canal Campos-Macaé, trechos 1,2,3,4 em Campos dos Goytacazes – Tombado em 2002.
Prédio do Colégio Estadual Nilo Peçanha, situado à Rua Dr. Lacerda Sobrinho, n°119 – Tombado em 2003.
Praça do Santíssimo Salvador, esquina da Rua 21 de Abril
Praça do Santíssimo Salvador, esquina da Rua 21 de Abril / Amicampos

 
 
 
 
 
 

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    Edmundo Siqueira

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