A ideia das escolas militares é mais uma bobagem da extrema-direita, mas há um problema real. É uma falsa solução, cuja popularidade, no entanto, indica a existência de problemas sem solução. Na minha visão, a popularidade desta ideia estúpida tem a ver com problemas de autoridade vivenciados por professores e famílias nas escolas.
Se quiser reagir à guerra cultural promovida pela extrema-direita, a esquerda precisa disputar valores populares e apontar soluções alternativas às ideias simplórias da extrema-direita. Estes valores estão ligados a pressupostos básicos para o processo educacional, como as disposições do comportamento que formam o habitus primário (Jessé Souza) necessário para qualquer forma real de inclusão: disciplina, capacidade de concentração e respeito à autoridade.
As famílias das classes populares sabem que precisam do estado e da escola para formar estas disposições de comportamento em seus filhos. Darcy Ribeiro tinha empatia com o saber popular e entendeu esta necessidade. Foi uma das principais razões para criar os CIEPs. A esquerda charmosinha, que nunca gostou de Darcy e nem dos CIEPs, na verdade não tem empatia com os pobres e por isso descarta sua demanda por disciplina e autoridade enquanto valores básicos para a construção da autonomia e da cidadania de seus filhos.
Para se reaproximar do povo a esquerda precisa disputar a direção e o sentido prático de seus valores, formulando soluções alternativas para seus problemas. E para isso não pode ter preconceito com a autoridade hierarquíca funcionalmente justificada. O autoritarismo pedagógico é desprezível e danoso e deve ser rechaçado. Mas a autoridade hierárquica na gestão da organização educacional é um elemento importante, desde que seja estruturado e usado para resolver problemas funcionais da educação como a combinação de disciplina com autonomia, e não para reproduzir racismo e preconceito de classe. É possível separar as duas coisas, combater o racismo, o preconceito de classe e qualquer outra forma de distinção ilegítima sem destruir os fundamentos da autoridade.
O preconceito contra a hierarquia funcional resulta do medo de naturalizar desigualdades. É compreensível. Mas hierarquias funcionais não necessariamente naturalizam desigualdades. Ao contrário: podem ser imprescindíveis na formação das crianças de famílias pobres, carentes de processos de socialização e de disposições básicas para a inclusão educacional e social, e assim ajudar a desconstruir estruturas de desigualdade na realidade e não só no discurso.
A esquerda precisa entender que a autoridade institucional funcionalmente justificável, mesmo a hierárquica, pode ser importante para a formação e desenvolvimento da própria autonomia dos indivíduos. Autoridade e autonomia não estão necessariamente em contradição, e isto é especialmente verdade para a educação e a formação do habitus social. Toda autonomia é socialmente estruturada e limitada. A esquerda precisa se libertar de seu etnocentrismo moral e cognitivo e aceitar a centralidade de valores como autoridade e disciplina na construção da autonomia e da cidadania daqueles segmentos sociais que ela pretende representar.
Michel Foucault
Émile Durkheim
Para isso, precisa se libertar da visão de mundo etnocêntrica da classe média progressista, que projeta sua crítica “foucaultiana” da disciplina na realidade das classes populares, exibindo seu colonialismo mental peculiar. A crítica da disciplina é etnocêntrica toda que vez que ela ignora que sem disciplina não é possível crítica da disciplina. O próprio Foucault lembrava sempre isso. A importação sem “redução sociológica” desta crítica francesa charmosinha ignora que o problema das classes populares com a educação não é o excesso de disciplina, mas a falta de uma combinação entre disciplina e promoção da autonomia. Falta disciplina e falta autonomia, mas faltam sobretudo formas institucionais capazes de combinar a promoção e generalização destes dois valores sabiamente cultivados pelo povo.
A esquerda precisa mais de Durkheim e menos de Foucault para entender os problemas e soluções educacionais e sociais das classes populares. Precisa se preocupar em mudar as estruturas sociais com o mesmo vigor que se empenha em mudar e disciplinar os discursos.