Bolsonaro veio fazer campanha em Campos com adesão de Clarissa e Garotinho
Edmundo Siqueira 05/02/2022 17:41 - Atualizado em 05/02/2022 17:42
Presidente da República é recebido em Campos - Wladimir, Tassiana e Frederico usam máscaras. Clarissa e Bolsonaro, não.
Presidente da República é recebido em Campos - Wladimir, Tassiana e Frederico usam máscaras. Clarissa e Bolsonaro, não. / Letycia Rocha
A visita do presidente Jair Bolsonaro à região, na última segunda (31), foi oficial. Tratou de investimentos, principalmente relacionados ao Porto do Açu, em sua maioria oriundo de dinheiro privado. Mas também fez campanha.
Em São João da Barra — acompanhado pelo clã Garotinho, Anthony, Rosinha, e os filhos do casal, Clarissa, deputada federal (Pros), e Wladimir (PSD), prefeito de Campos — Bolsonaro tratou de atacar o PT e a “esquerdalha”, palavra utilizada pelo presidente.
"Estamos numa guerra. Se aquele bando, aquela quadrilha, voltar, não vai ser apenas a Petrobras que vai ser arrasada. Vão roubar a nossa liberdade" — disse o presidente. Bolsonaro atua no conflito, único “lugar político” que sabe. Ao tratar a disputa como uma “guerra” trata a oposição como seus inimigos; não como adversários. E, contra inimigos, a disputa passa a ser em terreno distinto do democrático.
E volta a falar em “roubo de liberdade”. A liberdade no país foi frontalmente ameaçada por Bolsonaro como “nunca antes na história deste país”. No último 7 de setembro, apoiado por manifestantes, o presidente ameaçou a democracia brasileira de golpe. Não conseguiu, mas não por falta de vontade. A liberdade individual esbarra na lei, na saúde pública, e na legislação eleitoral. Apesar da claque bolsonarista não entender, a liberdade não é uma licença para cometer crimes.
""Estamos numa guerra. Se aquele bando, aquela quadrilha, voltar, não vai ser apenas a Petrobras que vai ser arrasada. Vão roubar a nossa liberdade" — disse o presidente. Bolsonaro atua no conflito, único “lugar político” que sabe." ()
Continuando, em falas que podem ser claramente tipificadas como campanha eleitoral antecipada e uso irregular de recursos públicos para financiar campanha, Bolsonaro disse, em Itaboraí, referindo-se a Lula: “o cara que quase quebrou o país de vez, que destinou um prejuízo de quase um trilhão de reais da Petrobras, quer voltar à cena do crime”.

Além de campanha desavergonhada, cita fatos que não guardam relação com a realidade. Apesar de o governo Dilma ter levado a uma recessão histórica, o governo Lula conferiu ao país o selo de bom pagador das agências internacionais de risco, pela primeira vez na história. Condição que perdeu nunca mais recuperou. Portanto, não esteve “quase quebrando o país”. Os prejuízos da Petrobras foram inúmeros, inclusive no governo atual, mas possuem causas bem mais complexas que um número não explicado de 1 trilhão.
Em Campos, o ministro da Cidadania, João Roma agradeceu ao presidente Bolsonaro pelo “maior programa social da história do país”. Fazia referência ao ‘Bolsa Família’, criado por Lula, transformado hoje em ‘Auxílio Brasil’. Fazendo justiça, vale lembrar que a origem se dá no governo Fernando Henrique, com Ruth Cardoso, então primeira dama, que trabalhou na unificação dos programas de transferência de renda e de combate à fome no país.
Além de Roma, a comitiva na região foi formada pelos ministros Ciro Nogueira (Casa Civil), Tarcísio Gomes de Freitas (Infraestrutura) e Bento Albuquerque (Minas e Energia).

A esquerda comunista imaginária
Em São João da Barra, durante a fala presidencial, o som falhou, e foi rebatido por Bolsonaro: “essa sonoplastia é de esquerda”.
Aos aplausos — e gritinhos — da plateia, sempre que se referia à oposição, Bolsonaro usou o termo “esquerdalha” para se referir ao campo progressista. Depois, fazendo uma comparação com o “verde e amarelo” do seu governo, relacionou os “vermelhos” ao “terrorismo, violência, corrupção e inoperância”.
Bolsonaro convenceu os seus apoiadores mais radicalizados que existe uma “ameaça comunista” no Brasil. Além de ser um completo despautério — não há grupos comunistas relevantes no país, tampouco que se identificam com a esquerda radical —, é mais uma forma de tratar os opositores como criminosos e inimigos. E de levar a campanha para a “guerra”.
O PT, apesar de possuir alas radicais, nunca atuou em seus governos como partido de extrema-esquerda. Pelo contrário. Colhendo os frutos podres dessa escolha, governou com o centro, com os liberais e o grande capital. De extremo, só temos o Bolsonaro na disputa eleitoral.

Os Garotinhos
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Anthony Garotinho aproveitou a vinda do presidente como mais uma tentativa de voltar à cena política. Enfrentando diversos problemas na Justiça, que conferem incerteza sobre a possibilidade de candidatura futura, Garotinho vem conversando com o “União Brasil”, partido formado da fusão PSL-DEM, assim como Clarissa.

Demonstrando muita animação em ter trazido o presidente a Campos, Clarissa parece ser a mais alinhada ao bolsonarismo do clã Garotinho. Não raro aparece em fotos sorridentes com a ministra Damares Alves e com o deputado Hélio Lopes. Ambos bolsoaristas radicais muito ligados às pautas de costumes. Clarissa também vem votando com o Governo Federal no Congresso, inclusive em pautas polêmicas, como a PEC dos Precatórios.
Acompanhado de Clarissa, o presidente Bolsonaro foi recebido no aeroporto Bartolomeu Lisandro na última segunda, pelo prefeito Wladimir (Foto: Supcom)
Acompanhado de Clarissa, o presidente Bolsonaro foi recebido no aeroporto Bartolomeu Lisandro na última segunda, pelo prefeito Wladimir (Foto: Supcom)
No caso de Clarissa, se considerarmos todas as pesquisas recentes, o alinhamento ao bolsoarismo pode diminuir ainda mais sua capilaridade eleitoral, em queda há algum tempo.
Wladimir parece ser o que mais rejeita a aliança. Contrariando o presidente, o prefeito de Campos atua na pandemia de maneira responsável, ouvindo especialistas e a ciência. Com maturidade, costuma colocar os interesses de Campos acima de questões ideológicas. Conversa com todos, inclusive adversários históricos do clã de seu pai. Wladimir se mostra um prefeito disposto a superar entraves ideológicos para realizar um governo marcante na cidade, e cacifá-lo (ou algum outro nome do grupo) à reeleição (ou outros voos políticos). Apesar das dificuldades, Campos é uma cidade de relevância nacional, e um bom governo aqui credencia.
Se continuar nessa linha, dificilmente Wladimir estará apoiando deliberadamente Bolsonaro em 2022. A depender dos arranjos partidários e de seu grupo, poderá ser obrigado a compor, mas não dá sinais de que radicalizará, utilizando termos como “esquerdalha” e afins.
Em ano de eleição, arroubos retóricos são comuns, e qualquer evento passa a ser ato político. Faz parte da democracia. Mas a lei existe para ser cumprida e garantir o funcionamento das instituições democráticas. Descumprir lei eleitoral e fazer discurso de ódio não pode ser tolerado. Quem passivamente acompanha, e ainda aplaude, se iguala.

 

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