Cinema: No tempo da bomba atômica
Edgar Vianna Andrade - Atualizado em 04/08/2020 16:47
De 1945, quando os Estados Unidos encerraram a Segunda Guerra Mundial com o lançamento de duas bombas atômicas no Japão, até 1991, com o fim da União Soviética, o principal perigo para a humanidade foi uma guerra nuclear ou testes nucleares. Estranhei que o intelectual norte-americano Noam Chomsky tenha listado o aquecimento global, o esgarçamento das democracias e uma nova guerra nuclear como os três principais problemas atuais em “Internacionalismo ou extinção”, seu mais recente livro (São Paulo: Planeta,2020).
Durante 46 anos, uma possível guerra ou um erro nuclear gerou muitos filmes. Os mais conhecidos são “O dia seguinte” (1983), “Missão suicida” (1964), “Herança nuclear” (1977), “Threads” (1984) e “O jogo da guerra” (1965). Há outros. Muitos outros.
Particularmente, um parece merecer um comentário. Trata-se de “O dia em que a Terra se incendiou”, escrito, produzido e dirigido por Van Guest e lançado em 1961. O mesmo nome creditado três vezes pode sugerir que nenhum estúdio importante quisesse bancá-lo.
A trama se passa em Londres. Fenômenos estranhos afetam a cidade. Neblina densa e espessa, calor excessivo, chuvas, secas, incêndios. Um jornal decide investigar a origem desse comportamento anômalo do tempo. Um repórter procura informações meteorológicas e acaba confusamente se deparando com o serviço de informações. Ali, faz contato com uma funcionária e a trata mal. Começa o clichê. Esses desentendimentos se transformam em romance. Adivinha-se logo. E o romance leva em seguida o jornalista para o apartamento da moça. É ela que lhe contará o segredo: Estados Unidos e União Soviética realizaram testes nucleares no Ártico e no Antártico. Por causa deles, a Terra mudou de eixo.
Os fenômenos climáticos se agravam. Hoje, dir-se-ia que eles derivam do aquecimento global. No filme, maquetes nada convincentes são usadas. Presume-se um baixo orçamento para o filme em preto-e-branco. Não é possível sofisticação. O roteirista-produtor-diretor se vale de imagens de outros filmes ou de documentários. O confuso roteiro leva à conclusão de que a Terra saiu do seu centro de gravidade e está sendo atraída pelo Sol. Até o momento, sabe-se que o Sol engolirá a Terra em longínquo futuro, mas não que ele sugará o planeta.
Em “Odisseia para além do Sol” (1969), outro filme inglês mal resolvido, uma nave espacial é lançada em direção a um planeta idêntico à Terra, mas em órbita que não permite ser visto por ocultar-se atrás do Sol. A direção de Robert Parrish, desejando imitar Stanley Kubrick, é desastrada. Em “O dia em que a Terra se incendiou”, é a própria Terra que navega para o Sol. Haverá salvação para quem “mexe com a natureza?”. Sim, algo mais bizarro que as experiências nucleares nos polos. O lançamento de bombas atômicas na Sibéria para a Terra voltar a seu lugar no sistema solar.
O filme não tem a sobriedade de “A hora final” (1959), em que a humanidade termina progressiva e melancolicamente depois de uma guerra nuclear. Carece também de uma discussão sobre o racismo no fim do mundo, algo meio avançado para seu tempo, como em “O diabo, a carne e o mundo”, também de 1959. Antes o simplório “Pânico no ano zero”, um dos dois filmes dirigidos por Ray Milland, que é também o protagonista. De 1962, o filme apenas mostra uma família constituída de pai, mãe, filho e filha viajando para um fim de semana e sendo surpreendida por explosões nucleares. A chamada civilização começa a se degradar, com saques, violência, estupro e morte, mas a família mantém hábitos civilizados dentro de uma caverna. Logo, a radiação cessa, e todos podem voltar ao antigo normal. Algo parecido com que a maioria deseja após a pandemia da Covid-19: deixar o novo normal ou o anormal para retornar ao antigo normal.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS