Resgate da cultura sírio-libanesa em Campos
Matheus Berriel 03/05/2019 21:34 - Atualizado em 03/05/2019 22:41
Eduardo Chacur
Eduardo Chacur / Genilson Pessanha
Adel Nassar Abourejeili
Adel Nassar Abourejeili / Genilson Pessanha
 
Makhoul Moussallem
Makhoul Moussallem / Genilson Pessanha
 
 
 
A influência histórica da cultura sírio-libanesa no desenvolvimento de Campos e região será relatada em documentário com o tema “Memórias da Imigração”, numa parceria do Arquivo Público Municipal com a TV Câmara.
— Propusemos essa parceria com a Câmara Municipal de Vereadores para realizarmos as gravações do documentário, iniciadas a partir de uma reunião com a Associação Cultural Líbano-Goitacá, que representa os descendentes e os imigrantes libaneses na região. A partir disso, fizemos um levantamento de alguns nomes importantes de famílias influentes ou que fazem trabalhos para o resgate dessa memória e tradições, e já começamos as gravações — informou a historiadora Rafaela Machado, do Arquivo Público.
Em uma parede no segundo andar da Feira Livre, loja inaugurada por seu pai em 1938, o empresário campista Eduardo Chacur, de 75 anos, expõe recortes de jornais e fotos sobre alguns de seus trabalhos prestados ao município. Filho de libanês, ele integra uma família à qual pertenceu a Usina Santa Maria. Sua bisavó, Helena Farah, chegou ao município em 1905. Presidente da Associação de Comerciantes e Amigos da Rua João Pessoa (Carjopa) durante 10 anos, Eduardo ficou conhecido pela liderança no movimento que conseguiu a revitalização da área central da cidade.
— Como o comércio de Campos foi feito por libaneses, nós temos uma obrigação de defender a história e reconhecer, ser grato à maneira como receberam os nossos. Deram uma possibilidade de eles virem e trabalharem. Sofreram, mas venceram — afirmou Eduardo, que tentará, junto à Câmara, viabilizar a criação de um memorial em homenagem aos sírio-libaneses pioneiros no comércio local.
De acordo com o comerciante Adel Nassar Abourejeili, de 52 anos, quase 80% do comércio campista já foi formado por libaneses e/ou descendentes. Um dos remanescentes no setor, foi ele quem entrou em contato com o cônsul geral do Líbano no Rio de Janeiro, Alejandro Bitar, agendando sua vinda a Campos no próximo dia 23. “Ele vai vir conhecer a colônia. Vamos ver também um possível encontro com o prefeito, se puder. Vai olhar tudo o que puder, ver como os antigos libaneses viveram, como vieram, por que vieram, o que estão fazendo hoje”, disse Adel, natural de Campos, com pai e mãe libaneses. Antes de atender a reportagem, o empresário conversou em árabe com um de seus funcionários, libanês, pelo telefone.
A prática comercial também fez parte da vida do neurocirurgião Makhoul Moussallem, de 74 anos, reconhecido como cidadão campista em 1977, honraria na parede de seu consultório. Nascido no Líbano, ele veio para Campos aos 9 anos de idade, em janeiro de 1955, cinco anos após seu pai. Ambos trabalharam como “mascate”, nome como eram comumente chamados os mercadores ambulantes da época. Vendiam roupas. Sem êxito nas tentativas de ingressar na política, quando foi candidato a prefeito e deputado federal, teve muito sucesso em sua profissão, com mais de cinco mil cirurgias realizadas, tendo presidido diversas entidades, entre elas o Sindicato dos Médicos de Campos, do qual também foi fundador.
— Acho que a história, minha e de todo mundo, tem que ser preservada, principalmente as de etnias que vieram para o Brasil. Na realidade, os únicos brasileiros verdadeiros são os índios que moravam aqui. O resto, somos todos uma mistureba. Aportamos aqui, ficamos, tomamos conta e estamos matando e expulsando os índios, o que é pior. Continuam fazendo a mesma atitude predatória de 1500 para cá — disse Makhoul, apelidado de “Turquinho” na juventude. — Não era um “Turquinho” pejorativo nem agressivo, querendo menosprezar. Era carinhoso — recordou.
Atualmente, a medicina é uma das áreas com maior presença da colônia libanesa em Campos. Além de Makhoul, responsável por diversos avanços no setor, e de outros médicos com sobrenome Moussallem, destacam-se profissionais das famílias Ferzoli, Mussa, Chacur, Chalita, Chicralla, El Kik e Nassar, entre outras, como o vereador licenciado Abdu Neme, atual secretário municipal de Saúde. Há, ainda, que se destacar o lendário fotógrafo Dib Hauaji, figura conhecida na cidade e colunista da Folha. A culinária também se destaca, com restaurantes como o Kantão do Líbano, que serve diversas comidas típicas daquele país. A carne de carneiro é muito procurada, além dos tradicionais quibes e esfirras. A cidade conta ainda com caminhões de comida árabe.

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