Tenho pena
21/01/2017 | 18h41
   Cândida Albernaz    Chego cansada e vejo que cortaram a luz. O imprestável do meu marido não pagou a conta. Dei o dinheiro na mão dele. Bebeu todo, é claro. As crianças sozinhas sentadas na varanda porque ele saiu com uns amigos “para resolver uns probleminhas”. Ainda bem que você passou por aqui. Tô ficando cansada dessa vida. Trabalho feito uma condenada e não vejo resultado. Esse que mora comigo, está desempregado há seis meses. Seis. E eu sustentando a casa e os vícios dele. Não venha repetir que a escolha foi minha, que fui avisada, que já bebia quando nos conhecemos e era mulherengo. Mas como eu podia resistir àqueles olhos verdes e àquele corpo, que minha nossa senhora!, coisa mais perfeita. Morriam de inveja, fala a verdade. Todas! Quando engravidei da Julinha e ele casou comigo, deixou muita mulher chorando pela redondeza. Inclusive você. Pensa que não sei? E não faz essa cara, porque foi ele mesmo quem contou. No dia do nosso casamento você foi atrás pedindo para não casar, porque gostava dele e faria o que quisesse. Riu na sua cara, não foi? Minha madrinha! Escolhi você para madrinha e quando veio me abraçar, chorava tanto, pensei que fosse por mim, por amizade. Que nada! Estava era se roendo por dentro porque foi desprezada.  Posso falar uma coisa? Hoje até agradeceria se ele tivesse ficado com você. Porque aquele lá se transformou em um traste. Presta para nada não. Nem na cama posso contar com ele. Bebe tanto e tem tanta mulher que chega à casa: nada! E a barriga? O inchaço embaixo dos olhos? Serve não, amiga. Você ainda quer? Pode levar que não estou agüentando mais. E não me olhe com essa carinha de espanto. Tô brincando. Passado é passado e sei que você me respeita.  Vou dizer uma coisa, qualquer dia boto ele para fora. Já dormiu na varanda, no chão da sala, e na casa de algumas vagabundas que encontrou pela rua. Sabe por que ainda não fiz isso? Tenho pena. Pena de quê? Sei lá, coisa de mulher, de instinto maternal... Por falar nisso, com a mãe que teve, só podia ficar desse jeito. Aquela não cuidava dos filhos, botava homem na frente do marido, e dizem que batia nele. Homem forte daquele... Difícil acreditar. Mas o povo fala.  Obrigada por você ficar com as crianças enquanto eu não chegava. Tudo escuro e os dois sozinhos. Nem bom pai ele é. Não vai agora não, estou sem sono. Fica mais um pouco porque estou precisando mesmo que alguém me escute.  E aquele sujeito com quem você estava saindo? Colocou para correr? Fez bem amiga. Depois que me contou que ele meteu a mão em você, era o que devia ter feito. Porque homem é bicho folgado. A gente perdoa e eles pensam que somos bobas e fazem tudo de novo. Não vê o meu caso?  Decidi que ele está com os dias contados. Cansei de verdade. Você vai ver só. E não me olha desse jeito. Estou esperando ele arrumar um emprego, porque não tenho coragem de botar o pai de meus filhos na rua, sem ter nem para comer. Tá rindo de mim. Tenho compaixão, sabe o que é isso? Acho que tá na hora de você ir, porque vamos acabar brigando.  Olha só quem está chegando? Nossa, quase enfiou a cara no portão. Vai, vai logo que tenho que colocar ele embaixo do chuveiro. Na minha cama fedendo desse jeito é que não vai dormir. É, vou dar comida a ele sim. Quer que deixe morrer de fome? E pare de rir. Vai ser a última vez...
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Não era para se envolver
21/01/2017 | 18h41
Não era pra se envolver         Cândida Albernaz - Te avisei mulher. Falei que era furada e você não levou fé. Agora tá aí, na maior neura. - Não parecia ser nada disso. - Então tá. E não fui só eu não. As meninas tentaram abrir seu olho e você nem aí. Tô indo porque tem cliente chegando. - Espera um pouco. - Espera coisa nenhuma. E acho bom dar um jeito nessa cara, porque a outra lá não quer ver ninguém parado. Fiquei no mesmo lugar por algum tempo e então fui ao banheiro. Clô tinha razão, precisava me ajeitar porque estava parecendo um lixo. Molhei a mão na água da pia e passei no cabelo tentando domar os fios rebeldes que teimavam em não colar à cabeça. Droga de cabelo que nunca fica bom. Os olhos estavam vermelhos e inchados: culpa do choro e da insônia. Afastando-me um pouco observei meu corpo. Um sorriso me veio aos lábios: esse ainda estava bom apesar do vestido surrado que usava. Tenho um corpo bem feito o que faz com que algumas colegas morram de inveja. Como de tudo, e claro que ainda sou muito jovem, isso ajuda. Os olhos encheram de lágrimas. Não queria começar a chorar novamente. Tinha que trabalhar ou dona Odete ia perceber que algo estava errado. Sempre fui uma das melhores. A culpa de tudo era daquele idiota do Carlão. Desde os doze anos nessa vida e agora me deixei enganar. Abri a guarda, foi isso. E o desgraçado se aproveitou. Tinha que me apaixonar? Escolada do jeito que sou? Também, qualquer uma se enrolava. Ele chegou de mansinho com um corpo, que benza Deus!, tira qualquer uma do sério. Nem precisava pagar e fez questão de pagar dobrado. Voltou mais duas vezes e me escolheu. E o cheiro do cara? Sou ligada nesse negócio de cheiro. Sempre perfumado e sempre gostoso: caí de quatro. Parei de cobrar e saí com ele algumas vezes fora do expediente. Sem que dona Odete imaginasse, é claro, porque com ela não tem papo. Só algumas meninas sabiam. O problema começou aí: conversa vai, conversa vem, e ele me convenceu a entregar uma encomenda no centro. Na primeira e na segunda vez, deu tudo certo, ainda ganhei um extra. Falei com ele que não me pedisse mais, porque tinha meu emprego e aquele negócio podia dar cadeia. Ele veio me pegando, se esfregando e me deixando louca: não deu outra, falei que faria pela última vez. Cheguei à casa do cara, era o mesmo de sempre, não sabia nem o nome dele, porque não queria me envolver. Entreguei o pacote e quando saí ainda na esquina, dois sujeitos me agarraram e me colocaram num carro. A conversa foi ali mesmo. Depois de levar dois tapas na cara, mão pesada ele tinha, tirou sangue do meu nariz. Já apanhei antes, mas tenho pavor. Não tem essa de que com o tempo se acostuma. Que nada, detesto sentir dor. Queria o nome de quem me contratou. Estava me metendo na área deles. Tentei dizer que não sabia e me deram um soco no peito, quase desmaiei. Mais dois murros e acabei soltando a língua. Isso foi há dois dias. Carlão foi pego e apanhou tanto que parece ficará cego de um olho. O pior, é que soube quem foi e está atrás de mim. - Tá dormindo no banheiro, Norminha? Abro a porta e dona Odete fica me olhando com aquela cara de quem quer me ver na rua. Quando ela souber com o que me envolvi, é pra lá que vai me mandar. - Seu cliente preferido chegou. Tá meio quebrado e te procurando. Vai e faz com que ele esqueça as dores. Entro no salão e Carlão está me esperando. - Oi, Carlão. - Oi, nada, sua cadela. Vamos até lá fora. - Não posso sair agora. - Pode sim, porque já molhei a mão de Odete e ela tá feliz da vida. - Carlão, não tive culpa. - Claro que não, os caras vieram pra cima de mim porque têm bola de cristal. - Carlão, eles me machucaram. Você sabe que não agüento. E depois, a gente se ama. - Se ama? E você acha que eu amo vadia? - Que é isso? Quem são esses? Três homens estavam dentro de um carro esperando por eles. - Toma, é de vocês. - Carlão, o que vão fazer comigo? - Vai dar uma volta com eles. Já sabem, não quero que sobre nada. - Carlão, eu te amo...
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Carrego dentro de mim
21/01/2017 | 18h41
Carrego dentro de mim             CândidaAlbernaz  Ela corria e esperava não estar sendo seguida. Não outra vez.  Quando fechou a porta estava sem fôlego. Com a respiração agitada olhava em volta se certificando de que ali estaria segura. A sala e os móveis conhecidos foram fazendo com que se acalmasse. Na cozinha, abriu a geladeira e retirou o copo que gostava de manter ali dentro. Hábito adquirido com o pai. O contato do ar quente com o copo gelado, fez com que este embaçasse. Encheu com água e tomou toda de uma só vez.  Puxou a cadeira e sentou. Começava a sentir-se tranqüila. Precisava voltar no tempo e entender o que estava acontecendo.  Decidiu morar sozinha há três anos. Cansou de assistir aos porres da mãe, as discussões diárias e as desculpas daqueles dois que não conseguiam ter paz.  Quando a mãe começou a se exceder com a bebida, o pai fazia-se de morto, fingindo não perceber. Não brigava, não exigia, apenas pedia que parasse. Com o tempo cansou, foi o que disse.  Cansou e partiu para a briga. Era por tudo e a qualquer hora.  Levava amigas para estudar em casa, e de um momento para o outro, ouvia copos, pratos ou o que estivesse pela frente, sendo quebrado.  A mãe o acusava de indiferença, de ter outra mulher, e que por isso encontrava consolo na bebida. Se sentisse agradecido por isso. “Pior seria se eu te colocasse um par de chifres ou ...”.  O pai reagia dizendo que “além de bêbada quer ser vagabunda também”.  Trancava-se no quarto durante a gritaria, ligava o som bem alto ou enfiava-se embaixo da coberta.  Apenas uma vez a mãe agrediu o pai fisicamente. Tinha quinze anos e teve que ajudá-lo. Com um vaso que estava sobre a mesa, acertou em cheio a testa dele. Desmaiou e quando acordou pediu seu auxílio. Procurou pela mãe que dormia no quarto sem se lembrar do estrago feito. Não falaram a verdade para o médico e o pai ganhou uma cicatriz na testa que carrega até hoje.  Quando no dia seguinte acordou e viu o que tinha feito, pediu desculpas, beijou o pai de cima abaixo e prometeu parar de beber. Duraram quatro meses sua abstinência e nesse tempo tivemos sossego. Os dois pareciam ter nascido um para o outro.  Decidiu procurar um apartamento para morar, quando chegou com um namorado em casa e ele assistiu uma dessas loucuras entre eles.  Ouviu um barulho na sala. Será que a seguiram e conseguiram entrar? Levantou sem fazer barulho, acendeu as luzes. Nada. Dentro do quarto trancou a porta.  Lembrou-se de outra porta que não tinha chave, para que não ficasse presa lá dentro. Ficava à mercê do que estava lá fora.  Dormiu e acordou serena. O trabalho a esperava e não podia atrasar.  Os pais avisaram que a visitariam no domingo. Era a segunda vez que vinham ali. A anterior foi no dia em que se mudou  Nesse tempo, encontraram-se poucas vezes, e sempre na casa deles.  Prepararia uma massa que aprendera com as amigas da loja onde era gerente de vendas.  Durante o dia chegou a esquecer de seus medos. Não comentou sobre essa sensação de estar sendo perseguida.  A loja era perto e não havia necessidade de nenhum tipo de condução. A noite clara e o céu limpo. Chegando perto de casa, ouviu os passos. Olhou para traz e não viu ninguém. Devia ser imaginação sua. O prédio pequeno e antigo não possuía elevador ou porteiro. Ao abrir o portão na entrada, sentiu a respiração ofegante em seu pescoço. Subiu a escada correndo, entrando e fechando a porta com a chave. Livrou-se dessa vez. Foi até o quarto e sem trocar de roupa, deitou e cobriu todo o corpo. Em poucos segundos sentiu a respiração pesada do outro a seu lado. Puxou ainda mais a colcha tapando a cabeça. Braços a envolveram, debateu-se, mas a força dele era maior do que a sua. Desistiu de reagir. Sem descobrir a cabeça, pediu mais uma vez.  _ Não, pai. Vai me machucar, não quero.  Tinha oito anos novamente.
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Com ela seria diferente
21/01/2017 | 18h41
                                                                                   Cândida Albernaz             O casaco rosa em tom forte contrastava com a pele negra. Os olhos levemente puxados tinham uma vivacidade que parecia trazer brilho a todo o resto. Na mão direita, empurrava uma bicicleta vermelha com a pintura gasta. Caminhando à beira do asfalto, ignorava os olhares que provocava e o perigo dos carros que transitavam.             A amiga devia estar impaciente. Combinara com Gislane ficar com o filho dela por algumas horas. Adorava criança e esperava ter os seus um dia. Dois. Queria um casal, mas Deus é quem sabe, é claro. Tivessem saúde, o principal.              Mal pegou o menino, a amiga saiu correndo dizendo estar atrasada.             Gislane tem dezessete anos como ela e as duas se conhecem desde criança. Sua mãe tinha fartura de leite naqueles peitos tão grandes, que pareciam dois travesseiros, e amamentou a amiga. Tia Dalva era fraca e quando a primeira filha nasceu, bateu uma tristeza nela, o leite secou. Não conseguiu tomar conta da menina.             Sua mãe, que nunca viu chorar nem umaveizinha, cuidou das duas.             Agora é ela quem ajuda com o filho da amiga. Gosta do menino de três anos, é seu afilhado. Ele é tranqüilo e não dá trabalho. A amiga sim é meio maluca e avoada. Quando começou a namorar o pai do menino, não faltou quem avisasse como ele era: mulherengo, gostava de emprenhar garotas novas, vendia uns bagulhos para os caras lá de cima, etc e etc. Não ouviu ninguém, com ela seria diferente. Não foi. Depois de dois anos de coças esporádicas e uma criança na barriga, o cara se mandou porque se encantou com outra.             Chorou a boba, sem conseguir enxergar que talvez agora tivesse a chance de consertar a vida. Claro que com um filho aos catorze anos, seria muito mais complicado. Sabia também que podia contar com ela, mesmo que não fosse grande coisa, estariam juntas.             De tia Dalva, nunca pôde esperar nada. Depois que Gislane nasceu, vieram mais dois e a cada vez ela tinha nova crise e sem saúde o suficiente para cuidar deles.             As duas conversam sempre. Gislane fala que não entende como o pai permitiu que sua mãe engravidasse tantas vezes, se não podia dar atenção aos filhos. Não ouvira falar de preservativo? Aliás, ela pensa que Gislane também não conhece.             Hoje em dia tia Dalva endoidou de vez e vive zanzando para lá e para cá, sem falar coisa com coisa. O marido é um santo, tem a maior paciência com ela. Apesar de a convivência parecer quase impossível, nunca o ouviu falar mais alto.             Como no dia em que ele estava lavando o carro, na frente da casa e ela resolveu ajudar. Entrou, pegou um balde e antes que alguém percebesse, virou o que tinha dentro em cima do carro. Na mesma hora um líquido branco escorreu até cobrir o farol do lado esquerdo. Não!!! Todos gritaram na hora, mas o estrago estava feito.             Ela explicou que jogara a tinta que estava dentro do armário, para o carro ficar clarinho. Por quê? Não gostavam de branco? Que pena, se soubesse teria tentado com outra cor.             Ele segurou em seu braço e quando notou que ela chorava, pediu que ficasse calma. Daria um jeito. Ela sentou na varanda e ficou olhando para eles.             O melhor era levar para a oficina no dia seguinte.             Se fosse o pai dela... Mas também sua mãe não era doida como a amiga.             Aliás, ela está demorando. Foi fazer uma entrevista, pois precisa trabalhar.             Pegou o afilhado no colo, e foi até o portão. Nem sinal da outra.             Ver o que Gislane tem passado serviu para decidir que não deixaria que acontecesse o mesmo com ela. Não queria saber de namorado por enquanto. Faria faculdade no próximo ano e trabalharia para isso. Sabia que o pai não podia pagar, mas arranjou um serviço em uma loja de perfumes. Seu sonho sempre foi ser professora, ensinar e tinha certeza, conseguiria realizar.             O menino dormiu. Voltou ao portão e viu Gislane descendo do ônibus. E então, conseguiu? A amiga começou a chorar. O que houve?             E ela despejou, não era entrevista para trabalho nenhum. Queria tirar a criança que esperava, mas não teve coragem.             Grávida outra vez? De quem? E o que isso importa? Sua vida tinha acabado de vez.             Por que não contou antes? Sabia que ela não deixaria que tirasse. E agora?             Choraram as duas abraçadas. Não sabia o que dizer, só apertou mais forte os braços em volta da amiga.             Com ela ia ser diferente, prometeu a si mesma.
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Alôôô...
21/01/2017 | 18h41
        Cândida Albernaz - Alô. - Oi. - Carminha? - Eu. - É a Ju. Liguei porque preciso muito falar com você. - Oi, Ju. Nossa! Há quanto tempo não nos falamos. - Pois é, estou ligando porque preciso... - Menina, soube da Raquel? Separou. Está andando para cima e para baixo com um garotão. Vai acabar ganhando outro chifre, igual ao que o marido colocou nela. - Poxa! - Pelo menos está aproveitando. Falaram que é um gato. Mas me conta sobre você, o que anda fazendo? - Eu... - Soube que seu irmão esteve doente. Pneumonia, não foi? Mas graças a Deus ele já esta bom, não é? Contaram que ficou internado por mais de dez dias. Desculpe não ter feito uma visita, mas você sabe como é. Os dias correm e quando espantamos não se passaram apenas dez, mas trinta dias. Tem visto a Sônia? - Ontem ela esteve aqui em casa. Eu queria... - Menina, ela está ótima. Fez lipo, colocou silicone, abdômen e nem sei mais o que. Viu os peitos dela? Per-fei-tos. Quero igual. Brincadeirinha, não tenho dinheiro para pagar. Porque se tivesse... Ia ficar com tudo em cima. - Carminha? - Fala garota. Estou com saudade de você, do nosso grupo. Afastei-me de mais. Trabalho! Trabalho como uma louca e nem assim sobra um dinheirinho. Sou consumista, reconheço. Lembra daquela bolsa carésima que vimos na última vez em que saímos? TIVE QUE COMPRAR. Fiquei sem dormir pensando nela. Acredita? Claro que acredita. Você me conhece mais que as outras. E sempre teve paciência comigo. Por isso é a melhor e mais querida das minhas amigas. - Obrigada, mas quero... - Sei que às vezes falo demais. É um defeitinho de fábrica. Quando começo, é difícil parar. Você está com o Duda ainda, ou já mandou passear? Desculpe a franqueza, mas que cara folgado você foi arrumar. Não sei como aguentou esse sujeito por tanto tempo. Fiquei sabendo que terminaram. Sofreu amiga? Não, aposto que não. Porque ele não merecia nada de você. Deu em cima da Gabi naquela festa, lembra? Eu mostrei a você. Ainda bem que ela é sua amiga e não quis conversa com ele. - Carminha? - Desembucha mulher. Fica repetindo meu nome, mas não diz nada. Só mais uma coisa. O Duda foi demitido realmente? Disseram-me que ele perdeu uma conta de publicidade importante e que a firma não perdoou. Colocou na rua. Também pudera. O cara é fraco mesmo, mas até que é bonitinho, não? Quer dizer, muito lindo. Usou enquanto pôde heim amiga? Só por aquele peito e aquela barriga sarada... Acho que nem eu resistiria. Mas quando um homem desses ia me dar alguma chance? Deixa para lá que tenho meus arranjos e não posso reclamar. De barriga vazia não fico. Mas você até agora não disse porquê me ligou. Sempre a mesma, falando pouco, sendo paciente com todos e prestativa. Sabia que o som da sua voz me acalma? Sempre foi assim. - Carminha? Pela última vez... - Fala mulher. - Vou me casar e liguei para convidar você para ser minha madrinha... - Poxa, amiga. Nem conheço seu noivo. Faz tempo mesmo que não nos vemos. - Duda, Carminha. O meu noivo é o Duda. - Mas... - E não me importa sua opinião sobre ele. Só não sei se vai aceitar, já que não gosta dele... - Como assim, Ju? Sempre adorei o Duda. As pessoas é que falam demais. Estava apenas repetindo. - Sei. - Não se zangue amiga. O Duda é tudo de bom e você vai ser muito feliz. Eu aceito. Sabe há quanto tempo não sou madrinha de casamento? -... - Nunca fui. É, acho que nunca. Obrigada amiga. Amo você, amo o Duda e vou amar cada um dos quatro filhos que tiverem. - Quatro? - Brincadeira, é claro. Só uma pergunta. Ju, você não esta grávida, está? Pode confiar em mim.
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Dá-se um jeito
21/01/2017 | 18h41
           Cândida Albernaz  -Droga de vida!  Eu resmungava enquanto andava em direção a casa.  Seu Donato resolveu implicar comigo, logo agora que estava me saindo bem no trabalho.  Fazia tempo queria ficar no lugar de Edmundo, que era balconista da loja de ferragens. Eu trabalhava como entregador. Tinha uma bicicleta onde cabia tudo. Havia encomenda para entregar do outro lado da cidade? Eu ia. Estava chovendo muito? Eu também ia. Precisavam de qualquer peça na hora do almoço? Sem problemas, fazia a entrega e almoçava depois.  Não gostava do serviço, mas fazia bem feito. Quando Edmundo pediu demissão, conversei com seu Donato, o gerente da loja, e ele me colocou na venda. Era mais tranqüilo e com a comissão ganhava melhor.  O problema era que seu Donato de uma hora para a outra resolveu não gostar do meu serviço. Já estava no balcão há três meses e da última vez fiquei em segundo lugar na venda.  Há três semanas, a mulher de seu Donato deu para aparecer na loja todo dia. A gente via os dois cochichando e discutindo. Numa dessas vezes, ela saiu resmungando e quando passei, roçou o corpo no meu e sorriu. Ri para ela também que não sou de ferro. A Iracema é gostosa, com o corpo cheio e o cabelo preto e liso que cai até a bunda. Seu Donato, um velho perto dela. Daí para a frente ele não me deu sossego. Tudo o que faço está errado.  Hoje em particular, ele me atazanou mais que de costume: reclamou da forma que falei com o cliente, disse que não arrumei a prateleira direito e que a seção pela qual sou responsável estava imunda.  O patrão gosta do meu trabalho, mas seu Donato é o gerente e fala para ele o que quiser.  Ele não entendeu que não quero nada com Iracema, que ela pode se esfregar em mim ou me olhar com insistência, como tem feito ultimamente que eu não gosto de confusão. Mas se esse velho me fizer perder o emprego, a primeira coisa que faço é pegar a mulher dele.  No caminho para casa, mais demorado do que o normal, porque roubaram minha bicicleta e tinha que ir a pé, encontrei com Edmundo.  -E ai? Soube que ficou no meu lugar.  -É. Queria muito uma oportunidade e estou me saindo bem.  -Não me parece muito animado.  -Cansado, só isso.  -Seu Donato já começou a “pegar no seu pé”?  -Por que pergunta? Fez isso com você também?  -Claro, por isso caí fora. A danada da mulher dele vivia me cantando. Saí com ela algumas vezes. Ele descobriu e me ameaçou com um facão.  -Descobriu?  -Seu Donato parece velho, mas tem força e com raiva então...  -Você também foi se engraçar com a mulher dele!  -Posso garantir: vale a pena.  -Deixa dessa conversa que quero manter meu emprego. Tenho mulher e dois filhos para sustentar.  -Tá bem, tá bem. Tchau. Depois a gente se fala. *   *   *  Difícil de agüentar seu Donato. São seis meses trabalhando sob perseguição cerrada. De seu Donato e de Iracema. Ela nem disfarça. Tava vendo a hora em que ele ia ter um troço dentro da loja.  O homem pode ser forte como falou Edmundo, mas com a mulher é um panaca. Por mais que briguem, ela não deixa de fazer o que quer.  Tem duas semanas que não aparece. O ambiente ficou mais calmo e ele me deu sossego.  O Edmundo tinha razão.  Deixei de lutar: a Iracema vale a pena mesmo. Que mulher! Só proibi que fosse à loja. Preciso de tranqüilidade para trabalhar.
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se você sabe
21/01/2017 | 18h41
Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insiste em se colocar no meio dele?
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Posso me doar. Ou não
21/01/2017 | 18h41
                        Cândida Albernaz  Sua indiferença faz com que minha indiferença se acentue. Continue assim, porque estarei a salvo de você. O quanto mais distante me tratar, para mais longe irei. Até que não sobre nada, a não ser o espaço vazio. E nele, mergulharei com satisfação enquanto não o preencher outra vez com algo novo.  Os olhos escuros e com ar de tristeza foi o que me chamou a atenção. Sorria pouco enquanto falava mas notei que ninguém ousava interromper. Num determinado momento, percebeu que o olhava e parou de falar fixando-se em mim. Os amigos voltaram o corpo e de um instante para o outro eu era o centro das atenções. Sorriu e abaixei o olhar.  Continuou a falar e eu a tentar me concentrar no que as amigas diziam.  Quando estava saindo, foi até minha mesa, estendeu um cartão e pediu meu telefone. Seco, rápido e sem que eu tivesse o direito a pensar. Escrevi o número em um guardanapo e entreguei. Guardou o papel no bolso da calça e “nos falamos depois”.  - O que foi isso?  - De onde você o conhece?  As amigas faziam-me perguntas, davam opiniões e riam alto. Entrei na brincadeira, falando sobre meu poder de sedução. Quando virei, você ainda estava próximo à porta nos observando. Foi a segunda vez naquela tarde que me deixou sem graça.  Fiquei com aquele cartão na bolsa e com muita vontade de ligar. Não o faria.  Uma semana depois, recebi seu telefonema, combinamos de nos encontrar num bar à noite e antes de desligar, perguntou meu nome. Carina, falei e só então percebi que havia esquecido de me identificar naquele dia.  Começamos a sair juntos. Você atencioso, apaixonado e possessivo. E eu me deixando levar. Amando devagar.  Conversávamos menos do que gostaria sobre sua família ou passado. Era como se você só existisse a partir do momento em que o conheci.  Fui me entregando cada vez mais e vendo as amigas cada vez menos.  Sempre que estava na cidade exigia que estivéssemos o tempo todo um com o outro. Viajava muito fazendo palestras em universidades, sobre as diferentes formas de se apresentar e o medo de falar em público.  Durante essas viagens, ficava em casa vendo filmes, arrumando armários e esperando. Que você voltasse ou ligasse.  Nunca pediu que não saísse ou deixasse de ver meus conhecidos. Não diretamente. Mas sua reação de mutismo quando isso acontecia me fez desistir. Se estávamos sozinhos, gostava de agradá-lo fazendo comidinhas, preparando sua bebida ou ficava apenas ouvindo-o falar sobre o presente, pouco do futuro e nada do passado.  Não percebi logo mas depois de um ano, suas viagens se tornaram mais prolongadas, as ligações menos freqüentes. Quando chegava não me procurava logo.  Começou a doer sua falta em mim, mas da mesma forma que me entreguei à nossa relação, fui aceitando sua ausência.  Tentei saber mais sobre o que viveu e não gostou. Brigamos.  Perguntei sobre suas demoras para me procurar quando chegava e não gostou. Brigamos  Falei sobre nosso distanciamento e disse que estava imaginando coisas. Brigamos.  Procurei as amigas, que me acolheram. Brigamos.  Resolvi preocupar-me só comigo novamente.  Não imagina o quão distante de você posso ir. Basta o que estou sentindo: ser ignorada. E quando estiver bem longe, não tente me buscar, porque já terei me reencontrado e certamente não precisarei mais de você.
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O vento traz a música
21/01/2017 | 18h41
      Cândida Albernaz  “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...”. A canção de Chico estava tocando em algum lugar ali perto. Talvez fosse no bar de Zico, que ele gosta de  mpb. Costumo deixar a janela entreaberta e sento no escuro ouvindo a música que vem de lá. Bom gosto musical ele tem. Gosto igual ao meu, quero dizer.  Desde o dia em que Carlão foi embora, dizendo que não ia demorar a vir me buscar junto com as crianças, costumo ouvir o som que vem da rua. E isso já faz uns dois anos. Como o único rádio que tenho está quebrado, roubo para escutar, a que vem do bar.  Houve uma época em que Zico tentou se bandear para o meu lado. Disse que queria cuidar de mim e das meninas. Quero não, bem preciso, mas não quero. Homem diferente do pai ao lado delas, não dá. São muitas histórias que a gente ouve por aí. Dulce acreditou num sujeito que chegou mansinho para cima dela, cheio de carinhos, dizendo que nunca mais ela e os filhos iam passar necessidade. Qual! Em menos de um ano ele estava desempregado. Ficava o dia inteiro em casa vendo televisão ou deitado, enquanto ela se matava no serviço de faxina. Um dia, o filho veio falar que viu o infeliz dando um beijinho na boca da irmã e dizendo que era o papai dela. Dulce não pensou duas vezes. Entrou no quarto, que o malandro gostava era de dormir, e tirou ele dali à vassourada. Esse nunca mais apareceu.  Ela teve sorte porque o filho viu logo no início, tem umas que só depois do fato acontecido é que vêm saber. Aí a menina fica com a vida estragada, que isso não tem conserto.  Eu poderia até namorar uns e outros por aí sem botar dentro de casa, mas não tenho vontade.  Mesmo sem notícias, ainda espero que Carlão apareça com um sorrisão na cara, dizendo que veio buscar a gente.  As meninas, tenho duas, viviam perguntando pelo pai. Agora deram um tempo. Fico triste quando querem saber dele e tenho que inventar algo. Acho que elas perceberam e demoram mais a tocar no assunto.  Consegui um emprego de arrumadeira num hotel no centro, foi Dulce quem me falou que estavam precisando. Estou lá há um ano e meio. Tenho carteira assinada e eles pagam plano de saúde para os funcionários. Isso ajuda muito. Nem ganho tanto assim, mas só em poder levar minhas filhas ao médico sem precisar gastar já é um alívio. Minha pequena vive com gripe, tem a saúde frágil. O médico falou que ela precisa pegar sol, de vitaminas e frutas. Faço o máximo que posso, como ele manda, mas ela fica doente assim mesmo.  Tem muito pesadelo, a pobrezinha, tá sempre sonhando que o pai morreu e não vai mais voltar. Abraço com ela e explico que é só um sonho, que ele volta um dia com o braço carregado de presentes para as duas e aí vamos todos embora dali para morar junto dele. Consigo até que dê risada no final, com as histórias que invento. Depois que ela dorme, quem não pega no sono sou eu.  “Oh, pedaço de mim. Oh, metade afastada de mim. Leva o teu olhar que a saudade é o pior tormento...”  A música agora é outra. Tão bom ficar aqui à noite ouvindo o vento trazer o som. Fico quietinha. Às vezes choro, porque tem melodia que mexe com a gente.  Deixa esse negócio de tristeza para lá, que amanhã pego cedo no batente, e antes tenho que deixar as meninas na escola. Vou tentar dormir.  Batendo na porta a essa hora? Será que Dulce está precisando de alguma coisa? Nós somos amigas e uma ajuda a outra.  Não é Dulce quem está parada ali. Quase não o reconheço. Tão magro o meu homem. Ele não me olha, parece que perdeu qualquer coisa no chão.  -As meninas? -Tão dormindo. -Demorei... -Mas tá aqui é o que importa. -Não posso fazer o que prometi. Não consegui um emprego bom e não juntei dinheiro também. -Estou trabalhando e logo você consegue um serviço. Sempre foi homem inteligente. -Burro muito burro.  Puxo Carlão para dentro de casa, coloco sentado na cadeira e vou para a cozinha esquentar o que sobrou do jantar. Ainda bem que hoje sobrou algo.  O barulho da tampa da panela que mexo, do prato e do garfo que coloco na mesa... Há quanto tempo não esquentava o jantar para Carlão. Olho para ele, que está de costas. Uma lágrima escorre no meu rosto, não me preocupo em secar. Essa é diferente das outras, essa é de felicidade.
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Rir junto
21/01/2017 | 18h41
                                    Cândida Albernaz               Não acende a luz. O escuro do quarto é quebrado apenas com a iluminação que passa pela janela de vidro. Com a cortina puxada para um canto, as luzes da rua e dos prédios entram sem cerimônia.             Lava o rosto e tenta fazer com que a água da torneira se misture às lágrimas que escorrem com a esperança de que elas parem.             Deu para isso agora. Mal abre a porta de casa e o choro vem sentido e confuso num misto de dor e raiva.             Pega a foto que ficara deitada de encontro ao tampo da mesinha e pensa em guardá-la na gaveta pela enésima vez. Não consegue e resolve colocá-la no lugar de sempre. Ele sorri enquanto a abraça. Ela também.             Na sala, a televisão está ligada desde o dia anterior. Dormiu, saiu para trabalhar, chegou a pouco e tinha dúvidas se a desligaria quando fosse deitar. Aquelas vozes desconhecidas e variadas faziam companhia à sua solidão não escolhida.             Olhou-se no espelho, mas não conseguiu ver nenhuma imagem refletida. Os pensamentos insistentes e com velocidade incomum, não permitiam.             Aquele enorme espelho no quarto foi idéia dele, pois dizia gostar de vê-la de qualquer lugar em que estivesse lá dentro.             Muitas vezes fizeram amor ali, em pé, enquanto se olhavam. E só depois de cansados deitavam-se lado a lado, com a respiração rápida e rindo deles mesmos.             Era do que mais sentia falta. O humor que ele possuía. Costumava rir com vontade, contagiando-a. Ela que sempre fora reticente com a alegria, ao lado daquele homem conseguia ouvir o som do próprio riso. Gargalhava.             Era tão decidido, e disso sempre teve medo.             Quando veio falar com ela, já havia planejado e resolvido o que faria. Não pediu sua opinião, não deixou dúvidas quanto a mudar de idéia, não perguntou se seria conveniente para ela.             - Estou com as passagens compradas e daqui a um mês embarcamos para Nova York. Não falei antes porque queria fazer surpresa. Procurei saber e tem um lugar na revista para você também. Vamos crescer juntos lá dentro...             E as palavras iam saindo de sua boca com uma sílaba atropelando a outra, pensou até que ele fosse engasgar.             Pediu calma a ele e perguntou desde quando decidia por ela? Quando o autorizara a fazer isso? E quem disse que gostaria de sair do país? E seus amigos?             - Fazemos novos e mantemos os antigos.             - O apartamento?             - Não seja boba, é alugado.             - Minha família?             - Há quanto tempo não os vê? E quem disse que não viremos ao Brasil? Claro que não vai ser logo... Não podemos perder essa chance. Fizeram-me o convite. Ganharei mais e terei maior liberdade para trabalhar.                    - E eu?             Abraçou-a com força.             - Já disse que consigo trabalho para você também.             - Não posso ir.             Afastou-a e olhou nos olhos. A voz saiu baixa, quase um gemido.             - Não seja orgulhosa. Ficaremos juntos.             Durante aquele mês não houve um dia em que deixasse de pedir para que o acompanhasse. Não conseguiria viver sem ela, mas era uma oportunidade que não poderia perder. No dia do embarque não foi ao aeroporto, não estava em casa quando ele saiu com as malas.             Ao voltar, apenas um bilhete, “espero e esperarei você. Sempre.”             Procurou na gaveta o papel amassado e releu.             Dois meses sem vê-lo e sem deixar que se comunicasse com ela.             Decidiu tomar um banho e deitar.             Ao se deparar novamente com o espelho, viu-se mais uma vez. Agora conseguiu enxergar uma mulher vestida de qualquer jeito, com unhas por fazer. Assustou-se ao observar seus olhos. Não se reconhecia neles, opacos, sem ardor.             Passou o dedo nos lábios que se abriram ao toque. Abaixou o braço e passeou as mãos em seu corpo.             Não havia porque não tentar. Era jovem ainda, e sabia tanto quanto ele que só não o acompanhou por orgulho.             Voltou o dedo aos lábios, ameaçou um sorriso. Sentia falta de rir com vontade, rir de tudo, ou de quase. Rir junto.
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Candida Albernaz

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