Posso me doar. Ou não
Cândida Albernaz
Sua indiferença faz com que minha indiferença se acentue. Continue assim, porque estarei a salvo de você. O quanto mais distante me tratar, para mais longe irei. Até que não sobre nada, a não ser o espaço vazio. E nele, mergulharei com satisfação enquanto não o preencher outra vez com algo novo.
Os olhos escuros e com ar de tristeza foi o que me chamou a atenção. Sorria pouco enquanto falava mas notei que ninguém ousava interromper. Num determinado momento, percebeu que o olhava e parou de falar fixando-se em mim. Os amigos voltaram o corpo e de um instante para o outro eu era o centro das atenções. Sorriu e abaixei o olhar.
Continuou a falar e eu a tentar me concentrar no que as amigas diziam.
Quando estava saindo, foi até minha mesa, estendeu um cartão e pediu meu telefone. Seco, rápido e sem que eu tivesse o direito a pensar. Escrevi o número em um guardanapo e entreguei. Guardou o papel no bolso da calça e “nos falamos depois”.
- O que foi isso?
- De onde você o conhece?
As amigas faziam-me perguntas, davam opiniões e riam alto. Entrei na brincadeira, falando sobre meu poder de sedução. Quando virei, você ainda estava próximo à porta nos observando. Foi a segunda vez naquela tarde que me deixou sem graça.
Fiquei com aquele cartão na bolsa e com muita vontade de ligar. Não o faria.
Uma semana depois, recebi seu telefonema, combinamos de nos encontrar num bar à noite e antes de desligar, perguntou meu nome. Carina, falei e só então percebi que havia esquecido de me identificar naquele dia.
Começamos a sair juntos. Você atencioso, apaixonado e possessivo. E eu me deixando levar. Amando devagar.
Conversávamos menos do que gostaria sobre sua família ou passado. Era como se você só existisse a partir do momento em que o conheci.
Fui me entregando cada vez mais e vendo as amigas cada vez menos.
Sempre que estava na cidade exigia que estivéssemos o tempo todo um com o outro. Viajava muito fazendo palestras em universidades, sobre as diferentes formas de se apresentar e o medo de falar em público.
Durante essas viagens, ficava em casa vendo filmes, arrumando armários e esperando. Que você voltasse ou ligasse.
Nunca pediu que não saísse ou deixasse de ver meus conhecidos. Não diretamente. Mas sua reação de mutismo quando isso acontecia me fez desistir. Se estávamos sozinhos, gostava de agradá-lo fazendo comidinhas, preparando sua bebida ou ficava apenas ouvindo-o falar sobre o presente, pouco do futuro e nada do passado.
Não percebi logo mas depois de um ano, suas viagens se tornaram mais prolongadas, as ligações menos freqüentes. Quando chegava não me procurava logo.
Começou a doer sua falta em mim, mas da mesma forma que me entreguei à nossa relação, fui aceitando sua ausência.
Tentei saber mais sobre o que viveu e não gostou. Brigamos.
Perguntei sobre suas demoras para me procurar quando chegava e não gostou. Brigamos
Falei sobre nosso distanciamento e disse que estava imaginando coisas. Brigamos.
Procurei as amigas, que me acolheram. Brigamos.
Resolvi preocupar-me só comigo novamente.
Não imagina o quão distante de você posso ir. Basta o que estou sentindo: ser ignorada. E quando estiver bem longe, não tente me buscar, porque já terei me reencontrado e certamente não precisarei mais de você.