Com ela seria diferente
Cândida Albernaz
O casaco rosa em tom forte contrastava com a pele negra. Os olhos levemente puxados tinham uma vivacidade que parecia trazer brilho a todo o resto. Na mão direita, empurrava uma bicicleta vermelha com a pintura gasta. Caminhando à beira do asfalto, ignorava os olhares que provocava e o perigo dos carros que transitavam.
A amiga devia estar impaciente. Combinara com Gislane ficar com o filho dela por algumas horas. Adorava criança e esperava ter os seus um dia. Dois. Queria um casal, mas Deus é quem sabe, é claro. Tivessem saúde, o principal.
Mal pegou o menino, a amiga saiu correndo dizendo estar atrasada.
Gislane tem dezessete anos como ela e as duas se conhecem desde criança. Sua mãe tinha fartura de leite naqueles peitos tão grandes, que pareciam dois travesseiros, e amamentou a amiga. Tia Dalva era fraca e quando a primeira filha nasceu, bateu uma tristeza nela, o leite secou. Não conseguiu tomar conta da menina.
Sua mãe, que nunca viu chorar nem umaveizinha, cuidou das duas.
Agora é ela quem ajuda com o filho da amiga. Gosta do menino de três anos, é seu afilhado. Ele é tranqüilo e não dá trabalho. A amiga sim é meio maluca e avoada. Quando começou a namorar o pai do menino, não faltou quem avisasse como ele era: mulherengo, gostava de emprenhar garotas novas, vendia uns bagulhos para os caras lá de cima, etc e etc. Não ouviu ninguém, com ela seria diferente. Não foi. Depois de dois anos de coças esporádicas e uma criança na barriga, o cara se mandou porque se encantou com outra.
Chorou a boba, sem conseguir enxergar que talvez agora tivesse a chance de consertar a vida. Claro que com um filho aos catorze anos, seria muito mais complicado. Sabia também que podia contar com ela, mesmo que não fosse grande coisa, estariam juntas.
De tia Dalva, nunca pôde esperar nada. Depois que Gislane nasceu, vieram mais dois e a cada vez ela tinha nova crise e sem saúde o suficiente para cuidar deles.
As duas conversam sempre. Gislane fala que não entende como o pai permitiu que sua mãe engravidasse tantas vezes, se não podia dar atenção aos filhos. Não ouvira falar de preservativo? Aliás, ela pensa que Gislane também não conhece.
Hoje em dia tia Dalva endoidou de vez e vive zanzando para lá e para cá, sem falar coisa com coisa. O marido é um santo, tem a maior paciência com ela. Apesar de a convivência parecer quase impossível, nunca o ouviu falar mais alto.
Como no dia em que ele estava lavando o carro, na frente da casa e ela resolveu ajudar. Entrou, pegou um balde e antes que alguém percebesse, virou o que tinha dentro em cima do carro. Na mesma hora um líquido branco escorreu até cobrir o farol do lado esquerdo. Não!!! Todos gritaram na hora, mas o estrago estava feito.
Ela explicou que jogara a tinta que estava dentro do armário, para o carro ficar clarinho. Por quê? Não gostavam de branco? Que pena, se soubesse teria tentado com outra cor.
Ele segurou em seu braço e quando notou que ela chorava, pediu que ficasse calma. Daria um jeito. Ela sentou na varanda e ficou olhando para eles.
O melhor era levar para a oficina no dia seguinte.
Se fosse o pai dela... Mas também sua mãe não era doida como a amiga.
Aliás, ela está demorando. Foi fazer uma entrevista, pois precisa trabalhar.
Pegou o afilhado no colo, e foi até o portão. Nem sinal da outra.
Ver o que Gislane tem passado serviu para decidir que não deixaria que acontecesse o mesmo com ela. Não queria saber de namorado por enquanto. Faria faculdade no próximo ano e trabalharia para isso. Sabia que o pai não podia pagar, mas arranjou um serviço em uma loja de perfumes. Seu sonho sempre foi ser professora, ensinar e tinha certeza, conseguiria realizar.
O menino dormiu. Voltou ao portão e viu Gislane descendo do ônibus. E então, conseguiu? A amiga começou a chorar. O que houve?
E ela despejou, não era entrevista para trabalho nenhum. Queria tirar a criança que esperava, mas não teve coragem.
Grávida outra vez? De quem? E o que isso importa? Sua vida tinha acabado de vez.
Por que não contou antes? Sabia que ela não deixaria que tirasse. E agora?
Choraram as duas abraçadas. Não sabia o que dizer, só apertou mais forte os braços em volta da amiga.
Com ela ia ser diferente, prometeu a si mesma.