Armas legais no submundo do crime
30/01/2022 | 12h13
Divulgação
Na última semana foi notícia a prisão de Vitor Furtado Rebollal Lopes, conhecido como Bala 40. Ele estava sendo investigado por tráfico de armas e foi apontado como fornecedor de armamento para traficantes do Comando Vermelho. O criminoso foi detido em Goiás por policiais civis do Rio de Janeiro e com ele foram encontradas 10 mil munições para fuzis e 1 mil para carabinas. Em uma residência de Vitor, no Grajaú/RJ, policiais encontraram 55 armas guardadas que tinham como destino a citada facção criminosa. Dentre o armamento, havia 26 fuzis e 21 pistolas, com valor estimado em quase R$2 milhões. Segundo os investigadores, Vitor tinha registro de CAC (colecionador, atirador e caçador) emitido pelo Exército brasileiro e adquiria legalmente armas e munições para serem revendidas para criminosos. Esse seria apenas mais um caso de desvio de armas legais para o crime, mas o que chamou atenção da polícia foi a grande quantidade de armas adquiridas e como isso não acendeu o alerta dos militares, responsáveis pela fiscalização dos CACs.

A conexão entre os mercados legal e ilegal de armas de fogo sempre foi motivo de preocupação para quem estuda as relações entre armas e violência. Seja por furtos, roubos ou desvios, o uso de armas legais no cometimento de crimes é uma realidade, que apesar de ser conhecida, ainda é muita negada por muitos. Historicamente, o país exerceu pouco controle sobre o mercado de armas de fogo e isso só mudou depois que a quantidade de homicídios por armas tornou- se uma epidemia.
Durante as décadas de 80 e 90 o crescimento de homicídios foi alarmante e o uso de armas de fogo se tornou cada vez maior. Se no início dos anos 80 cerca de 40% dos homicídios foram cometidos com uso de armas de fogo, no final da década de 90 esse percentual chegava a mais de 70%. Em 20 anos o país passou de 13.000 para 45.000 mortes anuais. As autoridades sabiam que a quantidade de armas de fogo em circulação na sociedade era grande, porém, havia a crença de que as armas utilizadas em crimes eram fruto de contrabando.

Isso mudou a partir de uma pesquisa realizada pelo movimento Viva Rio. Entre 1999 e 2001 pesquisadores tiveram permissão para fazer um cadastramento das armas apreendidas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e com a análise de cerca de 200.000 delas, descobriu-se que 75% das armas utilizadas em crimes haviam sido fabricadas no Brasil. O revólver, calibre 38, da Taurus, era a arma mais utilizada na prática desses crimes.

Diante da pressão da sociedade civil por mudanças, foi promulgado em 2003 o estatuto do desarmamento. Ao impor requisitos objetivos e subjetivos para aquisição de armas e munições, criando limites a esse comércio, a legislação tinha como objetivo a regulação do mercado. No entanto, armas de fogo são bens de longa duração, e havia muitas armas em poder da população. As novas armas seriam registradas, porém, grande parte que já estava em circulação continuava no limbo.

Além dessas armas que permaneciam ocultas para as autoridades, outra preocupação surgiu com a divulgação do relatório da CPI das Armas realizada na ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) em 2015. O relatório apontou que o número de armas furtadas ou roubadas de empresas de segurança privada, assim como de instalações militares e polícias era preocupante, cerca de 18% das armas apreendidas. Outro dado confirmado é de que 68% das armas tinham sido legais em algum momento, confirmando essa forte conexão entre os mercados legal e ilegal. Além das armas que o governo não conhecia, o poder público estava perdendo também as armas que tinha sob seu controle.

O problema não era restrito somente às armas de fogo. Outra parte relevante desse mercado permanecia nas sombras, a venda de munições. Segundo levantamento feito pelo Instituto Sou da Paz sobre munições apreendidas em locais de crime, no ano de 2014, no Rio de Janeiro, 42% delas eram fabricadas pela CBC (Companhia Brasileira de Cartuchos), principal fabricante desse tipo de material no país. O desvio de munições também se tornou um grande problema nos últimos anos e as dificuldades de rastreamento paralisaram investigações.

Segundo inquéritos policiais, munição desviada das forças de segurança foi utilizada em pelo menos dez ações criminosas na última década, resultando em 20 homicídios. Nas cenas desses crimes foram encontrados projéteis adquiridos pelas polícias civil e militar do RJ, pela secretaria de administração penitenciária, pela Polícia Federal, pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Exército. Um dos casos mais conhecidos é o da então vereadora Marielle Franco, que foi atingida por munição adquirida pela Polícia Federal e desviada. Até hoje não se sabe como nem quando aconteceu o desvio.

Apesar das evidências que o controle sobre o comércio de armas e munições não é suficiente, e de que material legalmente vendido tem sido direcionado de várias formas para o mercado ilegal, desde o início do governo Bolsonaro mais de 30 medidas foram editadas com o objetivo de diminuir ainda mais o pouco controle existente. Como meta aumentar o acesso a grandes quantidades de armas e munições, essas medidas permitiram que cidadãos possam comprar armas que antes eram restritas às forças de segurança, como, por exemplo, as pistolas calibre 45, 9mm e os fuzis semi automáticos.

Simultaneamente, o governo tem atuado deliberadamente para diminuir a capacidade do Estado de controlar os arsenais, de maneira a evitar os riscos de que eles sejam desviados para a ilegalidade e usados para o cometimento de crimes. Três portarias do Exército que previam medidas para melhorar capacidades do Estado de fiscalização dos chamados produtos controlados, que incluem armas, munições e explosivos, chegaram a ser revogadas a pedido da Presidência, tendo se tornado alvo inclusive de questionamento judicial no STF.

Enquanto isso, algumas mudanças direcionadas aos CACs (Caçadores, atiradores e colecionadores), base fiel ao bolsonarismo, chamam a atenção. A ampliação dos limites de aquisição de armas e munições para caçadores (de 12 armas e seis mil munições para 30 armas e 90 mil munições), atiradores desportivos (de 16 armas e 60 mil munições para 60 armas e 180 mil munições) e colecionadores (um exemplar de cada modelo no acervo para cinco exemplares, sem limites de armas). Verdadeiros arsenais cada vez menos controlados pelo Estado.

Desde o início do governo, o número de armas em poder da sociedade aumentou 65%. Enquanto em 2017 eram autorizadas aquisições de 43 armas por dia pela Polícia Federal, em 2020 esse número pulou para 378. Ao mesmo tempo, os recursos empregados pelo Exército vêm diminuindo. Segundo levantamento feito pelo Instituto Igarapé os valores direcionados ao Exército para operações de fiscalização de lojas de produtos controlados, de clubes de tiros e de colecionadores, caçadores e atiradores (CACs) apresentou queda nos dois primeiros anos do atual governo. Em 2020, o montante foi de R$ 3 milhões, 15% a menos do que em 2018 e 8% a menos do que em 2019. A diminuição contrasta com o período anterior ao atual governo: de 2016 a 2018, a verba cresceu 18%. Assim como o orçamento, o efetivo alocado nesses eventos também sofreu redução. Em 2020, 2.121 militares atuaram em operações de fiscalização, número 28% menor que em 2018 e 54% menor que em 2019. Enquanto isso, o número de pessoas registradas como CACs disparou.

Comparado a dezembro de 2018, período imediatamente anterior ao início do governo do presidente Jair Bolsonaro, o aumento de certificados para essas categorias é alarmante. O crescimento de certificado de registro ativos de atiradores foi de 161%, de caçadores, de 219%, e de colecionadores, de 228%. No ano de 2020 foram 567 novos registros de CAC por dia e em 2021 esse número mais que dobrou para 1.162. Essa expansão ocorre sem que haja um controle dos acervos. Apesar dos casos noticiados de desvio de armas de pessoas registradas nas categorias em questão para a criminalidade, dados do próprio Exército Brasileiro mostram que em 2020 ele só efetuou visitas de fiscalização em 2,3% do acervo de caçadores, atiradores, colecionadores, clubes e entidades de tiro que devem ser fiscalizados.

A conexão entre os mercados legal e ilegal sempre existiu e com o aumento da violência armada passou a ser uma preocupação. Mudanças legislativas foram feitas, mas mesmo assim não foi o suficiente. Com a ascensão de Bolsonaro ao poder, o que deveria ser melhorado e modernizado passou a ser desmontado. O descontrole passou a ser o objetivo e o acesso às armas de fogo foi facilitado. Qualquer norma ou projeto que tivesse o objetivo de possibilitar o rastreamento ou controle sobre armas e munições foi arquivada ou revogada.

Com a retorno dos trabalhos no Congresso Nacional voltará a ser analisado no Senado Federal o projeto de Lei 3.723/2019 que pretende alterar o estatuto do desarmamento. Principal bandeira da chamada bancada da bala. O projeto tem como principais pontos a extinção de marcação de munições e liberação de porte de armas para os CACs, que nos últimos três anos passaram de 167.390 para 491.771 pessoas com registro. O projeto permite que quase meio milhão de pessoas andem armadas pelas ruas das cidades.

O próprio presidente tem repetidamente afirmado que seu desejo era e continua a ser armar a população, como na famosa reunião ministerial de abril de 2020. Não para que se defendam de criminosos, mas para que resistam ao próprio Estado. De uma forma perversa parece que o objetivo está sendo alcançado. Mas quem vai resistir ao Estado não será a população de bem e sim os criminosos que estão se aproveitando dessas facilidades para adquirir fuzis no mercado interno. Ao invés de evitar que armas e munições sejam desviadas para o crime, o governo tem feito justamente o oposto. Traficantes e milicianos agradecem.
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As armas de Bolsonaro
16/04/2021 | 06h02
Na última segunda-feira, dia 12, a ministra do STF Rosa Weber em decisão monocrática suspendeu partes dos decretos editados pelo presidente Bolsonaro que flexibilizavam ainda mais a posse e o porte de armas em território nacional. A decisão atingiu especificamente os últimos quatro decretos publicados na véspera do carnaval. As principais partes que foram invalidadas pela ministra foram a que aumentava o limite de armas que poderiam adquiridas por um cidadão comum de quatro para seis, a que dispensava autorização do exército para que colecionadores e atiradores adquirissem armas e a que reduzia a fiscalização do Exército sobre a circulação de armas.
Desde que assumiu a presidência Jair Bolsonaro editou diversos decretos modificando a política nacional sobre armas de fogo. Eleito com um discurso sobre lei e ordem, a defesa do armamento da população, de combate à impunidade e redução da maioridade penal formaram o eixo central de suas propostas. Apesar de defender as ideias liberais durante a campanha, o discurso econômico não teve a mesma relevância para sua vitória que a agenda ligada à segurança pública e justiça criminal. Seu símbolo na campanha era uma arma e independente das soluções simplistas apresentadas, esse discurso atingiu o eleitorado amedrontado pela violência e criminalidade.
Portanto, essas tentativas de facilitar a compra de armas pela população são apenas o cumprimento de uma promessa de campanha. Ao contrário das outras promessas como combate à corrupção, privatização de empresas públicas e a não utilização de emendas e ministérios para cooptar apoios de políticos que foram deixadas para trás, a flexibilização do comércio de armas parece ser a única mantida até agora.
Porém, as justificativas usadas para a defesa do armamento da população mudaram. Até as eleições a proposta de liberar a compra de mais armas e munições pela população tinha como ideia central a defesa dos cidadãos diante da crescente violência. Apesar de não haver comprovação científica de que uma população armada é uma forma eficaz de combater a violência, essa era a ideia central dos Bolsonaros. Na verdade, as pesquisas nacionais e internacionais apontam justamente o contrário, de que o crescimento do número de armas em circulação contribui para o aumento das taxas de crimes violentos.
Com a divulgação da gravação da famosa reunião ministerial de abril de 2020 ficou claro que a questão do armamento para Bolsonaro é muito mais ideológica do que uma preocupação com a segurança da população. Segundo fala do próprio presidente, as medidas de flexibilização da legislação evitariam que a população fosse oprimida por uma ditadura. A ideia era armar as pessoas para que pudessem combater a opressão dos governantes, o que é incompreensível já que vivemos em uma democracia e até agora a única ameaça surge justamente do seu governo. O verdadeiro risco para a nossa frágil democracia é exatamente o que ele propõe, armar militantes e milicianos para que possam constranger e ameaçar opositores e críticos do atual governo.
Apesar das críticas constantes a seus arroubos autoritários, Bolsonaro afirma que irá defender a democracia, mas mesmo na questão das armas ele mostra não ter muito respeito pelos ritos democráticos. Tendo sido um político que atuou por quase três décadas no Congresso Nacional, Bolsonaro deveria saber que para modificar uma lei é necessária a discussão de uma nova legislação, seguindo todo processo legislativo na Câmara e no Senado. Porém, desde o início ele se recusou a apresentar um projeto de lei para que fosse discutido no Congresso. Sua estratégia foi fazer essas modificações através da edição de decretos e portarias, contornando os ritos legislativos. O sonho do presidente sempre foi governar por decretos, sem precisar debater ou discutir. Governos democráticos não governam por decretos, o fazem através de leis e emendas constitucionais.
Para frustação do presidente, seu desejo tem encontrado forte resistência na sociedade civil organizada e na imprensa. Grupos como Instituto Igarapé, Instituto Sou da Paz, Fórum Brasileiro de Segurança Pública dentre outros, conhecem o emaranhado de leis, decretos e portarias que regem a produção, comercialização e circulação de armas no país, e seus alertas e denúncias tem subsidiado recursos contra essas mudanças.
O procedimento é sempre o mesmo, o presidente edita um novo decreto com mudanças, a sociedade civil denuncia a ilegalidade, partidos políticos apresentam recursos ao STF e nas casas legislativas e parte das mudanças são suspensas. Foi o que aconteceu com a liminar concedida pela ministra Rosa Weber. Na decisão ela lembra de forma sutil que um governo deve governar de forma democrática e que os decretos excederam o poder de regulamentação do poder executivo adentrando atribuições do poder legislativo. Mais uma lembrança para o presidente de como deveria se portar um governante democrático, mas que não encontra eco, restando a todos aguardar os próximos passos do presidente em seu objetivo de espalhar armas por todo o país.
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A dança das cadeiras e a segurança pública
07/04/2021 | 02h08
Em uma não tão surpreendente minirreforma ministerial onde o presidente Jair Bolsonaro promoveu mudanças em seis ministérios, não passou despercebida uma das mudanças que mais chamou atenção e afeta diretamente a segurança pública, a troca do ministro da justiça. O que era para ser uma simples troca para agradar o centrão, com a substituição do ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, acabou se transformando em verdadeira “dança das cadeiras” que resvalou até no comando das Forças Armadas. André Mendonça saiu do Ministério da Justiça e Segurança Pública e entra em seu lugar Anderson Torres, delegado de polícia federal que era Secretário de Segurança Pública do Distrito Federal.
Apesar do ineditismo da nomeação de um policial como ministro da justiça, foi uma escolha que não agradou a todos. Enquanto foi parabenizado pela ADPF – Associação dos Delegados de Polícia Federal, a escolha foi recebida com certa desconfiança por outras associações de policiais como a FENAPEF, Federação Nacional de Policiais Federais. O novo ministro é amigo próximo de um dos filhos do presidente e deve defender com vigor as pautas da família como excludente de ilicitude, ampliação da posse e porte de armas e redução da maioridade penal. Nada muito diferente de seus antecessores Sérgio Moro e André Mendonça.
A diferença é que o novo ministro não é um novato na política como o ex-ministro Moro. Durante anos Anderson trabalhou no gabinete de um deputado paranaense e teve oportunidade de compreender como funcionam as engrenagens que movem a política nacional. Porém, o que poderia ser utilizado para destravar questões importantes para a segurança pública que tramitam no Congresso Nacional, provavelmente será limitado pela proximidade com a família presidencial.
As corporações policiais não estão satisfeitas com a forma que tem sido tratadas pelo governo Bolsonaro. Eleito com uma plataforma de apoio à segurança pública, o presidente tem retirado direitos das categorias e começa a enfrentar grande desgaste entre os profissionais. Principalmente devido à reforma da previdência e a PEC emergencial que congelou salários de servidores. É um desgaste que tende a piorar com o debate sobre a reforma administrativa e isso preocupa o presidente e seu entorno.
Mas o presidente ainda tem prestígio principalmente entre os praças das polícias militares e policiais civis e não deseja perder essa base. Prova disso foram os acontecimentos da semana passada onde mais uma vez Bolsonaro ensaiou tirar os comandos das policiais das mãos dos governadores dos Estados. Exemplo maior dessa tentativa foi a apresentação de um requerimento de urgência pelo deputado Major Victor Hugo (PSL-GO) para apreciação do projeto que modifica a “mobilização nacional”. O objetivo era dar ao presidente o poder de confiscar bens, intervir na produção industrial e principalmente convocar civis e militares para ações ordenadas pelo governo federal. Felizmente o requerimento não foi aprovado, mas acendeu mais um alerta sobre as pretensões autoritárias de Bolsonaro.
O movimento do deputado não foi isolado. A tropa de choque de Bolsonaro no Congresso Nacional aproveitou-se da tragédia ocorrida na Bahia, onde o policial Wesley Soares foi morto após disparar tiros de fuzil contra outros policiais, para atacar os governadores. No episódio ocorrido, Wesley, visivelmente transtornado, fez reclamações contra as medidas de restrição impostas por autoridades, o que foi apontado pelos bolsonaristas como um ato de heroísmo e resistência contra a opressão dos governadores. Foi mais um movimento com o objetivo de insuflar atos de desobediência das tropas como já haviam feito nos motins que ocorreram no Ceará ano passado. Só que dessa vez tiveram que recuar, principalmente pelo mal-estar criado com policiais que quase foram mortos na ação após horas de negociação sem sucesso.
Portanto, esse é o cenário que o novo ministro da justiça irá encontrar. Seu desafio será manter o apoio dessa base de policiais ao presidente ao mesmo tempo em que esse investe contra a qualidade de vida deles. Não será tarefa fácil, mas com sua experiência no meio político pode ser que consiga. Agora a segurança pública...isso fica para um segundo momento. O foco do governo é e sempre foi a reeleição.
 
 
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É preciso deixar a Lei de Segurança Nacional no passado
04/02/2021 | 10h05
Foto: Anderson Riedel/PR
Foto: Anderson Riedel/PR
Segundo reportagem publicada no jornal O Estado de São Paulo, entre janeiro de 2019 e junho de 2020 foram instaurados 30 inquéritos com base na Lei de Segurança Nacional (LSN). Um número recorde para período tão curto de governo. Nas administrações de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer também foram instaurados procedimentos com base na mesma legislação, mas em números menores, 11, 29, 26 e 14 respectivamente.
Outros países também dispõem de legislação específica para os crimes cometidos contra o Estado de Direito e o regime democrático, como por exemplo os EUA, com seu Patriotic Act de 2001. Porém, dentre as principais democracias do mundo, somente a legislação brasileira inclui dentre os crimes contra a democracia, a soberania nacional e as instituições, os crimes contra a honra do presidente da República.
E isso tem possibilitado que diversas pessoas como jornalistas, políticos e ativistas sejam indiciadas com fundamento na LSN. Por prever penas duras de até 30 anos para aqueles que cometem os crimes elencados na lei, essa tem sido uma ferramenta muito utilizada com o objetivo de intimidar os críticos do governo. O que parece ter sido o caso do cartunista Renato Aroeira. Em junho de 2020, o ministro da Justiça André Mendonça determinou que a Polícia Federal instaurasse inquérito com base na LSN para apurar suposto crime cometido pelo cartunista devido a uma charge que associava o presidente Bolsonaro à suástica nazista.
Em outro episódio parecido, o mesmo André Mendonça também determinou a instauração de inquérito em razão de declarações feitas por Marcelo Feller durante um programa de televisão. Advogado, Feller chamou o presidente de genocida por sua atuação durante a pandemia e pela forma como vinha desestimulando os cuidados indicados por especialistas. Porém, o caso que teve a maior repercussão foi o pedido feito para que o Ministro do STF Gilmar Mendes também fosse investigado com base na LSN. Ao afirmar que o exército brasileiro estava se associando a um genocídio, Gilmar também se tronou alvo de integrantes do poder executivo.
Sancionada em 1983, a LSN está defasada e é incompatível com a ordem democrática estabelecida desde a Constituição de 1988. Está claro que há um abuso no uso da Lei como forma de intimidação. Mesmo que sejam raros os casos em que os inquéritos instaurados subsidiem denúncias criminais, isso pouco importa, pois a finalidade parece não ser a busca de uma condenação e sim a simples intimidação de vozes críticas.
Interessante esse tipo de ação liderado por alguém que falou o que quis e nunca sofreu esse tipo de intimidação. Bolsonaro nunca foi investigado com base na LSN, mesmo quando afirmou que o presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser fuzilado por promover a privatização de empresas públicas. Mas parece que o governo atual tem se notabilizado por defender algo e fazer completamente o oposto.
O que não deve ser aceito é o uso da LSN como forma de intimidação. Isso fere de morte um dos mais importantes princípios democráticos, a liberdade de expressão e se o presidente de alguma forma se sentir ofendido, que utilize o artigo 139 do Código Penal, que trata justamente dos crimes contra a honra. Está na hora de deixar a LSN no passado.
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A Prisão de "Fuminho" e o que ela representa
20/04/2020 | 04h44
A Polícia Federal prendeu na segunda-feira (13/4) Gilberto Aparecido dos Santos, conhecido como “Fuminho”, que estava foragido desde os anos 90. A ação, que só foi possível graças a uma ampla operação de cooperação internacional, contou com a participação da Polícia federal, do Itamaraty, da DEA, do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e do Departamento de Polícia de Moçambique.
Fuminho era considerado o maior fornecedor de cocaína e o principal líder solto do PCC, que controla a quase totalidade da vida cotidiana dos presídios paulistas e tem ramificações em vários outros estados, principalmente do Norte e Nordeste do país. Ele também era um dos responsáveis pelo envio de toneladas da droga para diversos países do mundo. Além disso, a Polícia Federal alega ter informações que o associavam a um plano de resgate de Marcola, considerado o líder máximo do PCC, da Penitenciária Federal de Brasília.
Em primeiro lugar, é importante parabenizar a Polícia Federal pelo engajamento e pela capacidade de integração e cooperação, tão importantes para o sucesso de operações que envolvem crimes transnacionais. Isso mostra que apesar dos momentos turbulentos, o combate ao crime organizado continua sendo um dos pilares do governo.
Em segundo lugar, é perceptível que o PCC está sendo bastante afetado e, com isso, suas lideranças tradicionais estão perdendo poder de influência. Principalmente desde o isolamento de suas lideranças em presídios federais. Há em curso uma reconfiguração completa da cena do crime organizado no país e, neste caso, é válido destacar que isso também envolve a troca de informações entre União e Unidades da Federação. Ou seja, a cooperação internacional e a nacional são duas faces de uma mesma estratégia de combate. Não se consegue agir sozinho.
Seja como for, essa prisão é uma importante vitória e precisa ser elogiada. Ela mostra que é possível sim construirmos saídas que quebrem a lógica das facções de base prisional e das milícias. Quando o Estado une esforços de suas várias esferas e Poderes, bem como constrói canais diplomáticos sérios e confiáveis, ele é mais forte do que o medo, a insegurança e o crime organizado. Que isso sirva de exemplo para que falemos de segurança pública de modo coordenado e articulado e não nos rendamos às vaidades e projetos individuais.
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Tráfico de Pessoas
10/03/2020 | 06h11
Fonte: Politize!
Fonte: Politize!
No dia 29 de janeiro a Secretaria Nacional de Justiça, em parceria com a Polícia Federal começou a distribuir um folheto com informações sobre prevenção e combate ao tráfico de pessoas. Nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Ceará, Pará e Amazonas, quando as pessoas forem retirar seus passaportes em uma unidade da Polícia Federal, receberão o folheto, cuja tiragem inicial foi de 500 mil exemplares. Os Estados do sudeste foram escolhidos por serem os maiores emissores de passaportes, Goiás e Ceará em razão do grande número de denúncias, e os Estados do Norte em razão do grande fluxo de venezuelanos. O objetivo principal da ação é combater a subnotificação desse tipo de crime.
Mas o que é o tráfico de pessoas? Consiste no ato de comercializar, escravizar, explorar e privar vidas, ou seja, por meio de ameaça ou uso da força, a vítima perde sua liberdade a passa a ser explorada por outra pessoa. É uma das atividades criminosas que teve maior expansão nas últimas décadas e hoje é considerada o terceiro negócio ilícito mais rentável do planeta, ficando atrás comente do tráfico de drogas e armas. É uma prática que não exclui países e muito menos indivíduos, mesmo que atinja em número maior mulheres, crianças e adolescentes.
É um crime que atinge de forma muito mais grave países marcados por instabilidade política, pobreza e desigualdades econômicas. Com promessas de trabalho no exterior e altos retornos financeiros, os traficantes conseguem iludir as vítimas que muitas vezes passam por dificuldades financeiras. Segundo estudos da Organização Mundial do Trabalho, o tráfico de seres humanos movimenta 32 bilhões de dólares por ano e 79% das vítimas são destinadas à prostituição, vindo a seguir o comércio de órgão e o trabalho escravo. Segundo divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, durante o ano de 2018, foram registradas na ouvidoria 159 denúncias de tráfico de pessoas no Brasil.
Portanto a inciativa de informar as pessoas no momento da entrega do passaporte sobre como ocorre o tráfico de pessoas é uma excelente forma de alertar aquelas que podem estar sendo vítimas e não tem a consciência do fato. Essa atuação preventiva aliada às investigações que possibilitem o desmantelamento das quadrilhas é a melhor forma de combater o crescimento da atividade criminosa. Porém, como vimos, a melhoria das condições socioeconômicas também é essencial. Um país sem oportunidades, com um péssimo sistema educacional e que perpetua desigualdades sociais sempre será um “prato cheio” para os oportunistas mundo afora.
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Admirada por muitos, mas doente por dentro
21/09/2019 | 01h29
No último dia 17, terça feira, mais um policial federal cometeu suicídio, aumentando para 33 o número de policiais federais que tiraram a própria vida nos últimos dez anos. Estudioso, primeiro colocado no seu curso de formação, mestre, doutor, excelente profissional, professor universitário e integrante de um dos órgãos mais admirados pela população brasileira. Uma vida que parecia perfeita, mas que na verdade escondia mais um policial doente. O que levou José Ricardo Ventura Correa a se matar na sede regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro?
Não é uma pergunta cuja resposta seja fácil. Há vários fatores que podem ter concorrido para o trágico desfecho, mas sem medo de errar podem ser citados o péssimo ambiente de trabalho e a ausência de acompanhamento psicológico e psiquiátrico dos policiais. Em estudo realizado por psicólogas da Universidade de Brasília em 2012, a pedido do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal (Sindpol-DF), foram entrevistados centenas de policiais federais da ativa e os números encontrados apresentavam um panorama alarmante.
Segundo relatório apresentado, 50% dos entrevistados apresentaram sintomas de quadro depressivo, 43% relataram desesperança quanto ao futuro, 83% dos agentes se sentiam desvalorizados profissionalmente, 74% sentiam indignação, 46% tinham sentimentos de raiva, 39% de inutilidade, 18% sentiam medo e 21% tinham ideias suicidas. As pesquisadoras concluíram que esses dados eram resultado de um ambiente de trabalho caracterizado pelo assédio moral e terror psicológico, além de “transformar as relações interpessoais no ambiente de trabalho em fontes concretas de destruição da cidadania e dignidade humana”.
Com o objetivo de contribuir para a elaboração de medidas que melhorassem o péssimo quadro apresentado no estudo, os dirigentes do Sindpol-DF apresentaram o relatório para os gestores da Polícia Federal. Porém, segundo os sindicalistas, nada de relevante foi feito desde então, enquanto isso, vidas de policiais são perdidas e famílias destruídas. Uma polícia admirada por muitos, mas doente por dentro. Se não forem adotadas medidas urgentes, o órgão corre o risco de se transformar em um “cemitério de vivos”.
No vídeo abaixo comento o assunto.
 
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Suicídio de policiais, um tabu que deve ser debatido
02/09/2019 | 11h08
Pesquisa feita junto a policiais federais
Pesquisa feita junto a policiais federais
Essa semana chamou atenção uma pesquisa divulgada pelo GEPESP (Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção). Segundo os dados levantados pelos pesquisadores entre 2017 e 2018 mais do que dobrou o número de policiais que se mataram no país. Em 2017 ocorreram 28 casos de suicídios e no ano seguinte esse número subiu para 67, uma alta de 140%. Para esse estudo foram incluídos agentes de segurança pública das diversas polícias estaduais e federais.
Com relação aos números de 2018, o levantamento apontou que a maioria das vítimas era do sexo masculino, com idade média de 39 anos e muitos eram policiais operacionais, dos mais diversos setores. As armas de fogo foram o meio mais utilizado para o ato e metade das ocorrências aconteceu em casa. Porém os números reais podem ser muito maiores do que os encontrados nessa pesquisa.
Em uma pesquisa realizada em 2015, também pelo GEPESP, 18.007 policiais de todo o país responderam a um questionário online sobre o tema. Nas respostas 3.225 afirmaram que já haviam cogitado se matar e que 650 deles haviam tentado, sendo que quase metade não informou a ninguém sobre a tentativa. Esse quadro afeta até as instituições consideradas de maior prestígio como a Polícia Federal. Sonho de muitos que desejam ser policiais, o ambiente interno da instituição policial mais admirada do país repete o cenário encontrado nas pesquisas. Entre 1999 e 2018, 47 policiais e delegados cometeram suicídio, o que daria uma taxa de suicídios 9 vezes maior do que a média da população, segundo dados do Ministério da Saúde.
Em um ambiente de trabalho onde a busca por ajuda pode ser entendida como fraqueza, fragilidade e incompetência, os agentes de segurança pública acabam entrando em quadros de depressão e estresse pós-traumático, situações que podem ser gatilhos para o suicídio. O problema é que apesar desse diagnóstico e dos números apresentados, a questão dos suicídios entre policiais não é tratada como um tema de agenda pública, o que atrapalha a formulação de políticas públicas e institucionais para tratar dos problemas de saúde mental.
Um governo que afirma ter a segurança pública como prioridade, deve entender que os profissionais de segurança pública são pessoas, não apenas números, e, para que possam cumprir seus objetivos devem receber o apoio adequado do Estado e de suas instituições. A sociedade não quer uma polícia doente.
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Reunião do Conselho de Segurança
29/07/2019 | 11h36
Na próxima quinta-feira, dia 01 de agosto, ocorrerá em São Francisco de Itabapoana, no salão do Hotel Mineirão em Santa Clara, às 10:00 horas, a reunião do conselho comunitário estadual de Segurança Pública. Dentre os presentes estarão o policial federal Roberto Uchôa, especialista em segurança pública, pesquisador do núcleo cidade, conflito e cultura da Uenf e associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública e também o novo comandante do 8 Batalhão de Polícia Militar, Tenente-Coronel Luiz Henrique Monteiro Barbosa. 
Estarão presentes também representantes da coordenadoria do Instituto de Segurança Pública (ISP), do comandante do 6 Comando de Policiamento de Área (CPA) Coronel Wolmer, da prefeitura, da delegada titular da 147 Delegacia Ivana Morgado e do Major Daniel Frederico, do Batalhão de Polícia Rodoviária Estadual.
Segundo o presidente do conselho Romário teixeira Bernardo, estas reuniões são importantes para buscar a integração entre as comunidades e as forças de segurança pública. A entrada é livre e toda a população está convidada a participar.
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Por que não disse o último adeus?
23/07/2019 | 04h19
Os anos passam, às vezes mais rápido do que desejamos, outras vezes mais devagar do que esperamos, mas cada um de nós sempre acumula lembranças boas ou ruins, construindo nossa própria memória. Assim, deixamos passar alguns momentos que jamais poderão ser repetidos, especialmente quando temos uma profissão que nos exige tanta dedicação e disponibilidade.
Policial federal há 15 anos, uma das mais fortes lembranças está relacionada a uma missão de meses no Sul do País, fronteira com a Argentina. O trabalho consistia em fiscalizar as rotas de entrada no Brasil, e assim impedir a maciça introdução de produtos contrabandeados e combater o tráfico ilícito de entorpecentes e de armas e de munições.
Pela natureza dessas missões como a desenvolvida, não existe roteiro estático, há constante tensão no ar. Sabendo disso, um tenente do Exército pediu que nossa equipe, de policiais federais, ensinasse as artimanhas do trabalho ao grupo que ele chefiava.
Era outubro de 2010. Não era um bom dia para estar ali, mas não havia opção. Meses antes tinha visitado minha irmã, no Rio de Janeiro, adoentada. Mesmo ainda muito moça, sua passagem se aproximava. Justamente durante aquele plantão, numa barreira policial, toca o celular, número da Bahia, num horário incomum. Era meu pai, que verbalizou: sua irmã faleceu.
Foi um misto de sensações, consolar meu pai, amparar e ser amparado. A equipe percebeu a gravidade da situação, me dirigi ao coordenador do grupo, expliquei. Quinze minutos depois, retornei ao trabalho. Parar veículos, interrogar pessoas, apreender mercadorias, prender indivíduos. Não existia tempo para viver meu luto. Resignei-me, não dei o último adeus.
Passados quase nove anos desde então, a Polícia Federal teve constantemente seu nome usado por parte dos políticos para amealhar simpatia e angariar votos com a retórica do fortalecimento da Segurança Pública. Todavia, na iminência de uma Reforma da Previdência, constata-se, contraditoriamente, um tratamento discrepante entre integrantes das Forças Armadas, que têm a garantia de seus direitos, e os civis das forças de segurança pública, absurdamente discriminados.
Caso prospere tamanha aberração, teremos, numa mesma missão e comunhão de esforços, possíveis viúvas de militares protegidas, ao passo que haverá viúvas de policiais desamparadas. Impossível não se indignar. Ruim até de se perguntar: por que não disse o último adeus?  
 
Hélio de Carvalho Freitas Filho, agente de Polícia Federal e vice-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Espírito Santo
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Roberto Uchôa

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