Arthur Soffiati - Dias perfeitos
* Arthur Soffiati - Atualizado em 09/09/2026 07:56
Divulgação

Lançado em 2023, “Dias perfeitos” foi recebido com aplausos pela crítica do Brasil. O bonequinho está de pé batendo palmas para ele, o mais recente filme do consagrado cineasta alemão Wim Wenders. Infelizmente, trata-se de um filme muito bom. Não foi exibido em Campos.
Ambientando em Tóquio nos dias atuais, o roteiro enfoca um homem de meia idade, solteiro, que tem por emprego limpar banheiros públicos da cidade. Ele acorda cedo, arruma seu quarto, barbeia-se, toma um refrigerante, entra em seu automóvel e vai trabalhar. Um funcionário jovem é seu ajudante. Terminado o dia de trabalho, ele volta para casa. Frequenta restaurantes onde é conhecido. Volta para casa. Gosta de literatura. No dia seguinte, repete a rotina. Gosta de música americana, que ouve no automóvel em fita cassete.
Esse homem não tem amigos e não tem inimigos. A namorada do seu subordinado o admira. Nos intervalos para almoço, ele vai a um parque ajardinado para lanchar e tirar sempre a mesma foto da mesma árvore numa câmara analógica. Leva os negativos para revelação. Frequenta livrarias. Compra livros.
Não tem ligações familiares até que uma sobrinha adolescente foge de casa e lhe pede asilo. A mãe vai buscá-la. Ele não quer contato familiares. Enfim, nada acontece além da rotina desse homem alegre cujos dias são perfeitos.
Sinto a influência do cineasta japonês Yasugiro Ozu, que faz contraponto a Akira Kurosawa, cineasta que prima pelo épico. Ozu passou trinta anos de sua vida filmando quase o mesmo filme várias vezes. Wenders o admira. Ele esteve no Japão à procura dos lugares e de pessoas que mereceram a atenção de Ozu. Encontrou tudo mudando. Ainda conseguiu localizar um ator e um cineasta que trabalharam muito com Ozu. O cineasta conta que precisava deitar no chão para operar a câmara, pois o plano de Ozu é chamado de tatame. Bem distinto do plano americano.
Dessa viagem, resultou o filme Tokio-Gá, de 1985, em que Wenders homenageia Ozu. Quase quarenta anos depois, ele presta uma tocante homenagem a Ozu com “Dias perfeitos”. É famosa a frase de Tchekov: “Se você escreve no primeiro capítulo que existe uma espingarda encostada na parede, ela deve ser disparada em algum momento do livro. Caso isso não aconteça, não há necessidade de mencioná-la”. Nada mais estranho a Ozu, o cineasta que filma o que se repete diariamente, sem que nada de extraordinário aconteça.
Em “Dias perfeitos”, Wenders segue os passos do mestre japonês: nada de extraordinário acontece além do cotidiano.

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