Batalha das Termópilas. Segunda Guerra Médica. Ano 480 a.C. Com uma quantidade de soldados bem menor que o exército adversário, o rei espartano Leônidas I enfrenta as tropas do Império Aquemênida do atualmente chamado no ocidente pelo nome de Xerxes I (o nome dele, realmente, era Xsayar sah). Traído por Efialtes, um grego que buscava enriquecer entregando a vida daqueles que estavam a seu lado e que indicou um atalho no terreno de batalha para o inimigo (interessante como esse tipo de personagem histórico, que entrega a própria nação para fins corruptos bem particulares, parece fadado a existir para sempre na História), o exército espartano perde, mas apenas após causar grandes baixas aos persas e garantir que a população de Atenas fosse evacuada antes da chegada das tropas inimigas. A estratégia de Leônidas I foi tão brilhante que é estudada até hoje nas escolas militares de todo o mundo: cercar as tropas de Xerxes I em um desfiladeiro muito estreito, colocando soldados em posições estratégicas, compensando a inferioridade bélica com o uso do terreno a seu favor (não é à toa que um dos maiores livros de estudos geográficos já feitos se chama “A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”, do geógrafo franco-marroquino Yves Lacoste). A essa altura, se alguém já leu este texto até aqui, deve estar se perguntando “mas que raios esse papo todo tem a ver com o título desse texto”? Bem, o Irã tem uma história milenar, bem antiga mesmo. Onde hoje está o país que chamamos de Irã era a sede do Império Aquemênida. Ou seja, há mais de dois mil e quinhentos anos, parece que eles aprenderam uma lição. É aí que entra a arrogância daqueles que não gostam de escolas, atacam cientistas e acham que estudar História é “coisa de comunistas”.
Ao atacar o citado país persa, veja bem, não árabe, mas persa, o atual governo estadunidense (sei que, depois desse texto, muitos me colocarão aquela etiqueta bem simplista de esquerdista só porque eu uso termos que, para mim, são apenas tecnicamente corretos. Brasileiros são americanos, assim como argentinos, peruanos, mexicanos, canadenses, estadunidenses...) ignorou algumas coisas óbvias, como a vantagem estratégica dos que dominam o terreno, o teatro de guerra. Ao estrangular os estreitos de Ormuz e, através de seus próceres houthis no Iêmem, de Bab el Mandeb, o terrível governo iraniano criou sérios problemas aos estadunidenses e ao mundo todo através daquilo que chamamos de guerra assimétrica, ou seja, quando um exército mais fraco acaba conseguindo, através de estratégias que visam minar o oponente com perdas financeiras e desestabilização política, causar perdas que fazem a guerra não mais valer a pena para o adversário. O problema é que qualquer aluno de primeiro ano de ensino médio que teve uma aula sobre geopolítica do Oriente Médio sabia que era isso que o governo teocrático ditatorial do Irã faria. E veja como a História acabou ensinando: ao manter sob controle estratégico os estreitos por onde passam boa parte dos petroleiros do mundo, é repetida, em outra escala obviamente, a estratégia de Leônidas I.
Outra coisa que me chamou a atenção foi perceber a facilidade com que algumas pessoas aceitaram o argumento de que o atual governo estadunidense atacou o Irã para “levar a Democracia” ao país que, impossível negar, é conhecido por seus constantes ataques aos próprios cidadãos que se opõem à teocracia governante e que é citado por todas as organizações internacionais de direitos humanos como violador recorrente desses direitos. Juro que não consigo lembrar, ao longo da História, de um país que tenha se tornado uma Democracia após uma operação militar estadunidense. Ao contrário, em alguns casos, as coisas ficaram piores, como, por exemplo, a volta dos talibãs no Afeganistão. Se alguém lembra, cartas à redação.
A saída desse conflito não é nada fácil e ficou claro o papel da liderança israelense no convencimento do establishment trumpista para a realização do ataque. O que acontece no Irã é muito triste, é verdade, mas atacar o país esperando uma vitória fácil e sem consequências foi um erro estratégico tão grosseiro que deve ser lembrado nas escolas militares do mundo inteiro durante séculos, mas pelo motivo diametralmente oposto ao da Batalha das Termópilas. “Farmar” aura, fazendo exibicionismo retórico, não me parece a melhor estratégia para lidar com temas complexos. Sem dúvida a teocracia iraniana é um problema. Porém, pode se tornar um problema maior que, inclusive, já afeta a economia mundial e obrigará o mundo inteiro a fazer um “six seven” bem “farmado” para sair dessa enrascada.
P.S.: Aquele papo de “300 de Esparta” foi um exagero literário do Heródoto. Não havia apenas três centenas de soldados espartanos. Mas, como ensinou Ariano Suassuna, todo escritor tem de ser um tanto mentiroso. O recurso literário de Heródoto, que escreveu seu texto muito antes do método científico cartesiano e da existência da História como uma efetiva ciência, pode não ter sido real, mas gerou uma imagem marcante para o inconsciente coletivo e um esquete de humor bastante engraçado nas redes sociais.
*Acadêmico e atual Segundo vice-presidente da ACL.