Exibição de produtora bolsonarista gera indignação no IFF Campos
Gilberto Gomes 22/09/2022 10:55 - Atualizado em 22/09/2022 11:08
Financiada por grupos bolsonaristas, produtora Brasil Paralelo é acusada de promover revisionismo histórico, negacionismo e fake news.
Estudantes e servidores do Instituto Federal Fluminense (IFF), em Campos/RJ, foram pegos de surpresa nesta semana com a informação que foi aprovada a exibição, em evento interno da instituição, de um documentário da produtora bolsonarista "Brasil Paralelo". Trata-se de uma peça de propaganda monarquista intitulada "Brasil: a última cruzada" que busca, através de depoimentos tendenciosos, promover saudosismo e desinformação a respeito do período monárquico no Brasil.
Recentemente publiquei, neste mesmo blog, que produções da Brasil Paralelo estavam em exibição na TV Câmara de Campos, confira aqui. Embora não tenha emitido nota oficial, fui comunicado à época, pela direção da emissora, sobre o encerramento das exibições, que contavam com a participação de figuras bolsonaristas como Olavo de Carvalho e Carla Zambeli, distorcendo fatos históricos, como a escravidão.
No IFF, servidores tem se mobilizado para mostrar que a exibição do documentário durante a mostra "Saber-Fazer-Saber" não cumpre com as diretrizes estabelecidas em edital, uma vez que contraria disposições onde os projetos obrigatoriamente tenham sido desenvolvidos na instituição, por estudantes ou servidores, de natureza científica. Trata-se, portanto, de mera propaganda monarquista, uma peça de propaganda de uma produtora de extrema direita, já denunciada por diversos historiadores renomados no Brasil, com exibição articulada através de uma manobra no edital, que contou com a participação de servidor administrativo da instituição.
Outro agravante é que a mesa de "debate" chamada para após a exibição do filme contará com a participação de dois convidados externos da instituição, ligados a grupos saudosistas da monarquia, em Campos.
O jornalista campista Carlos Alberto Jr., ex-aluno da Escola Técnica Federal de Campos, e que passou por grandes veículos de imprensa nacional como a Revista Época e Correio Braziliense, classificou como "inacreditável" a aprovação da exibição de conteúdo promovido por uma produtora reconhecidamente negacionista.
Servidores e estudantes mobilizam manifestação durante a exibição do documentário no IFF, em defesa da democracia, em respeito à história do Brasil, contra o negacionismo e as fake news.
POR QUE A BRASIL PARALELO É FONTE DE DESINFORMAÇÃO?
Matéria de Guilherme Amado para o Metrópoles aponta que, no Relatório de Transparência de Assuntos Políticos, lançado pelo Google na quinta-feira (23), a Brasil Paralelo foi a maior anunciante de propaganda política nas plataformas do Google no país, investindo R$ 368 mil reais para impulsionar 647 conteúdos desde novembro do ano passado, data do início do levantamento.
Em um desses anúncios, veiculado no mês passado, o vídeo que a Brasil Paralelo pagou para o Google sugerir automaticamente a seus usuários traz, com uma narração em tom retumbante (para dar aquele “tom” de denúncia) a repetição de uma fake news, antiga e já desmentida, de que o PT teria supostamente pagado R$ 200 milhões para Marcos Valério “não falar no nome de Lula e poupar o presidente na investigação do mensalão”.
Os discursos da Brasil Paralelo estão em total alinhamento com a política conduzida por Bolsonaro em relação ao meio ambiente. Seus conteúdos citam a existência de um "terrorismo ambiental", ignoram o aquecimento global e tratam com desdém as causas indígenas.
QUEM FINANCIA?
A historiadora Mayara Balestro pesquisou por três anos a atuação da produtora e identificou entre seus financiadores o empresário Leandro Ruschel, ligado ao mercado financeiro e apoiador de grupos de extrema direita no Brasil. Ela e outros professores sofreram uma série de ameaças, assédio moral, vazamento de fotos e dados pessoais, após a publicação de suas pesquisas. Começaram a receber notificações extra-judiciais exigindo “retratação e direito de resposta”. O site The Intercept conversou com algumas dessas vítimas de ameaças e desvelou uma grande ofensiva judicial da produtora para tentar calar seus críticos e reescrever a própria história.
A estratégia da Brasil Paralelo é sempre negar sua ligação com Bolsonaro. Mas é financiada pelos setores mais retrógrados do empresariado, que também financiam o bolsonarismo no Brasil.
Ser politicamente conservador é uma escolha pessoal. Vivemos em uma democracia e cada indivíduo tem o direito de escolher o futuro que prefere para o seu país. No entanto, promover a difusão em massa de revisionismo histórico, fake news e desinformação é um atentado à própria democracia, atentado ainda mais grave quando promovido dentro de uma instituição pública federal, referência em ensino, como o Instituto Federal Fluminense.
 

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