Plínio Salgado (Reprodução: Arquivo Público do Paraná)
A fusão do DEM e do PSL, e o movimento integralista brasileiro
As coincidências e possíveis alinhamentos ideológicos da nova direita brasileira como movimentos extremistas de um passado recente.
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Na década de 30, o Brasil viu a extrema-direita nascer com o nome de “Integralismo”. Sob a liderança do jornalista Plínio Salgado, a Ação Integralista Brasileira (AIB), de inspiração fascista — com direito a encontro com Mussolini e financiamento direto do fascismo italiano e do nazismo alemão —, chegou a possuir mais 800 mil membros no país. Era um movimento ultranacionalista, autoritário, ultraconservador e fundado em preceitos religiosos fundamentalistas.
Em convenção realizada ontem (6), dois partidos de direita se fundiram, DEM e PSL, e escolheram o número do PRP (44) para a nova sigla. Recebeu o nome de “União Brasil”. Plínio Salgado fundara, em 1945, o Partido de Representação Popular — PRP. O símbolo principal do movimento integralista é o Sigma (), que significa soma — união, portanto.
Claro, coincidências. Mas há quem diga que elas não existem.
O Democratas (DEM) nasceu da ARENA, agremiação política que sustentou a sangrenta ditadura brasileira. Com a redemocratização do país em 1986, a ARENA passa a se chamar Partido da Frente Liberal (PFL), e em 2007 DEM. Já o outro partido da fusão, o PSL, foi o que levou ao poder o primeiro presidente brasileiro de extrema-direita, Jair Messias Bolsonaro.
HR SÃO PAULO/SP 09/11/2019 - INTEGRALISMO ESPECIAL DOMINCAL POLITICA - Integrantes do Movimento Integralista Brasileiro se reunem no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo. FOTO: HÉLVIO ROMERO / ESTADÃO
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Se forem considerados os números atuais desses dois partidos, a “União Brasil” (que ainda depende de aprovação do TSE para poder atuar) terá 82 deputados, passando a ser a maior bancada Câmara dos Deputados. Além de 545 prefeituras, cinco governos estaduais e oito senadores — com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de quebra.
Embora não existam elementos fascistas ou de extremismos de direita na fusão do DEM com o PSL, o novo partido já nasce com o peso da ditadura militar e com a culpa de ter sustentado ideais nacionalistas, autoritárias, tradicionalistas e fundadas em preceitos religiosas fundamentalistas no Brasil, há bem pouco tempo com a eleição de Bolsonaro. Mesmos ideais integralistas trazidos por Plínio Salgado.
Os personagens são diferentes, o momento histórico também. Mas se olharmos o lema bolsonarista “Deus, Pátria, Família”, incluído em muitas manifestações públicas do governo, vemos que não são lá tão diferentes assim. É exatamente o mesmo lema da Ação Integralista Brasileira. Em cada vírgula.
A ida da “União Brasil” ao extremismo será determinada pelo tempo, e na possibilidade de apoio à reeleição de Bolsonaro. Muitas coincidências estão postas, assim como tantos outros alinhamentos ideológicos com o integralismo, que além do Sigma, trazia como simbolismo o uniforme verde. Foram chamados de “camisas verdes” — ou “galinhas verdes” depois da revoada na Batalha da Praça da Sé, em outubro de 1934. Caso DEM e PSL marchem em apoio a um novo governo bolsonarista, eles estarão de camisas verdes. Literalmente ou não.