Uma crônica de natal
Cândida Albernaz
Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel.
Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza.
Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes.
Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos.
Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância. Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão.
No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou:
- Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo.
Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta.
Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo.
Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija.
Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também.
De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco.
Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios.
Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós.
- Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto.
Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum.
- Podem descer. Está tudo aqui.
E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse.
Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café.
O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela.
Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.
Uma crônica de natal
Uma crônica de natal
Cândida Albernaz
Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel.
Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza.
Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes.
Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos.
Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância. Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão.
No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou:
- Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo.
Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta.
Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo.
Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija.
Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também.
De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco.
Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios.
Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós.
- Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto.
Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum.
- Podem descer. Está tudo aqui.
E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse.
Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café.
O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela.
Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.
29/12/2016 | 08h45
Uma crônica de natal
Cândida Albernaz
Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel.
Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza.
Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes.
Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos.
Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância. Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão.
No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou:
- Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo.
Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta.
Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo.
Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija.
Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também.
De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco.
Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios.
Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós.
- Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto.
Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum.
- Podem descer. Está tudo aqui.
E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse.
Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café.
O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela.
Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.
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Sobraram as lembranças
Sobraram as lembranças
Cândida Albernaz
A caminho de casa parou num bar e no balcão pediu uma cachaça. O copo pequeno encheu-se do líquido amarelo que tomou de um só gole, fazendo careta. Já era o terceiro em que entrava desde que saíra do serviço.
Deixou o carro no estacionamento do prédio onde trabalhava. Pegaria no dia seguinte. Precisava caminhar e pensar. Entre uma coisa e outra tomava uma cachacinha para relaxar.
Estava tenso há alguns dias e sentia dor na altura do pescoço. Tinha a sensação de um torcicolo a qualquer instante.
Quando entrava em casa, Rita já não falava nada. Beijava-o e observava.
Nas últimas semanas, ela tentava conversar e saber o que estava acontecendo, mas ele não queria diálogo, então desistiu.
Os filhos o cumprimentavam e depois corriam para o quarto onde brincavam e viam algum programa na televisão até a hora de dormir. Acreditava que Rita os orientou a agir assim, já que mesmo com eles não tinha paciência alguma. Quase bateu no mais velho dia desses. Teria sido a primeira vez.
Sempre teve orgulho de ser bom pai, estar com eles nas horas de folga e conversar quando preciso. Isto era antes. Agora notava em seus olhos decepção e até medo. Ficava triste, mas não via chance de mudança. Não no momento.
Resolveu parar de novo para tomar mais uma. Pelo menos chegaria a casa e apagaria. Não precisaria ver a interrogação no rosto de Rita. Porque boba ela não era e sabia que algo sério devia estar acontecendo. Apenas parou de perguntar. Esse silêncio dela acabava com ele, ao mesmo tempo em que dava alívio por não precisar explicar nada.
Rita e ele se conheceram na faculdade. Não era alta e tinha um cabelo preto e cacheado que chamou sua atenção. De lá para cá, sempre estiveram juntos.
Quando engravidou do primeiro filho, estavam casados há cinco anos, com a vida estável e querendo muito aquela criança. O caçula também foi programado. Ele recebera um aumento considerável e passara para o setor financeiro da firma de material de construção onde trabalhava.
Sempre foi eficiente, organizado. Os pagamentos e as contas da firma estavam na sua mão e de outros dois funcionários.
Os problemas começaram a um mês, desde que chegou uma empresa de auditoria. O patrão achava que havia algo errado. Parece que os auditores chegaram a uma conclusão e amanhã seria a reunião em que falariam sobre isso. Marcaram para o início da manhã com os dois colegas e em seguida conversariam com ele.
Não precisava que dissessem o que estava acontecendo. Há três dias o olhavam enviesados e discutiam em voz baixa com o patrão.
Amanhã teria que enfrentá-los, quando mostrassem a duplicidade de algumas duplicatas que forjou. Muitas duplicatas. Uma quantia de dinheiro considerável. O fechamento do livro caixa era raramente conferido pelo patrão. Ele era de sua confiança. Isso facilitava em muito sua ação. Os dois patetas que trabalhavam com ele não percebiam nada. Fora fácil enganá-los.
Não teria como fugir. Se fosse mandado embora com a responsabilidade da devolução do dinheiro, já ia ser complicado, porque não tinha de onde tirar. O pior é que talvez saísse de lá preso.
Teria que encarar a mulher e os filhos. Isso doeria mais do que tudo. Que vergonha! Se pudesse enterrava a cabeça e o corpo também em algum buraco de onde não precisasse sair mais.
Os pés estavam perdendo o comando que deveria ter sobre eles. Pareciam dançar de um lado para o outro na rua, em um samba que só ele escutava.
Perdeu a conta do tanto que bebeu. Começou a rir lembrando-se do dia em que Rita dançou para ele, enquanto tirava peça por peça da roupa que vestia. Viu num filme e quis fazer igual.
Lembrou-se de quando ele e os filhos jogavam futebol e o mais velho fez seu primeiro gol. O sorriso que dominou seu rosto foi uma das coisas que mais trouxe felicidade. Nem sabia ser possível uma sensação tão plena.
Pensou em fingir que não estava acontecendo nada, puxaria os três para conversar e os abraçaria com força. Imaginava as caras de surpresa. Olhariam entre si e pensariam que voltara a ser o mesmo de antes.
O carro que vinha não percebeu que ele ia atravessar com o sinal fechado para pedestres. Acertou-o em cheio, fazendo com que seu corpo rolasse por cima dele e batesse com a cabeça no asfalto ao cair.
De qualquer forma, ainda sorria com as lembranças quando curiosos chegaram perto e o olharam.
15/12/2016 | 02h42
Sobraram as lembranças
Cândida Albernaz
A caminho de casa parou num bar e no balcão pediu uma cachaça. O copo pequeno encheu-se do líquido amarelo que tomou de um só gole, fazendo careta. Já era o terceiro em que entrava desde que saíra do serviço.
Deixou o carro no estacionamento do prédio onde trabalhava. Pegaria no dia seguinte. Precisava caminhar e pensar. Entre uma coisa e outra tomava uma cachacinha para relaxar.
Estava tenso há alguns dias e sentia dor na altura do pescoço. Tinha a sensação de um torcicolo a qualquer instante.
Quando entrava em casa, Rita já não falava nada. Beijava-o e observava.
Nas últimas semanas, ela tentava conversar e saber o que estava acontecendo, mas ele não queria diálogo, então desistiu.
Os filhos o cumprimentavam e depois corriam para o quarto onde brincavam e viam algum programa na televisão até a hora de dormir. Acreditava que Rita os orientou a agir assim, já que mesmo com eles não tinha paciência alguma. Quase bateu no mais velho dia desses. Teria sido a primeira vez.
Sempre teve orgulho de ser bom pai, estar com eles nas horas de folga e conversar quando preciso. Isto era antes. Agora notava em seus olhos decepção e até medo. Ficava triste, mas não via chance de mudança. Não no momento.
Resolveu parar de novo para tomar mais uma. Pelo menos chegaria a casa e apagaria. Não precisaria ver a interrogação no rosto de Rita. Porque boba ela não era e sabia que algo sério devia estar acontecendo. Apenas parou de perguntar. Esse silêncio dela acabava com ele, ao mesmo tempo em que dava alívio por não precisar explicar nada.
Rita e ele se conheceram na faculdade. Não era alta e tinha um cabelo preto e cacheado que chamou sua atenção. De lá para cá, sempre estiveram juntos.
Quando engravidou do primeiro filho, estavam casados há cinco anos, com a vida estável e querendo muito aquela criança. O caçula também foi programado. Ele recebera um aumento considerável e passara para o setor financeiro da firma de material de construção onde trabalhava.
Sempre foi eficiente, organizado. Os pagamentos e as contas da firma estavam na sua mão e de outros dois funcionários.
Os problemas começaram a um mês, desde que chegou uma empresa de auditoria. O patrão achava que havia algo errado. Parece que os auditores chegaram a uma conclusão e amanhã seria a reunião em que falariam sobre isso. Marcaram para o início da manhã com os dois colegas e em seguida conversariam com ele.
Não precisava que dissessem o que estava acontecendo. Há três dias o olhavam enviesados e discutiam em voz baixa com o patrão.
Amanhã teria que enfrentá-los, quando mostrassem a duplicidade de algumas duplicatas que forjou. Muitas duplicatas. Uma quantia de dinheiro considerável. O fechamento do livro caixa era raramente conferido pelo patrão. Ele era de sua confiança. Isso facilitava em muito sua ação. Os dois patetas que trabalhavam com ele não percebiam nada. Fora fácil enganá-los.
Não teria como fugir. Se fosse mandado embora com a responsabilidade da devolução do dinheiro, já ia ser complicado, porque não tinha de onde tirar. O pior é que talvez saísse de lá preso.
Teria que encarar a mulher e os filhos. Isso doeria mais do que tudo. Que vergonha! Se pudesse enterrava a cabeça e o corpo também em algum buraco de onde não precisasse sair mais.
Os pés estavam perdendo o comando que deveria ter sobre eles. Pareciam dançar de um lado para o outro na rua, em um samba que só ele escutava.
Perdeu a conta do tanto que bebeu. Começou a rir lembrando-se do dia em que Rita dançou para ele, enquanto tirava peça por peça da roupa que vestia. Viu num filme e quis fazer igual.
Lembrou-se de quando ele e os filhos jogavam futebol e o mais velho fez seu primeiro gol. O sorriso que dominou seu rosto foi uma das coisas que mais trouxe felicidade. Nem sabia ser possível uma sensação tão plena.
Pensou em fingir que não estava acontecendo nada, puxaria os três para conversar e os abraçaria com força. Imaginava as caras de surpresa. Olhariam entre si e pensariam que voltara a ser o mesmo de antes.
O carro que vinha não percebeu que ele ia atravessar com o sinal fechado para pedestres. Acertou-o em cheio, fazendo com que seu corpo rolasse por cima dele e batesse com a cabeça no asfalto ao cair.
De qualquer forma, ainda sorria com as lembranças quando curiosos chegaram perto e o olharam.
Consulta para quem
Consulta para quem?
Cândida Albernaz
Os dois chegaram juntos e isso só era perceptível porque enquanto um se dirigia para a cadeira e sentava, o outro ia direto para a secretária atrás do balcão entregando o cartão do convênio e falando:
- Meu marido tem hora marcada com o doutor. Ele já chegou?
Com a resposta afirmativa e após passar todos os dados do marido que permanecia sentado folheando uma revista, pegou ela também uma e começou a ler um artigo.
- Quando chegarmos lá dentro vê se não fica falando por mim. Não interessa ao médico o que você pensa, disse ele.
Ela continuou lendo. O conhecia bem. Era muitos e muitos anos de casados, fora a eternidade do namoro. Sabia quando queria iniciar uma discussão.
- Está se fazendo de surda, mas sei que me ouviu. Não adianta dizer que bebo muito. Isto é um ponto de vista seu. Bebo pouco, só para relaxar.
Virou a página da revista e contou até dez. tinha pleno conhecimento onde esta conversa dele iria parar.
- Ah! Outra coisa: quando ele quiser saber se como doce em excesso, sal ou gordura, não se meta a descrever a alimentação saudável que tenta me empurrar todo dia e que segundo você, não permito. Não vá começar com sua ladainha.
- Senhorita, por favor, ainda vai demorar muito para o doutor atendê-lo?
A secretária, que não tinha como não ouvir o monólogo do paciente, apressou-se a sorrir e responder que não, logo seriam chamados para entrar.
Ela deixou a revista na mesinha ao lado e pegou sua agenda. Aproveitaria para fazer algumas anotações.
Ele levantou-se para beber água e na volta parou na janela de onde se viam prédios e mais prédios.
- Olhe esta cidade! Quase não tem árvores, estão acabando com tudo e você lá em casa não cuida direito do jardim que eu mandei plantar. Está deixando tudo morrer esturricado...
O doutor abriu a porta despedindo-se do senhor que havia sido consultado e cumprimentando o casal pediu que entrassem.
Dentro da sala iniciou as perguntas de praxe:
- E então, o que o traz aqui?
- Rotina. Vim fazer um check up para ver se continuo em forma. Sabe como é, a idade vem chegando, os ossos doem, diminui um pouco a disposição... Explicava e sorria.
- Vamos dar uma olhada e se preciso, pedimos alguns exames.
- Veja doutor, gostaria de caminhar, viajar. Mas mal tenho tempo. Três filhos e mulher gastando muito. Preciso trabalhar e não me sobra tempo.
A esposa a seu lado, colocou os dois dedos indicadores apertando o interior dos olhos e abaixou a cabeça.
- Como é sua alimentação?
- Como de tudo. Pouco, é claro.
- Gordura, sal, doce. Controla bem?
- Com certeza. Não deixo de comer, mas com moderação.
- Hum! A mulher resmungou ao lado.
- Acho que sua esposa não concorda com o senhor.
- Ela é assim mesmo. Implica com tudo o que faço, como ou bebo. Quando a pessoa é insatisfeita consigo mesma, age assim.
A mulher levantou-se. Parecia uma bomba prestes a explodir
- Mentira! Tudo mentira. Ele se excede no sal, como fritura quase todos os dias e bebe até dizer chega! é ansioso, irritado, discute com todos e não aceita a opinião de ninguém. O senhor tem que dar um jeito nele.
Sentou-se novamente e ficou em silêncio. Quando olhou o médico, percebeu o que estava pensando. Talvez fosse ela quem necessitasse de ajuda.
O marido abaixou a cabeça colocando as mãos entre as pernas.
- Está entendendo o que digo? Ela é desse jeito, mal me deixa falar. Quanto mais ter sossego! Todo dia é discussão atrás de discussão. Doutor, sabe quando foi a última vez que ela disse que me amava? Acho que nunca.
- Como é que é?! Esta se fazendo de pobre coitado! Nunca me disse isso também. Ele é quem procura discutir todos os dias. E quando bebe então?
- Quase não bebo doutro. Só nos fins de semana porque ninguém é de ferro.
- Mas também é sexta, sábado e domingo bêbado. De segunda a quinta ele se controla porque caso contrário perde o emprego.
- Procure se acalmar. Talvez fosse melhor que eu desse uma olhada na senhora também. Venha, deite-se aqui para que eu possa examiná-la.
Deitou-se na maca e notou a troca de olhares cheios de cumplicidade entre os dois. Quando percebia, já havia entrado no jogo dele e a louca era ela.
Não abriu mais a boca. Quando acabou, ele pediu que o marido deitasse e procedeu com o exame, agora nele. Viu que o marido mantinha no rosto uma expressão compreensiva para com ela.
Na saída, depois do exame clínico, o doutor acompanhou-os a porta.
- O senhor me parece bem. Vamos aguardar o resultado dos exames que pedi. A senhora, não se esqueça de tomar o remédio de pressão que lhe passei e aceite minha sugestão de procurar um terapeuta. Vai ajudá-la a ser menos tensa.
Saíram os dois juntos. Na rua, ele coloca a mão em seu ombro e com cinismo diz:
- Viu querida, não disse que não tinha nada? Basta que fique sempre calminha e não se meta no que como ou bebo. Não entendo porque fica tão tensa, afinal sou um bom marido para você.
O olhar que ela lançou era de morte, mas ficou quieta, sabia onde este comentário poderia dar.
10/11/2016 | 04h37
Consulta para quem?
Cândida Albernaz
Os dois chegaram juntos e isso só era perceptível porque enquanto um se dirigia para a cadeira e sentava, o outro ia direto para a secretária atrás do balcão entregando o cartão do convênio e falando:
- Meu marido tem hora marcada com o doutor. Ele já chegou?
Com a resposta afirmativa e após passar todos os dados do marido que permanecia sentado folheando uma revista, pegou ela também uma e começou a ler um artigo.
- Quando chegarmos lá dentro vê se não fica falando por mim. Não interessa ao médico o que você pensa, disse ele.
Ela continuou lendo. O conhecia bem. Era muitos e muitos anos de casados, fora a eternidade do namoro. Sabia quando queria iniciar uma discussão.
- Está se fazendo de surda, mas sei que me ouviu. Não adianta dizer que bebo muito. Isto é um ponto de vista seu. Bebo pouco, só para relaxar.
Virou a página da revista e contou até dez. tinha pleno conhecimento onde esta conversa dele iria parar.
- Ah! Outra coisa: quando ele quiser saber se como doce em excesso, sal ou gordura, não se meta a descrever a alimentação saudável que tenta me empurrar todo dia e que segundo você, não permito. Não vá começar com sua ladainha.
- Senhorita, por favor, ainda vai demorar muito para o doutor atendê-lo?
A secretária, que não tinha como não ouvir o monólogo do paciente, apressou-se a sorrir e responder que não, logo seriam chamados para entrar.
Ela deixou a revista na mesinha ao lado e pegou sua agenda. Aproveitaria para fazer algumas anotações.
Ele levantou-se para beber água e na volta parou na janela de onde se viam prédios e mais prédios.
- Olhe esta cidade! Quase não tem árvores, estão acabando com tudo e você lá em casa não cuida direito do jardim que eu mandei plantar. Está deixando tudo morrer esturricado...
O doutor abriu a porta despedindo-se do senhor que havia sido consultado e cumprimentando o casal pediu que entrassem.
Dentro da sala iniciou as perguntas de praxe:
- E então, o que o traz aqui?
- Rotina. Vim fazer um check up para ver se continuo em forma. Sabe como é, a idade vem chegando, os ossos doem, diminui um pouco a disposição... Explicava e sorria.
- Vamos dar uma olhada e se preciso, pedimos alguns exames.
- Veja doutor, gostaria de caminhar, viajar. Mas mal tenho tempo. Três filhos e mulher gastando muito. Preciso trabalhar e não me sobra tempo.
A esposa a seu lado, colocou os dois dedos indicadores apertando o interior dos olhos e abaixou a cabeça.
- Como é sua alimentação?
- Como de tudo. Pouco, é claro.
- Gordura, sal, doce. Controla bem?
- Com certeza. Não deixo de comer, mas com moderação.
- Hum! A mulher resmungou ao lado.
- Acho que sua esposa não concorda com o senhor.
- Ela é assim mesmo. Implica com tudo o que faço, como ou bebo. Quando a pessoa é insatisfeita consigo mesma, age assim.
A mulher levantou-se. Parecia uma bomba prestes a explodir
- Mentira! Tudo mentira. Ele se excede no sal, como fritura quase todos os dias e bebe até dizer chega! é ansioso, irritado, discute com todos e não aceita a opinião de ninguém. O senhor tem que dar um jeito nele.
Sentou-se novamente e ficou em silêncio. Quando olhou o médico, percebeu o que estava pensando. Talvez fosse ela quem necessitasse de ajuda.
O marido abaixou a cabeça colocando as mãos entre as pernas.
- Está entendendo o que digo? Ela é desse jeito, mal me deixa falar. Quanto mais ter sossego! Todo dia é discussão atrás de discussão. Doutor, sabe quando foi a última vez que ela disse que me amava? Acho que nunca.
- Como é que é?! Esta se fazendo de pobre coitado! Nunca me disse isso também. Ele é quem procura discutir todos os dias. E quando bebe então?
- Quase não bebo doutro. Só nos fins de semana porque ninguém é de ferro.
- Mas também é sexta, sábado e domingo bêbado. De segunda a quinta ele se controla porque caso contrário perde o emprego.
- Procure se acalmar. Talvez fosse melhor que eu desse uma olhada na senhora também. Venha, deite-se aqui para que eu possa examiná-la.
Deitou-se na maca e notou a troca de olhares cheios de cumplicidade entre os dois. Quando percebia, já havia entrado no jogo dele e a louca era ela.
Não abriu mais a boca. Quando acabou, ele pediu que o marido deitasse e procedeu com o exame, agora nele. Viu que o marido mantinha no rosto uma expressão compreensiva para com ela.
Na saída, depois do exame clínico, o doutor acompanhou-os a porta.
- O senhor me parece bem. Vamos aguardar o resultado dos exames que pedi. A senhora, não se esqueça de tomar o remédio de pressão que lhe passei e aceite minha sugestão de procurar um terapeuta. Vai ajudá-la a ser menos tensa.
Saíram os dois juntos. Na rua, ele coloca a mão em seu ombro e com cinismo diz:
- Viu querida, não disse que não tinha nada? Basta que fique sempre calminha e não se meta no que como ou bebo. Não entendo porque fica tão tensa, afinal sou um bom marido para você.
O olhar que ela lançou era de morte, mas ficou quieta, sabia onde este comentário poderia dar.
A gente não nasceu para isso
A gente não nasceu para isso
Cândida Albernaz
Atrasei dona Marta, mas não foi culpa minha.
Lembra quando falei com a senhora sobre a Zildinha? Pois é, ontem quando cheguei do trabalho ela estava lá em casa me esperando c om a cara toda quebrada. O desgraçado do marido sentou a mão nela outra vez. Aliás, a mão e os pés porque chutou um bocado e ainda bateu com a cabeça da pobre na parede. E sei dos detalhes, não porque ela se lembre, mas porque o filho de dez anos assistiu a cena e contou tudo. Esse garoto já viu cada coisa.
Lá fui eu ao pronto-socorro. Foi medicada e quando quiseram saber como ela havia se machucado tanto, nem tive tempo de abrir a boca:
- Foi um carro que me atropelou. Atropelou e fugiu.
Olhei para a cara dela com ódio. Não aprende, não adianta. Volta para casa e quando as feridas estiverem quase cicatrizadas, leva uma nova surra.
Dá para entender uma coisa dessas? Não, nem precisa responder dona Marta, que eu sei que a senhora concorda comigo. Então ela apanha, fica um tempão com o corpo doído e não coloca o sujeito em cana?
Avisei que não ajudo mais. É meu cunhado, irmão do meu marido, mas queria que fosse preso. Não se faz o que ele fez com ela nem com um bicho, ainda mais numa mulher que deu um filho para ele.
Precisa ver como cuida da família. Não tem hora nem cansaço para ela. Trabalhadeira e cozinha que é um primor.
Desculpe dona Marta, eu desabafar assim, mas foi por esse motivo que cheguei tarde hoje. Quase não dormi.
Quando saímos do hospital, passava de uma hora da manhã. Insisti para que ficasse comigo, mas não quis. Disse que ele estaria arrependido e não a machucaria. Ela conhece bem as manhas do filho da puta que tem em casa. Desculpe pelo palavrão. Eu é que não conheço mais a Zildinha. Era uma mulher tão bonita e de opinião. Agora está um trapo que dá pena até de olhar.
Estou falando demais, não é? Nem pôde dizer o que quer que eu prepare para o almoço. Meu marido vive repetindo que precisa de uma chave que me desligue quando começo.
O que é isso? Está chorando? Não fique assim. Eu sei que não está acostumada com esses assuntos, mas é que onde moro, acontece cada uma... Só com tempo para contar.
A senhora vive longe desse mundo e é melhor assim, porque a gente não nasceu para assistir essas coisas.
Dona Marta, não chore. Fico sem graça por ter falado tanto. Ainda bem que seu marido foi para o trabalho. Podia até zangar-se comigo por fazer a mulher dele sofrer.
O que é isso, dona Marta? Só agora estou reparando como seu olho está inchado. E essa mancha roxa no braço? Dona Marta, a senhora...
20/10/2016 | 06h21
A gente não nasceu para isso
Cândida Albernaz
Atrasei dona Marta, mas não foi culpa minha.
Lembra quando falei com a senhora sobre a Zildinha? Pois é, ontem quando cheguei do trabalho ela estava lá em casa me esperando c om a cara toda quebrada. O desgraçado do marido sentou a mão nela outra vez. Aliás, a mão e os pés porque chutou um bocado e ainda bateu com a cabeça da pobre na parede. E sei dos detalhes, não porque ela se lembre, mas porque o filho de dez anos assistiu a cena e contou tudo. Esse garoto já viu cada coisa.
Lá fui eu ao pronto-socorro. Foi medicada e quando quiseram saber como ela havia se machucado tanto, nem tive tempo de abrir a boca:
- Foi um carro que me atropelou. Atropelou e fugiu.
Olhei para a cara dela com ódio. Não aprende, não adianta. Volta para casa e quando as feridas estiverem quase cicatrizadas, leva uma nova surra.
Dá para entender uma coisa dessas? Não, nem precisa responder dona Marta, que eu sei que a senhora concorda comigo. Então ela apanha, fica um tempão com o corpo doído e não coloca o sujeito em cana?
Avisei que não ajudo mais. É meu cunhado, irmão do meu marido, mas queria que fosse preso. Não se faz o que ele fez com ela nem com um bicho, ainda mais numa mulher que deu um filho para ele.
Precisa ver como cuida da família. Não tem hora nem cansaço para ela. Trabalhadeira e cozinha que é um primor.
Desculpe dona Marta, eu desabafar assim, mas foi por esse motivo que cheguei tarde hoje. Quase não dormi.
Quando saímos do hospital, passava de uma hora da manhã. Insisti para que ficasse comigo, mas não quis. Disse que ele estaria arrependido e não a machucaria. Ela conhece bem as manhas do filho da puta que tem em casa. Desculpe pelo palavrão. Eu é que não conheço mais a Zildinha. Era uma mulher tão bonita e de opinião. Agora está um trapo que dá pena até de olhar.
Estou falando demais, não é? Nem pôde dizer o que quer que eu prepare para o almoço. Meu marido vive repetindo que precisa de uma chave que me desligue quando começo.
O que é isso? Está chorando? Não fique assim. Eu sei que não está acostumada com esses assuntos, mas é que onde moro, acontece cada uma... Só com tempo para contar.
A senhora vive longe desse mundo e é melhor assim, porque a gente não nasceu para assistir essas coisas.
Dona Marta, não chore. Fico sem graça por ter falado tanto. Ainda bem que seu marido foi para o trabalho. Podia até zangar-se comigo por fazer a mulher dele sofrer.
O que é isso, dona Marta? Só agora estou reparando como seu olho está inchado. E essa mancha roxa no braço? Dona Marta, a senhora...
Podia ser pior
Podia ser pior
Cândida Albernaz
E essa fila que não anda? Vou chegar atrasada no serviço e a patroa vai encher o saco. O Nandinho está com febre outra vez e não dormi a noite inteira. Vou precisar ir com ele para a casa de dona Márcia. Já sei como será. Vai dizer que não tem problema, coitadinho, mas quando o patrão chegar, não deixe que o menino faça barulho. Sabe como ele é…
Sei sim. Sei que impedir que meu filho, com dor de ouvido e febre não faça nenhum barulho, é impossível. E se ele chorar? Tem só três anos. Nós que somos adultos quando sentimos alguma coisa botamos a boca no mundo e choramos… Imagina uma criança.
Eu devia ir para casa quando saísse daqui, mas dona Márcia vai o-fe-re-cer, como ela gosta de dizer, um jantar esta noite para os amigos. Prometi que faria a comida. Ela falou que vai me dar um dinheirinho por fora. Estou precisando, não posso recusar, principalmente agora que minha mãe foi morar com a gente. Estava na casa do meu irmão, mas a nora começou a implicar porque ela dormia na sala e com isso a desarrumava.
Não quer ter trabalho aquela lá. Também não é mãe dela, não tem obrigação. A diferença é que minha cunhada tem uma pessoa que cozinha, limpa, o mesmo que eu faço na casa de dona Márcia. Meu irmão vive com mais fartura do que eu. A mulher dele colocou mamãe para dormir na sala de propósito. Bem que podia ficar no quartinho onde ela guarda uns pratos e panos que pinta. Diz que é artista e que precisa de um espaço só para ela.
Pois sim! Nunca vendeu um daqueles pratos ou panos. Já vi vários iguais. Copia tudo de umas revistas que compra. Se tivesse talento, e ficassem bonitos, mas sai tudo mal feito. Outro dia me levou até lá como se fosse um santuário, e mostrou o que estava fazendo. Falei que era bonitinho. Pensa que gostou? Que nada! Disse que bonitinho não era adjetivo para o trabalho dela. E eu lembro o que é adjetivo? Fiz escola faz tanto tempo. Hoje só sei o que a vida me ensina.
A verdade é que enfiou mãe na sala com tanto espaço sobrando para uma cama naquele lugar. Claro que ela não conseguia dormir direito, e quando a porta da rua abria, entrava um vento que fazia com que gripasse.
Trouxe para minha casa. Cuido melhor dela e não fico devendo nada para ninguém. Cunhada artista! Dá até vontade de rir.
Está chegando a minha vez. Nandinho continua quente. Dormiu um pouquinho, sinal de que a dor diminuiu. Não gosto de ver meu filho sofrer. Tão engraçado quando está com saúde. Eu e o pai ficamos iguais a uns bobos com ele, rimos de qualquer gracinha que faz.
Essa noite ele quis ajudar. Falou para eu dormir que ele olhava nosso filho. Não deixei. Sabe por quê? Ele trabalha o dia inteiro também, como eu, mas mexe com máquina. Um amigo perdeu um dedo dia desses. Falta de atenção. Não quero que meu marido se arrisque.
Bom pai, ele. Vivemos uma vida apertada, mas não falta o principal.
Homem trabalhador, responsável. Um pouco sério demais, mas não dá para ter tudo nessa vida.
Quando falei que mãe teria que viver com a gente, olhou nos meus olhos:
- Trás para cá, damos um jeito.
É isso que admiro nele. A segurança que me dá. Está sempre pronto para proteger a mim e a nosso filho, nunca deixei de contar com ele.
Enfim vamos ser atendidos por um médico. Espero que esse tenha paciência para ouvir sobre o que meu filho sente, porque tem uns, que não dão tempo de explicar nada. Mal tocam na criança, olham rapidamente a garganta e receitam. Não gosto desses, nem sei por que estão ali. Deviam trabalhar em outra profissão.
Acho que vai dar tempo de preparar tudo para o jantar. Coloco o Nandinho num colchonete lá atrás e faço meu serviço. Espero que ele não chore, não é do meu feitio incomodar os outros. Menos ainda ser chamada a atenção. Quero ver quanto dona Márcia vai me pagar.
Chamaram meu número:
- Boa tarde doutor. Meu filho está com febre há dois dias…
22/09/2016 | 12h55
Podia ser pior
Cândida Albernaz
E essa fila que não anda? Vou chegar atrasada no serviço e a patroa vai encher o saco. O Nandinho está com febre outra vez e não dormi a noite inteira. Vou precisar ir com ele para a casa de dona Márcia. Já sei como será. Vai dizer que não tem problema, coitadinho, mas quando o patrão chegar, não deixe que o menino faça barulho. Sabe como ele é…
Sei sim. Sei que impedir que meu filho, com dor de ouvido e febre não faça nenhum barulho, é impossível. E se ele chorar? Tem só três anos. Nós que somos adultos quando sentimos alguma coisa botamos a boca no mundo e choramos… Imagina uma criança.
Eu devia ir para casa quando saísse daqui, mas dona Márcia vai o-fe-re-cer, como ela gosta de dizer, um jantar esta noite para os amigos. Prometi que faria a comida. Ela falou que vai me dar um dinheirinho por fora. Estou precisando, não posso recusar, principalmente agora que minha mãe foi morar com a gente. Estava na casa do meu irmão, mas a nora começou a implicar porque ela dormia na sala e com isso a desarrumava.
Não quer ter trabalho aquela lá. Também não é mãe dela, não tem obrigação. A diferença é que minha cunhada tem uma pessoa que cozinha, limpa, o mesmo que eu faço na casa de dona Márcia. Meu irmão vive com mais fartura do que eu. A mulher dele colocou mamãe para dormir na sala de propósito. Bem que podia ficar no quartinho onde ela guarda uns pratos e panos que pinta. Diz que é artista e que precisa de um espaço só para ela.
Pois sim! Nunca vendeu um daqueles pratos ou panos. Já vi vários iguais. Copia tudo de umas revistas que compra. Se tivesse talento, e ficassem bonitos, mas sai tudo mal feito. Outro dia me levou até lá como se fosse um santuário, e mostrou o que estava fazendo. Falei que era bonitinho. Pensa que gostou? Que nada! Disse que bonitinho não era adjetivo para o trabalho dela. E eu lembro o que é adjetivo? Fiz escola faz tanto tempo. Hoje só sei o que a vida me ensina.
A verdade é que enfiou mãe na sala com tanto espaço sobrando para uma cama naquele lugar. Claro que ela não conseguia dormir direito, e quando a porta da rua abria, entrava um vento que fazia com que gripasse.
Trouxe para minha casa. Cuido melhor dela e não fico devendo nada para ninguém. Cunhada artista! Dá até vontade de rir.
Está chegando a minha vez. Nandinho continua quente. Dormiu um pouquinho, sinal de que a dor diminuiu. Não gosto de ver meu filho sofrer. Tão engraçado quando está com saúde. Eu e o pai ficamos iguais a uns bobos com ele, rimos de qualquer gracinha que faz.
Essa noite ele quis ajudar. Falou para eu dormir que ele olhava nosso filho. Não deixei. Sabe por quê? Ele trabalha o dia inteiro também, como eu, mas mexe com máquina. Um amigo perdeu um dedo dia desses. Falta de atenção. Não quero que meu marido se arrisque.
Bom pai, ele. Vivemos uma vida apertada, mas não falta o principal.
Homem trabalhador, responsável. Um pouco sério demais, mas não dá para ter tudo nessa vida.
Quando falei que mãe teria que viver com a gente, olhou nos meus olhos:
- Trás para cá, damos um jeito.
É isso que admiro nele. A segurança que me dá. Está sempre pronto para proteger a mim e a nosso filho, nunca deixei de contar com ele.
Enfim vamos ser atendidos por um médico. Espero que esse tenha paciência para ouvir sobre o que meu filho sente, porque tem uns, que não dão tempo de explicar nada. Mal tocam na criança, olham rapidamente a garganta e receitam. Não gosto desses, nem sei por que estão ali. Deviam trabalhar em outra profissão.
Acho que vai dar tempo de preparar tudo para o jantar. Coloco o Nandinho num colchonete lá atrás e faço meu serviço. Espero que ele não chore, não é do meu feitio incomodar os outros. Menos ainda ser chamada a atenção. Quero ver quanto dona Márcia vai me pagar.
Chamaram meu número:
- Boa tarde doutor. Meu filho está com febre há dois dias…
Primeira vez
Primeira vez
Cândida Albernaz
Sentada na poltrona predileta recostada na almofada, os pés sobre o banquinho, olhava a tela da televisão à sua frente.
Se lhe perguntassem o que estava assistindo não saberia dizer. Os olhos fixavam-se num ponto invisível onde via passar parte de sua vida.
O quarto estava impecável como sempre. Nos móveis não era possível ver qualquer resquício de poeira. Nos armários, as roupas eram penduradas por cor, sendo que a cor seguinte combinava com o tom da anterior.
Ainda não almoçara. As crianças na escola e o marido no trabalho.
Hoje, quando acordou sentiu-se estranha. Não tinha vontade de fazer nada.
A cozinheira chegou e perguntou o que queria que fosse preparado para o almoço. Pela primeira vez deixou que ela decidisse o que comeriam. Antônia a olhou com ar de quem desconhece. Não se incomodou. Voltou para o quarto, sentando-se novamente.
Pensava em sua adolescência, quando tinha poucas amigas e estudava num colégio só para mulheres. Enquanto as colegas enrolavam as saias pelos cós para que ficassem mais curtas e abaixavam as meias até o tornozelo, o seu uniforme permanecia sempre no comprimento exigido. Impecável. Aliás, tudo em sua vida era feito de forma responsável, seguindo regras e não entendendo as exceções.
Quando se conheceram, ela e o marido, os pais logo o aprovaram e afirmaram ser o melhor para ela. No dia da festa de noivado, alegrava-se mais por eles do que por si mesma.
Casaram-se na igreja, ela de véu, grinalda e virgem. Era assim que devia ser. Era assim que fazia.
Não houve um dia sequer que o marido a procurasse e não se submetesse a ele. Com o tempo aprendeu a gostar daquele movimento dos corpos suados. Nunca demostrou. Restos de uma época em que costumava ouvir o quanto era sujo, errado ou proibido.
Com a chegada dos filhos, os educava com as lições aprendidas e apreendidas. Cuidava bem deles e os amava também, mas não deixava que percebessem seu excessivo amor, pois poderia transformá-los em adultos frágeis. Palavras de sua mãe.
Todos os dias o marido almoçava em casa e à noite os quatro reuniam-se na sala para que assistissem a algum programa na TV. Nada que contribuísse para dar mau exemplo às crianças.
Não discutiam, ela e o marido. Ele costumava sair com os amigos dois dias na semana, decidir onde passariam as férias ou o filme que veriam no domingo. Ela aceitava.
Não estava gostando muito do rumo de seus pensamentos. Sentia a boca seca. O coração batia mais rápido do que o normal e lágrimas escorriam fazendo com que sentisse o rosto arder. O peito parecia tão apertado que lhe faltava o ar. Talvez estivesse doente.
Levantou-se e foi para frente do espelho. Olhou-se de cima a baixo e viu alguém com fome. Fome de vida.
Soltou os cabelos e desabotoou o vestido. Admirou o corpo nu e tocou-o como nunca havia feito. Viu uma mulher mexendo os quadris de forma sensual.
Foi até o armário e tirou um vestido que a irmã lhe presenteara e nunca tivera a coragem de usar. Tinha alças e um decote acentuado. Pegou o batom e depois de passar nos lábios, umedeceu-os com a língua. A sandália alta, usada apenas em ocasiões especiais vestiu os pés macios.
No espelho uma mulher sorria para ela com malícia.
Foi para a rua sem que a cozinheira notasse.
No final da tarde, com a casa vazia ao voltar, encontrou um bilhete sobre a mesa: o que deu em você? almoçamos e deixei as crianças com sua mãe. não podiam ficar sozinhos e Antônia precisou ir embora. vou encontrar com os rapazes na saída do trabalho e mais tarde nos falamos. quando chegar avise para que seu pai deixe os netos com você. Beijos.
Soltou aquele pequeno pedaço de papel que caiu no chão. No quarto, tirou a roupa guardando-a cuidadosamente no armário. Tomou um banho quente, prendeu os cabelos, vestiu algo confortável e sentou-se na poltrona ligando a televisão.
Nos olhos havia um brilho nunca experimentado antes.
01/09/2016 | 07h17
Primeira vez
Cândida Albernaz
Sentada na poltrona predileta recostada na almofada, os pés sobre o banquinho, olhava a tela da televisão à sua frente.
Se lhe perguntassem o que estava assistindo não saberia dizer. Os olhos fixavam-se num ponto invisível onde via passar parte de sua vida.
O quarto estava impecável como sempre. Nos móveis não era possível ver qualquer resquício de poeira. Nos armários, as roupas eram penduradas por cor, sendo que a cor seguinte combinava com o tom da anterior.
Ainda não almoçara. As crianças na escola e o marido no trabalho.
Hoje, quando acordou sentiu-se estranha. Não tinha vontade de fazer nada.
A cozinheira chegou e perguntou o que queria que fosse preparado para o almoço. Pela primeira vez deixou que ela decidisse o que comeriam. Antônia a olhou com ar de quem desconhece. Não se incomodou. Voltou para o quarto, sentando-se novamente.
Pensava em sua adolescência, quando tinha poucas amigas e estudava num colégio só para mulheres. Enquanto as colegas enrolavam as saias pelos cós para que ficassem mais curtas e abaixavam as meias até o tornozelo, o seu uniforme permanecia sempre no comprimento exigido. Impecável. Aliás, tudo em sua vida era feito de forma responsável, seguindo regras e não entendendo as exceções.
Quando se conheceram, ela e o marido, os pais logo o aprovaram e afirmaram ser o melhor para ela. No dia da festa de noivado, alegrava-se mais por eles do que por si mesma.
Casaram-se na igreja, ela de véu, grinalda e virgem. Era assim que devia ser. Era assim que fazia.
Não houve um dia sequer que o marido a procurasse e não se submetesse a ele. Com o tempo aprendeu a gostar daquele movimento dos corpos suados. Nunca demostrou. Restos de uma época em que costumava ouvir o quanto era sujo, errado ou proibido.
Com a chegada dos filhos, os educava com as lições aprendidas e apreendidas. Cuidava bem deles e os amava também, mas não deixava que percebessem seu excessivo amor, pois poderia transformá-los em adultos frágeis. Palavras de sua mãe.
Todos os dias o marido almoçava em casa e à noite os quatro reuniam-se na sala para que assistissem a algum programa na TV. Nada que contribuísse para dar mau exemplo às crianças.
Não discutiam, ela e o marido. Ele costumava sair com os amigos dois dias na semana, decidir onde passariam as férias ou o filme que veriam no domingo. Ela aceitava.
Não estava gostando muito do rumo de seus pensamentos. Sentia a boca seca. O coração batia mais rápido do que o normal e lágrimas escorriam fazendo com que sentisse o rosto arder. O peito parecia tão apertado que lhe faltava o ar. Talvez estivesse doente.
Levantou-se e foi para frente do espelho. Olhou-se de cima a baixo e viu alguém com fome. Fome de vida.
Soltou os cabelos e desabotoou o vestido. Admirou o corpo nu e tocou-o como nunca havia feito. Viu uma mulher mexendo os quadris de forma sensual.
Foi até o armário e tirou um vestido que a irmã lhe presenteara e nunca tivera a coragem de usar. Tinha alças e um decote acentuado. Pegou o batom e depois de passar nos lábios, umedeceu-os com a língua. A sandália alta, usada apenas em ocasiões especiais vestiu os pés macios.
No espelho uma mulher sorria para ela com malícia.
Foi para a rua sem que a cozinheira notasse.
No final da tarde, com a casa vazia ao voltar, encontrou um bilhete sobre a mesa: o que deu em você? almoçamos e deixei as crianças com sua mãe. não podiam ficar sozinhos e Antônia precisou ir embora. vou encontrar com os rapazes na saída do trabalho e mais tarde nos falamos. quando chegar avise para que seu pai deixe os netos com você. Beijos.
Soltou aquele pequeno pedaço de papel que caiu no chão. No quarto, tirou a roupa guardando-a cuidadosamente no armário. Tomou um banho quente, prendeu os cabelos, vestiu algo confortável e sentou-se na poltrona ligando a televisão.
Nos olhos havia um brilho nunca experimentado antes.
Tanto tempo perdido
Tanto tempo perdido
Cândida Albernaz
Sentado embaixo da árvore mexia em sua nova gaiola. Olhava o trabalho feito com capricho. Não sabia quantas gaiolas já fizera. Os passarinhos, que depois colocaria dentro de cada uma delas, eram sua paixão.
A mulher reclamara com ele inúmeras vezes:
- Fica sujando o quintal com esse alpiste e quem tem que limpar sou eu.
Era seu maior prazer, não entendia. Aposentara-se e quando se viu ser desnecessário para o trabalho que fizera a vida toda, sentiu-se inútil.
No início, ficava em casa durante todo o dia, esforçando-se para acreditar que merecia aquele descanso. Afinal, era hora. Sempre fora um bom funcionário, cumpridor severo de suas obrigações, deixando de lado muitas vezes acompanhar o crescimento dos filhos ou a companhia da mulher. Esta costumava reclamar do seu cansaço ao chegar, sem disposição para outra coisa que não fosse dormir cedo para acordar bem disposto no dia seguinte para o serviço.
Nos finais de semana gostava de sentar no botequim da esquina, onde encontrava com os colegas da firma. Ao voltar, almoçavam juntos e dormia. Algumas vezes Judite o chamava para um cinema ou passeio. Eram raras as ocasiões em que aceitava o convite.
Sempre afirmara que se esforçava tanto pela mulher e filhos. Para que pudessem ter o mínimo de conforto de que uma família precisava.
Com o tempo, foi vendo Judite envelhecer, perder o viço da pele e o brilho dos olhos.
Nunca perguntou a ela se o mesmo acontecia com ele.
A única coisa que realmente chamara sua atenção, foi quando num dia qualquer, pelo menos para ele, chegara a casa e a encontrara pronta para sair. Usava um vestido estampado, com um decote mais ousado do que o habitual e pediu que ele fosse até o quarto e tomasse um banho. Em cima da cama encontrou uma camisa bem passada e uma calça estendida ao lado. Apesar de estranhar, lavou-se e colocou a roupa separada por ela.
Foi à sala e encontrou-a parada, em pé, próxima à porta. Perguntou o que estava acontecendo, ela segurou seu braço e disse:
- Hoje sairemos um pouco. Preciso me sentir jovem novamente.
Riu dela, mas aceitou o braço estendido. Caminharam ao longo da rua e diante de um pequeno restaurante de onde podia se ouvir música, ela pediu que entrassem.
Beberam algumas cervejas e resolveu tirá-la para dançar. Estranharam-se um pouco no início, a falta de costume de se tocarem em público ou mais demoradamente. Não contava as noites em que a procurava e muitas vezes sem nem mesmo um beijo, satisfazia-se, não se perguntando sobre como ela se sentia. A bebida e a música fizeram com que relaxassem.
Talvez esta tenha sido a última noite em que poderiam ter dado uma oportunidade para eles mesmos.
No dia seguinte a rotina voltou a se instalar. Pensando bem agora, recordava de que ela o procurara com os olhos e sorria disfarçadamente quando encontrava os seus. Não soube aproveitar. Não conseguira tempo para isso. O momento passou e com ele a vida que poderiam ter vivido.
Pegou a nova gaiola e saiu. Sabia qual o passarinho que colocaria ali dentro.
Mais tarde, ao chegar, foi até a varanda e pendurou sua nova aquisição no prego colocado na parede. Sorriu orgulhoso.
Notou que a mulher o observava. Hoje em dia ela andava com dificuldade, mas continuava cuidando de tudo dentro de casa.
Aproximou-se de Judite e apontou para a gaiola. Não viu nenhuma reação em seu rosto. Só cansaço.
Puxou-a pelo braço e passou os seus em volta do ombro dela. Percebeu que ela tentava sair. Não se intimidou e apertou-a com a mão, trazendo-a para mais perto dele.
Ficaram os dois assim, parados, olhando sem ver. Ela então passou a mão em sua cintura e encostou a cabeça em seu ombro.
Tanto tempo perdido...
18/08/2016 | 11h11
Tanto tempo perdido
Cândida Albernaz
Sentado embaixo da árvore mexia em sua nova gaiola. Olhava o trabalho feito com capricho. Não sabia quantas gaiolas já fizera. Os passarinhos, que depois colocaria dentro de cada uma delas, eram sua paixão.
A mulher reclamara com ele inúmeras vezes:
- Fica sujando o quintal com esse alpiste e quem tem que limpar sou eu.
Era seu maior prazer, não entendia. Aposentara-se e quando se viu ser desnecessário para o trabalho que fizera a vida toda, sentiu-se inútil.
No início, ficava em casa durante todo o dia, esforçando-se para acreditar que merecia aquele descanso. Afinal, era hora. Sempre fora um bom funcionário, cumpridor severo de suas obrigações, deixando de lado muitas vezes acompanhar o crescimento dos filhos ou a companhia da mulher. Esta costumava reclamar do seu cansaço ao chegar, sem disposição para outra coisa que não fosse dormir cedo para acordar bem disposto no dia seguinte para o serviço.
Nos finais de semana gostava de sentar no botequim da esquina, onde encontrava com os colegas da firma. Ao voltar, almoçavam juntos e dormia. Algumas vezes Judite o chamava para um cinema ou passeio. Eram raras as ocasiões em que aceitava o convite.
Sempre afirmara que se esforçava tanto pela mulher e filhos. Para que pudessem ter o mínimo de conforto de que uma família precisava.
Com o tempo, foi vendo Judite envelhecer, perder o viço da pele e o brilho dos olhos.
Nunca perguntou a ela se o mesmo acontecia com ele.
A única coisa que realmente chamara sua atenção, foi quando num dia qualquer, pelo menos para ele, chegara a casa e a encontrara pronta para sair. Usava um vestido estampado, com um decote mais ousado do que o habitual e pediu que ele fosse até o quarto e tomasse um banho. Em cima da cama encontrou uma camisa bem passada e uma calça estendida ao lado. Apesar de estranhar, lavou-se e colocou a roupa separada por ela.
Foi à sala e encontrou-a parada, em pé, próxima à porta. Perguntou o que estava acontecendo, ela segurou seu braço e disse:
- Hoje sairemos um pouco. Preciso me sentir jovem novamente.
Riu dela, mas aceitou o braço estendido. Caminharam ao longo da rua e diante de um pequeno restaurante de onde podia se ouvir música, ela pediu que entrassem.
Beberam algumas cervejas e resolveu tirá-la para dançar. Estranharam-se um pouco no início, a falta de costume de se tocarem em público ou mais demoradamente. Não contava as noites em que a procurava e muitas vezes sem nem mesmo um beijo, satisfazia-se, não se perguntando sobre como ela se sentia. A bebida e a música fizeram com que relaxassem.
Talvez esta tenha sido a última noite em que poderiam ter dado uma oportunidade para eles mesmos.
No dia seguinte a rotina voltou a se instalar. Pensando bem agora, recordava de que ela o procurara com os olhos e sorria disfarçadamente quando encontrava os seus. Não soube aproveitar. Não conseguira tempo para isso. O momento passou e com ele a vida que poderiam ter vivido.
Pegou a nova gaiola e saiu. Sabia qual o passarinho que colocaria ali dentro.
Mais tarde, ao chegar, foi até a varanda e pendurou sua nova aquisição no prego colocado na parede. Sorriu orgulhoso.
Notou que a mulher o observava. Hoje em dia ela andava com dificuldade, mas continuava cuidando de tudo dentro de casa.
Aproximou-se de Judite e apontou para a gaiola. Não viu nenhuma reação em seu rosto. Só cansaço.
Puxou-a pelo braço e passou os seus em volta do ombro dela. Percebeu que ela tentava sair. Não se intimidou e apertou-a com a mão, trazendo-a para mais perto dele.
Ficaram os dois assim, parados, olhando sem ver. Ela então passou a mão em sua cintura e encostou a cabeça em seu ombro.
Tanto tempo perdido...
Em tempo de conversa
Em tempo de conversa
Cândida Albernaz
- Outro dia ouvi você falando que espera encontrar o amor de sua vida.
- Verdade.
- Mas você acha que ainda vai encontrar?
- Claro que sim.
- Com cinquenta anos?
- E daí?
- Ainda não esteve com ele?
- Estive. Algumas vezes.
- Ah!, então você o conhece.
- Não este que espero.
- Como assim?
- Já tive amores da minha vida.
- Amores?
- Sim. Cada amor que encontrei foi sempre o meu primeiro amor. O da vida inteira.
- E?
- E quando acaba percebo que ainda não foi ele.
- O que você espera desse amor?
- Que ele enxergue quem sou. Esconda-me em seu abraço. Desnude-me com o olhar. Dê-me motivos para rir. E que ria das minhas graças mesmo quando forem sem graça.
- É muito difícil?
- Talvez eu queira demais.
- Mas o que você falou não é demais.
- Não é só isso.
- O que mais então?
- Quero enxergá-lo. Rir de seu riso. Colocar sua cabeça em meu peito quando estiver cansado. Querer seu corpo em mim. E ouvir com atenção suas mesmas histórias todas as vezes que quiser contá-las.
- Tenho vontade de dar risadas de você.
- Por que você riria de mim?
- Porque nada lhe basta.
- Não é verdade. Sou simples.
- Você, simples?
- E não sou?
- Não, não é. Pensa demais.
- Penso. Penso até não suportar tanto pensar.
- E para que isso serve? Não dificulta sua vida?
- Não tenho domínio sobre minha mente. E você sabe disso melhor do que ninguém.
- Questão de treino.
- Agora é você quem está me fazendo rir.
- Treine não pensar. Desligue-se. Ouça uma música e relaxe.
- Músicas prendem minha atenção. Gosto de entender e sentir o que a letra diz.
- E então começa a pensar de novo.
- Pois é. Pior quando me doem.
- Tem mania de esticar os problemas até o limite.
- Mas quando chega a este ponto, desisto deles e passo a fingir que não existem.
- Então por que não faz isso desde o início? Acaba perdendo seu tempo e o meu.
- Se eu conseguisse me conhecer... desvendar quem sou.
- Gostaria?
- Nunca! Prefiro surpreender-me comigo. Caso contrário perderia a chance de sonhar.
- Hum!
- Acompanhe: já imaginou conhecer-se completamente?, sem surpresas?, ou sustos no que faz?
- Teria uma vida mais calma, sem tantas decepções.
- E sem sonhos, já lhe disse.
- ...
- Verdade que não ter controle sobre as próprias reações, pode doer muito. Como machucar o outro sem querer. Se ocorrer, tenho necessidade absoluta de pedir desculpas.
- Ou não conseguirá dormir. Sei bem.
- Não durmo nem vivo. Sofro.
- Mesmo assim não quer o domínio do autoconhecimento.
- Não quero.
- Há dias em que ser sua mente me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la e não consigo.
- Não se desespere. Basta que dê um tempo.
- Se é só o que temos: tempo.
- E por falar em tempo, é tarde. Preciso dormir. Precisamos.
- Pare de pensar então.
- O que acha de contar carneirinhos? Quer ajudar?
- Tenho escolha? Feche os olhos.
- Só mais uma coisa. Amanhã quando acordar, não permita que eu a use para ficar agitada ou ansiosa. Quero querer rir.
- Não depende só de mim. Olhe que jardim lindo estou desenhando em sua mente, flores perfumadas, o murmúrio da água do riacho...
28/07/2016 | 01h10
Em tempo de conversa
Cândida Albernaz
- Outro dia ouvi você falando que espera encontrar o amor de sua vida.
- Verdade.
- Mas você acha que ainda vai encontrar?
- Claro que sim.
- Com cinquenta anos?
- E daí?
- Ainda não esteve com ele?
- Estive. Algumas vezes.
- Ah!, então você o conhece.
- Não este que espero.
- Como assim?
- Já tive amores da minha vida.
- Amores?
- Sim. Cada amor que encontrei foi sempre o meu primeiro amor. O da vida inteira.
- E?
- E quando acaba percebo que ainda não foi ele.
- O que você espera desse amor?
- Que ele enxergue quem sou. Esconda-me em seu abraço. Desnude-me com o olhar. Dê-me motivos para rir. E que ria das minhas graças mesmo quando forem sem graça.
- É muito difícil?
- Talvez eu queira demais.
- Mas o que você falou não é demais.
- Não é só isso.
- O que mais então?
- Quero enxergá-lo. Rir de seu riso. Colocar sua cabeça em meu peito quando estiver cansado. Querer seu corpo em mim. E ouvir com atenção suas mesmas histórias todas as vezes que quiser contá-las.
- Tenho vontade de dar risadas de você.
- Por que você riria de mim?
- Porque nada lhe basta.
- Não é verdade. Sou simples.
- Você, simples?
- E não sou?
- Não, não é. Pensa demais.
- Penso. Penso até não suportar tanto pensar.
- E para que isso serve? Não dificulta sua vida?
- Não tenho domínio sobre minha mente. E você sabe disso melhor do que ninguém.
- Questão de treino.
- Agora é você quem está me fazendo rir.
- Treine não pensar. Desligue-se. Ouça uma música e relaxe.
- Músicas prendem minha atenção. Gosto de entender e sentir o que a letra diz.
- E então começa a pensar de novo.
- Pois é. Pior quando me doem.
- Tem mania de esticar os problemas até o limite.
- Mas quando chega a este ponto, desisto deles e passo a fingir que não existem.
- Então por que não faz isso desde o início? Acaba perdendo seu tempo e o meu.
- Se eu conseguisse me conhecer... desvendar quem sou.
- Gostaria?
- Nunca! Prefiro surpreender-me comigo. Caso contrário perderia a chance de sonhar.
- Hum!
- Acompanhe: já imaginou conhecer-se completamente?, sem surpresas?, ou sustos no que faz?
- Teria uma vida mais calma, sem tantas decepções.
- E sem sonhos, já lhe disse.
- ...
- Verdade que não ter controle sobre as próprias reações, pode doer muito. Como machucar o outro sem querer. Se ocorrer, tenho necessidade absoluta de pedir desculpas.
- Ou não conseguirá dormir. Sei bem.
- Não durmo nem vivo. Sofro.
- Mesmo assim não quer o domínio do autoconhecimento.
- Não quero.
- Há dias em que ser sua mente me cansa até a exaustão. Tento ajudá-la e não consigo.
- Não se desespere. Basta que dê um tempo.
- Se é só o que temos: tempo.
- E por falar em tempo, é tarde. Preciso dormir. Precisamos.
- Pare de pensar então.
- O que acha de contar carneirinhos? Quer ajudar?
- Tenho escolha? Feche os olhos.
- Só mais uma coisa. Amanhã quando acordar, não permita que eu a use para ficar agitada ou ansiosa. Quero querer rir.
- Não depende só de mim. Olhe que jardim lindo estou desenhando em sua mente, flores perfumadas, o murmúrio da água do riacho...
Ainda presa num retrato
Ainda presa num retrato
Cândida Albernaz
Estou presa neste retrato em preto e branco amarelado pelo tempo.
Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento.
Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou.
O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo.
Ainda recordo do dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar.
Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso lhe fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam?
A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha a opção pelo que aconteceu.
Quando tivemos o Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe.
Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar da cama, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez.
Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, estive acomodada deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora.
Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim.
Nunca perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse enfim me perceber: ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro.
Não saí de casa para viver sozinha. Em menos de um ano eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio.
Jamais proibiu que visse nosso filho a hora em que quisesse, mas foram poucas às vezes em que esteve por perto.
Até hoje, não pude descobrir se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Sem demonstrações do que sente.
Poderia dizer que sofri com minha decisão, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Mas de nada adiantaria.
Depois de alguns anos, refez sua vida com uma mulher que eu jamais vira. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento relacionado a qualquer outra pessoa que não seja Carlinhos.
Nosso filho se tornou homem e nos aproximamos.
Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa, me trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos.
Fui feliz com ele.
Quando você adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez.
Sua mulher não vivia mais com você e naquele momento em que estavam só os dois, ele lhe fazendo companhia, fui até sua casa.
Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e agachando, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente.
Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Observei-a por algum tempo e em seguida coloquei-a no mesmo lugar.
Voltei-me e notei que apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão.
Espero que não vá sem me perdoar. Eu já o perdoei.
Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.
26/07/2016 | 10h41
Ainda presa num retrato
Cândida Albernaz
Estou presa neste retrato em preto e branco amarelado pelo tempo.
Daqui vejo você e o mundo acontecendo. Não lembro mais como foi que me aprisionei. Essa pessoa que não emite som ou demonstra sentimento.
Talvez tenha sido por você que vim parar aqui. Talvez tenha sido você quem me escravizou.
O tempo esfarela enquanto eu prisioneira de uma vontade não envelheço, mas também não vivo.
Ainda recordo do dia em que a foto foi tirada e também de quando a colocou numa gaveta para não mais olhar.
Até entendo o motivo por não querer me ver, mas através de um retrato não posso lhe fazer mal. Ou são as recordações que ainda o afetam?
A vida quis assim, poderia dizer, mas não seria verdade. Foi minha a opção pelo que aconteceu.
Quando tivemos o Carlinhos, achei que o mundo era nosso e que nada poderia estragar o que vivíamos. Sempre foi um ótimo pai e por várias vezes mais completo do que eu como mãe.
Nos pesadelos de nosso filho, antes que pensasse em levantar da cama, você estava ao lado dele, acalentando e fazendo com que dormisse outra vez.
Nas vacinas ou doenças infantis era você quem o acompanhava e mesmo que insistisse em estar junto, me sentia excluída e desnecessária. No fundo, penso hoje, estive acomodada deixando que fosse mãe e pai ao mesmo tempo, enquanto eu mera espectadora.
Paguei pela minha imaturidade. Quando nos separamos, ele não titubeou: quis ficar com você. Também não briguei pelo contrário, achava justo que fosse assim. Injusto só para mim.
Nunca perdoou quando avisei que ia embora e pensei que com isso, você fosse enfim me perceber: ao inverso, olhou-me com sua frieza habitual e disse que estaria no escritório. Só exigiu que fosse sem ele: Carlinhos fica! Obedeci, é claro.
Não saí de casa para viver sozinha. Em menos de um ano eu e Marcos morávamos juntos. Quando soube, tenho a impressão de que não sentiu nada, não é de seu feitio.
Jamais proibiu que visse nosso filho a hora em que quisesse, mas foram poucas às vezes em que esteve por perto.
Até hoje, não pude descobrir se sentiu minha perda ou se teve ódio por estar com seu melhor amigo. Sem demonstrações do que sente.
Poderia dizer que sofri com minha decisão, que jamais quis ir embora de verdade, que esperei muito tempo que me chamasse de volta, que não amei outro que não fosse você. Mas de nada adiantaria.
Depois de alguns anos, refez sua vida com uma mulher que eu jamais vira. Não sei se foi feliz com ela, porque não sei se é capaz de ter esse sentimento relacionado a qualquer outra pessoa que não seja Carlinhos.
Nosso filho se tornou homem e nos aproximamos.
Marcos morreu num acidente de carro, quando vinha para casa, me trazendo um presente e um cartão com flores, como sempre fez durante todos os anos em que comemorávamos estar juntos.
Fui feliz com ele.
Quando você adoeceu, Carlinhos me avisou e disse a ele ter vontade de vê-lo mais uma vez.
Sua mulher não vivia mais com você e naquele momento em que estavam só os dois, ele lhe fazendo companhia, fui até sua casa.
Dormia. Da porta do quarto fiquei olhando-o. Carlinhos saiu e me deixou sozinha. Aproximei-me e agachando, segurei sua mão. Abriu os olhos e encontrou os meus. Fechou-os rapidamente.
Puxei a gaveta da mesinha ao lado da cama e vi a foto antiga debaixo de alguns papéis. Observei-a por algum tempo e em seguida coloquei-a no mesmo lugar.
Voltei-me e notei que apertava os olhos com força para que não abrissem. Beijei seu rosto e a palma de sua mão.
Espero que não vá sem me perdoar. Eu já o perdoei.
Saio do quarto e me volto apenas uma vez. Permanece com os olhos fechados. Não mudou nada. Nem eu mudei.
Preciso tomar uma decisão
Preciso tomar uma decisão
Cândida Albernaz
Sua cabeça hoje não parecia estar funcionando como de costume.
Ouvia os pedidos e anotava-os mecanicamente. Acabaria recebendo uma reprimenda. Ontem mesmo errara com um cliente antigo. Pediu desculpas e observou que o gerente o olhou de cara feia.
Precisava estar mais atento, mas como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz e nunca brigava ou se metia em confusão. Se havia algo que chamava a atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parecia ter ido embora desde aquele dia.
Estão chamando por ele outra vez. Será que esta noite não acaba? Meia noite e meia e o restaurante ainda cheio.
Mais um problema: a mesa cinco pediu cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que comessem o que trouxe do que reclamar? Sempre ouviu dizer que o tal do salmão faz bem a saúde. Pois então! Estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Conhecia o tipo. Ruim de dar gorjeta. Que se dane!
Se continuar assim, vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa. O pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Estava acabando com o juízo dele.
Melhor se concentrar no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar.
Na verdade, já não havia decidido? Mandar embora nem pensar. Era viciado naquela mulher.
Descobriu tudo. Verdade que ela nunca fez questão de esconder, ele sim, fazia questão de não ver.
Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer.
Quando a conheceu, os amigos avisaram como seria, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que com ele seria diferente. Não foi.
O nome do sujeito: José. Isso lá é nome de amante? Mas o certo é que o filho da puta andou com a mulher dele.
Não tinha outro jeito. Não conseguia sair de casa ou mandá-la embora. Teria que matá-la.
Onde foi parar seu sossego? Como estava não podia permanecer. Ainda não sabia como faria; faca, arma de fogo (nem sabia como usar), veneno?
Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. Antes de sair teve que ouvir do gerente que se continuasse displicente como estava não continuaria trabalhando ali. Pensou na hora que queria que ele se f...
Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida.
Ela deve estar deitada. Será mais fácil.
* * * *
Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim.
Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer.
Enrolado na toalha fica parado olhando-a.
Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. E quando isso acontece se espreguiça e diz: chegou amor?
Agacha-se e a beija, ela o puxa de encontro ao corpo quente ao mesmo tempo em que segura sua mão para que em formato de concha, toque seu peito. Sabe do que gosto, não é?
Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você minha menininha.
A resposta que ouve é a de sempre: você sempre será o único amor da minha vida.
Afunda o rosto naquela pele macia e cheirosa sentindo o coração bater com força.
26/07/2016 | 10h39
Preciso tomar uma decisão
Cândida Albernaz
Sua cabeça hoje não parecia estar funcionando como de costume.
Ouvia os pedidos e anotava-os mecanicamente. Acabaria recebendo uma reprimenda. Ontem mesmo errara com um cliente antigo. Pediu desculpas e observou que o gerente o olhou de cara feia.
Precisava estar mais atento, mas como conseguir com o que estava acontecendo? Era um homem de paz e nunca brigava ou se metia em confusão. Se havia algo que chamava a atenção em sua personalidade era a paciência. Mas esta parecia ter ido embora desde aquele dia.
Estão chamando por ele outra vez. Será que esta noite não acaba? Meia noite e meia e o restaurante ainda cheio.
Mais um problema: a mesa cinco pediu cherne e anotou salmão. Droga! Tudo não era peixe? Não seria mais fácil que comessem o que trouxe do que reclamar? Sempre ouviu dizer que o tal do salmão faz bem a saúde. Pois então! Estava ajudando o sujeito e ele ainda achava ruim. Vontade de trazer esse cherne e enfiar nele goela abaixo. Conhecia o tipo. Ruim de dar gorjeta. Que se dane!
Se continuar assim, vai acabar perdendo o emprego. Graças àquela vadia que tem em casa. O pior é que não conseguia deixar de amar a desgraçada. Estava acabando com o juízo dele.
Melhor se concentrar no trabalho, em si mesmo e na decisão que deveria tomar.
Na verdade, já não havia decidido? Mandar embora nem pensar. Era viciado naquela mulher.
Descobriu tudo. Verdade que ela nunca fez questão de esconder, ele sim, fazia questão de não ver.
Dez anos, estavam juntos há dez anos. Não tiveram filhos porque ela não quis. Não se casaram na igreja porque ela não quis. Não tem paz porque ela não quer.
Quando a conheceu, os amigos avisaram como seria, mas não acreditou. Disse que passado era passado e que com ele seria diferente. Não foi.
O nome do sujeito: José. Isso lá é nome de amante? Mas o certo é que o filho da puta andou com a mulher dele.
Não tinha outro jeito. Não conseguia sair de casa ou mandá-la embora. Teria que matá-la.
Onde foi parar seu sossego? Como estava não podia permanecer. Ainda não sabia como faria; faca, arma de fogo (nem sabia como usar), veneno?
Duas horas, o movimento acabou mais cedo. Ia para casa. Antes de sair teve que ouvir do gerente que se continuasse displicente como estava não continuaria trabalhando ali. Pensou na hora que queria que ele se f...
Não vai passar de hoje. Esta noite decide sua vida.
Ela deve estar deitada. Será mais fácil.
* * * *
Continua linda e ele ainda se emociona ao vê-la dormir. Parece uma criança desprotegida. Sua menininha. Gosta de chamá-la assim.
Está cansado e resolve tomar um banho. Depois que se sentir relaxado, faz o que tem que fazer.
Enrolado na toalha fica parado olhando-a.
Nenhum barulho a incomoda. Sempre teve sono pesado. Só acorda se a toca. E quando isso acontece se espreguiça e diz: chegou amor?
Agacha-se e a beija, ela o puxa de encontro ao corpo quente ao mesmo tempo em que segura sua mão para que em formato de concha, toque seu peito. Sabe do que gosto, não é?
Ao ouvir o gemido, só consegue falar: amo você minha menininha.
A resposta que ouve é a de sempre: você sempre será o único amor da minha vida.
Afunda o rosto naquela pele macia e cheirosa sentindo o coração bater com força.
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