Políticas públicas de segurança, somente com instituições modernas e democráticas
17/10/2021 | 10h08
A sociedade se acostumou a crer que as soluções para os problemas de segurança pública requerem, fundamentalmente, a contratação de pessoal, compra de viaturas e armamentos com investimento em sofisticados sistemas tecnológicos. Sem dúvida que a escassez de efetivo e falta de estrutura adequada impedem a prestação de um serviço adequado, entretanto, é preciso muito mais do que policiamento e tecnologia para resolver nossos problemas de segurança. São necessárias políticas públicas de segurança assim como uma modernização das estruturas do sistema de justiça criminal herdado da ditadura. 
 
A política de segurança pública é, na verdade, uma política pública como aquelas existentes em outras áreas como saúde, educação e meio ambiente. Entretanto, a ideia de tratar os problemas de segurança através da formulação e implementação de políticas públicas é ainda muito recente no Brasil, e, um dos principais equívocos é acreditar que as polícias são as únicas responsáveis pela sua execução. A participação de outros entes estatais e organizações da sociedade civil são cada vez mais relevantes para o sucesso de qualquer política pública de segurança, principalmente quando o foco é a prevenção.
Além disso, é necessário entender que cada problema de segurança pública requer a formulação de política pública específica. Homicídios, feminicídios e roubos de pedestres são problemas distintos que requerem políticas próprias para mitigá-los, da mesma forma que a corrupção e o combate à atuação de organizações criminosas são problemas que requerem soluções específicas. Pensar segurança a partir da ótica das políticas públicas parece óbvio, mas ainda é uma exceção no Brasil. Porém, uma das maiores dificuldades encontradas para implantação desses planos surge exatamente nas corporações policiais.
A estrutura do campo da segurança pública no Brasil, definida no artigo 144, é caracterizada por uma forte concentração de recursos e competências no plano estadual, pela impossibilidade de as instituições policiais exercerem o ciclo completo de policiamento. Além disso, existem limites constitucionais à reforma das polícias, uma vez que a estrutura construída ao longo do século XX, e fortalecida no período autoritário, foi consagrada pela Constituição Federal de 1988.
Outro aspecto importante a ser considerado é que, apesar das polícias militar e civil serem estruturadas e controladas pelos estados, sua organização e funções são definidas pela Constituição Federal de 1988. Portanto, os estados não podem, isoladamente, transformar ou extinguir essas instituições. As normas que regem o funcionamento das instituições encarregadas em prover segurança são anteriores à Constituição e influenciadas por concepções de política criminal e de manutenção da ordem social do regime autoritário.
Nos últimos anos, várias propostas foram apresentadas ao Congresso Nacional visando mudar esta estrutura legal e institucional. Entretanto, nenhuma logrou êxito em chegar até o final do processo legislativo. A maior parte dos projetos de modernização institucional tem sido distorcida pela burocracia pública, o que impede a mudança de práticas e culturais organizacionais.
Uma das poucas iniciativas que teve sucesso foi a que transformou os agentes penitenciários em policiais penais, a PEC 372/2017. Uma medida importante já que a atuação de organizações criminosas no sistema penitenciário brasileiro é um dos principais problemas relacionados à segurança pública. Através da corrupção de agentes do Estado, os chefes dessas organizações continuam a comandar seus negócios legais e ilegais de dentro do sistema penitenciário.
Em suma, a estrutura do campo da segurança pública não foi alterada pela Constituição de 1988. Ao mesmo tempo, as organizações criminosas têm passado por grandes transformações se adequando aos tempos modernos que exigem para esse enfrentamento instituições independentes, modernas, com autonomia e fundamentadas em conhecimentos científicos e multidisciplinares. Porém, ao invés disso, o que há são corporações paralisadas em conflitos internos, presas a estruturas arcaicas e ultrapassadas, com processos e procedimentos lentos e burocráticos, que impossibilitam a implementação de políticas públicas de segurança adequadas e dificultam o combate ao crime organizado.
Sem uma profunda reestruturação do sistema de justiça criminal brasileiro, com mudanças na governança e na arquitetura organizacional das polícias, as políticas públicas de segurança continuarão a ser somente cartas de intenção. Sem a implantação de conceitos como ciclo completo, desmilitarização, carreira, accountability e ferramentas modernas de gestão e governança, o panorama tende a ser o mesmo ou até piorar. Para fortalecer a democracia, é preciso que essa chegue às instituições policiais
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Bolsonaro e sua Política Nacional de Segurança Pública
07/10/2021 | 12h39
No dia 29 de setembro de 2021 foi editado e publicado o decreto nº10.822 que instituiu a revisão da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social 2021-2030. Esse decreto trata de questões abordadas por duas normas publicadas no ano de 2018, a lei nº 13.675, que criou a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS) e instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), e o decreto nº9.489, que regulamentou os procedimentos para a implementação da PNSPDS.
Como tem ocorrido desde o início do governo do presidente Jair Bolsonaro, as mudanças legislativas propostas pelo executivo com relação à área da segurança pública têm causado apreensão e muitas críticas de pesquisadores, especialistas e de profissionais da área, e, no caso do decreto, não foi diferente. Ao invés de fortalecer políticas públicas que tenham como objetivo a prevenção, o respeito aos direitos humanos, a melhoria da governança nas instituições policiais e um incentivo a uma maior participação dos municípios nessa área, o governo foi justamente na direção contrária.
Uma das primeiras mudanças trazidas pelo recente decreto tem relação com mecanismos de governança previstos na lei do SUSP. O SINAPED (Sistema Nacional de Acompanhamento e Avaliação das Políticas de Segurança Pública e Defesa Social), é um desses que ficou de fora do novo decreto e isso é péssimo, pois enfraquece a atuação dos estados e municípios, com o governo federal se colocando como o protagonista com relação à política de segurança pública do país.
Dessa forma, o ministério da justiça passa a ter um papel central na deliberação sobre as políticas de segurança, mas não como um coordenador, exercendo um papel de liderança nas ações promovidas por estados e municípios e sim como controlador. O governo federal passa assim a ter um o controle operacional sobre a segurança pública no país, o que é inviável em um país com a dimensão do Brasil e tamanhas diferenças regionais. Uma proposta que tem a ver mais com centralização de poder do que com efetividade de ações.
Outra preocupação surgida com o novo decreto diz respeito aos dados relacionados às mortes decorrentes de intervenções policiais (MDIP). Conforme previsto na norma, as MDIP serão somadas à categoria geral de homicídios, o que irá impossibilitar o acompanhamento da letalidade policial. Em um país como o Brasil, que tem uma das maiores, senão a maior, taxas de MDIP no mundo, a ausência desses dados traz um apagão de informações que pode servir de incentivo ao aumento da letalidade policial, que já vem crescendo conforme mostra o anuário de 2021 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo dados recolhidos pela ong, entre 2019 e 2020 o aumento foi expressivo em alguns estados, como Mato Grosso (76%), Pernambuco (56,6%), Rio Grande do Sul (48,9%) e Tocantins (48,4%).
Temas como reformas nas carreiras, ciclo completo e valorização profissional também não constam na norma e conceitos como polícia de proximidade e policiamento comunitário deixaram de ser um dos focos em termos de políticas públicas, muito em razão dessa centralidade do governo federal na construção das políticas.
Ao examinar as mudanças introduzidas pelo decreto fica claro que o governo Bolsonaro não tem real interesse em implementar uma Política Nacional de Segurança Pública que tenha como objetivo encarar os desafios que a sociedade enfrenta. Persiste a política de armamento da população, não prevê reformas nas instituições policiais, não busca a valorização dos profissionais da segurança, deixa de lado políticas que comprovadamente funcionam como policiamento comunitário e insiste no apoio à letalidade como se segurança pública se resolvesse somente através de confrontos armados. Ao apostar no que comprovadamente não funciona e na centralização de decisões, indo inclusive contra o que prevê a lei que criou o SUSP, o governo Bolsonaro deixa claro que para ele, segurança pública se resume a “tiro, porrada e bomba”.
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A demagogia por trás do programa Habite Seguro
27/09/2021 | 09h50
No último dia 13 o governo federal lançou com grande divulgação o programa Habite Seguro, destinado a oferecer subsídios para que profissionais da segurança pública adquiram casa própria. Uma medida que, em uma análise preliminar, parece ser excelente como forma de atenuar os problemas causados pela baixa remuneração da grande maioria desses profissionais, não se sustenta quando confrontada com números e estatísticas. Trata-se apenas de mais uma medida demagógica feita pelo governo para agradar uma importante base política do presidente.
O programa utilizará recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública e terá como instituição financeira responsável pela sua execução a Caixa Econômica Federal. Uma linha de crédito especial foi criada para esse fim e os valores do subsídio podem chegar a R$ 2.100,00 para a tarifa de contratação e de até R$ 12.000,00 no valor de entrada, podendo ser adicionada ao subsídio concedido pelo programa Casa Verde e Amarela.
Estão aptos a receber tais subsídios os profissionais da segurança pública que ainda não possuem imóvel próprio, que tenham renda mensal de até R$ 7.000,00 e que desejem adquirir um imóvel com avaliação de até R$ 300.000,00. Podem participar policiais federais, policiais rodoviários federais, policiais civis, policiais penais e policiais militares, bombeiros, ativos e inativos, da reserva e reformados, bem como guardas municipais.
Não é uma novidade, já que existiram outras tentativas de implantação de programas parecidos, mas a maioria não prosperou por não terem sido apoiadas pelos governos. No programa Habite Seguro estão previstos incialmente R$ 100 milhões para financiar as aquisições, o que segundo cálculos permitiria a assinatura de cerca de 8.000 contratos.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública existiam no país em 2020 cerca de 760.000 profissionais ligados à segurança pública no Brasil, e isso sem incluir os guardas municipais, reformados e inativos. Na melhor das hipóteses, cerca de 1% dos profissionais teriam êxito em participar do programa, o que mostra o reduzido alcance do programa.
Medidas que tenham como objetivo atenuar os problemas salarias desses profissionais são sempre desejáveis, mas nunca podem servir para mascarar as enormes discrepâncias existentes entre as diversas instituições de segurança e entre os profissionais que fazem parte delas.
Segundo dados também do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 45,3% dos profissionais recebiam menos de R$ 5.686,00 de salário bruto em 2020, sendo os praças das policiais militares aqueles que tinham as menores médias salariais. E o problema não se restringe aos baixos salários. O abismo entre as rendas dos policiais é muito grande.
Em países como EUA, Inglaterra e Canadá, a diferença entre os maiores e os menores salários pagos aos policiais é de cerca de 6 vezes, enquanto no Brasil, chega a 15 vezes, sendo que no estado do Rio de Janeiro essa diferença chega a ser de 35 vezes.
O programa Habite Seguro não atenuará esta situação. Trata-se de um pequeno paliativo para a falta de uma política nacional de salários dos policiais. Já é hora de discutirmos um piso salarial nacional para os policiais, como já existe na área de educação. Porém, isso, obviamente, não é fácil, pois implica uma pactuação entre União, Estados e Municípios. Exige, portanto, capacidade de formulação, negociação e muita vontade política.
Na falta dessas habilidades, é mais fácil – e lucrativo – anunciar medidas demagógicas que não resolvem os problemas reais dos policiais brasileiros.
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Os municípios e a segurança pública
22/11/2020 | 10h21
No domingo passado os brasileiros foram às urnas para escolherem os prefeitos e vereadores de nos mais de 5.500 municípios do país e apesar da pandemia que permanece ameaçando a saúde da população, as eleições ocorreram normalmente como em anos anteriores, com exceção dos municípios do Estado do Amapá que enfrenta uma grave crise energética e teve as eleições adiadas.
Além dos temas comuns em eleições municipais como mobilidade urbana, educação e saúde, neste pleito a segurança pública esteve entre os principais temas do debate eleitoral, o que não chega a ser uma novidade. Desde os anos 2000, os municípios vêm aumentando sua participação na segurança pública. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, desde 2002 verificou-se um crescimento de 286% no total de gastos com segurança pública, que saltaram de cerca de R$ 1,7 bilhões para R$ 6,4 bilhões. Entretanto, a participação municipal varia significativamente de acordo com o estado.
O aumento da participação municipal se deveu a três fatores. Primeiro, houve uma mudança da percepção do eleitorado com relação a responsabilidade pela segurança pública. Até a década de 90, questões relativas à segurança pública eram tratadas essencialmente como responsabilidade dos governadores de estados. A partir da década de 2000 este quadro se alterou com a sociedade cobrando também das administrações municipais medidas de segurança.
Segundo, houve uma forte indução do governo federal para que os governos municipais se engajassem mais no tema. A partir de 2002, o Fundo Nacional de Segurança Pública e, mais tarde, o PRONASCI, passaram a transferir recursos para aqueles municípios que contassem com estruturas administrativas voltadas para segurança pública. A principal resposta dos prefeitos foi a criação das guardas municipais. O crescimento das guardas foi significativo. Segundo a Munic/IBGE, entre 1980 e 2015, último ano com dados disponíveis, o número de guardas municipais cresceu de 120 para 1081. Onde estas já existiam seus efetivos foram ampliados e suas estruturas ampliadas.
Em terceiro, devido à estagnação dos investimentos estaduais na área da segurança pública e com a necessidade de dar respostas à população, muitas cidades optaram por criar programas de bonificação e pagamento de horas de trabalho dos policiais estaduais em suas folgas. Programas como PROEIS possibilitaram que os municípios efetuassem gastos com o objetivo de aumentar o policiamento em seus territórios.
Analisando as guardas municipais brasileiras, podemos distinguir pelo menos três funções desempenhadas por elas. Algumas seguem o modelo de guarda patrimonial. Estas guardas possuem atribuições bem delimitadas: defesa do patrimônio, do espaço público e proteção dos prédios municipais. Outras, atuam como se fossem polícias municipais. Estas guardas têm assumido as funções de policiamento ostensivo, substituindo as outras organizações policiais. Em sua maioria os guardas utilizam tanto armamentos não-letais quanto letais. Elas realizam o patrulhamento das ruas. Há também as guardas que atuam como força apaziguadora. Elas utilizam seu poder de polícia para administrar conflitos, prevenir crimes e solucionar problemas colocados pelo público. As atividades de repressão são raras e controladas.
Quanto à organização, embora os municípios tenham liberdade de estruturar suas guardas da forma que acharem conveniente, na prática eles seguem o modelo organizacional das polícias militares. Como em muitos casos, os primeiros comandantes das guardas foram oficiais das polícias militares, estes acabaram por copiar as estruturas das carreiras, os manuais e os protocolos utilizados pelas suas instituições de origem.
O papel dos municípios na segurança pública não se resume à criação das guardas municipais. Talvez a maior vocação dos municípios sejam as políticas de prevenção de violências. Alguns municípios desenvolveram políticas sociais de prevenção de violências muito bem-sucedidas. Especialmente onde estas iniciativas foram abrangentes e tiveram foco em áreas, grupos e situações de risco. Disputar os jovens com o crime organizado é uma das medidas essenciais para o sucesso de qualquer política de prevenção.
Mas, para implantar políticas abrangentes, foram elaborados planos estratégicos de segurança municipais, articulando as ações dos diversos órgãos e agências municipais, estaduais e até mesmo federais. Os planos também incluíam indicadores de acompanhamento e metas de desempenho, além de estabelecerem claramente as responsabilidades de cada um dos atores envolvidos na política pública.
Passada a festa da vitória nas cidades onde não há segundo turno, é hora de trabalhar e planejar as ações de segurança pública. Não basta contratar efetivos e comprar viaturas e equipamentos. É preciso elaborar planos estratégicos que definam claramente objetivos, metas e indicadores. Já nas cidades em que há segundo turno, é importante saber o que os candidatos pensam e quem irá auxiliá-los na elaboração desses planos. Assim como educação, saúde e mobilidade urbana, a segurança pública precisa ser tratada com seriedade. Um perfil técnico para assessorar os eleitos é essencial.
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Até logo
11/08/2020 | 11h09
Há mais de um ano fui convidado a escrever nesse espaço sobre segurança pública e como poderíamos mudar o quadro de violência que vivemos em nosso cotidiano. Semanalmente tive a oportunidade de trazer para o debate situações que afetam diretamente nossas vidas e só tenho a agradecer à direção do Grupo Folha na pessoa de Aluysio Abreu Barbosa. 
Desde o início tive a liberdade para fazer críticas, apontar possíveis soluções e polemizar sobre questões delicadas, sem nunca ter sofrido qualquer limitação. Essa liberdade e confiança me deram ainda mais responsabilidade tendo em vista o alcance que essa plataforma me proporcionava. 
Porém, devido a novos desafios que decidi enfrentar, precisarei me afastar temporariamente do blog, mas isso não significa um adeus, longe disso. É um até logo e espero voltar a escrever em breve, sempre com responsabilidade e compromisso com a informação. 
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Seminário sobre segurança pública
02/06/2020 | 07h00
O Núcleo de Estudos Cidade Cultura e Conflito, ligado ao PPGSP UENF convida a todos (as) para o seminário SEGURANÇA PÚBLICA E DIREITOS HUMANOS NO BRASIL PÓS-ELEIÇÕES:UM DEBATE NECESSÁRIO.
Neste seminário cada pesquisador falará a partir de seu território. Jacqueline Sinhoretto abordará o tema a partir de São Paulo. José Cláudio Alves, um dos maiores estudiosos das milícias no Brasil, fará sua fala focando o Rio de Janeiro e Luiz Fabio Paiva nos trará uma visão sobre segurança pública e direitos humanos diretamente do Ceará, palco da recente greve de policiais militares em 2020. A mediação será feita pela coordenadora do NUC, Luciane Soares da Silva. Segue o link para acesso via you tube com início as 14 horas. https://www.youtube.com/watch?v=vx3XBVu2XmI
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Até quando?
12/08/2019 | 03h13
Em artigo publicado aqui no dia 11 de maio de 2019 foi abordado o problema dos recorrentes casos de violência que ocorrem na BR-101, principalmente no trecho que corta o município de São Gonçalo/RJ. Foram tantos os casos, inclusive tendo moradores de Campos entre as vítimas, que no dia 09 de maio aconteceu uma manifestação em frente à Câmara de Vereadores de Campos solicitando que medidas fossem tomadas para melhorar a situação. Desde então já se passaram três meses e apesar de algumas ações pontuais como o uso de policiais militares no patrulhamento da rodovia, a violência no local continua.
Essa semana, no dia 08 de agosto, um sargento da Polícia Militar foi morto enquanto fazia patrulhamento na rodovia. Lotado no RECOM (batalhão de rondas especiais e controle de multidões), o policial estava junto com sua equipe dando apoio à Polícia Rodoviária Federal (PRF) no policiamento. No momento do fato os policiais estavam baseados nas proximidades da comunidade Recanto das Acácias, em São Gonçalo, quando ouviram um disparo de arma de fogo e logo a seguir notaram que o sargento havia sido atingido no tórax. Ele ainda foi socorrido e levado ao hospital, mas não resistiu. Ainda não se sabe de onde partiu o tiro.
Segundo dados divulgados em audiência pública realizada pela comissão de segurança pública da Alerj uma semana antes do crime, a situação do policiamento na região é muito precária. O efetivo da Polícia Militar em São Gonçalo tem menos de um policial para cada 1000 habitantes, sendo que o recomendado pelas Nações Unidas é de um policial para cada 300 habitantes. E se o policiamento já é deficiente para uma população de cerca de um milhão de habitantes, isso se agrava com a necessidade de atuar em uma rodovia que é atribuição do governo federal. Com 7 policiais rodoviários federais para cobrir 21km de estrada e mais os 13km da Ponte Rio Niterói, é inviável uma cobertura adequada.
Com 12% dos casos de roubos de veículos de todos o Estado do Rio de Janeiro e com cerca de 20% dos roubos de cargas ocorridos, esse trecho entre os municípios de Niterói e Itaboraí, passando por São Gonçalo é hoje um sério problema de segurança pública. Enquanto o governo federal não chamar para si a responsabilidade de liderar e coordenar uma ação conjunta, unindo reforço no policiamento a ações de inteligência, a população e os policiais irão continuar a ser vítimas na rodovia do medo.
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Redução da maioridade penal
29/06/2019 | 01h13
Tem chamado a atenção da sociedade crimes cometidos por crianças e adolescentes. Essa semana em Pernambuco, uma estudante de 14 anos foi torturada, esfaqueada e afogada por outras duas adolescentes, e tudo isso motivado por ciúmes. As infratoras, pois segundo a legislação não podem ser chamadas de criminosas, não satisfeitas com o que fizeram ainda filmaram tudo e compartilharam nas redes sociais. Felizmente elas foram capturadas, mas independente da barbaridade que tenham cometido, não ficarão mais do que três anos internadas em instituições para menores. É o que prevê o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
No artigo da semana passada o tema tratado foi a ausência de ressocialização dos jovens infratores internados. Com estruturas precárias, falta de efetivo e superlotação, as instituições não tem cumprido sua finalidade e acabam por devolver ao convívio em sociedade os internos do mesmo jeito que entraram ou até mais perigosos.
Diante de tal quadro, é necessário repensar a finalidade dessas instituições. A sociedade não suporta mais assistir a jovens violentos, que cometeram crimes bárbaros como esse ocorrido em Pernambuco, serem internados e logo a seguir devolvidos para cometerem mais crimes. No final do ano passado, levantamento do CNJ apontou que no país havia 22.000 jovens internados em instituições para menores infratores e levantamento feito pelo Ministério Público de São Paulo apontou que 61% dos jovens internos eram reincidentes.
Menores que cometem homicídios, estupros, latrocínios e outros crimes com violência, não podem e não devem ser tratados da mesma forma que outros jovens que cometam crimes sem gravidade. É necessária uma separação e um tratamento adequado de acordo com a gravidade do crime cometido, juntamente com uma avaliação psicológica do infrator. Nesse contexto, a redução da maioridade penal, tema que sempre vem ao debate deve ser discutido.
Reduzir a maioridade penal somente para jovens que cometam crimes hediondos é medida necessária de proteção à sociedade. Esses não podem ser tratados como, simplesmente, jovens inconsequentes. Manter esses jovens reclusos é forma de proteger a população, devendo o Estado concentrar os escassos recursos naqueles jovens que podem ser recuperados.
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Horror na Zona Norte do Rio
11/06/2019 | 06h06
Corpos embalados dentro do veículo
Corpos embalados dentro do veículo
Um homem foi preso na noite de ontem enquanto transportava dentro de seu veículo quatro corpos mutilados dentro de sacos. A abordagem ocorreu na Penha, zona norte da cidade do Rio de Janeiro e houve troca de tiros entre o criminoso e policiais.
Segundo nota da Polícia Civil do Rio de janeiro, "De acordo com a Delegacia de Homicídios da Capital (DH), André Luiz da Silva Almeida foi preso em flagrante por policias militares na Rua Ibiapina, na Penha, após os PMs desconfiarem da atitude suspeita dele que conduzia um veículo onde foram encontrados quatro corpos esquartejados. Na delegacia, ele foi ouvido e autuado em flagrante pelos crimes de ocultação de cadáver e tentativa de homicídio, por ter disparado contra os policias militares.
 
 
A DH realizou perícia no local e encaminhou os corpos para o IML. Duas vítimas já foram identificadas como Jonathas Gonçalves de Oliveira Tavares e Rodrigo Gonçalves Marques. Os outros dois corpos ainda aguardam identificação. As investigações estão em andamento para apurar a autoria e motivação do crime.
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Redução de homicídios no trimestre
18/05/2019 | 04h39
Silhuetas de corpos no chão.
Silhuetas de corpos no chão. / Fernando Frazão/Agência Brasil
Na última semana foi notícia em todo o país a queda no número de homicídios no primeiro trimestre de 2019 em comparação ao mesmo período de 2018. Foi uma diminuição de 24% segundo levantamento feito pelo G1. Foram cerca de 3.200 mortos a menos. Essa redução ocorreu em todos os Estados, com destaque para o Ceará, onde a queda chegou a impressionantes 56%.
No Rio de Janeiro a redução não teve o percentual do Ceará, ficando perto da média nacional, com uma redução de 26% no número de homicídios no mesmo período. Já em Campos dos Goytacazes essa queda foi maior, com uma redução de cerca de 44%. No primeiro trimestre desse ano houve 37 homicídios enquanto no mesmo período em 2018 foram 66 casos.
Os números de homicídios continuam altos, mais de 13.000 pessoas foram mortas no primeiro trimestre no país, mas essa ampla redução ocorrida chamou a atenção de pesquisadores e especialistas que tentam compreender e explicar o que ocasionou esse fenômeno.
Alguns apontam a trégua ocorrida entre facções criminosas rivais em alguns Estados como uma das razões para a redução. Outros citam uma maior articulação entre poderes para um combate mais articulado ao crime organizado, como um dos principais fatores, principalmente depois da crise de 2017, quando o Brasil bateu o recorde de homicídios com mais de 63.000 mortes.
Seja qual tenha sido o fator ou conjunto de fatores que influenciou nessa redução, o que fica claro é a possibilidade de um combate aos homicídios no Brasil. Com cerca de 3% da população mundial, o Brasil chegou a ter 10% dos homicídios. Em todos os rankings de violência figuram cidades brasileiras e com Campos não foi diferente, tendo figurado nos últimos anos sempre entre as 50 cidades mais violentas do mundo, segundo a organização mexicana Segurança, Justiça e Paz.
Portanto, é urgente compreender as razões que levaram a essa redução para que finalmente tenhamos no país uma política integrada, articulada e planejada de combate a um dos maiores problemas de nossa sociedade, o número absurdo de homicídios.
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Sobre o autor

Roberto Uchôa

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