Da geoquímica do petróleo às energias renováveis, a trajetória científica da professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), Georgiana Feitosa da Cruz, revela como conhecimentos de diferentes áreas podem se conectar na busca por soluções para problemas ambientais e tecnológicos.
Da investigação da composição dos petróleos à criação de tecnologias para reduzir impactos ambientais e transformar subprodutos da indústria em materiais com novas aplicações, a trajetória da pesquisadora mostra que diferentes conhecimentos científicos podem se encontrar em um mesmo caminho.
No trabalho desenvolvido em Macaé, por exemplo, o petróleo deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ser também ponto de partida para pesquisas que alcançam novos materiais, sustentabilidade e possibilidades relacionadas às energias renováveis. Professora do Laboratório de Engenharia e Exploração de Petróleo (Lenep), no Campus Carlos Alberto Dias, em Macaé, ela foi destaque na edição de março de 2026 da revista Mulheres na Ciência, que reúne histórias e pesquisas desenvolvidas por mulheres em diferentes áreas do conhecimento.
Integrante da Uenf desde 2010, Georgiana construiu sua carreira a partir da química e da geoquímica do petróleo, área em que desenvolve estudos sobre caracterização química de óleos, biodegradação e as interações entre petróleo, água e rocha nos reservatórios. Esse conhecimento, inicialmente voltado à compreensão da composição e do comportamento do petróleo, foi ampliado para questões relacionadas aos impactos ambientais da atividade petrolífera e à busca por novas tecnologias.
Entre as frentes de pesquisa estão os estudos sobre derramamentos de petróleo, tratamento de fluidos da indústria, biorremediação e utilização de biotecnologia e nanotecnologia para enfrentar problemas ambientais. Atualmente, parte do trabalho desenvolvido pelo grupo está concentrada no tratamento da água produzida pela indústria do petróleo e na remediação de áreas contaminadas por petróleo e seus derivados.
Plataforma de petróleo na Bacia de Campos
/
Folha da Manhã
Indústria: petróleo e gás
Uma das pesquisas investiga o uso de estruturas metalorgânicas, conhecidas como MOFs, como materiais adsorventes capazes de remover contaminantes presentes nesses efluentes. O objetivo é reduzir, entre outros parâmetros, o teor de óleo e graxa (TOG), desenvolvendo alternativas tecnológicas que possam contribuir para processos mais sustentáveis na indústria de petróleo e gás.
A pesquisa também avança para uma perspectiva de aproveitamento de materiais que tradicionalmente são considerados subprodutos da própria indústria. Em parceria com a Universidade Federal do ABC (UFABC), a equipe trabalha no desenvolvimento de semicondutores orgânicos a partir de asfaltenos e imidas. O estudo já resultou no depósito de uma patente de invenção e reúne conhecimentos de geoquímica do petróleo, química de materiais, nanotecnologia, eletrônica orgânica e energias renováveis.
É justamente nessa convergência de áreas que a trajetória da pesquisadora ganha uma dimensão mais ampla. O conhecimento acumulado sobre a composição química do petróleo e seus derivados passa a ser aplicado não apenas à indústria petrolífera, mas também à criação de novos materiais e tecnologias, aproximando a pesquisa de questões relacionadas à sustentabilidade e à transição para novas soluções energéticas.
Petróleo e meio ambiente
Ao longo dos últimos 10 anos, Georgiana acumulou cinco depósitos de patentes relacionados aos setores de petróleo e meio ambiente. Entre as tecnologias desenvolvidas estão fluidos de perfuração com menor impacto ambiental, processos para aprimoramento de análises de hidrocarbonetos e soluções para remoção de petróleo em ambientes contaminados. Um dos projetos, realizado em parceria com a Petrobras, recebeu o Prêmio Inventor da empresa, em 2020.
A atuação científica também tem contado com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), com a participação e coordenação de projetos financiados pela instituição. Esse trabalho contribuiu para a escolha da pesquisadora como Cientista do Nosso Estado, em 2024. No ano seguinte, ela recebeu o Prêmio Faperj de Ciência, Inovação e Reconhecimento, na categoria Pesquisador Inovador.
“Diferentes olhares” - A formação da pesquisadora teve início na Universidade Federal do Piauí (UFPI), onde se graduou em Química. No mestrado em Química Orgânica, desenvolveu estudos sobre a aplicação de biomarcadores na caracterização de petróleos brasileiros. No doutorado, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisou processos de biodegradação de petróleo na Bacia de Campos.
Esse percurso ajuda a explicar a diversidade de temas que hoje integram sua atuação no Lenep. A partir da geoquímica, Georgiana passou a trabalhar na interface entre petróleo, química, meio ambiente, novos materiais, nanotecnologia, biotecnologia e energias renováveis.
— A ciência precisa de diferentes olhares, diferentes experiências e diferentes formas de pensar. A curiosidade, a dedicação e a perseverança são muito mais importantes do que qualquer rótulo — afirma a pesquisadora.
Além da produção científica, a formação de novos pesquisadores é outra frente importante para ela.