Artigo - O dilema das bicicletas elétricas em Campos dos Goytacazes
Dora Paula Paes - Atualizado em 10/10/2026 09:05
Luiz Fernando Rosa Mendes
Luiz Fernando Rosa Mendes / Divulgação



* Luiz Fernando Rosa Mendes

Quem passa hoje pela Avenida 28 de Março, em Campos dos Goytacazes, talvez não imagine que, entre suas duas pistas, já existiu uma linha férrea. Após a desativação dos trilhos, o espaço ganhou uma nova função e, em 1990, deu lugar à Ciclovia Patesko, que se tornou uma das principais vias de circulação de bicicletas do município. Essa história também faz parte da minha memória. Lembro muito bem do meu tempo de estudante, entre os anos de 1994 a 1996, quando diariamente utilizava a ciclovia para o meu trajeto de bicicleta entre a minha casa, no bairro do Jockey Club, e o SENAI.
Décadas depois a bicicleta convencional continua presente na paisagem de Campos, mas agora divide espaço com bicicletas elétricas, autopropelidos e scooters elétricas. O crescimento desses veículos pode ser explicado em boa parte pela busca por alternativas mais práticas, rápidas e econômicas de transporte, frente à falência do transporte público municipal.
Nesse cenário, a bicicleta convencional ou elétrica pode ser uma importante alternativa de mobilidade urbana sustentável, considerando que ocupa pouco espaço, não utiliza combustíveis fósseis e, no caso da bicicleta convencional, não depende de outra fonte de energia além da força do próprio ciclista. As versões elétricas acrescentam o auxílio de um motor alimentado por bateria, reduzindo o esforço necessário para deslocamentos maiores.
Campos possui características favoráveis ao uso da bicicleta. O relevo predominantemente plano e a relativa proximidade entre o Centro e os diversos bairros facilitam os deslocamentos cotidianos. Assim, a bicicleta não representa uma novidade na mobilidade campista, o que está mudando é a tecnologia que auxilia sua propulsão.
Essa mudança, entretanto, traz um novo componente para o debate: o consumo de energia elétrica. As baterias precisam ser recarregadas regularmente, seja em residências, locais de trabalho, escolas ou outros estabelecimentos. Embora o consumo individual de uma bicicleta elétrica seja baixo, sua utilização em larga escala representa uma nova demanda sobre a rede elétrica e pode elevar os gastos com eletricidade nos locais de carregamento. Por isso, mobilidade elétrica também significa discutir a origem da eletricidade utilizada e a forma como ela é consumida.
Outro desafio está na infraestrutura e na segurança. Por mais que, na última década, tenha havido um aumento das ciclovias e ciclofaixas, que, segundo dados da prefeitura, são de cerca de 60 km, a malha cicloviária precisa acompanhar o crescimento do número de usuários. Enquanto isso, ciclistas, motociclistas e motoristas enfrentam o desafio de compartilharem, em boa parte do centro urbano de Campos, espaços viários que nem sempre foram planejados para esse volume de circulação. A imprudência, o desconhecimento das regras e a condução inadequada de bicicletas elétricas, autopropelidos e scooters elétricas, inclusive por menores de idade, aumentam os riscos de acidentes.
Também é importante compreender que nem todos os veículos elétricos de duas rodas possuem o mesmo enquadramento legal. A Resolução nº 996/2023 do CONTRAN diferencia bicicletas elétricas, equipamentos de mobilidade individual autopropelidos, como patinetes e determinadas scooters, e ciclomotores. As bicicletas elétricas, por exemplo, devem possuir pedal assistido, potência máxima de 1.000 watts e velocidade de propulsão elétrica de até 32 km/h, sem exigência de habilitação, placa ou licenciamento. Já os ciclomotores, com potência de até 4 kilowatts e velocidade máxima de 50 km/h, estão sujeitos a registro, emplacamento, licenciamento e habilitação ACC ou categoria A. Os autopropelidos, por sua vez, possuem limite de 1.000 watts e 32 km/h e, dentro dos critérios estabelecidos, dispensam registro e emplacamento.
Conhecer essas diferenças é fundamental para o uso seguro e regular desses veículos.
A preocupação com os recorrentes acidentes foi pauta de uma audiência pública realizada pela Câmara Municipal de Campos, em maio de 2026. Na ocasião, foi informado o registro de 324 acidentes com bicicletas no primeiro quadrimestre de 2025, enquanto que no mesmo período, em 2026, o número já chegava a 724 acidentes.
Embora os dados não diferenciem bicicletas convencionais, bicicletas elétricas, autopropelidos e scooters elétricas, eles mostram a necessidade de acompanhar o crescimento da mobilidade sobre duas rodas com investimentos em infraestrutura, fiscalização e educação para o trânsito. Os acidentes não representam apenas danos materiais, podendo resultar também em mortes, incapacidades temporárias ou permanentes, e maior pressão sobre o sistema de saúde municipal.
A bicicleta elétrica e seus similares, portanto, não devem ser vistos como um problema, mas como parte da solução para a mobilidade urbana de Campos. Seu potencial está na combinação entre praticidade, baixo consumo energético e menor impacto ambiental, desde que haja um melhor planejamento da infraestrutura, orientação aos usuários, fiscalização do cumprimento das regras e considere também a energia utilizada no carregamento das baterias.

Assim, tanto a antiga ciclovia Patesko, quanto às novas ciclovias e ciclofaixas, mostram que Campos possui uma longa relação com a bicicleta. Agora, com a chegada dos motores elétricos e das baterias, a cidade vive uma nova etapa dessa história. O desafio é fazer com que essa evolução tecnológica resulte de fato, em uma mobilidade mais acessível, segura, eficiente e sustentável.


*Professor do Instituto Federal Fluminense

ÚLTIMAS NOTÍCIAS