Diariamente, toneladas de resíduos sólidos são descartados em Campos
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Rodrigo Silveira
Todos os dias, toneladas de resíduos sólidos urbanos são produzidas em Campos. Depois de descartado, o lixo deixa de fazer parte da rotina da população, mas continua gerando impactos ambientais e demandando espaço, transporte e recursos para sua destinação. Uma pesquisa desenvolvida no Instituto Federal Fluminense (IFF), campus Campos-Guarus, avaliou uma possibilidade diferente para parte desse material: transformar resíduos em energia.
Apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Bacharelado em Engenharia Ambiental, o estudo “Análise da produção de energia a partir de resíduos urbanos: o potencial das tecnologias Waste-to-Energy no município de Campos dos Goytacazes-RJ” foi desenvolvido pela então estudante Taylane Martins Silva do Nascimento.
A pesquisa estima que o município gere aproximadamente 91,8 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, considerando uma população de cerca de 483,5 mil habitantes. Além dos problemas relacionados à destinação inadequada, como possíveis impactos sobre o solo e a água e a emissão de gases de efeito estufa, os resíduos também apresentam potencial energético que pode ser aproveitado.
É nesse cenário que entram as tecnologias conhecidas como Waste-to-Energy, expressão utilizada para definir processos de recuperação de energia a partir de resíduos. O estudo analisou duas alternativas para a produção de eletricidade: a incineração, que utiliza o poder calorífico dos materiais, e a digestão anaeróbia, processo que aproveita a fração orgânica para a produção de biogás.
A digestão anaeróbia, inclusive, já integra a realidade do município. Em Campos, o biogás produzido no aterro sanitário localizado em Conselheiro Josino é utilizado para a geração de energia.
Potencial de geração - De acordo com as estimativas apresentadas na pesquisa, o potencial de geração de eletricidade varia conforme a tecnologia e o cenário de aproveitamento dos resíduos.
No cenário de maior aproveitamento por incineração, a estimativa chega a 30.422,99 megawatt-hora (MWh) de eletricidade por ano, volume equivalente a aproximadamente 9% do consumo residencial anual de Campos.
Pela digestão anaeróbia, o potencial estimado é de 8.669,24 MWh por ano, correspondente a 2,57% do consumo residencial. Quando as duas tecnologias são consideradas conjuntamente, o potencial estimado chega a 39.092,23 MWh de eletricidade por ano, o equivalente a 11,57% do consumo residencial de eletricidade do município.
Importância da pesquisa de Taylane Martins
Os números, do trabalho acadêmico de Taylane Martins, apresentados à Folha pelo professor Luiz Fernando Rosa Mendes - que o considera muito relevante -, apontam para uma possibilidade de aproveitamento energético dos resíduos que hoje são destinados ao sistema convencional de gerenciamento.
A proposta, entretanto, não significa transformar todo o lixo produzido em combustível para geração de eletricidade.
A pesquisa destaca que a redução da geração de resíduos, a reutilização e a reciclagem devem permanecer como prioridades dentro de uma gestão sustentável. O aproveitamento energético aparece, nesse contexto, como uma alternativa complementar, especialmente para os resíduos que não podem ser reaproveitados por outros meios.
Taylane deixa claro no seu estudo que além de reduzir potencialmente o volume encaminhado aos aterros, o aproveitamento energético dos resíduos pode contribuir para a diversificação da matriz energética e para estratégias de gestão ambiental no município.
Neste caso, mais do que transformar lixo em energia, o estudo desenvolvido no IFF propõe uma mudança de perspectiva sobre os resíduos urbanos. Aquilo que hoje é visto principalmente como material a ser descartado pode, sob determinadas condições e com tecnologias adequadas, representar também um recurso energético e integrar novas estratégias para o futuro ambiental de Campos.