Folha Letras - Modernismo e Mário em 2024
* Arthur Soffiati - Atualizado em 05/02/2025 08:50
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Manuel Bandeira declarou, não sei onde, que a Semana de Arte Moderna estaria esquecida em 50 anos. Creio que nenhum dos seus participantes sonhou com a eternidade. Mas o polêmico evento continua sendo festejado em datas redondas. Dentre todos os nomes modernistas, o que mais ganhou destaque é o de Mário de Andrade. Por que será? Mais que artista, Mário foi um grande pensador e organizador da cultura. Tal destaque lhe granjeou simpatias e antipatias. Por vezes exageradas, mas que se estabilizam mais de cem anos depois do evento.

Claro que as propostas nascidas da Semana não poderiam se tornar eternas. Nem era isso o que pretendiam os modernistas mais lúcidos. Em 1942, Mário escreveu que os modernistas de 1922 pleiteavam a estabilização de uma consciência criadora nacional, a atualização da inteligência artística brasileira e o direito permanente à pesquisa estética. Mário já reconhecia diferenças entre o barroco português e o brasileiro, sobretudo na figura do Aleijadinho. Mostrou que o romantismo foi a primeira tentativa consciente de expressar a diferença entre a cultura que se formou na colônia e a cultura da metrópole.
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Em 2023, Gênese Andrade publicou a correspondência de Mario e Oswald de Andrade (“Correspondência Mário de Andrade e Oswald de Andrade”. São Paulo: Edusp/IEB, 2023). Desnecessário dizer que, no livro, temos apenas a palavra de Oswald, pois Mário guardou cuidadosamente as cartas que ele lhe enviou. Após o famoso rompimento entre ambos, em 1929, as cartas cessaram de ambos os lados. Oswald não era organizado. Com briga ou sem briga, era de se esperar que as cartas enviadas por Mário desaparecessem. O autor de “Macunaíma” guardava tudo o que lhe enviavam. Inclusive, continuou a comprar e a ler os livros que Oswald publicou após o rompimento. As cartas de Oswald revelam bem a sua personalidade criativa, mas, ao mesmo tempo, caótica e maliciosa.

Ainda acerca da correspondência ativa, passiva e recíproca de Mário, foi possível ler também as cartas que ele trocou com Murilo Rubião. (“Correspondência”. São Paulo: Edusp/IEB, 2023). Rubião conheceu Mário na terceira viagem do paulista a Minas Gerais, em 1939. Ele era bastante jovem. Mário já contava com 46 anos. Viveria apenas mais 5 anos e pouco. Murilo lhe enviou uma reportagem sobre a estada de Mário em Belo Horizonte, onde proferiu duas palestras. Gentilmente, este acusou recebimento não com um bilhetinho, mas com uma carta. Uma das vaidades de Mário era ter contato com jovens artistas e opinar sobre suas obras. Vários escritores mineiros ainda jovens mantiveram correspondência com ele. Seus opositores o chamavam de Drácula dos jovens. Ele não precisava vampirizar os novos. Já era um escritor consagrado, mas gostava de se sentir orientador dos jovens. Parece que os jovens é que vampirizavam o escritor paulistano.

Mário teve dificuldade de entender a proposta estética de Rubião: “uma das falhas de minha incapacidade é o gênero de ficção que você faz”. Mas que o jovem escritor não se incomodasse com ele. Embora tivesse escrito “Macunaíma”, livro que ultrapassa o realismo do princípio ao fim, era difícil compreender um realismo fantástico sem alguma abordagem política. Mário logo percebeu que a obra de Kafka, ainda pouco conhecida no Brasil, pudesse ajudar o jovem escritor mineiro, que nunca havia ouvido falar em seu nome. Sugeriu-lhe também “Os cantos de Maldoror”, de Lautréamont. Por fim. Acabou reconhecendo a importância de Rubião em abrir novo caminho na literatura brasileira, assim como Clarice Lispector. O livro se beneficia bastante de “Mário e o pirotécnico aprendiz”, lançado em 1995 pela editora da UFMG e pela editora Giordano. Coube ao estudioso do modernismo Marcos Antonio de Moraes a organização, introdução e notas. Integrante de uma coleção, o livro de 2023, mostra-se mais organizado. Aguardo os livros com a correspondência de Mário e Villa-Lobos; de Mário e Luciano Gallet, esperando que seja incluída a correspondência do paulista e Arthur Ramos.

Do próprio Mário, li “O Aleijadinho e sua posição nacional”, publicado pela primeira vez em “O Aleijadinho e Álvares de Azevedo” (Rio de Janeiro: R.A. Editora, 1935), uma das raras primeiras edições que conservo na minha biblioteca. Posteriormente, o texto foi reunir-se a outros em “Aspectos das artes plásticas no Brasil”, 12º volume de suas obras completas, com várias edições. Além de reconhecer no arquiteto e escultor mineiro traços de um barroco diferente do europeu, Mário observa muito bem a forte presença do mulato na cultura brasileira. Os pardos não traziam talento congênito. Em nenhum tipo humano, existe talento no DNA. Era sua situação social – nem senhores brancos nem escravos negros – que os levava à busca de uma posição na sociedade brasileira pela arte. A interpretação de Mário não era rasteira, como muitas da atualidade. Não era biológica, mas social e histórica.

Um alentado catálogo organizado por Anna Paola Baptista (“Mário de Andrade e seus dois pintores: Lasar Segall e Candido Portinari”. Rio de Janeiro: Museu Castro Maya, 2015) traz estudos sobre a escolha de Mário de dois pintores eleitos por ele como os mais expressivos do modernismo brasileiro. Segall veio da Europa na década de 1920 e abrasileirou sua pintora com temas nacionais e com a luz. Portinari é brasileiro e se desenvolveu num ambiente solar. Apesar de admirá-los profundamente, Mário teve desentendimentos com ambos. Ele deixou inédito um estudo que escreveu sobre Portinari no final da vida. Parece que o pintor não gostou dele. Mário ainda admirou a obra de Clovis Graciano, dedicando-lhe um estudo, também inédito em vida.
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Obra clássica sobre o modernista, “Mário contra Macunaíma: cultura e política em Mário de Andrade”, de Carlos Sandroni (São Paulo: SESC, 2024), ganhou segunda edição revista e atualizada. O trabalho é a dissertação de mestrado do autor, defendida em 1987. Ele inicia essa nova edição com as seguintes palavras: “Mário de Andrade foi um dos intelectuais mais marcantes na consciência cultural brasileira do século XX, e sua influência se projeta, renovada, nestas primeiras décadas do século XXI. Dada a diversidade de sua produção e a firmeza com que defendeu seus pontos de vista, foi capaz não apenas de deixar marca profunda na geração que lhe foi contemporânea, como também de tornar-se ponto de referência obrigatória em debates sobre cultura brasileira”. Assino embaixo. Até 2000, a pós-graduação podia ser mais elitista. Contudo, gerava trabalhos com mais densidade que atualmente.

Eduardo Vessoni publicou, em 2023, “Os crepúsculos não cabem no mundo: as viagens de Mário de Andrade” (São Paulo: Patuá). Mário nunca foi à Europa e aos Estados Unidos, como seus companheiros da Semana de Arte Moderna. Ele só saiu do Brasil durante sua longa viagem à Amazônia, indo rapidamente ao Peru e à Bolívia. Ele dizia ter medo de longas viagens. Penso que se tratava de desculpa. Seu interesse por conhecer a Amazônia e o Nordeste parece fazer parte do seu projeto de estudar o Brasil e de construir uma cultura nacional na esfera erudita, pois, na esfera popular, ela já estava consolidada. Mário foi quatro vezes a Minas Gerais e várias vezes ao Rio de Janeiro, onde chegou a morar entre 1938 e 1941. Andou pelo interior de São Paulo e frequentou estações de águas por questões de saúde. O livro de Vessoni é bastante didático.

A Semana de Arte Moderna teria se movimentado no clima de descolonização cultural. A independência política e jurídica das colônias europeias na América tinha se processado nos séculos XVIII e XX. O número de Estados Nacionais do tipo europeu tinha aumentado no mundo. Mas, nas ex-colônias, a cultura europeia e o culto a ela continuavam. No Brasil, o romantismo europeu adquiriu conscientemente feição americana. Temas, palavras e aspecto brasileiros eram adotados. Machado de Assis foi romântico em suas primeiras obras. As últimas já apresentam maturidade de um país independente em muitos aspectos.
O Modernismo, conscientemente, pugnou por uma cultura erudita que se inspirasse na cultura popular brasileira, esta sim, independente por conta própria e de maneira inconsciente. Os modernistas buscavam ancorar nela a cultura erudita. Mário queria a unidade cultural brasileira. Ele mesmo diz que, em “Macunaíma”, misturou lendas do sul com mitos do norte e tradições folclóricas do nordeste. Na década de 1930, ele já reconhecia a diversidade cultural do Brasil.

Mas agora, os estudiosos falam que é preciso ir mais longe. Que é preciso buscar as raízes e a diversidade culturais do Brasil. Não é mais a descolonização, mas o decolonial. Não é mais o indivíduo, mas o coletivo. Makunaimã (São Paulo: Elefante, 2019) é dramaturgia coletiva que exalta o coletivo. Ele é dedicado ao antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, que registrou a história de Makunaimã, e a Akuli Taurepang, o indígena que contou a história ao antropólogo. O espírito de Mário é convidado a participar da peça teatral. Ele é tratado com respeito. Mário é questionado por vozes diversas e se mostra simpático aos estudos decoloniais sem saber do que se trata. A grande dificuldade do pensamento atual é a temporalidade. É exigir que certas posturas fossem adotadas num tempo em que elas não cabiam social e culturalmente. O tempo de Mário é o da busca pela unidade, com progressivo entendimento da diversidade.

*Professor, historiador e ambientalista

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