Solidariedade aumenta durante pandemia
Channa Vieira 19/06/2020 22:09 - Atualizado em 31/07/2020 20:05
Mãos que estendem, mãos que ajudam e alimentam. Solidariedade é amor em movimento. Ser solidário em tempos de pandemia é transformar sentimento em ação. O mundo atravessa uma crise sanitária severa, causada pela Covid-19, comprometendo a economia e elevando o número de pessoas em situação de vulnerabilidade, sobretudo no Brasil, que lida, há tempo, com aumento do desemprego, programas sociais enxutos, falta de reajuste de subvenções, entre outros declínios políticos. Em Campos, essa realidade não diverge e pode ser vista em esquinas, praças e pontes. Embora o número de pessoas em situação de rua e desempregadas tenha aumentado, a caridade tem sido também um aquecedor no termômetro mundial.
Relatório conjunto da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado no último dia 16, mostra que a população em condição de extrema pobreza na América Latina e Caribe pode chegar a 83,4 milhões de pessoas em 2020, gerando aumento significativo nos níveis de fome. Segundo o documento, após sete anos de baixo crescimento, poderá ocorrer a maior queda do PIB regional em um século (-5,3%) nessas áreas, elevando em 16 milhões o número de pessoas em extrema pobreza na comparação com o ano anterior.
  • Mosteiro Santa Face

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    Mosteiro Santa Face

A área central de Campos é o lugar que a necessidade se revela em gênero, número e cor. Também ali, próximo ao Jardim São Benedito, a caridade acontece há 40 anos. As freiras do Mosteiro Santa Face, que vivem em clausura, não negam o que vive o mundo exterior. Muito pelo contrário, alimentam àqueles que batem à sua porta.
Irmã Maria dos Anjos relata que, há quatro décadas, apenas quatro pessoas procuravam por alimento no lugar, o que acabou aumentando gradativamente. A irmã destaca que a procura se intensificou após o fechamento do Restaurante Popular, que comercializava um prato de comida por R$ 1. Antes da pandemia, 120 refeições eram servidas nos três turnos: café da manhã, almoço e lanche da tarde. Segundo ela, a demanda mais que dobrou e, atualmente, 300 pessoas procuram diariamente o mosteiro para se alimentar.
— Quando a comida acaba, completamos com a nossa, para não deixá-los ir embora sem serem atendidos. A Águas do Paraíba e o Super Bom nos ajudam muito, doando parte das quentinhas, além da comunidade, principalmente os empresários, são boníssimos conosco”, disse a irmã, que acrescentou: “Desde o começo dessa pandemia, o povo se voltou para nós com muita generosidade, sempre nos perguntando o que está faltando para ajudar os irmãos. Estamos muito felizes por podermos continuarmos nossa obra”, revelou.
Reiterando o que foi dito pela Irmã Maria dos Anjos, o bacharel em direito Felipe Ramos, de 31 anos, viu na pandemia a momento de trabalhar a solidariedade e estender a mão ao próximo. Ao lado de amigos que já realizavam ações sociais, Felipe começou o projeto há um mês. Eles distribuem, uma vez por semana, refeições para pessoas em situação de rua, além de kits com materiais de higiene. Diferente do que ocorre no mosteiro, o grupo faz um levantamento sobre as áreas em que essas pessoas se encontram e vão até elas.
— Quem nos ajudou nesse início de caminhada solidária, foi o “Rota Samaritana”. Através de um grupo de WhatsApp, recebemos um mapa com o zoneamento da cidade onde tem moradores em situação de rua e a quantidade deles em cada ponto. A partir dessa iniciativa, tomamos conhecimento de vários grupos que fazem o mesmo trabalho, inclusive igrejas católicas, evangélicas, entre outras. Todos juntos nesse grupo de whatsapp e juntos pelo próximo”, destacou Felipe.
Bastante conhecido em Campos, o Projeto Alegria, que realiza um trabalho de assistência há nove anos, chegou a ficar parado por três semanas no início da pandemia. O coordenador do grupo, Gustavo Santos, de 28 anos, conta que o medo e as incertezas sobre o momento em que o mundo vivencia, acabou paralisando o projeto. Mas, de acordo com ele, após reflexão, o grupo entendeu que o trabalho de doação e caridade não pode parar e, sim, aumentar.
Jovens alimentam pessoas em situação de rua
Jovens alimentam pessoas em situação de rua / Genilson Pessanha
Abordagens sociais todos os dias
A Prefeitura de Campos informou que as abordagens sociais da secretaria de Desenvolvimento Humano e Social acontecem todos os dias, inclusive em finais de semana e feriados. Segundo eles, o serviço foi intensificado neste período de pandemia, realizando trabalho de orientação e conscientização quanto à higiene pessoal. Além disso, ganhou reforço de técnicos da área de Saúde que, durante as abordagens, fazem a verificação do estado de saúde dessas pessoas. Havendo suspeita de algum sintoma para Covid-19, os casos são notificados à secretaria de Saúde.
De acordo com o município, a secretaria distribui máscaras para as pessoas em situação de rua que não aceitaram o abrigamento e também para os usuários que aceitaram acolhimento e já foram transferidos para o Abrigo Provisório para População em Situação de Rua do Hospital Manoel Cartucho. Implantado pelo prefeito Rafael Diniz, o local integra o Plano de Ação para Moradores em Situação de Rua no Combate à Covid-19, que garante outras medidas a esse público. Além disso, as equipes reforçam sobre a importância do uso da máscara, como utilizá-la, como descartá-la, entre outras medidas necessárias ao controle da transmissão do coronavírus.
Os moradores de rua que não aceitaram acolhimento continuam utilizando os serviços do Centro Pop diariamente, onde recebem, dentre outros serviços, alimentação. Levantamento da Prefeitura mostra que houve queda na procura ao lugar, pois cerca de 60 usuários aceitaram ir para o abrigo neste período de pandemia.

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