A Liturgia Republicana e a Escolha dos Ministros do Supremo
05/05/2026 | 08h12

A arquitetura institucional de qualquer Estado revela, com maior clareza do que seus discursos oficiais, aquilo que verdadeiramente considera prioritário. No caso das repúblicas presidencialistas contemporâneas e, particularmente do modelo brasileiro, a forma de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal expõe uma tensão estrutural entre a promessa de independência judicial e a inevitável lógica política que acompanha o processo de nomeação.

No Brasil, os ministros do Supremo Tribunal Federal são nomeados pelo Presidente da República, após aprovação pela maioria absoluta do Senado Federal, nos termos do artigo 101 da Constituição da República. Em teoria, trata-se de um sistema de freios e contrapesos: o Executivo indica, o Legislativo sabatina e aprova, e o Judiciário recebe novos integrantes supostamente legitimados por um procedimento institucional equilibrado.

A teoria, como frequentemente ocorre nos regimes republicanos, é admirável. A prática, porém, costuma apresentar nuances menos poéticas.

O modelo republicano parte da premissa de que agentes políticos, eleitos ou investidos em cargos de poder, conseguirão separar com precisão cirúrgica interesses institucionais, afinidades ideológicas e conveniências estratégicas ao indicar membros para a mais alta Corte do país. Trata-se de um exercício de fé cívica considerável.

Não se trata de negar a existência de juristas qualificados entre os nomeados. Muitos o são. A fragilidade reside, antes, na própria estrutura do mecanismo: um chefe de governo, necessariamente vinculado a uma coalizão política, a um programa ideológico e, muitas vezes, a compromissos partidários concretos, possui competência para nomear magistrados que, em tese, exercerão controle sobre atos do próprio sistema político que o sustenta.

Há aqui um paradoxo institucional difícil de ignorar: espera-se que a independência judicial floresça de um procedimento cuja origem é intrinsecamente política.

A sabatina no Senado, frequentemente apresentada como filtro republicano de excelência, tampouco elimina integralmente essa tensão. Em diversos casos, converte-se em ritual previsível, marcado por cordialidades estratégicas, discursos protocolares e questionamentos cuidadosamente calibrados para produzir mais aparência de rigor do que rigor propriamente dito.

É uma cerimônia de validação institucional que, por vezes, lembra aquelas inspeções em que todos já conhecem o resultado antes mesmo da abertura dos trabalhos.

A perspectiva monárquica: estabilidade e distância partidária

Em contraste, nas monarquias constitucionais modernas, especialmente parlamentares, a dinâmica de nomeação para cortes superiores costuma ocorrer em ambiente institucional significativamente menos contaminado pela lógica eleitoral direta.

Isso decorre, em grande medida, da separação funcional entre Chefe de Estado e Chefe de Governo.

O monarca, enquanto Chefe de Estado, não disputa eleições, não integra partidos políticos, não depende de coalizões parlamentares para sua permanência e, ao menos idealmente, encarna uma dimensão de continuidade institucional superior às disputas conjunturais.

Essa posição confere ao soberano uma vantagem estrutural raramente reconhecida pelos entusiastas republicanos: sua legitimidade não decorre da vitória temporária de uma facção, mas da permanência histórica da instituição.

Consequentemente, a participação formal ou material do monarca em processos de nomeação judicial tende a ser percebida sob prisma menos partidário. Ainda que, em diversas monarquias, a escolha efetiva decorra de conselhos técnicos, comissões independentes ou propostas ministeriais, a chancela final de uma autoridade apartidária reforça simbolicamente a ideia de neutralidade institucional.

Em sistemas como o do Reino Unido, por exemplo, nomeações para a Supreme Court of the United Kingdom passam por comissões independentes e critérios técnicos bastante estruturados, reduzindo substancialmente o protagonismo político direto. O monarca formaliza a nomeação sem carregar consigo a suspeita permanente de estar premiando aliados ou consolidando influência ideológica.

Trata-se de uma diferença institucional relevante.

Enquanto o presidente republicano frequentemente acumula as funções de liderança política, articulação partidária e nomeação judicial, o monarca atua como figura de continuidade e representação estatal, sem incentivos eleitorais imediatos.

Em outras palavras: Sua Majestade não precisa agradar bases eleitorais, negociar tempo de televisão ou calcular impactos de nomeações sobre a próxima campanha.

Convenhamos, isso já representa uma economia admirável de ruído institucional.

O problema republicano: confusão entre Estado e governo

Talvez a fragilidade central do modelo republicano resida justamente na dificuldade de separar Estado e governo de maneira suficientemente nítida.

Na prática, o chefe do Executivo republicano costuma personificar simultaneamente ambos os polos. Governa e representa; administra e simboliza; disputa e arbitra.

Essa concentração gera distorções previsíveis.

Quando o responsável por liderar determinada agenda política também possui competência para influenciar a composição da Corte Constitucional, abre-se espaço para suspeitas recorrentes sobre captura institucional, alinhamento ideológico ou instrumentalização do Judiciário.

Mesmo quando tais suspeitas não se confirmam, sua mera plausibilidade já corrói a percepção pública de imparcialidade.

E instituições, como se sabe, vivem tanto de competências jurídicas quanto de credibilidade simbólica.

A monarquia constitucional, ao manter separadas as funções de representação permanente e condução política contingente, oferece resposta institucional historicamente sofisticada para esse dilema.

Não porque reis sejam moralmente superiores a presidentes, a história seria cruel com tal ingenuidade, mas porque instituições bem desenhadas tendem a limitar incentivos inadequados.

A grande virtude não está em confiar mais nas pessoas, mas em confiar menos nas paixões transitórias da política.

Considerações finais

A crítica ao sistema republicano de escolha dos ministros do Supremo não exige nostalgia acrítica nem romantização institucional. Exige apenas honestidade analítica.

Repúblicas presidencialistas depositam considerável poder em agentes políticos diretamente interessados no jogo de poder, esperando que esse arranjo produza neutralidade constitucional irrepreensível. Às vezes funciona. Em outras, produz debates públicos intermináveis sobre legitimidade, ativismo, alinhamento e captura.

Monarquias constitucionais, especialmente em sua modalidade parlamentar, tendem a oferecer maior distância entre disputa partidária e representação estatal, favorecendo arranjos mais estáveis e menos sujeitos à percepção de partidarização das altas cortes.

Talvez a principal lição seja simples: instituições funcionam melhor quando não exigem virtudes heroicas de seus operadores.

A república, por vezes, parece desenhada como se políticos fossem capazes de transcender a política justamente quando ela mais importa.

Uma aposta ousada.

Quase comovente.
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Crimes Eleitorais: o que são e por que conhecer a legislação é essencial para a democracia
04/05/2026 | 08h10

Em períodos eleitorais, cresce naturalmente o debate público sobre candidaturas, campanhas, propaganda e participação popular. Contudo, em meio ao exercício legítimo da cidadania, também surgem condutas que ultrapassam os limites da legalidade e passam a configurar ilícitos eleitorais, especialmente os chamados crimes eleitorais.

Compreender o que caracteriza essas infrações não é importante apenas para candidatos e partidos políticos, mas para todo cidadão que deseja atuar dentro dos parâmetros legais e contribuir para a integridade do processo democrático.

O que são crimes eleitorais?

Crimes eleitorais são condutas tipificadas em lei que atentam contra a normalidade, legitimidade, liberdade ou lisura das eleições.

No ordenamento jurídico brasileiro, sua principal disciplina encontra-se no Código Eleitoral, sem prejuízo de normas complementares previstas na Lei das Eleições, na Lei dos Partidos Políticos e em resoluções editadas pelo Tribunal Superior Eleitoral.

O objetivo dessas normas é proteger bens jurídicos fundamentais, tais como:

* liberdade do voto;
* igualdade entre candidatos;
* transparência das campanhas;
* legitimidade do resultado eleitoral;
* soberania popular.

A própria Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 14, estabelece que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos.

Principais condutas que configuram crimes eleitorais

1. Compra de votos

Uma das práticas mais conhecidas é a captação ilícita de sufrágio, popularmente chamada de compra de votos.

Consiste em oferecer, prometer ou entregar ao eleitor qualquer vantagem para obter seu voto.

Exemplos:

* dinheiro;
* cestas básicas;
* material de construção;
* consultas médicas;
* combustível;
* promessa de emprego ou benefício.

O tema encontra respaldo no art. 299 do Código Eleitoral, que dispõe:

Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção.

A pena prevista inclui reclusão e multa.

Além da esfera criminal, pode haver cassação de registro ou diploma.

2. Boca de urna

No dia da eleição, a legislação impõe rigor especial para garantir tranquilidade ao eleitor.

A chamada boca de urna consiste na propaganda eleitoral realizada nas proximidades dos locais de votação, com aliciamento ou convencimento de eleitores.

São exemplos:

* distribuição de santinhos;
* abordagem insistente de eleitores;
* aglomerações padronizadas com finalidade de propaganda.

A vedação encontra fundamento na legislação eleitoral e em normas regulamentares do Tribunal Superior Eleitoral.

3. Coação ou ameaça ao eleitor

Ninguém pode ser constrangido a votar ou deixar de votar em determinado candidato.

Constitui ilícito:

* ameaçar empregado com demissão;
* pressionar subordinados;
* intimidar familiares ou grupos vulneráveis.

A liberdade do voto é um dos pilares do sistema democrático e recebe proteção penal específica.

4. Divulgação de fatos sabidamente inverídicos

A propagação deliberada de informações falsas capazes de influenciar o eleitorado também pode gerar responsabilização.

Não se trata de punir opinião política ou crítica legítima, mas sim a divulgação consciente de fatos falsos com potencial lesivo ao processo eleitoral.

Em tempos de circulação massiva de conteúdo digital, esse tema ganhou especial relevância.

5. Uso indevido da máquina pública

Embora nem toda irregularidade administrativa configure crime eleitoral, determinadas condutas envolvendo estrutura estatal podem ensejar responsabilização eleitoral e outras sanções.

Exemplos:

* uso promocional de bens públicos;
* publicidade institucional vedada;
* utilização de servidores ou recursos públicos em campanha.

Essas práticas comprometem a paridade de armas entre candidatos.

Quem pode responder por crime eleitoral?

A responsabilidade não se restringe ao candidato.

Podem responder:

* eleitores;
* cabos eleitorais;
* dirigentes partidários;
* servidores públicos;
* empresários;
* qualquer pessoa que pratique ou concorra para a infração.

Dependendo do caso, há responsabilização simultânea nas esferas:

* criminal;
* eleitoral;
* cível;
* administrativa.

Por que esse tema importa?

A legislação eleitoral não existe para burocratizar a política, mas para proteger a própria democracia.

Quando práticas ilícitas contaminam a vontade popular, o prejuízo transcende candidatos e partidos: atinge toda a coletividade.

Conhecer os crimes eleitorais é, portanto, conhecer os limites jurídicos da atuação política e compreender que eleições legítimas dependem não apenas de participação, mas de legalidade.

A cidadania madura exige mais do que votar; exige entender as regras do jogo democrático.


A observância da legislação eleitoral é condição indispensável para a preservação da legitimidade institucional e da confiança pública nas eleições.
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A rejeição de Jorge Messias pelo Senado e os sinais institucionais da República contemporânea
30/04/2026 | 06h35
A política brasileira viveu, nesta semana, um episódio de enorme relevância institucional: o Senado Federal rejeitou a indicação de Jorge Messias para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. O placar de 42 votos contrários e 34 favoráveis representou não apenas a negativa a um nome específico, mas um raro e eloquente gesto político do Parlamento brasileiro.

O fato é historicamente expressivo. Trata-se da primeira rejeição, em mais de um século, de uma indicação presidencial ao Supremo. Em um país no qual a aprovação de nomes para a mais alta Corte frequentemente se converteu em rito protocolar, o Senado decidiu exercer, de forma contundente, sua prerrogativa constitucional de freios e contrapesos. Não se trata, portanto, apenas de uma derrota pessoal do indicado, mas de uma mensagem institucional emitida ao Poder Executivo.

Nos termos do art. 101 da Constituição Federal, compete ao Presidente da República indicar ministros do STF, após aprovação pela maioria absoluta do Senado. A norma, aparentemente simples, carrega uma lógica sofisticada: a composição da Suprema Corte não deve ser produto exclusivo da vontade presidencial, mas resultado de convergência mínima entre Executivo e Legislativo.

Quando essa convergência falha de maneira tão explícita, a leitura política é inevitável.

A rejeição de Jorge Messias sinaliza que a capacidade de articulação do Palácio do Planalto encontra limites concretos. Ainda que o governo tenha obtido êxito na aprovação do nome na Comissão de Constituição e Justiça — por 16 votos a 11 — o plenário do Senado produziu resultado diametralmente oposto, demonstrando que o apoio formal em instâncias preliminares não necessariamente se converte em sustentação política real.

Em democracias presidencialistas, governabilidade não decorre exclusivamente da legitimidade eleitoral. Exige coordenação institucional, capacidade de negociação e autoridade política suficiente para transformar preferências presidenciais em decisões compartilhadas.

A rejeição do indicado ao Supremo expõe justamente uma fissura nesse processo.

O episódio revela um Senado menos disposto a operar como mero homologador de decisões do Executivo e mais inclinado a afirmar sua autonomia institucional. Sob certo aspecto, esse movimento pode ser lido positivamente: fortalece-se a separação de poderes e reafirma-se a independência do Legislativo.

Por outro lado, a ocorrência levanta questionamentos relevantes sobre estabilidade governativa.

Um Presidente da República cuja indicação à Suprema Corte é recusada pelo Senado experimenta, inevitavelmente, desgaste político. Não porque a Constituição lhe assegure poder absoluto de nomeação, mas porque, historicamente, tais indicações dependem de capital político suficiente para costurar consensos mínimos.

A ausência desse consenso pode sugerir algo mais profundo: dificuldade de coordenação da própria base parlamentar.

Não se trata de afirmar ruptura institucional — expressão frequentemente banalizada no debate público —, mas de reconhecer que a República brasileira, marcada por presidencialismo de coalizão e elevada fragmentação partidária, continua demonstrando vulnerabilidades estruturais.

Nossa arquitetura institucional concentra expectativas elevadas na figura presidencial, ao mesmo tempo em que dispersa poder decisório entre múltiplos atores com agendas frequentemente conflitantes. O resultado é conhecido: governos eleitos com legitimidade popular podem enfrentar severas limitações operacionais quando não conseguem converter apoio eleitoral em musculatura congressual estável.

A rejeição de Jorge Messias é, nesse sentido, um sintoma.

Mais do que um episódio isolado, representa manifestação visível de uma engrenagem republicana que opera sob permanente tensão entre legitimidade democrática, interesses partidários e disputas institucionais.

Talvez o dado mais relevante não seja a derrota em si, mas o simbolismo que dela decorre: em um tema sensível, estratégico e altamente controlado politicamente, o Senado optou por impor um limite claro ao Executivo.

A República brasileira, mais uma vez, recorda sua natureza paradoxal: formalmente robusta, constitucionalmente sofisticada e politicamente instável.

Em última análise, o caso reacende reflexão clássica da teoria constitucional: instituições não funcionam apenas pela força do texto normativo, mas pela qualidade das relações políticas que lhes dão concretude.

Quando essas relações se deterioram, a Constituição permanece; a governabilidade, nem sempre.
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Fim da mamata, começo da limpeza.
29/04/2026 | 08h07
Ricardo Couto age com firmeza e coragem ao exonerar aliados e cortar laços com o crime.

O recente cenário político do Estado do Rio de Janeiro tem sido marcado por uma inflexão institucional relevante com a ascensão do desembargador Ricardo Couto ao comando do Executivo estadual. Em meio a uma crise de legitimidade e sucessão, sua atuação tem sinalizado uma tentativa concreta de reorganização administrativa e de enfrentamento indireto às estruturas de poder contaminadas por práticas ilícitas.

A nomeação de Couto como governador em exercício decorre de um contexto excepcional, após a renúncia de Cláudio Castro e da vacância simultânea de cargos na linha sucessória, o que levou o presidente do Tribunal de Justiça a assumir interinamente o governo estadual . Esse cenário, por si só, já evidencia a gravidade institucional enfrentada pelo estado.

Dentro desse quadro, uma das medidas mais significativas adotadas por Couto foi a exoneração de figuras vinculadas ao núcleo político anterior, além da promoção de uma ampla reestruturação administrativa. Reportagens recentes indicam que o governador em exercício iniciou um verdadeiro “pente-fino” na máquina pública, com substituições estratégicas no primeiro escalão e afastamento de agentes ligados ao grupo político anterior . Tal movimento não se limita a uma mera reorganização burocrática, mas representa uma tentativa de ruptura com práticas potencialmente comprometedoras da integridade administrativa.

Ainda segundo as informações divulgadas, Couto determinou a realização de uma auditoria abrangente em todas as secretarias e órgãos da administração direta e indireta, com análise detalhada de contratos, despesas e vínculos funcionais. A medida inclui a possibilidade de identificação de irregularidades capazes de gerar dano ao erário, com previsão de adoção imediata de providências corretivas. Trata-se de um mecanismo típico de governança pública voltado à recomposição da legalidade administrativa.

Esse conjunto de ações ganha ainda mais relevância quando inserido no contexto anterior, marcado por denúncias e declarações públicas sobre a influência de grupos criminosos na estrutura estatal. Há registros recentes de críticas contundentes apontando que a administração estadual teria sido permeada por interesses ilícitos, com acusações de que nomeações políticas poderiam ter privilegiado indivíduos ligados a práticas criminosas. Embora tais afirmações devam sempre ser tratadas com cautela e sob o crivo do devido processo legal, elas ajudam a dimensionar o ambiente institucional que motivou as medidas atuais.

Sob uma perspectiva jurídica, a política de exoneração e revisão administrativa implementada por Ricardo Couto pode ser compreendida como expressão dos princípios constitucionais da administração pública, especialmente os da moralidade, legalidade e eficiência. Ao afastar agentes potencialmente comprometidos e instaurar mecanismos de controle interno, o governo em exercício busca restabelecer a confiança institucional e prevenir a captura do Estado por interesses ilegítimos.

Além disso, a iniciativa revela um aspecto importante do Direito Público contemporâneo: o fortalecimento dos instrumentos de compliance estatal e de controle preventivo, em oposição a uma atuação meramente repressiva. Ao agir de forma célere e estrutural, a atual gestão sinaliza que o combate à corrupção e à infiltração criminosa não deve ocorrer apenas após o dano, mas sobretudo na sua prevenção.

Em síntese, a atuação do governador em exercício representa um esforço de reconstrução institucional em um dos estados mais desafiadores do país sob o ponto de vista político e de segurança pública. Ainda que seus efeitos concretos dependam de continuidade e aprofundamento, as medidas adotadas até o momento indicam um compromisso com a higidez administrativa e com a reafirmação do Estado de Direito no Rio de Janeiro.
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Multas de trânsito: quando recorrer não é opção, é direito
28/04/2026 | 09h04
No imaginário comum, a autuação de trânsito costuma ser vista como definitiva, quase automática. Recebeu, pagou, resolveu. Mas essa lógica, embora difundida, não encontra respaldo no ordenamento jurídico brasileiro. Muito pelo contrário: a legislação assegura ao condutor o direito à ampla defesa e ao contraditório em todas as fases do processo administrativo de trânsito.

Isso significa que uma multa não é, por si só, uma condenação irrecorrível.

Na prática, há uma série de situações que podem comprometer a validade de uma autuação. Erros formais no auto de infração, ausência de provas consistentes, falhas na identificação do veículo, inconsistências nos dados registrados ou até irregularidades nos equipamentos de fiscalização são elementos que, quando presentes, fragilizam a penalidade aplicada.

E há um ponto ainda mais sensível: a notificação.

O condutor deve ser devidamente notificado dentro dos prazos legais. Quando isso não ocorre, há violação direta ao devido processo legal. Afinal, como exercer o direito de defesa sem sequer ter ciência formal da acusação? Esse tipo de falha, longe de ser rara, pode ser determinante para a anulação da penalidade.

Mas a questão vai além das multas.

Processos que envolvem a suspensão do direito de dirigir, a cassação da CNH e outras sanções administrativas exigem ainda mais rigor procedimental. Trata-se de medidas que impactam diretamente a liberdade de locomoção e, em muitos casos, a própria atividade profissional do condutor. Por isso, a Administração Pública deve observar estritamente os limites legais.

O que isso significa, na prática?

Significa que cada autuação deve ser analisada de forma individualizada. Não existe solução automática. Existe técnica, estratégia e conhecimento da legislação específica.

Aceitar passivamente uma penalidade pode parecer mais simples no curto prazo, mas, em muitos casos, representa abrir mão de um direito legítimo. Por outro lado, recorrer de forma fundamentada não é “protelar” ou “fugir da responsabilidade”, é exercer uma garantia constitucional.

A informação, nesse contexto, assume um papel central.

Quanto mais o cidadão conhece seus direitos, menor é a margem para abusos e irregularidades. E mais: a postura ativa do condutor contribui para um sistema de trânsito mais justo, transparente e equilibrado.

Antes de pagar uma multa ou aceitar qualquer penalidade administrativa, vale a pena fazer uma pergunta simples: todos os requisitos legais foram realmente cumpridos?

Se houver dúvida, há também um caminho.

Buscar orientação jurídica qualificada pode revelar aspectos que passam despercebidos à primeira vista e que fazem toda a diferença no resultado final.

No fim, não se trata apenas de evitar pontos na carteira ou valores a pagar. Trata-se de garantir que a lei seja aplicada corretamente.

Porque conhecer a lei não é apenas um direito é uma forma de proteção.
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Quando a conta chega
27/04/2026 | 08h35
A energia elétrica é um serviço essencial. Sem ela, a vida moderna simplesmente para. Ainda assim, não são raras as situações em que o consumidor se vê refém de práticas abusivas por parte das concessionárias: cobranças inesperadas, cortes indevidos e um atendimento que, muitas vezes, mais confunde do que resolve.

O problema começa quase sempre de forma silenciosa: uma conta que vem muito acima do padrão, sem explicação plausível. Em outros casos, surge a alegação de “irregularidade no medidor”, acompanhada de uma cobrança retroativa elevada, como se o consumidor tivesse agido de má-fé, quando na realidade, sequer teve acesso técnico para compreender o que está sendo imputado.

É importante dizer com clareza: o consumidor não pode ser penalizado por falhas que não deu causa.

De acordo com as normas da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a concessionária tem o dever de prestar um serviço adequado, contínuo e transparente. Isso inclui não apenas a correta medição do consumo, mas também a obrigação de informar, justificar e comprovar qualquer cobrança extraordinária.

No campo jurídico, aplica-se diretamente o Código de Defesa do Consumidor, que protege o cidadão contra práticas abusivas e estabelece a responsabilidade objetiva do fornecedor de serviços. Em termos simples: não é o consumidor que deve provar que está certo, mas sim a concessionária que deve provar que está cobrando corretamente.

Outro ponto sensível diz respeito ao corte de energia. Embora seja permitido em casos de inadimplência, existem regras claras que precisam ser respeitadas. O desligamento não pode ocorrer de forma arbitrária, sem notificação prévia adequada, nem pode ser utilizado como instrumento de coação em cobranças discutíveis.

Quando esses limites são ultrapassados, o prejuízo vai além do financeiro. Imagine um profissional que depende da energia para trabalhar, um comércio que perde mercadorias, ou mesmo uma família privada de condições mínimas de conforto e dignidade. Nessas situações, o Judiciário tem reconhecido não apenas o direito à revisão da cobrança, mas também à indenização por danos morais e materiais.

E aqui está um ponto que poucos percebem: muitas dessas situações são juridicamente questionáveis, mas acabam sendo pagas por falta de orientação adequada.

A lógica é simples. Diante de uma cobrança elevada ou de uma ameaça de corte, o consumidor, pressionado, paga para evitar maiores problemas. No entanto, ao fazer isso sem questionar, pode estar abrindo mão de um direito que lhe seria favorável.

Por isso, a informação é a primeira forma de defesa.

Se houver divergência na conta, o caminho correto não é o pagamento imediato, mas a análise da cobrança, a solicitação de esclarecimentos formais e, quando necessário, a adoção de medidas jurídicas para impedir abusos e reparar prejuízos.

A relação entre consumidor e concessionária não é de submissão, é de equilíbrio garantido pela lei.

E sempre que esse equilíbrio é rompido, o Direito existe exatamente para restabelecê-lo.
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Viajou no feriado e deu problema?
24/04/2026 | 08h59

Viajar em feriados prolongados é, para muitos brasileiros, sinônimo de descanso, reencontros e lazer. No entanto, para quem depende do transporte aéreo, esses períodos também costumam trazer uma dose extra de estresse. A alta demanda pressiona o sistema, e problemas como atrasos, cancelamentos, overbooking e extravio de bagagens tornam-se significativamente mais frequentes.

Do ponto de vista jurídico, é importante compreender que esses transtornos não são meros “aborrecimentos inevitáveis”. O consumidor possui direitos bem definidos, e as companhias aéreas têm deveres objetivos de prestação adequada do serviço.

Comecemos pelos atrasos e cancelamentos de voos. Em feriados, o aumento no fluxo de passageiros e a sobrecarga operacional frequentemente resultam em mudanças na malha aérea. Ainda que fatores climáticos ou de segurança possam justificar determinadas situações, isso não exime a companhia de prestar assistência ao passageiro. A depender do tempo de espera, a empresa deve oferecer comunicação (internet e telefone), alimentação e, em casos mais graves, hospedagem e transporte. Além disso, o passageiro pode escolher entre reacomodação em outro voo, reembolso integral ou execução do serviço por outro meio de transporte.

Outro problema recorrente é o chamado overbooking, prática em que a companhia vende mais passagens do que a capacidade da aeronave. Embora seja uma estratégia comercial utilizada no mundo todo, ela não pode prejudicar o consumidor. Caso o passageiro seja impedido de embarcar contra a sua vontade, ele tem direito à compensação imediata, além das alternativas de reacomodação ou reembolso. Trata-se de uma falha clara na prestação do serviço, que pode gerar, inclusive, indenização por danos morais, dependendo das circunstâncias.

No que diz respeito às bagagens, o cenário também é preocupante em períodos de grande movimentação. O extravio temporário ou definitivo e os danos às malas são situações comuns. Nesses casos, o passageiro deve registrar imediatamente a ocorrência ainda no aeroporto, por meio do Relatório de Irregularidade de Bagagem (RIB). A companhia aérea tem prazo para localizar e devolver a bagagem; caso isso não ocorra, o consumidor tem direito à indenização. Além disso, em situações de extravio temporário, é possível solicitar ressarcimento por despesas emergenciais, como compra de itens essenciais.

É fundamental destacar que a responsabilidade das companhias aéreas, via de regra, é objetiva. Isso significa que não é necessário provar culpa, mas apenas o dano e o nexo com a prestação do serviço. O Código de Defesa do Consumidor atua como importante instrumento de proteção, assegurando o direito à reparação integral dos prejuízos sofridos.

Diante desse cenário, o consumidor precisa agir com informação e estratégia. Guardar cartões de embarque, comprovantes de despesas e registrar todos os acontecimentos são atitudes essenciais para eventual busca de reparação. Em muitos casos, uma solução administrativa pode ser suficiente, mas não são raras as situações em que o caminho judicial se torna necessário.

Viajar em feriados não precisa ser sinônimo de dor de cabeça. Conhecer seus direitos é o primeiro passo para transformar um problema em uma solução justa e, sobretudo, para equilibrar uma relação que, muitas vezes, é marcada pela vulnerabilidade do passageiro diante das grandes companhias aéreas.
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O corpo como poder e estratégia política
23/04/2026 | 08h45
A política contemporânea não se faz apenas com discursos, alianças e articulações institucionais. Cada vez mais, ela também se constrói por meio de símbolos e poucos são tão poderosos quanto o próprio corpo. A exibição de vigor físico, disciplina e autocontrole deixou de ser um traço pessoal para se tornar um ativo político estratégico, cuidadosamente explorado por líderes ao redor do mundo.

Essa prática, na verdade, não é nova. Desde a Antiguidade, em civilizações como Grécia e Roma, o corpo era entendido como expressão da virtude. Governantes e figuras públicas cultivavam a ideia de que a força física refletia equilíbrio moral e capacidade. O governante ideal não era apenas sábio, era também forte, resistente e disciplinado.

No século XX, essa associação ganhou contornos ainda mais explícitos. Regimes políticos perceberam o potencial simbólico da estética corporal como instrumento de propaganda. A imagem de líderes vigorosos passou a representar não apenas indivíduos, mas a própria força de suas nações e ideologias. Durante a Guerra Fria, por exemplo, os Estados Unidos incentivaram a prática esportiva como dever cívico sob a liderança de John F. Kennedy, enquanto a União Soviética vinculava o corpo forte à resistência coletiva do trabalhador.

Hoje, essa lógica permanece, mas adaptada ao ambiente digital e à dinâmica das redes sociais. Líderes contemporâneos utilizam suas rotinas de treino, práticas esportivas e hábitos saudáveis como parte de uma narrativa cuidadosamente construída. O corpo torna-se linguagem política: comunica energia, disciplina, resiliência e capacidade de enfrentar crises.

Um dos exemplos mais conhecidos é o do presidente russo Vladimir Putin, que frequentemente divulga imagens praticando judô, montando a cavalo ou nadando em águas geladas. A mensagem é clara: trata-se de um líder forte, resistente e preparado para qualquer adversidade, seja ela interna ou externa.

No Brasil, esse movimento também ganha espaço. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem exibido em suas redes sociais momentos de treino de musculação, reforçando uma imagem de vitalidade e recuperação, especialmente após desafios recentes de saúde e a intensidade do cenário político. Não se trata apenas de incentivo à atividade física, mas de uma construção simbólica: a de um líder ativo, presente e capaz de sustentar o ritmo exigido pelo cargo.

Esse fenômeno revela uma transformação importante: a política deixou de ser apenas um campo de ideias e passou a ser também um campo de percepção. A imagem pública e, dentro dela, o corpo tornou-se um instrumento de comunicação direta com a sociedade. Em tempos de alta exposição midiática, cada gesto, cada treino e cada demonstração de disciplina física contribuem para a formação de uma narrativa de poder.

No fundo, o que está em jogo é a associação entre corpo e credibilidade. Um líder que demonstra autocontrole físico transmite, ainda que implicitamente, a ideia de que também possui controle emocional e capacidade de resolver situações complexas. É uma leitura simbólica, mas extremamente eficaz.

Assim, o condicionamento físico deixa de ser apenas uma escolha pessoal e passa a integrar a arquitetura do poder. Em um mundo onde imagem e política caminham lado a lado, o corpo do líder não é apenas seu, é também uma mensagem.
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Liberdade ou tutela?
22/04/2026 | 08h24

A recente aprovação, no Reino Unido, do chamado “banimento geracional do tabaco” reacendeu um dos debates mais antigos da teoria política: até que ponto o Estado pode intervir nas escolhas individuais em nome do bem coletivo?

O Parlamento britânico aprovou o Tobacco and Vapes Bill, uma legislação que estabelece que qualquer pessoa nascida a partir de 1º de janeiro de 2009 jamais poderá comprar cigarros legalmente, ainda que atinja a maioridade.
Na prática, trata-se de um mecanismo progressivo: a idade mínima para compra de tabaco aumenta ano a ano, até que determinadas gerações simplesmente nunca tenham acesso legal ao produto.

O objetivo declarado é claro: criar uma “geração livre de fumo” e reduzir drasticamente os danos à saúde pública. No Reino Unido, o tabagismo ainda é responsável por dezenas de milhares de mortes anuais e impõe bilhões em custos ao sistema de saúde.

Mas a questão que realmente importa não é sanitária, porém política.

A lógica da intervenção: proteger o indivíduo de si mesmo

Do ponto de vista do Estado, a justificativa é sólida. O cigarro não é um produto qualquer: trata-se de um agente comprovadamente nocivo, altamente viciante e que gera externalidades relevantes, ou seja, seus custos não recaem apenas sobre o indivíduo, mas sobre toda a coletividade.

Sob essa perspectiva, a lei britânica representa uma evolução do chamado paternalismo estatal: não se proíbe o consumo para todos, mas impede-se que novas gerações sequer entrem no ciclo de dependência.

Há aqui uma mudança sutil, porém profunda. O Estado deixa de apenas regular o consumo e passa a moldar o futuro comportamento da sociedade.

A pergunta inevitável é: isso ainda é proteção ou já é engenharia social?

A lógica da liberdade: o direito de errar

Os críticos da medida apontam exatamente esse risco. Argumentam que a lei cria uma distinção arbitrária entre cidadãos: duas pessoas adultas, lado a lado, terão direitos diferentes apenas por terem nascido em anos distintos.

Mais do que isso, a crítica central é filosófica: se um adulto não pode decidir consumir um produto legal, ainda que prejudicial, até onde vai sua autonomia?

Esse ponto é crucial. A liberdade individual, em sua concepção clássica, inclui não apenas o direito de fazer o bem, mas também o direito de fazer escolhas ruins.

Quando o Estado passa a eliminar essa possibilidade, ele não apenas protege, ele substitui o juízo do indivíduo pelo seu próprio.

O paradoxo contemporâneo

E aqui chegamos ao verdadeiro dilema do nosso tempo.

Vivemos em uma sociedade que, por um lado, exalta a autonomia individual, especialmente em temas identitários, morais e existenciais e, por outro, aceita com naturalidade uma crescente intervenção estatal em hábitos pessoais, como alimentação, consumo de substâncias e estilo de vida.

Por que aceitamos que o Estado regule o cigarro, mas rejeitamos outras formas de intervenção?

A resposta não é simples. Ela envolve percepção de risco, impacto coletivo e, sobretudo, narrativa política.

O cigarro tornou-se, ao longo das décadas, um “inimigo público consensual”. Isso facilita a aceitação de medidas restritivas que, em outros contextos, seriam vistas como autoritárias.

Um precedente perigoso.

A grande questão, porém, não está no cigarro em si, mas no precedente que se estabelece.

Se o Estado pode proibir uma geração inteira de consumir tabaco, poderia fazer o mesmo com álcool? Com alimentos ultraprocessados? Com qualquer produto considerado prejudicial?

A lógica já está posta: se algo faz mal e gera custos sociais, o Estado tem legitimidade para intervir.

O problema é que essa lógica não tem um limite claro.

Entre Maquiavel e o Estado contemporâneo

Se olharmos por uma lente mais clássica, à maneira de pensadores como Maquiavel, a questão pode ser formulada de outra forma: o governante está fortalecendo o Estado ou enfraquecendo a autonomia dos seus cidadãos?

Um povo excessivamente tutelado pode, no curto prazo, parecer mais saudável e organizado. Mas, no longo prazo, corre o risco de perder algo mais difícil de medir: a capacidade de decisão própria.

E sem essa capacidade, o que resta da liberdade política?

Conclusão: o preço da proteção

A lei britânica é, sem dúvida, um marco histórico. Ela pode salvar vidas, reduzir custos públicos e transformar hábitos sociais ao longo das próximas décadas.

Mas também levanta uma questão que nenhum dado estatístico resolve: quanto de liberdade estamos dispostos a abrir mão em troca de proteção?

Essa não é uma pergunta médica.
É uma pergunta política e, sobretudo, civilizacional.

E talvez o mais inquietante seja isto: uma vez que o Estado aprende a nos proteger de nós mesmos, dificilmente ele esquecerá como fazê-lo.
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O que distingue um político de um estadista
20/04/2026 | 08h42
Em tempos de exposição permanente e decisões cada vez mais imediatistas, tornou-se comum confundir presença política com grandeza política. Nem todo aquele que ocupa o poder está, de fato, preparado para exercê-lo em sua plenitude. E é justamente nesse ponto que surge uma distinção fundamental, embora frequentemente ignorada: a diferença entre o político e o estadista.

O político, em sentido comum, é aquele que atua dentro das estruturas de poder. Disputa eleições, ocupa cargos, negocia interesses e administra circunstâncias. Sua atuação, muitas vezes, está condicionada ao curto prazo, ou seja, ao ciclo eleitoral, à pressão da opinião pública e à necessidade constante de manutenção de capital político.

O estadista, por sua vez, não se define pelo cargo que ocupa, mas pela qualidade da sua visão e pela profundidade de sua atuação.

Ele não governa apenas o presente. Ele organiza o futuro.

Enquanto o político reage aos fatos, o estadista antecipa cenários. Enquanto um administra crises, o outro constrói estruturas capazes de evitá-las. Essa diferença não é meramente retórica, mas estrutural.

O estadista possui aquilo que a tradição clássica chamava de prudência política, uma forma elevada de inteligência prática que equilibra princípios e realidade. Ele não se deixa seduzir por soluções fáceis nem por aplausos momentâneos. Sua atuação é orientada por uma compreensão mais ampla do Estado, da sociedade e, sobretudo, do tempo.

Há, nesse sentido, uma dimensão histórica que distingue o estadista. Ele compreende que o Estado não é uma plataforma de poder individual, mas uma construção coletiva que atravessa gerações. Suas decisões, portanto, não são tomadas apenas com base na conveniência do presente, mas na responsabilidade pelo futuro.

Isso exige coragem, mas não a coragem teatral dos discursos inflamados. Exige a coragem silenciosa de sustentar decisões impopulares quando necessárias, de recusar atalhos que fragilizam instituições e de resistir à tentação constante de governar para aplausos.

Não por acaso, estadistas são raros.

Em um ambiente político cada vez mais orientado pela reação imediata, pela lógica das redes sociais e pela volatilidade da opinião pública, a figura do estadista se torna quase uma exceção. Mas é justamente em momentos assim que sua presença se torna indispensável.

Porque, no fim, a política pode até ser capaz de administrar o cotidiano.

Mas somente o estadista é capaz de dar direção à história.
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Sobre o autor

Evandro Barros

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Advogado, historiador, escritor (+ de 10 livros) e pesquisador, com especialização em Direito Tributário; mestre em Cognição e Linguagem e Doutorando em Políticas Sociais - UENF, com tese dedicada ao Licenciamento Ambiental. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Congonhas (MG).