Frases nem tão soltas XXXII
Cândida Albernaz
A luz era suave e a música chegava aos ouvidos como calda de caramelo escorrendo na boca. Mas o coração... Ah! este não parecia pertencer àquele lugar, tal a força com que batia procurando romper o peito.
*
Era pouco, muito pouco o que recebera. Acreditava ser demais o que doara. Mentira boba! Tentava enganar a si mesma porque nunca se entregara o suficiente.
*
As piores decisões são tomadas quando nos sentimos apertar entre paredes.
*
Sempre pareceu buscar mais do que pretendia. Na verdade não queria enxergar-se como alguém que não se saciava.
*
Ontem pensou ser forte. Hoje provou que era.
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Enfiou goela adentro o grito de socorro que não ousava pedir. Quando sentiu estar entalada, chorou.
*
Pede que eu dou. Diz que eu faço. Riu das mentiras que saíam daquela boca. E continuou rindo por notar que mentia com vontade de que fosse verdade.
*
Olhou o céu e percebeu estar inundado de estrelas. Só pôde enxergá-las porque era breu a sua volta. E porque era breu, fazia questão de vê-las todas.
*
Não sou mulher de pequenas porções. São grandes os pedaços de frutas ou carnes que me satisfazem. Não falo manso ou delicado. Talvez aveludado. Nem mesmo sei ser doce por muito tempo. Enjoaria de mim.
*
Tentou falar, mas de seus lábios não saía som algum. Apenas os olhos gritavam a dor que sentia.
*
Apoiou suas mãos enrugadas no braço ainda jovem. Lembrou quando eram os seus que carregavam aquele que agora o sustentava.
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Quando chorou sentiu o sal das lágrimas em sua língua. Recordou de outro dia, em outro lugar em que o vinho bebido era sorvido pela boca colada a sua. Sorriu na lembrança enquanto a face continuou seu pranto.
*
Enquanto leio sinto aquele mundo como se fosse meu. Se escrevo vivo mundos que transformo em meus. A tinta que sai da caneta carrega o pensamento que estava no fundo do peito e o faz boiar para que leve se torne.
*
Ao se deitar ela decidiu que naquela noite teria belos sonhos. E por assim querer, foi dormir sorrindo.
Frases nem tão soltas Cândida Albernaz Meu grito mais forte é aquele que não se ouve. Só no peito ele faz o eco de uma explosão. * E mesmo que a vida machuque, na manhã seguinte esteja pronto para mostrar a ela que sua luz vem de dentro. * Como deixar de lado o que mais quero sem ser dilacerada pela indiferença? É ela que me protegerá para não sentir mais do que suportaria. * A vida me leva por caminhos que penso ter escolhido, mas na verdade a decisão é dela, me guiando em passos que jamais imaginei percorrer. * Algumas vezes coloco a máscara do sou forte para esconder a insegurança escancarada no rosto e na alma. * Quero escrever cores, dores, amores. Inventados, reais, esperados ou desesperados. Quero escrever vida. Sentida, vivida, sonhada. Quero escrever. * Não se deve ter tanto medo. Nada é pior do que escolher a solidão por medo. * Anseio por serenidade como quem precisa de ar. * Uns fazem poesia com imagens, eu tento fazer o mesmo com palavras. * Existem dias que é uma pedrada aqui, uma paulada ali, uma chibatada adiante. Existem dias que a droga do dia não termina. * Enquanto mulher, menina para sempre. * Existem pessoas que possuem braços como polvos e quando menos esperamos estão prestes a nos sufocar. * Na maioria das vezes o que pede não é o mesmo que quer. A eterna espera da adivinhação. * A sensação de alguns momentos deveria ser para sempre, mas se assim fosse, que graça teria buscarmos novos momentos? * Não podemos evitar que as pessoas tentem. Mas podemos impedir que consigam. * Gota a gota bebo esperança. E quando menos espero estou transbordando dela a tal ponto que me vejo repleta do que foi esperança, agora realidade. Então volto gota a gota a me permitir novas e novas.
Frases nem tão soltas
Cândida Albernaz
Porque fechando os olhos posso enxergar melhor. Porque fechando os olhos consigo ver com o sentir.
*
A melhor parte em escrever é poder criar tantas vidas diferentes da sua como se estivesse em cada uma delas.
*
Às vezes penso que me invento e então me surpreendo percebendo que aquilo que inventei sou eu real.
*
O relógio marca o tempo que passa às vezes devagar, às vezes rápido demais. Entre espinhos que se escondem, flores e verdes continuam a crescer.
*
Por que metade se você pode ter e ser inteiro?
*
Nossa lucidez pode ser a loucura perfeita.
*
O que mais nos machuca não deixa marcas visíveis. Porque estas não são para ver, são para sentir.
*
Preciso que me conte histórias, me carregue no colo e através de suas rugas conheça a vida que te fez chorar ou sorrir, para que possa eu, menina que sempre serei, chorar e sorrir a seu lado.
*
Algumas pessoas demoram a perceber o que passou e perdem tempo se prendendo ao nada. Vida que existiu, mas que se perdeu no viver contínuo.
*
Será que ultrapassando as nuvens estarão todos os que perdi enquanto continuo aqui?
*
Se você sabe onde fica a ponta de um novelo, por que insistir em se colocar no meio dele?
*
Algumas vezes nos escondemos tão dentro de nós, que mesmo procurando não conseguimos nos achar.
*
Não me lembro de quando, mas um dia percebi que rir pode ser muito bom, mas gargalhar é imprescindível.
*
Quero brincar de pique esconde e no término da brincadeira me encontrar inteira.
Uma crônica de natal
Cândida Albernaz
Acreditamos, eu e meus irmãos, por muitos anos na existência de Papai Noel.
Eu dizia ter um motivo consistente para isso. Numa noite, em nossa casa, havia sentado em seu colo e falado com ele. Até hoje não faço ideia de quem foi a pessoa com uma longa barba branca que usou aquela roupa vermelha para nos visitar. Acho que nunca perguntei. Nem todo sonho precisa ser desfeito com tanta clareza.
Todo dia vinte e quatro à noite, mamãe preparava nossa ceia, onde o figo seco e as castanhas cozidas não faltavam. Brincávamos um pouco e ela pedia que fôssemos dormir, pois caso contrário o velhinho não teria como deixar nossos presentes.
Então, colocávamos nossos sapatos em volta da árvore, sempre escolhíamos os que estivessem com aparência de mais novos, para que em cada um deles fosse deixado o que pedíramos nas cartinhas. Pois é, todos os seis escrevíamos o que queríamos. Claro que mamãe sempre nos orientando em não pedir nada que fosse caro, porque ele não teria como atender. Eram crianças do mundo inteiro querendo brinquedos.
Recordo-me de num desses natais, meu pai colocar no toca-discos, piadas de José Vasconcelos, onde havia também algumas músicas. Ríamos com aquelas histórias engraçadas e antigas e depois dançávamos de mãos dadas, em roda na sala. Foi uma das melhores noites de natal de minha infância. Com risos fartos, a alegria de papai e o olhar amoroso de mamãe absorvendo cada minuto vivido ali, sem um senão.
No ano seguinte esperei por uma noite igual. O disco, todos juntos, nossa roda, mas não lembro o porquê, não foi a mesma coisa. Numa determinada hora sentei-me na varanda, usando uma camisola de algodão, pelo menos duas vezes o meu tamanho. Quando ganhei de minha tia ela avisou:
- Ela é bem grande, querida, para que você possa aproveitar por mais tempo.
Se o tecido durasse, poderia tê-la aproveitado até a fase adulta.
Aprendi mais tarde que momentos não se repetem. Mesmo que tentemos fazer tudo do mesmo jeito, sempre estará sobrando ou faltando algo.
Então um dia, duvidei da existência de Noel. Chamei os irmãos mais velhos e expliquei o motivo. Combinamos de ficar acordados até mais tarde, para pegarmos Papai Noel, para os que ainda acreditavam, ou mamãe, para mim, com a boca na botija.
Percebendo o alvoroço, ela deitou-se esperando que pegássemos no sono. Mas acabou dormindo também.
De manhã, o primeiro que acordou, chamou os outros, como sempre fazíamos. Nunca nenhum de nós chegou até a árvore sem os outros cinco.
Descemos a escada e no meio dela sentamos cada um em um degrau. Entreolhamo-nos sem entender o que havia acontecido. Todos os sapatos estavam vazios.
Com o barulho, mamãe acordou e apareceu atrás de nós.
- Viu só o que fizeram? Vocês não dormiram logo e Papai Noel acabou não conseguindo vir. Mas ele me avisou que está passando aqui agora. Voltem para o quarto e finjam dormir. Ele não quer ser visto.
Corremos todos para a cama e apertamos bem forte os olhos para que não abrissem de jeito nenhum.
- Podem descer. Está tudo aqui.
E lá estavam todos os sapatinhos com presentes em cima deles. Juramos não mais tentar ver o Papai Noel sem que ele permitisse.
Depois de abrirmos os embrulhos e mostrarmos uns aos outros o que ganháramos, íamos para a copa tomar nosso café.
O cheirinho da rabanada em calda me atraía em particular. Era só o que eu comia nas manhãs de vinte e cinco de dezembro. Macia, bem doce, com uma ameixa sobre cada fatia de pão. Eu e mamãe nos olhávamos e ela sorria. Gostava de ver o meu prazer em saborear aquele doce feito por ela.
Ao se passar mais um ano, eu e meus dois irmãos já conhecíamos a verdade, mas deixamos e incentivamos que os outros acreditassem por mais tempo.
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Candida Albernaz
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