sabe que te amo
16/08/2018 | 06h14

Sabe que te amo

Cândida Albernaz

As coisas estão no lugar, do jeito que gosta. Detesta poeira, desordem ou portas abertas. Demorou para que a mulher aprendesse isso.

Acordou cedo como em todos os dias, mas permitiu que ela dormisse um pouco mais. Não é sempre que age assim. Prefere que ela acorde antes dele e deixe o café pronto. Tem um defeito, detesta esperar. Precisar falar duas vezes a mesma coisa também não aceita. Um tanto impaciente, reconhece.

Foi mimada pelos pais e não se esforça muito. Apenas cuida dele e da casa e nem assim faz o que pede direito.

Há dois dias quando chegou do trabalho mais cedo do que o costume encontrou-a no telefone com a mãe, segundo ela afirmou. Ainda conseguiu ouvir “não aguento mais, estou com medo”. Pensou continuar escutando, mas a mulher notou sua presença e se despediu dizendo que ligava depois. Ligar depois por quê? Não aguentava mais o quê? E aquela ligação quem ia pagar? Não era ele? Se falava com a mãe por que desligou quando viu que ele chegou? O que estava escondendo dele?

Ajudou a mulher a se levantar quando viu que depois do soco, caiu batendo o rosto na ponta da mesa. Sangrava na altura da sobrancelha.

Tirou a camisa e tentou estancar o sangue, mas ela afastou sua mão. Não queria auxílio. Não compreendia que se preocupava e que nunca quis machucá-la.

Só não suportava erros. Admitia que algumas vezes exigia demais, mas sabia pedir desculpas. Não era tão orgulhoso.

Na mesma noite quando sentaram para jantar, enquanto o servia, ela falou de forma suave e baixinho que ele devia procurar um médico. Disse que estava sempre nervoso e isso podia fazer mal. Olhou dentro do olho dela quando puxou seu rosto para perto do dele e explicou que o dia hoje havia sido difícil. Ela não compreendia porque não fazia nada. Nem filhos tinham porque quando engravidou há alguns anos perdeu o bebê, teve uma infecção e foi obrigada a retirar o útero. Não poderia mais dar filhos para ele que sempre sonhou ser pai de dois garotos. Não era sua a culpa daquela casa vazia, e sim, dela. Soltou o rosto que mantivera seguro entre as mãos. A mulher abaixou a cabeça e comeu quieta o frango que preparou.

Perguntou se o corte estava doendo, quer que pegue um analgésico para você? Respondeu que não, mas foi buscar e deu a ela com um copo de água que tomou o remédio e agradeceu.

Gosta quando entende que tudo o que faz é para o bem dela. Precisou ensinar, porque quando solteira, não fazia nada em casa. Tinha empregados! Hoje não necessitavam de gente estranha à volta deles, era tão pouco o que fazer. As roupas, por exemplo, lavavam fora. Ele levava e pegava na lavanderia. Para poupá-la.

Sabia que talvez estivesse mais irritado ultimamente. Os negócios não iam muito bem. Verdade que semana passada, não se aguentou quando viu a porcaria de almoço que a mulher havia feito. Quando reclamou, ela quis discutir dizendo que colocara menos sal por que ele pedira, e que por isso a comida ficou sem gosto. Colocou aquilo para comer e tentou convencê-lo de que a culpa era dele. Sua reação foi rápida e o tapa atingiu o lado direito do rosto. Levantou e começou a gritar como uma louca, que não suportava mais viver daquele jeito. Ele perdeu a cabeça e com a faca que estava sobre a mesa, avançou. Não pensou realmente em ferir, mas ela suspendeu o braço e o rasgo foi feio. O sangue não estancava e precisou ir para o hospital, onde levou alguns pontos. No carro voltando, prometeu que não a magoaria mais.

Resolveu ir até o quarto para saber se ela havia acordado. Viu que ainda mantinha os olhos fechados. No lençol que a cobria, notou que a mancha havia aumentado. Não se recordava de como a briga na noite anterior começou. Apenas lembrava-se da voz dela repetindo que ia embora, que no dia seguinte a mãe estaria ali para buscá-la, que a mala estava pronta e escondida. Tinha decidido não falar nada, mas não o suportava mais. Tinha nojo dele!, nojo dele!, nojo dele!

Aquela tesoura tão próxima...

A campainha tocou. Pensou em abrir a porta, mas não conseguia se mover. Precisava que o desculpasse, afinal, como poderia viver sem ela?

 

 

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Que boca!
09/08/2018 | 09h46
Que boca!
Cândida Albernaz
- Benza Deus!
- O que foi agora, Célia?
- Sabe aquele sobrinho do meu marido que falei com a senhora na semana passada?
- O que batia na mulher?
- Não, esse é outro e ainda vai ter o castigo que merece.
- Não estou lembrando.
- O Nando, que entrou lá em casa e roubou o que sobrou do salário que a senhora me pagou e ainda levou o celular.
- Ah...
- Pois é, só descobri que foi ele porque o dono de um bar que tem perto de casa veio falar comigo que ele estava vendendo um celular e o nome que aparecia era Jocélia Pereira da Silva.
- Você colocou seu nome completo na tela?
- E não foi bom? O menino é tão burro que não trocou.
- O que aconteceu com ele?
- Morreu.
- Como assim, morreu?
- E ninguém mandou matar, não. O que, aliás, com o tempo era o que aconteceria, porque esses garotos terminam assim. Com a cara enfiada numa vala qualquer.
- Morreu de quê?
- Um caminhão passou por cima. Estava numa bicicleta que não era dele, segurando uma bolsa de mulher, que também não era dele e com certeza tentando escapar de alguém.
- Coitado!
- Também fiquei com pena. Mas ao mesmo tempo foi um alívio.
- Por quê?
– O desgraçado, que Deus o guarde, me cercou na rua e quis dar na minha cara.
- ...
- Só porque falei que teria que devolver o dinheiro, já que o celular estava comigo. Ainda disse que ia dar parte dele na delegacia.
- Mas você não achou que seria melhor ter deixado isso de lado? Filho de seu cunhado e ainda por cima perigoso.
- Um moleque que ajudei a trocar a fralda.
- O moleque cresceu...
- Foi falta de coça naquele lombo dele.
- ...e virou bandido.
- Fui à casa do pai dele e falei poucas e boas. Não gostou e veio tirar satisfação. Disse que era para ficar longe da família dele.
- Talvez tivesse sido o correto. Com esses rapazes, o melhor é não se meter.
- O pior é que agora o irmão anda atrás de mim.
- E por quê, mulher?
- Fica dizendo que roguei praga e por isso o caçula morreu.
- Ele também se envolve com roubo?
- Não que eu saiba. O problema é que roguei mesmo. Um criançola daquele ameaçando bater em mim. Disse que um caminhão passaria na cabeça dele, porque ameaçou a tia. Disse que Deus ia castigar.
- Que boca, hein, Célia?
- Pois é. Agora toda a família fica me olhando de banda.
- Mas que culpa você teve?
- Aconteceu o que eu disse.
- Foi coincidência.
- Será? Estou até com medo. Semana passada avisei a meu marido que se ele não tomasse jeito e parasse de olhar para tudo que é mulher, acabaria ficando cego.
- Que bobagem, Célia.
- O homem está atrás de mim igual sarna, dizendo que começou a sentir dor nos olhos.
- Deve ser impressão dele.
- Só pode ser conjuntivite. E não foi apenas isso.
- Não?
- Falei também que de uma hora para outra, o “dito cujo” ia parar de funcionar, caso ele continuasse me traindo.
- E daí?
- O homem já broxou duas vezes seguidas.
- Benza Deus! Que boca!
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um mundo só seu
02/08/2018 | 13h41
solidão
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Um mundo só seu
Cândida Albernaz
O cabelo encarapinhado tinha uma cor indefinida, entre o amarelo e o encardido. Talvez fosse uma cabeça toda branca se a vida tivesse oferecido algo melhor.
Forrou a beirada da calçada com um papel pardo e ali colocou o prato de alumínio. Pegou a colher plástica de um rosa transparente, recolheu o feijão com arroz e cheirou. Balançou a cabeça em sinal de aprovação e comeu. Os pés para fora do meio fio calçavam uma sandália marrom com tiras grossas, lembrando um calçado masculino.
Quando um carro parou a seu lado, pegou outro pedaço de papel e tentou proteger da poeira cobrindo parcialmente a refeição.
Era uma mulher de estatura baixa, com olhos apertados como se sorrisse todo o tempo. Talvez o excesso de rugas em volta dele causasse o efeito.
Um rapaz ainda jovem se aproximou e perguntou se ela gostaria de ir para casa. Casa? Estou em casa. Não quer se sentar também? Se preferir, divido meu almoço com você. Não é muito, mas está gostoso.
Ele faz uma cara de repulsa e pede mais uma vez que ela o siga.
Não escutou ou fingiu que não. Pegou o prato e jogou na lixeira que estava na esquina. Voltou demonstrando estranheza que o rapaz estivesse ali ainda.
Abaixou sem dificuldade, limpou a colher no papel que usara antes e guardou na sacola plástica que havia deixado ao lado.
Olhou para ele e disse que precisava de paz. E é na rua que vai conseguir? Como uma mendiga?
Ela sorriu de um jeito conformado e saiu andando.
Tentou segurar seu braço, mas como uma força que não parecia ter, soltou-se dele.
O rapaz desistiu e foi para o outro lado da rua. Parou, encostou o corpo no muro de uma casa e ficou olhando. Notou que ela resmungava baixinho. Sabia o que falava: muxoxos e palavrões contra ele.
Sempre que a mãe tinha essas crises, ninguém conseguia segurar. Ia para a rua odiando tudo e todos dentro de casa. Então ele ou a irmã se revezavam na vigília. Não costumava durar muito porque arranjavam um jeito de colocar, enquanto ela se distraía, um calmante na bebida que tomava.
Fora internada algumas vezes, mas voltava tão triste e abatida que resolveram não fazer mais.
Ela foi mudando aos poucos e não se deram conta, ou a importância necessária, até a primeira escapada.
Procuraram pela mãe como loucos e a encontraram com mais duas pessoas, deitada num chão sujo e dividindo o cobertor de alguém.
O pai havia morrido há alguns anos, e na mesma época perdera um irmão em um acidente. A mãe, apesar do sofrimento, continuou a levar a vida adiante. Transformou-se numa mulher triste, quieta, de poucas palavras.
Ainda na calçada oposta, observava enquanto ela conversava com um e outro que passava, rindo sozinha quando imaginava ver ou ouvir algo divertido.
Estava cansado e pensou que desta vez a manteria por um bom tempo à base de remédios. Com eles ela ficaria deitada ou dormindo mais. Não suportava quando a via com aquele aspecto de demência, mas tinha medo de perdê-la para sempre um dia.
Parece que vai parar na praça agora. Deve sentar um pouco. Talvez seja a chance para aproximar e colocar o sedativo. Poderia falar com ela novamente, pois tinha a certeza de que nem mesmo lembraria que estivera com ele há pouco.
Viu que havia uma lanchonete ali perto. Compraria um sorvete e misturaria o medicamento. Nunca vira a mãe recusar um sorvete. Sempre gostara. Com ou sem crise.
Quando chegou perto e ofereceu a ela, imaginou ver um pequeno brilho em seus olhos e a boca abriu com um enorme sorriso. Como uma criança gulosa devorou aquele creme gelado.
Não demorou muito para que ela recostasse a cabeça em seu ombro e se deixasse levar.
 
 
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nem sempre vale a pena recordar
26/07/2018 | 10h09

 
bem me quer mal me quer
bem me quer mal me quer / google
Nem sempre vale a pena recordar
Cândida Albernaz
Resolveu sentar na calçada para descansar um pouco. Andou o dia inteiro e nem parou para comer. Retirou do bolso da saia preta e larga demais para o corpo que possuía um pequeno embrulho. Foi abrindo o papel devagar, de onde tirou um pedaço de pão com linguiça. Mordeu com vontade. Um pouco duro para os dentes que sobraram em sua boca. A garota de olhos azuis da padaria foi quem deu a ela. De vez em quando ela preparava alguma coisa que a alimentava. Gostava de conversar também. Fazer perguntas.
Hoje contou sobre a casa bonita em que morava quando era jovem numa outra cidade com o marido e as duas filhas. Não era grande, mas o bairro onde residia tinha muitas árvores e uma praça para onde levava as meninas. Só o marido conhecia esta cidade onde estava agora vivendo. Ele tinha negócios aqui. E um apartamento também.
Tirou mais um pedaço do sanduíche. Mastigava devagar e com dificuldade.
A garota costumava pedir que contasse alguma parte de sua vida. Nem sempre podia fazer isso, porque não lembrava. A mente fugia e as ideias ficavam fora de ordem.
Suas filhas eram louras como ela e gostavam de correr entre os brinquedos da pracinha. Tinham cinco e seis anos na época. Riam tanto as duas e brigavam também, porque criança adora ter ciúme uma da outra nos desejos mais bobos.
Estava pensando em ficar por ali mesmo esta noite. Mais tarde alguém passaria e serviria uma sopa morninha.
O marido vivia viajando a trabalho. Sua família e a dele, eram do norte e desde que se casaram e se mudaram, não os vira. Falta de tempo dela, falta de dinheiro deles... Os anos passaram e não percebeu.
Vivia para as filhas e para aquele homem que escolheu. Não trabalhava, ele não permitia.
Guardou o restante que sobrou no mesmo papel, fechou direitinho e enfiou no bolso outra vez. Amanhã podia precisar. Estava com sede. Levantou-se e foi até a porta da loja que havia ali perto. Pediu um copo de água à funcionária, que depois de resmungar qualquer coisa foi pegar. “Pode levar o copo. E não fique aqui na frente.” Voltou para onde estava e sentou. Quando a loja fechasse, se acomodaria melhor sob a marquise.
Um dia, o marido chegou com um carro novo e mandou que as três se vestissem. Iam sair. Gostava quando ele as levava para passear perto da praia. O mar tinha uma beleza e uma força que a deixava deslumbrada sempre que via. Bom de verdade era quando, no domingo, pisavam na areia e podiam mergulhar na água gelada. Virava criança junto com as filhas. Ele ficava sentado sob o guarda sol olhando-as. Depois entrava sozinho no mar sem dar muita atenção às três. Notara que ele falava e ria cada vez menos.
Pronto. Fecharam a loja. Poderia se acomodar melhor nos degraus. A funcionária passou por ela e deu boa noite. Respondeu com um sorriso de dentes falhados.
Alguns dias pensava mais, como hoje. Em outros, só olhava em volta, com a cabeça oca de lembranças.
Nunca viera com o marido àquela cidade. No dia em que desembarcou de um ônibus ali, estava sozinha.
Não gostava muito quando esta parte da vida enchia sua cabeça. Ficava triste.
Na sacola com que andava para cima e para baixo pendurada no ombro, tinha uma colcha fina e uma almofada bem pequena que fazia de travesseiro. Um pente também, porque adorava pentear os cabelos. E só. Antes carregava coisas que as pessoas davam ou encontrava pela rua. Jogou tudo fora. Pesava.
Não percebeu nada antes. Confiava. Ele pediu que fosse ao supermercado enquanto ficava com as crianças. Uma lista grande. Disse que a pegaria de carro para levar as compras. Esperou por uma hora mais ou menos. Deixou tudo lá mesmo e avisou que voltaria para pegar.
Em casa, todos haviam saído. Imaginou um desencontro entre eles. Esperou. E continuou esperando. Dois dias depois, não entendia o que acontecera. Fora a polícia e prometeram procurar por eles. Naquela semana esteve várias vezes na delegacia. Sem notícias.
Num desses dias em que retornava a casa, encontrou pessoas estranhas dentro dela. Tinham a chave e anunciaram que a haviam comprado e a ocupariam. Retirasse logo tudo o que fosse pessoal porque queriam o imóvel livre no dia seguinte. O prazo dado ao antigo proprietário vencera. Tentou procurar ajuda, o dinheiro que tinha mal dava para comer. Na firma onde o marido trabalhava como representante de remédios, disseram que pedira demissão. E não, não sabiam informar o paradeiro dele.
Papéis e papéis que assinara sem ler.
Resolveu ir à rodoviária. Tentaria a cidade onde ele falara sobre o apartamento que tinham. Talvez os encontrasse. Sabia o endereço, vira em sua gaveta e gravara.
Assim que chegou, foi à rua que conhecia apenas de nome. Tocou a campainha. Uma mulher com um lenço amarrado à cabeça abriu aporta. Perguntou pelo marido, disse seu nome, ou estaria no endereço errado?
“Não, foi este o senhor que nos vendeu o apartamento. Mudamos há um mês. Pagamos uma parte com dinheiro e demos nosso carro também. Juntávamos há algum tempo.”
Quando saiu dali, ficou andando pela cidade que desconhecia. Foi a primeira vez que sentou numa calçada. Foi a primeira vez que escorregou o corpo até que com a bolsa embaixo da cabeça, dormiu sob uma marquise.
Quando a mente voltava como hoje, sentia o corpo inteiro doer. Continuaria procurando amanhã... Se ainda lembrasse.
A moça da sopa estava chegando...
 
 
 
 
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Longa espera
24/05/2018 | 16h33

Longa espera

Cândida Albernaz

Ficou parada olhando a parede branca. Não saía som de sua boca. Não havia por que, já que também não havia ninguém para escutar.

Estava sozinha mais uma vez. Queria poder gritar, mas sentia-se fraca para isto. Deu então um muxoxo e um balançar de ombros. Fingiria não se incomodar.

Fingir para quem? Riu de si mesma. Estranhou o som que saiu de sua garganta. Não parecia o de um riso, aquele barulho alegre que faz com que outros também queiram sorrir. Era mais semelhante a um gemido. Que jeito esquisito de dar risada! Acha que desaprendeu. Ou esqueceu. Melhor que seja assim, porque poderá lembrar a qualquer momento de novo.

Notou que a parede não estava totalmente branca. Havia um ponto preto quase chegando ao teto. Parecia uma aranha.

E era! Uma pequena aranha que acabara de se pendurar. Imaginou que se tivesse altura suficiente, passaria o dedo pela teia para ver se caía. Queria ser como ela. Esconder-se no alto, presa por um fio invisível, apenas ela vendo tudo o que acontecia a sua volta. Sem ser vista.

Pensou que era uma tonta mesmo. Ver o que se ali não havia ninguém? A cama mal forrada? Aquela mesinha sem gavetas? Ou o chão também branco?

Tiraram as gavetas para que não quisesse guardar nada. Gostaria de ter pelo menos um porta-retratos. Eles têm medo de que se machuque com ele.

Verdade que rasgara todas as fotos que estavam ali. Eram três. Não entendiam que não podia olhá-las. Não naquele dia. O peito ardera ao se ver rindo com os filhos e o marido.

Pois é, um dia soubera rir.

Quando olhou a fotografia, lembrou-se do que vivera naquela tarde: felicidade. Doeu recordar como era. Não aguentou e então rasgou em minúsculos pedaços.

Quando a enfermeira entrou estava com um deles na mão. Eram dois olhos, sem a boca e o nariz. Não sabia de quem eram aqueles olhos.

Perguntou a ela, insistiu e como a enfermeira não conseguiu identificar, agarrou em seus cabelos e puxou seu rosto para perto. Queria apenas que visse melhor. Em vez disso, mãos a agarraram com força e prenderam-na na cama. Dormiu.

Do mesmo jeito que não sabia rir, não sabia chorar.

Mas lembrava de já ter chorado muito. Quando o filho mais velho foi embora. Disse que não ficaria mais ao lado dela porque daquela vez jogara uma tesoura nele, que quase o cegara. Não se recordava.

Ele contou várias histórias ao médico. Como o dia em que ela esquentara o garfo e em seguida colocou sobre o braço do irmão. Quando percebeu muita gente gritava à sua volta enquanto trancava-se no banheiro. Queria fugir daquele alvoroço.

Um dia jogara o carro que dirigia contra uma árvore. Estava ela, o marido e os dois meninos.

- Não há mais o que fazer, disseram. Temos que interná-la.

Não perguntaram sua opinião. Enfiaram-na naquele lugar sem cor. Ela poderia ter dito que escolheria morrer. Seria tão fácil. Quantas vezes pensara nisto? Chumbinho? Cortar os pulsos? Pular de uma janela? Ligar o gás e esperar?

Este último era o seu preferido. Agora, neste lugar, não teria mais chance alguma.

Janela com grade e quarto vazio. Se fosse como a aranha, aproveitaria a própria teia e a passaria pelo pescoço.

Queria ver a cara daquela mulher chata quando a encontrasse. Ficaria horrorizada ou aliviada?

Não importa. Não é uma aranha.

Avisaram que hoje é dia de visita.

- Está calma – disseram.

Tomou banho e agora penteavam seu cabelo.

- Está bonita. Quer passar um batom?

Perguntou mas não esperou resposta. Passou um de cor rosada em sua boca.

Quanto a estar bonita, um dia fora sim. Sobrou pouco do que era.

Colocaram-na sentada em uma cadeira da sala.

- Fique bem quietinha porque estão chegando.

Tentou lembrar novamente como era sorrir. Gostariam de encontrá-la assim.

Pegou o dedo indicador e puxou o canto direito do lábio. Com o outro, puxou o esquerdo.

Acho que está bom desse jeito. Tomara não demorem, porque vai se cansar.

Para ela o que sobrou foi uma longa espera.

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para um vovô querido
26/04/2018 | 17h28

Para um “Vovô Querido”

Vovô Querido, com você descobri que ser honesto é ser livre. Obrigada por isso. Amo você e tudo o que vivi ao seu lado, cada lembrança, cada carinho, cada amor que você e minha avó me deram transbordava. Obrigada por ter sido quem foi e por ter me permitido vir como sua neta, com Muito orgulho. Esteja com Deus.

Paula Albernaz

Vovô Querido, ainda está sendo impossível acreditar. Um homem tão forte, íntegro, que sempre lutou e tentou proteger os seus e o próximo. Como sou grata por ter sido escolhida para ser sua neta, que orgulho sinto de você. Que esteja em paz e que Deus conforte nossos corações. Obrigada por nos mostrar que a honestidade é o caminho. Te amo muito e não sei como será daqui para frente as nossas reuniões e nosso lindo Natal sem suas palavras e seus discursos. Te amo te amo te amo e sempre te amarei. Você está com Deus e vovó já te recebeu ao lado dela. Olhe por nós.

Luana Albernaz

Mais que a dor sinto gratidão pela sua vida e por tudo o que trouxe para nossa vida. Nossa família. Meu avô foi a primeira personificação que criei da palavra vocação. Foi a partir dele que entendi o que isso significava. Uma vida dedicada à politica. A política como deveria ser, junto ao povo. Ele mostrava que não deveríamos desistir ou desacreditar. Ele mostrou que é possível fazer sem ser injusto, sem judiar. Deixou para todos nós, seus filhos e netos, a importância de ser ético, de fazer o certo para ter do que se orgulhar. Aí está o verdadeiro sentido. O dia está lindo, o céu está azul, o sol brilha quente e o coração, apesar de dolorido, segue cheio de carinho. Ele com certeza inicia uma nova jornada num lugar mais bonito, mais leve e mais justo. E sei que minha Vó Quequé está sorrindo, nosso Vovô Querido está a caminho.

Gabriela Albernaz

Quanto orgulho e admiração por você. Eu e todas as pessoas que te conheciam. Você brilhou nesta vida e nos deixou lembranças lindas de um homem honesto, generoso...um homem bom. Meu Vovô Querido, como era bom sentir seu carinho quando nos encontrávamos. Que bom ter tido a oportunidade de ouvir sua voz ontem, de te dar um beijo. Eu nem desconfiei que seria o último... teria ficado mais tempo ali.

Júlia Albernaz

Descanse em paz meu avô, que Deus o receba com tamanha misericórdia e amor. Sua passagem aqui foi repleta de vitórias. Foi marcante e admirável. Você inspirou muita gente e nos encheu de orgulho. Obrigada por ter sido tão bom. Ajudou muitos e foi um politico que há muito tempo não encontramos: justo e honrado. Nosso coração está doendo.

Marcella Albernaz

Bivô, que bom poder ter tido sua presença todos esses anos em minha vida. Agradeço sempre pela família que me deu, forte e unida. Sentirei sua falta, mas sei que está em um lugar muito melhor. Te amo muito. Sua bisneta,

Betina Albernaz

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com ela seria diferente
27/03/2018 | 08h07
 
esperança a encontrar
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Com ela seria diferente
Cândida Albernaz
O casaco rosa em tom forte contrastava com a pele negra. Os olhos levemente puxados tinham uma vivacidade que pareciam trazer brilho a todo o resto. Na mão direita, empurrava uma bicicleta vermelha com a pintura gasta. Caminhando à beira do asfalto, ignorava os olhares que provocava e o perigo dos carros que transitavam.
A amiga devia estar impaciente. Combinara com Gislane ficar com o filho dela por algumas horas. Adorava criança e esperava ter os seus um dia. Dois. Queria um casal, mas Deus é quem sabe, é claro. Tivessem saúde, o principal.
Mal pegou o menino, ela saiu correndo dizendo estar atrasada.
As duas têm dezessete anos e se conhecem desde criança. São como irmãs. Sua mãe tinha fartura de leite naqueles peitos tão grandes que pareciam dois travesseiros, e amamentou a amiga. Tia Dalva era fraca e quando a primeira filha nasceu, bateu uma tristeza nela e o leite secou. Não conseguiu tomar conta da menina. Sua mãe, que nunca viu chorar nem umaveizinha, cuidou das duas.
Agora é ela quem ajuda com o filho da amiga. Gosta daquele garoto de três anos que é seu afilhado. Ele é tranquilo e não dá trabalho. A amiga sim, é meio maluca e avoada. Quando começou a namorar o pai dele, não faltou quem avisasse como era: mulherengo, gostava de emprenhar garotas novas, vendia bagulhos para os caras lá de cima, etc, etc. Não ouviu ninguém, com ela seria diferente. Não foi. Depois de anos de coças esporádicas e uma criança na barriga, o cara se mandou porque se encantou com outra.
Ficou triste a boba, sem conseguir enxergar que agora talvez tivesse chance de consertar a vida. É evidente que com um filho aos catorze anos, seria muito mais complicado. Sabia também que podia contar com ela, mesmo que não fosse grande coisa, estariam juntas.
De tia Dalva, nunca pôde esperar nada. Depois que Gislane nasceu, vieram mais dois e a cada vez ela tinha nova crise e permanecia sem saúde o suficiente para cuidar deles.
Em suas conversas, a amiga fala que não entende como o pai permitiu que sua mãe engravidasse tantas vezes se não podia dar atenção aos filhos. Não ouvira falar sobre preservativo? Aliás, ela pensa que Gislane também não ouviu a respeito.
Hoje em dia, Dalva endoidou de vez e vive zanzando para lá e para cá, sem falar coisa com coisa. O marido é um santo, tem a maior paciência com ela. Apesar de parecer que a convivência é horrível, nunca o ouviu falar mais alto.
Como no dia em que ele estava lavando o carro na frente de casa e ela resolveu ajudar. Entrou, pegou um balde, e antes que alguém percebesse, virou o que tinha dentro em cima do carro. Na mesma hora um líquido branco escorreu até cobrir o farol do lado esquerdo. Não!!! Todos gritaram na hora, mas o estrago estava feito.
Ela explicou que jogara a tinta que estava em cima do armário, para o carro ficar clarinho. Por quê? Não gostava de branco? Que pena, se soubesse teria tentado com outra cor.
Ele segurou em seu braço e quando notou que chorava, pediu que ficasse calma. Daria um jeito. Ela sentou na varanda e ficou parada olhando para eles.
O melhor era levar para a oficina no dia seguinte.
Se fosse o pai dela..., mas também sua mãe não era doida como tia Dalva.
Gislane está demorando. Foi fazer uma entrevista, pois precisa trabalhar.
Pegou o afilhado no colo e foi até o portão. Nem sinal.
Ver o que a amiga tem passado serviu para decidir que não deixaria que acontecesse nada semelhante com ela. Não queria saber de namorado por enquanto. Faria faculdade no próximo ano e além de estudar, trabalhava para isso. Era vendedora numa loja de perfumes. Sabia que o pai não podia pagar. Seu sonho sempre foi ser professora, ensinar, e tinha certeza de que realizaria.
O menino dormiu. Voltou ao portão e viu a amiga descendo do ônibus.
- E então, conseguiu?
Gislane começou a chorar.
- O que houve?
E ela despejou que não era entrevista para trabalho nenhum. Queria tirar a criança que esperava, mas não teve coragem.
- Grávida de novo? De quem?
E o que isso importa? Sua vida tinha acabado de vez.
- Por que não contou antes? Sabia que não deixaria que tirasse. E agora?
Choraram as duas. Não sabia o que dizer, só apertou mais forte os braços em torno da amiga. Sentiu um gosto ruim na boca.
Com ela ia ser diferente, prometeu a si mesma.
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frases nem tão soltas XXXIV
27/03/2018 | 07h46
ballet no ar
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Frases nem tão soltas XXXIV
Cândida Albernaz
A saudade do amor está em cada gesto que repetimos com o outro, como um ritual que sem querer inventamos para nos tornar inesquecíveis.
*
Quando penso em fugir, seus olhos cruzam os meus e qualquer desejo que não seja estar em seu corpo deixa de existir.
*
Seremos para sempre meninos ou meninas, porque o tempo nos desenha por fora e a alma nos desenha por dentro.
*
Um brinde ao amor quando deixa de ser teoria!
*
E no dormir a noite trará com ela luzes que me cobrem enquanto giro suavemente sonhando sonhos que encantam.
*
Busque-me com seus braços de apertar. E sem folga entre um abraço e outro, faça com que tema muito mais ir embora do que me deixar ficar.
*
Nunca valerá a pena estarmos sós ao lado de alguém.
*
Tenho angústias que nem mesmo sei de onde vêm. Chegam como ondas me cobrindo o corpo e impedindo de respirar.
*
Que tonto é em não saber ouvir o que grito com os olhos e escondo com os lábios.
*
Não fique ao lado de alguém apenas porque te faz bem. Permaneça porque não pode viver sem o outro.
*
O perigo de jogar para o alto o que acredita não querer mais, é ter que se agachar mais tarde para catar migalhas.
*
Desligo o mundo quando estou com você.
*
Pensei seguir a lua para que ela me mostrasse o infinito. No meio do caminho, mudei de ideia e dei a volta. De costas para ela encontrei a escuridão que aquela noite me esperava.
*
Não sei ser doce por muito tempo. Ficaria enjoada de mim.
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Nossas músicas
30/11/2017 | 08h27
quando ainda era assim
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Nossas músicas
Cãndida Albernaz
Está ouvindo a música?
“... Ouça, vá viver a sua vida com outro bem. Hoje, eu já cansei de pra você, não ser ninguém...” Há quantos anos não a escutava? Lembra-me um dos verões que passamos juntos. Que ano era aquele? Você também não sabe, não é? Tanto tempo... A gente conseguia rir de tudo. Era isso mesmo, naquela época não tínhamos motivo para não aproveitar.
“... Nunca mais vou fazer o que meu coração pedir. Nunca mais vou ouvir o que meu coração mandar...” Essa música me recorda cada coisa... o Antenor atrás da Vilminha e ela nem ligando para ele. O sujeito tomava um porre atrás do outro! E todos nós achando engraçado o sofrimento dele. Ninguém conseguia levar aquilo a sério. Dizia que sem ela ia acabar se matando. Vivia nos extremos, o Antenor. Até que uma noite você chegou com uma amiga e ele com o dia quase amanhecendo, veio falar que agora sim, conhecia o que era amar. O que sentira no passado pela Vilminha fora um engano. - Amor à primeira vista, meu irmão. Isso é que é amor real.
E olhávamos para ele, ríamos da cara de bobo que fazia e continuávamos rindo imaginando o quanto sua amiga ia penar com esse amor de perseguição que ele entornaria com vontade em cima dela.
Estou vendo nos seus olhos que está rindo também. Gosto quando a vejo mais animada. Não está com frio? Se preferir, podemos entrar. Mas acho que você também quer ficar mais um pouco. A noite está bonita e amanhã fará sol. Céu estrelado. Será que nossa estrela ainda está lá? Todo jovem de nossa época tinha uma.
Ouve essa que está tocando agora? Alguém que viveu nossa juventude relembra. Assim como nós.
“... Ainda é cedo, amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora da partida...” linda, não é mesmo? Lembro-me de ouvir você cantando algumas vezes. Voz rouca e suave. Nunca falei, mas quando a ouvia sentia um desejo enorme de você. É isso mesmo. Sua voz cantando me deixava louco. Rindo de novo? Acho que fazia de propósito. Sabia que mexia comigo. Às vezes, tínhamos brigado e daqui a pouco você passava por mim interpretando alguma música. Baixinho. Mal me aguentava de vontade de fazer as pazes. Fale a verdade. Quantas vezes usou isso para me seduzir?
Ei! Que olhar triste é esse agora? Só porque não pode mais cantar? E daí? Também já não posso fazer tanta coisa... E você sempre me atraiu. Corpo, olhos, boca, voz. Sabe disso, não sabe?
Ouve “... Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar...”
Você se entusiasmava quando me vendo remando. Eu era um bocado forte. Sei do que você mais sentia atração em mim: o peito!, que era largo, musculoso, costumava passar os dedos nele e quando me abraçava, apertava seu rosto ali. Gostava de remar por nosso clube. Depois a vida, o trabalho, fez com que eu parasse.
Sabe quem vi no outro dia? Romualdo. Lembra-se dele? Está velho, encurvado. Acho que pensou o mesmo de mim. Mas não estou tão velho assim. Claro que ando evitando os espelhos. Essa porcaria não mostra como me sinto. E aquele que vejo ali refletido não tem nada a ver comigo. É apenas a casca. Fala para mim: sou bonitão apesar da idade, e esse cabelo branco dá charme, não acha? Você dizia isso quando eles começaram a aparecer. Falava que me deixava ainda mais interessante e que ia precisar vigiar em dobro, porque mulher adora homem começando a ficar grisalho.
Está esfriando, melhor entrarmos. A música também parou. Acho que quem ouvia resolveu dormir.
Deixe ajeitar a manta em seus joelhos. Pronto. Essa cadeira que comprei é melhor do que a antiga. Mais leve para empurrar.
Sabe qual a parte que mais gosto do dia? Quando tiro você daí, a hora de deitá-la na cama. Coloco-a no meu colo e sinto seu corpo. Vejo o rosto tão próximo do meu e sinto saudades. Uma saudade boa.
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frases nem tão soltas
21/11/2017 | 21h08
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Frases nem tão soltas XXXIII
Cândida Albernaz
Amor quando espalha provoca sorriso que encanta.
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Ouviu o coração bater sem compasso. Era o medo de ter que desistir. Decidir pelo não agitava seu peito.
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Viu o brilho daquela estrela? Não conseguiu porque olhava o chão. Perdesse menos tempo sendo sensato.
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Tantos eram os medos que enfrentava. Logo ela, que se pensou covarde, criou armas e armaduras e agora lutava como se corajosa fosse.
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Pegou a mala, colocou suas dores ali dentro e fechou com um cadeado. Poderia levá-la para onde quisesse, mas usar a chave para abri-la era escolha sua.
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Entardeceres me comovem. Esta é a hora em que o dia começa a adormecer e muitas vezes você percebe que o sonho daquele mesmo dia ainda não foi realizado.
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Há dias que o dia foge. Melhor não ir buscá-los. Melhor deixar para lá.
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Na cumplicidade do confiar o amor não mede dor, ele se contorce para cativar.
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Por mais que o tempo passe, que a pele enrugue, nossa alma será sempre criança nos esperando.
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Passo a passo vai seguindo o caminho que nunca foi traçado. Devagar, para que havendo tropeços, não se machuque demais.
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O amor é bonito, quando apesar do tempo ou por causa dele se consegue rir junto.
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Ansiava descansar a cabeça no colo daquela que a acalentara tantas vezes quando criança. Era macio de carinho e acalmava todos os seus medos.
*
Olhou firme em seus olhos e decidiu perdoar. Apenas para que pudesse esquecer.
*
O corredor era longo e frio, mas precisava chegar até a porta. Tinha certeza de que depois dela havia uma luz de aquecer. Só deveria prosseguir.
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