Sabe que te amo
Cândida Albernaz
As coisas estão no lugar, do jeito que gosta. Detesta poeira, desordem ou portas abertas. Demorou para que a mulher aprendesse isso.
Acordou cedo como em todos os dias, mas permitiu que ela dormisse um pouco mais. Não é sempre que age assim. Prefere que ela acorde antes dele e deixe o café pronto. Tem um defeito, detesta esperar. Precisar falar duas vezes a mesma coisa também não aceita. Um tanto impaciente, reconhece.
Foi mimada pelos pais e não se esforça muito. Apenas cuida dele e da casa e nem assim faz o que pede direito.
Há dois dias quando chegou do trabalho mais cedo do que o costume encontrou-a no telefone com a mãe, segundo ela afirmou. Ainda conseguiu ouvir “não aguento mais, estou com medo”. Pensou continuar escutando, mas a mulher notou sua presença e se despediu dizendo que ligava depois. Ligar depois por quê? Não aguentava mais o quê? E aquela ligação quem ia pagar? Não era ele? Se falava com a mãe por que desligou quando viu que ele chegou? O que estava escondendo dele?
Ajudou a mulher a se levantar quando viu que depois do soco, caiu batendo o rosto na ponta da mesa. Sangrava na altura da sobrancelha.
Tirou a camisa e tentou estancar o sangue, mas ela afastou sua mão. Não queria auxílio. Não compreendia que se preocupava e que nunca quis machucá-la.
Só não suportava erros. Admitia que algumas vezes exigia demais, mas sabia pedir desculpas. Não era tão orgulhoso.
Na mesma noite quando sentaram para jantar, enquanto o servia, ela falou de forma suave e baixinho que ele devia procurar um médico. Disse que estava sempre nervoso e isso podia fazer mal. Olhou dentro do olho dela quando puxou seu rosto para perto do dele e explicou que o dia hoje havia sido difícil. Ela não compreendia porque não fazia nada. Nem filhos tinham porque quando engravidou há alguns anos perdeu o bebê, teve uma infecção e foi obrigada a retirar o útero. Não poderia mais dar filhos para ele que sempre sonhou ser pai de dois garotos. Não era sua a culpa daquela casa vazia, e sim, dela. Soltou o rosto que mantivera seguro entre as mãos. A mulher abaixou a cabeça e comeu quieta o frango que preparou.
Perguntou se o corte estava doendo, quer que pegue um analgésico para você? Respondeu que não, mas foi buscar e deu a ela com um copo de água que tomou o remédio e agradeceu.
Gosta quando entende que tudo o que faz é para o bem dela. Precisou ensinar, porque quando solteira, não fazia nada em casa. Tinha empregados! Hoje não necessitavam de gente estranha à volta deles, era tão pouco o que fazer. As roupas, por exemplo, lavavam fora. Ele levava e pegava na lavanderia. Para poupá-la.
Sabia que talvez estivesse mais irritado ultimamente. Os negócios não iam muito bem. Verdade que semana passada, não se aguentou quando viu a porcaria de almoço que a mulher havia feito. Quando reclamou, ela quis discutir dizendo que colocara menos sal por que ele pedira, e que por isso a comida ficou sem gosto. Colocou aquilo para comer e tentou convencê-lo de que a culpa era dele. Sua reação foi rápida e o tapa atingiu o lado direito do rosto. Levantou e começou a gritar como uma louca, que não suportava mais viver daquele jeito. Ele perdeu a cabeça e com a faca que estava sobre a mesa, avançou. Não pensou realmente em ferir, mas ela suspendeu o braço e o rasgo foi feio. O sangue não estancava e precisou ir para o hospital, onde levou alguns pontos. No carro voltando, prometeu que não a magoaria mais.
Resolveu ir até o quarto para saber se ela havia acordado. Viu que ainda mantinha os olhos fechados. No lençol que a cobria, notou que a mancha havia aumentado. Não se recordava de como a briga na noite anterior começou. Apenas lembrava-se da voz dela repetindo que ia embora, que no dia seguinte a mãe estaria ali para buscá-la, que a mala estava pronta e escondida. Tinha decidido não falar nada, mas não o suportava mais. Tinha nojo dele!, nojo dele!, nojo dele!
Aquela tesoura tão próxima...
A campainha tocou. Pensou em abrir a porta, mas não conseguia se mover. Precisava que o desculpasse, afinal, como poderia viver sem ela?
