Doença
Cândida Albernaz
Naquela noite o medo transparecia em seus olhos. Não o medo do desconhecido, mas o temor da constatação, do fato enfim consumado. Pela primeira ele a agrediu.
Com a mão ainda no ar depois do tapa que lhe dera, olhou-a não acreditando no que acabara de fazer.
Ela não sentia dor no rosto vermelho e também não percebia que de seus olhos escorriam lágrimas. Apenas ficou parada vendo a sua frente aquele homem transfigurado e se perguntando por que estava ali, por que deixou até aquele momento. Não teve coragem de tomar uma atitude antes, mesmo reconhecendo que era naquele ponto que chegariam. Fitava o rosto masculino, desconhecido agora, e tinha pena. Dele, pois entrara por um caminho sem retorno. Dela, por ter perdido tanto tempo.
Não falavam e não se encaravam. Caminhou para a porta do quarto e saiu.
Ele permanecia na mesma posição. Deixou-se cair no chão olhando para onde a mulher acabara de passar. Colocou a cabeça entre as mãos e chorou forte. Chorava a dor do reconhecimento da perda sentindo o peito comprimir.
A que ponto chegou. Os indícios foram muitos. A princípio, discussões. Mais tarde, as mesmas vinham regadas de gritos e palavrões. Houve até um empurrão quando ela caiu sobre a cama.
Não se reconhecia. Não se continha. Um ciúme insuportável o asfixiava. Juntava provas que não existiam. Tinha certeza em cenas que criava. Sua mente e a realidade percorriam rumos diferentes. Vivia num imaginário seu e não entendia como a lógica não correspondia ao real. A dor que sentia era intensa, quase não a suportava.
Queria parar, mas suas palavras nunca obedeciam. O que vinha a mente era despejado como vômito: sem controle.
Magoava e feria.
Quantas noites, a cabeça no travesseiro e o sono a fugir. Virava-se e a mulher dormia. Parecia tranquila. Apoiava o corpo no cotovelo e a observava. Que sonho estava agora a sonhar? Com quem? Achava que ela sorria. Seria ele provocando esse sorriso ou algum outro? Como ousava? Rasgava-se por dentro.
Levantava e andava por toda casa. Os pensamentos não o deixariam dormir e os pesadelos viriam: sua mulher sorrindo para muitos enquanto ele permanecia num canto sentindo o abandono. Observando. Acabavam da mesma forma: ela o via e desdenhava dele. Encontraria com algum homem que a faria feliz como ele não conseguia fazer. Como podia traí-lo até mesmo em sonhos?
Agora chegou a bater nela.
Ouviu um barulho. Era o carro. Ela deve ter levado as crianças. Meu Deus! Como seria sem eles? Pediria perdão. Tinha tanto amor a ela. Sabia que errara e reconheceria mais uma vez. Prometeria mudar. Faria qualquer coisa.
Como pudera duvidar de sua mulher? Estava decidido: começaria um tratamento e quando estivesse curado viveriam bem novamente. Tantas vezes ela pedira isso.
Mas talvez ela agora estivesse deixando as crianças com a avó e satisfeita, fosse ao encontro do amante. Ririam dele. O idiota sentindo-se culpado enquanto os dois trocavam carinho, cumplicidade.
Foi ao armário do quarto e procurou na prateleira de cima, embaixo dos casacos. Ela estava ali.
Não zombariam dele. Os encontraria e então.
