Tradição de São Cosme e Damião mantida por Seu Juca há mais de 30 anos
Mário Sérgio Junior 26/09/2026 08:16 - Atualizado em 26/09/2026 08:17
Seu Juca prepara cada saquinho
Seu Juca prepara cada saquinho / Rodrigo Silveira
“Tudo tem que ser por amor. Me sinto confortável. Hoje eu tenho 77 e peço a Deus para chegar o ano que vem, aos 78. O tempo é rápido, passa para todo mundo. Aí você vê tanta pessoa fazendo, praticando mal. Por quê? É tão fácil fazer o bem”. As palavras foram ditas pelo aposentado José Pinto Ribeiro, o famoso Seu Juca, que há mais de 30 anos tem se dedicado a manter a tradição em Campos da distribuição de doces no dia de São Cosme e Damião, celebrado todo 27 de setembro.
Morador do Parque Imperial, pai de 5 filhos, avô de 8 netos e bisavô de 1, é em sua casa na rua João Manoel de Abreu que seu Juca faz a alegria não só da criançada, mas também de adultos que aproveitam a oportunidade para lembrar os tempos de infância.
Neste ano, ele pretende distribuir cerca de 3 mil saquinhos de doces. A montagem começou na quarta-feira (23).
— Você vê que a sala aqui, talvez mais uns 400, 500 sacos de doce. Hoje é quarta, tem quinta, sexta, sábado. É tranquilo, você vai enchendo. Uma moça me perguntou assim, se eu preciso de ajuda para encher? Eu digo que não, atrapalha. A pessoa, do meu jeito, eu tranquilo ali com o pensamento nas crianças, você vai enchendo e tal — comentou o aposentado ao destacar que tem recebido outras formas de ajuda para manter a tradição e a festa das crianças.
Foto: Rodrigo Silveira
Sua tradição de distribuir doces é guardada com carinho em recortes de matérias de jornais, muitas delas da Folha da Manhã: “Hoje, aqueles que eram mais jovens têm seus filhos e vêm pegar os doces com eles. Aquele jornal mesmo que eu mostrei, de 2006, esses meninos são casados, outros são militares e tal, e os filhos deles vem com eles também pegar”.
Embora a iniciativa busque levar alegria e guloseimas para as pessoas, seu Juca também fala sobre o preconceito. “Eu acredito que foi através da bondade que virou uma tradição, independente de religião. Porque eu achei até interessante, o ano passado, na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, o padre, não lembro o nome, passou um sermão na turma, pois teve gente que falava ‘seu Juca é macumbeiro’. E mal sabem que várias pessoas que estão na Igreja, frequentam aqui na minha casa. E na verdade eu sou de Santo Amaro, católico”, disse.
Natural de Santo Amaro, José Pinto foi para o Rio de Janeiro aos 13 anos, onde ganhou a vida exercendo diversas funções. Até os 13, ele conta que trabalhava na lavoura de seu pai cortando cana, pegando na enchada. E em Farol também vendeu pão, picolé e até pescou no mar.
“Até 13 anos fiz de tudo na vida. Aí indo para o Rio de Janeiro, fui criado na casa de uma madame. Aí lá, 16, 17 anos, trabalhei em lanchonete de japonês. E depois, com 21 anos, coloquei uma farda da Segurança Pública do Estado de São Paulo. Depois fui ver que não era isso que eu queria na vida. Sou rezador, não nasci para dar tiro em ninguém. Três anos depois, entreguei a farda e entrei em uma multinacional francesa, a Brasilit. E nessa fábrica, fiquei 21 anos, fiz 18 cursos no Senai, Sesc e Senac. E fui eleito operário padrão em 1981”, contou.
Vaidoso, ele diz que gosta muito de um espelho. “Eu sou muito pé no chão. Sou simples. Gosto muito de espelho, né? Adoro pentear meu cabelo. Até 13 anos, as garotas me chamam de gatinho. Aos 21 foi gato. E hoje, gatão”, brincou.
Seu Juca diz que espera viver mais para continuar alegrando as pessoas. “O que eu peço a Deus é que deixe de vir mais um tempo. Meu pai faleceu aos 103 anos, em 2016. E a minha irmã mais velha tem 80, outros 79, 78. É tudo um atrás do outro”, disse.

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