Um remedinho de quatro patas: pets ajudam na saúde mental
Dora Paula Paes - Atualizado em 26/09/2026 08:14
Silvia Andréia e seus pets
Silvia Andréia e seus pets / Divulgação


O mês de setembro caminha para o fim, mas a pauta da saúde mental precisa ser discutida todos os dias, independentemente da estação do ano. É aí que entra a tríade defendida por profissionais da área: lazer, esporte e animal de estimação. “Atuam para regular nosso corpo, são os bombeiros que chegam para apagar o incêndio que nosso alarme detectou”, explica a psicóloga Silvia Andréia Mendonça.

A profissional acrescenta que cada uma dessas ações reduz as substâncias que nos adoecem e, o mais importante, aumenta a produção das substâncias que nos trazem calma, regulação, restauração, sensação de pertencimento, propósito e amor.

Durante o “Setembro Amarelo”, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, Marcelo Maeda, médico veterinário e responsável técnico pelo Canil do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e pela Vigilância Ambiental de Campos, além da Unidade Básica de Saúde (UBS) PET, também defende a adoção de um, uma espécie de “remedinho de quatro patas”.

Segundo ele, nesse cenário de cuidado, os animais de estimação, especialmente os cães, são parceiros para além da companhia, oferecendo conforto e suporte emocional para quem atravessa momentos difíceis.

“Nós, veterinários, vivenciamos essa via de mão dupla todos os dias. Mas, para que esse carinho seja pleno, precisamos lembrar que eles (os animais) também dependem inteiramente de nós, garantindo uma alimentação de qualidade, vacinação, prevenção de doenças e respeito ao bem-estar”, apontou.

Marcelo também incentiva a adoção de pets. Atualmente, o Canil Municipal conta com 15 cães e seis gatos disponíveis para adoção. O espaço, que funciona na sede do CCZ, está aberto de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h. As adoções são realizadas de maneira responsável. Para adotar, é preciso ter idade mínima de 18 anos e apresentar os originais da carteira de identidade, do CPF e do comprovante de residência.
A estudante Júlia Aquino
A estudante Júlia Aquino / Divulgação Secom-Campos


Recentemente, Júlia Aquino, estudante de Direito de 23 anos, compartilhou sua experiência ao adotar Frida, uma cadelinha sem raça definida (SRD), de sete anos. A pet, que chegou em um momento delicado, segundo ela, tornou-se seu suporte emocional indispensável e companheira de todas as horas.

“No final da pandemia, em 2022, enfrentava uma fase difícil da depressão e tinha acabado de perder o Frederico, meu companheiro de quatro patas de tantos anos. Senti um vazio enorme sem um animalzinho em casa e, pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de adotar a Frida. Me encantei com suas orelhinhas grandes e seu pelo mesclado, preto e branco. Não pensei duas vezes e a adotei”, recorda.

“Hoje, ela é minha melhor companheira e um grude. Ela me ajudou a criar uma rotina que não posso quebrar, e isso é fundamental para não deixar os momentos difíceis me derrubarem. Todos deveriam experimentar esse tipo de suporte e apoio que os animais nos dão.”

Lazer, esporte e afeto

Sobre os benefícios individuais de cada ação para a saúde mental, a psicóloga Silvia Andréia destaca um a um.

“Vou começar com uma história: imagine uma pessoa que cumpre brilhantemente suas atividades, seja estudo, trabalho ou simplesmente a correria da sua rotina, e, no final do dia, está exausta. O que ela faz? Busca uma recompensa para relaxar, pode ser na comida, na bebida, no jogo, no cigarro, nas compras. E, no dia seguinte, o ciclo se repete, dia a dia, até que a pessoa se dá conta de que não faz muitas coisas de que gosta. E a vida vai perdendo o brilho.”

Segundo Silvia, biologicamente, o que acontece é que a rede de recompensa cerebral fica desregulada. Buscar alívio rápido em excessos, como comida ou compras, faz com que o cérebro receba picos artificiais de dopamina, substância que antecipa o prazer, seguidos por quedas bruscas. Com o tempo, as pequenas alegrias cotidianas deixam de fazer efeito.

“É aí que o lazer, o esporte e o convívio com um animal de estimação entram como salvadores: eles estimulam a produção natural e saudável de endorfina, serotonina e ocitocina. Essas atividades devolvem o equilíbrio ao sistema nervoso, resgatando o prazer genuíno pelas coisas simples e devolvendo o brilho à vida.”

Ainda de acordo com ela, praticar esporte funciona porque ocorre uma sinalização neurológica durante a atividade física. Se a pessoa está ansiosa ou deprimida, o corpo pode ficar travado em uma condição de alerta, de perigo. “O cérebro está convencido de que tem um leão que vai atacá-la. Quando você coloca o corpo em movimento físico intencional, com contração muscular, coração acelerado e, depois, descansa, vai um sinal para o sistema nervoso de que nós conseguimos fugir do predador e reduzir a adrenalina e o cortisol. Assim, o exercício encerra o ciclo biológico do estresse. Desliga o alarme de perigo”, salienta.

Silvia ainda ressalta que as atividades de lazer trazem a pessoa para o momento presente e encerram o ciclo de ruminação e preocupação com o futuro. “Mais uma vez, é o mecanismo neurobiológico entrando em ação para preservar nossa espécie”, disse.

Tão importantes quanto o lazer e o esporte, os animais de estimação também entram nessa equação. A própria Silvia é uma “mãezona” dos seus pets.

“E os animais de estimação entram como grandes fatores protetores para a nossa saúde mental. Não importa quem somos, eles nos amam e não nos julgam. São ativos e nos trazem um senso de responsabilidade, afinal, precisamos cuidar, dar comida, água e sair para passear, dependendo do animalzinho. Essa rotina pode nos incentivar a praticar atividade física e, principalmente, nos auxilia na interação social. Se você sair com um cão na rua, tenha certeza de que alguém vai puxar assunto com você. Para os idosos, os pets muitas vezes devolvem o senso de propósito, além de ajudarem a retardar o aparecimento de demências.”

Neurobiologicamente, ela explica que a conexão com um animal de estimação gera um impacto imediato no sistema nervoso central.

“O simples ato de acariciar um animal, olhar nos seus olhos, estimula a liberação do hormônio do vínculo e afeto, a ocitocina, e de endorfinas. Paralelamente, ocorre a redução do cortisol, o hormônio do estresse. Essa regulação química acalma nosso alarme interno, a amígdala cerebral, diminui a sensação de solidão, ansiedade e hipervigilância. Promove, portanto, um estado biológico de segurança e acolhimento”, conclui a psicóloga.

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