Arthur Soffiati - Uma ilha perdida no Pacífico
Estou de partida para a ilha de Páscoa, aliás Rapa Nui. Há tempos, desejo conhecê-la. Um dos meus fetiches é viajar. Passei a maior parte da minha vida em casa e nem sala-de-aula. Fiz algumas viagens pelo Brasil e uma, especialmente, por três países da América Latina. Só apreciei mesmo conhecer Cusco e Machu-Pichu. Depois de aposentado, comecei a planejar viagens. Devo considerar também a falta de dinheiro como fator limitante. Agora também a idade. Beiro os 80 anos e não sei se conseguirei ainda ir muito longe. Espero que sim. Gostaria de fazer pelo menos mais três viagens. Se conseguir duas, vou me considerar feliz.
Ao escolher um lugar para conhecer, levo sempre em consideração o sentido que me move a ir até lá. Para tanto, começo a me preparar meses antes, como fiz com relação ao sul do mundo germânico, ao mundo português e ao mundo amazônico. Escolhido o lugar, o segundo passo é ler a respeito dele antes de viajar. Nem sempre basta, pois, no caminho, encontro outros livros. Na volta, também. E não me interesso somente pelos aspectos culturais, senão também pelo território, pela flora e pela fauna. Culinária é meu prato favorito, se me permitem o trocadilho.
Na volta, preciso dividir com alguém as minhas impressões de viagem. Então, escrevo para a imprensa na esperança de ser lido. Não é vaidade. É desejo de partilhar emoções. Mas sei que ninguém lê. Sei que hoje uma foto na coluna social desperta mais atenção que um artigo.
Páscoa (Rapa-Nui, na língua indígena) é uma das mais remotas ilhas do mundo. De formação vulcãnica, ela tem cerca de vinte quilômetros na sua maior extensão. Talvez eu ainda tenha fôlego para percorrê-la a pé de ponta a ponta. Mas não farei isso. Não terei tempo para tal experiência. Em dois dias inteiros percorrendo a ilha em veículo motorizado e com um guia, é possível conhecer o essencial. Não pretendo me tornar um especialista na cultura da ilha. Apenas viver um pouco a experiência de seus primeiros habitantes.
Na década de 1930, os estudiosos supunham que o continente asiático era mais extenso no passado, alcançando o centro do oceano Pacífico. Assim, ilhas desse grande oceano seriam remanescentes da extensão continental que teria afundado. Em 1934, o antropólogo Alfred Métraux integrou um grupo de cientistas que estudaram a ilha de Rapa-Nui em detalhes.
O presumível continente não existiu. Não foram encontradas evidências de seu afundamento no oceano Pacífico. Se tivesse existido, esse supercontinente seria anterior à existência do ser humano. A ilha é fruto de atividade vulcânica, como outras ilhas espalhadas no grande oceano. Na década de 1930, ainda prevalecia a concepção de que os ancestrais do povo que habitava a ilha antes dos europeus era muito atrasado para ter construído aquelas fabulosas esculturas. Insinuava-se uma espécie de super-difusionismo: ou a civilização nasceu no Egito, propagando-se pelo mundo todo, ou veio de outro planeta.
Métraux demonstrou que a civilização desenvolvida na ilha faz parte da cultura polinésica (“A ilha de Páscoa”. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1978). Nos segundo e terceiro volumes de “Study of history”, Arnold Toynbee classifica a cultura polinésia como uma civilização paralisada. Seguindo seu entendimento do desafio natural ou social para que uma civilização se origine, cresça, colapse e se extinga, o oceano Pacífico foi o grande elemento desafiador para os polinésios. Para viver num mundo de ilhas, foi necessário desenvolver uma tecnologia que permitisse explorá-lo. Ao mesmo tempo, o esforço exigido para dominar o grande oceano não permitia tempo livre para elevar a cultura a patamares mais sofisticados.
Mas, na ilha de Páscoa, um grupo de navegadores polinésios encontrou um lugar apropriado para sofisticar sua cultura. Os exploradores introduziram o coco, a fruta-pão, a batata doce, o inhame, a banana, a amora, a galinha, o porco e o cão. Sem nunca abandonar a navegação e a pesca, os pascoanos tornaram-se agricultores. De nômades ou seminômades, esse grupo polinésio transformou-se em sedentário. Os vulcões da ilha não estavam mais ativos. O solo era propício para a agricultura desde que devidamente cultivado. Havia escassez de água. A ilha não conta com rios. A chuva rapidamente se infiltra no solo. As águas emergentes são temporárias e correm para o mar em sulcos na superfície, como acontece na ilha da Madeira e no arquipélago dos Açores. As águas pluviais também se acumulam no fundo das crateras vulcânicas, formando lagos e reservas de água doce. Assim, foi possível desenvolver uma agricultura de subsistência.