Com quase 50 mil pessoas na fila, Setembro Verde destaca a importância da doação de órgãos
Júlia Alves - Atualizado em 23/09/2026 08:36
Captação de órgãos
Captação de órgãos / César Ferreira - Secom Campos
Quase 50 mil pessoas estão cadastradas na fila do transplante de órgãos no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, e, alinhado a isso, neste mês é realizada a campanha Setembro Verde, a fim de conscientizar a sociedade sobre a importância da doação e incentivar esse ato que pode salvar vidas. Em Campos, a Equipe Hospitalar de Doação de Órgãos para Transplantes (e-DOT), do Hospital Ferreira Machado (HFM), realizou 31 captações de órgãos, além de ossos e tendões, até o último dia 17.
Os dados do Ministério da Saúde são referentes a este ano, e da fila 58% das pessoas são do sexo masculino, enquanto os outros 42% representam as mulheres. Somente no Estado do Rio de Janeiro, há 2.702 pessoas aguardando na fila de espera por doações. Por modalidade, há 46.015 pessoas aguardando doação de rim; 2.380 de fígado e 512 de coração.
Já em relação aos dados de transplantes já realizados neste ano, o ministério aponta que foram 6.758 até essa quinta-feira. Por modalidade, foram realizados 4.459 transplantes de rim; 1.826 de fígado e 298 de coração. Enquanto no ano passado, foram realizadas 9.946 transplantes de órgãos, sendo 6.706 de rim, 2.573 de fígado e 428 de coração.
De acordo com a assessoria do HFM, até o dia 17 deste mês foram realizadas 17 abordagens à famílias sobre doação e, em oito casos, houve a autorização. Os órgãos mais captados foram rins, fígado e córneas, além de ossos e tendões. Já em todo o ano passado, das 33 abordagens feitas, 11 famílias autorizaram as doações. Os órgãos mais captados também foram rins, fígado e córneas.
Em relação aos transplantes de córneas, em todo o país neste ano já foram realizados 12.262, representando 54% em mulheres e 46% em homens. Enquanto em 2025, tiveram 17.806 transplantes de córneas. Já na fila de espera há 37.751 pessoas.
A médica e responsável pela e-DOT, Patrícia Rangel, destaca que esses números “comprovam que um único doador pode salvar várias vidas”. Ela esclarece ainda que o processo de doação é realizado em conjunto com as equipes assistenciais, atuando na identificação de possíveis doadores, no acolhimento das famílias e em todas as etapas que envolvem o processo de doação.
“Quando a família decide pela doação de órgãos, nós já estamos em contato com a Central Estadual de Transplante, que fica na cidade do Rio de Janeiro. Com todo o diagnóstico feito e a família autorizando a doação de órãos e tecidos para transplante, a equipe da Central Estadual acessa a lista nacional, que é uma lista única do SUS, para identificar qual receptor ou quais receptores têm os critérios técnicos compatíveis para receber aquele órgão. A captação é feita aqui no próprio Hospital Ferreira Machado por equipes da Central Estadual de Transplante”, explicou.
Médica Patrícia Rangel, responsável pela e-DOT
Médica Patrícia Rangel, responsável pela e-DOT / Rodrigo Silveira
Dra. Patrícia destaca ainda que a legislação brasileira permite e valida somente a autorização da doação através da família. Documentos de identificação que expressem o desejo de ser um doador de órgão não são válidos para que a doação ocorra no país. Diante disso, a médica orienta que as pessoas conversem com seus familiares e expressem em vida o desejo de ser um doador.
“Hoje a gente tem AEDO, que é a Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos, em que qualquer um de nós pode acessar eletronicamente e deixar o desejo expresso. Mas, além disso, e sobretudo, é conversar com a família. Os parentes próximos de primeiro e segundo grau têm o direito da autorização. Nenhum documento, mesmo que registrado em cartório, tem validação jurídica para autorização. Por isso que sempre incentivamos que as pessoas conversem com suas famílias para expressar o desejo de ser doador de órgãos”, esclarece.
O aposentado Vilmar Mota passou pelo transplante renal há cinco anos e contou como o foi o processo até ser contemplado.
Vilmar Mota passou pelo transplante renal em 2021
Vilmar Mota passou pelo transplante renal em 2021 / Rodrigo Silveira

"Essa vida nova minha veio a partir do dia 22 de maio de 2021. A médica do Rio ligou me informando que eu seria contemplado com a cirurgia renal. Eu fiquei aproximadamente dois anos fazendo hemodiálise e preprarando os exames também para ser transplantado. É um pouco complicado passar quatro horas em uma máquina, três vezes na semana e a gente quando recebe o órgão no transplante é outra vida. É muito melhor que você esteja transplantado para que possa viajar e curtir a vida um pouco lá fora. Se eu não tivesse feito o transplante, talvez eu nem estaria aqui", relatou.
Ele destaca ainda a importância da doação de órgãos para salvar vidas. "Deveria existir mais doadores para que mais colegas também possam ser contemplados. É triste ver as pessoas esperando assim (por transplante) e ver que os colegas que faziam a hemodiálise do nosso lado não foram contemplados, nem estão aqui mais para esperar uma vida nova", comentou Vilmar.
Já a mensagem que a médica Patrícia Rangel deixa é que em meio a dor do luto, o ato da doação pode ressignificar a perda e salvar vidas, possibilitando que outras histórias continuem através desse gesto.
“Qualquer um de nós pode precisar de doação, tanto nós quanto alguém da nossa família pode precisar de algum órgão, algum tecido em algum momento. Mas, independente disso, diante da morte e da perda de um familiar que a gente ama, você poder salvar outras vidas, além de ser um gesto sublime de amor ao próximo. Isso ameniza e conforta muito quando as famílias optam pela doação. Então, deixarmos esclarecido para os nossos parentes próximos, para as nossas famílias, que desejamos, mesmo numa situação de perda, de luto, de tristeza, salvar realmente a vida de outras pessoas ou melhorar a qualidade de vida delas. É algo que pode ressignificar a morte para aquela família naquele momento. Então, toda mensagem que nós da equipe de doação de órgãos e tecidos para a transformante aqui do Ferreira Machado deixamos é: seja você também um doador de órgãos e converse com a sua família”, reforça.

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