Folha Letras - Espelho, espelho meu…
- Atualizado em 23/09/2026 08:27
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Carlos Augusto Souto de Alencar*

Há muito, muito, muito tempo discussões políticas no Brasil não se baseiam mais em propostas para educação, saúde, segurança, meio ambiente, qualidade de vida e outros temas relevantes. E nem é por culpa da terrível e ainda mais danosa polarização política (há quem fale em cristalização política, que é uma maneira de tornar mais péssimo aquilo que já era péssimo, uma incrível habilidade que nós, brasileiros, temos na área da política). Esses “debates” que se baseiam só em troca de ofensas e acusações de parte a parte são antigos. Mas foram, gradativamente, baixando de nível. Já tivemos até cadeiradas em debates. Acho que a questão da representação política é algo de extrema gravidade no país. Qual pessoa que tem boas propostas, um bom projeto ou uma ação social importante está disposta a encarar um ambiente tão hostil, mal-educado e violento quanto uma campanha eleitoral brasileira? E, ao mesmo tempo, se essas pessoas não participam, como mudaremos esse panorama sombrio que parece tender a piorar a cada eleição?

É muito claro para mim, entre tantas coisas que poderiam ser ditas, que esse ambiente primitivo é renovador de si mesmo. Ou seja, mais agressividade tende a atrair mais gente agressiva. O problema é que propostas políticas devem ser frutos de conversas sérias e análises de causas e consequências. Um debate não pode ser um reality show com pontuação por grosseria. Um debate é uma troca de ideias, uma avaliação séria dos temas, mostrando a complexidade dos assuntos. Digitar isso aqui faz com que eu me sinta um professor de educação básica. É tão óbvio o que exponho que parece que estou falando com crianças. Mas nos afastamos desse bom senso há tanto tempo que parece que estou falando uma novidade. “Então candidatos a cargos públicos, que serão pagos regiamente com nosso dinheiro, deveriam debater os problemas que afligem a todos nós de maneira civilizada e objetiva como forma de encontrarmos maneiras para solucioná-los de maneira conjunta”?! A resposta é sim, por incrível que pareça! “Então deveríamos votar em quem tem uma proposta consistente e crível, que seja afinada com minhas convicções, mas que não se mostre como uma imposição cruel, pois as pessoas serão atingidas de formas diferentes conforme as medidas que serão tomadas”?! Sim, será que é tão difícil entender?

Vem aí outra eleição. Faremos mais do mesmo, só que um pouco pior do que da última vez. Elegeremos candidatos caricatos, pessoas com discurso de ódio e sectários, influencers que querem mais curtidas em suas redes sociais, pois engajamento é dinheiro, nítidos aproveitadores que estão se candidatando basicamente para se livrarem de prisão e processos na justiça e pessoas que misturam o que jamais deveria ser misturado no debate público, como religião e comportamento das pessoas em suas vidas privadas. E aí fica impossível não olhar para nós mesmos como povo e como nação e ver que todo esse horror pode ser a imagem refletida em um espelho.

Sim, o Brasil tem manifestações culturais maravilhosas, diversas, artísticas e originais. Sim, temos brasileiros fazendo coisas lindas em vários cantos deste país e no mundo inteiro. Ganham prêmios artísticos, são cientistas influentes (deveríamos ter bem mais, porém nosso desleixo com educação é mais uma prova de tudo que digitei acima), enfim, temos vários motivos de orgulho. Mas por que não valorizamos isso como deveríamos? Por que tratamos nossas conquistas como questões colocadas no liquidificador da polarização ao ponto de termos quem as comemore com tom de provocação enquanto outros desfiam seu rosário de ressentimentos e pirraça infantil? Fica uma pergunta que sempre me fiz: somos mesmo um povo? Existe mesmo um povo brasileiro ou somos só um ajuntado de pessoas tão infinitamente egoístas que somos incapazes de ter um projeto coletivo, de pensar nosso país à frente, de cuidar de nossas crianças e de nossos idosos? Aliás, em um mundo com tantas mudanças, não debateremos qual o papel que o Brasil deve ter nele?

Enfim, mais uma eleição... Vamos tentar de novo. Ainda assim, por mais que insistamos em nossos erros, por mais que seja difícil, podemos escolher. Democracia é fundamental. Vamos escolher, escolher e escolher. Reclamar, reclamar e reclamar. Propor, propor e propor. Só podemos fazer isso numa democracia. Sem ela se impõem o arbítrio, a crueldade e a desumanidade. A culpa nunca foi da democracia. Nossos representantes são um reflexo de nós, como sociedade. Se você acha que está tudo errado, que algo precisa mudar, lembre-se: nós elegemos nossos representantes. Cabe uma olhada no espelho antes de ir para a seção eleitoral.

*Professor, presidente da Academia Pedralva Letras e Artes e Segundo Vice-presidente da ACL.

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