Júlia Alves
13/08/2026 09:23 - Atualizado em 13/08/2026 11:05
Luanda Bittencourt foi baleada dentro de um estacionamento em 2022 e morreu após 23 dias internada no HFM
O ex-policial civil José Ricardo Silva Ribeiro foi condenado a 28 anos de prisão, em regime fechado, após cerca de 12 horas de julgamento nessa quarta-feira (12), no Fórum Juíza Maria Teresa Gusmão Andrade, em Campos. Ele foi condenado por assassinar Luanda Bittencourt Mota Ribeiro, sua ex-esposa, a tiros dentro de um estacionamento no município em 2022. Além das testemunhas, José Ricardo também foi ouvido no julgamento e confessou o crime.
Durante o julgamento, foram ouvidas mais de dez testemunhas, entre elas, os filhos do casal, Alícia e Davi; duas testemunhas do crime; uma colega de trabalho e uma amiga da vítima; o irmão de criação do acusado; um policial aposentado que trabalhou com o acusado; o policial responsável pela prisão do réu; e um criminalista.
Em interrogatório realizado nessa quarta, José Ricardo reforçou a versão de que não havia ido ao encontro com a intenção de matar a vítima e que os disparos ocorreram durante a situação de conflito. Sobre os disparos, afirmou que foram três, realizados rapidamente e em sequência. Segundo ele, no primeiro tiro não percebeu reação da vítima e, somente após os disparos seguintes, percebeu que ela havia sido atingida.
O assistente de acusação, Roberto Corrêa, falou sobre a decisão: "Atuando ao lado da família, a gente acaba absorvendo um pouco dessa dor. Sabemos que essa vida não pode ser devolvida, que nenhuma decisão vai reparar essa perda, mas fica a sensação de dever cumprido e, sobretudo, de que a Justiça foi feita", comentou.
Depoimento das testemunhas do crime
Uma das testemunhas do crime também deu seu depoimento no julgamento. Ela, que não conhecia a Luanda, estava no local antes do feminicídio acontecer. Segundo o depoimento, ela chegou no estacionamento e percebeu que o carro, que seria da Luanda, tinha batido. Nesse momento, a mulher observou que tinha duas pessoas no carro discutindo e que o homem começou a agredir a mulher.
A testemunha chamou o responsável pelo estacionamento no momento em que viu a agressão, que tentou intervir na situação, mas se afastou em outro momento. Quando a testemunha percebeu, o acusado já tinha descido do banco do carona e dado a volta no carro, apontando a arma para Luanda. A testemunha desceu do carro, andando rápido e saiu do estacionamento, momento em que ouviu os disparos, que afirmou ter sido mais de um.
O responsável pelo estacionamento também prestou depoimento sobre o crime em juízo. Ele disse que conhecia Luanda há algum tempo por que ela era mensalista do estacionamento. Ele contou que Luanda havia comentado ao retornar de férias que havia se separado e teria dito ao homem que se caso o ex-marido aparecesse no local atrás dela era para chamar a polícia.
No dia do crime, ele também presenciou as agressões à Luanda dentro do carro e tentou intervir o que fez com que as agressões cessassem por um tempo. No entanto, ao ver José Ricardo com uma arma se afastou do local junto com a outra testemunha. Ao chegarem em frente à igreja, localizada em frente ao estacionamento, eles ouviram os disparos.
Depoimento dos filhos do casal
Alícia contou que a relação dos pais era conturbada durante a infância dela e a adolescência, definindo como "uma relação de altos e baixos". Ela disse que sabia que o pai era uma pessoa agressiva com todos até mesmo antes deles nascerem.
Segundo Alícia, ela sempre presenciou agressões verbais do pai com a mãe e disse que ele também fazia o mesmo com ela e com o irmão. Sobre agressão física, ela comentou que só presenciou ele segurando ela pelo braço e disse que o pai batia neles quando criança.
Ainda de acordo com o depoimento dela, o pai ameaçou a mãe financeiramente algumas vezes, dizendo que pararia de ajudar com as despesas dos filhos e da casa. Já em 2020, o casal passou a ter brigas piores e a mãe dizia que queria a separação. Em relato, os filhos contaram que José Ricardo ameaçou colocar fogo no apartamento em que eles moravam.
Os irmãos teriam se mudado da casa própria que possuem devido ao medo do acusado. Em juízo, Davi confirmou as agressões contra ele e a irmã, relatando uma em específico em que ele teve o dedo deslocado pelo pai aos 8 anos de idade.
O crime
Luanda tinha 46 anos quando foi assassinada a tiros dentro de um estacionamento na Rua Treze de Maio, no Centro de Campos. O crime foi registrado no dia 3 de fevereiro de 2022. Ela foi baleada três vezes e chegou a ser encaminhada para o Hospital Ferreira Machado (HFM), onde ficou internada por mais de dez dias em estado gravíssimo. No dia 26 do mesmo mês, Luanda não resistiu aos ferimentos e foi a óbito.
Já José Ricardo foi preso dois dias após o crime em Casimiro de Abreu. Ele foi capturado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Luanda era assessora de gabinete administrativo da Regional Norte Fluminense da Secretaria de Estado de Educação e também era professora no Ciep Clóvis Tavares.